Sunday, December 30, 2012

A ECONOMIA DA SERVIDÃO

DAS ORIGENS DA ECONOMIA DA SERVIDÃO

A economia da exploração do homem pelo homem, do animal pelo homem e da natureza pelo homem, começou no dia em que uma criança de três anos disse "isto é meu", e as outras crianças a levaram a sério!



A partir daí criaram-se as condições para o mundo se transformar numa autêntica "criancice", e surgiram condições para aparecimento da escravatura do homem (sob as mais diversas formas: esclavagismo, servos da gleba, proletariado industrial), forjou-se a crueldade contra os animais pela mira do aumento e da concentração da propriedade privada (e claro pela mera diversão) , e forjou-se o desrespeito pelo ecossistema natural.



Numa palavra, a partir dessa "criancice" as sociedades humanas cairam na "canalhice"! Passou a predominar a adoração á concentração da propriedade privada , através da adoração do lucro sobre todas as coisas!



Por isso podemos concluir que o actual sistema de economia de mercado capitalista (pelo qual meia dúzia de accionistas exploram até ao tutano humanos, não humanos e natureza) é o expoente máximo de uma "criancice" (que inspirou o ensaio sobre a cegueira de Saramago) a qual nunca deveria ser toma da a sério. Mas foi, e essa criancice, plasmada no "isto é meu", gerou o maior boom do crescimento económico das sociedades humanas, mas um crescimento pelo crescimento, subordinado ao máximo lucro, à sua acumulação e concentração em cada vez menos mãos!



De facto, e olhando para o desrespeito com que alguns seres humanos, detentores da "propriedade privada", ou seja detentora da propriedade dos meios de produção tecnológicos e financeiros, tratam os outros seres humanos (considerados como meros factores de produção submetidos á lógica do máximo lucro que alimenta a riqueza dos proprietários), ao desrespeito e mesmo crueldade a que são submetidos os animais, igualmente submetidos a essa cadeia do lucro (apelidada de cadeia de criação de valor!), e o próprio desrespeito para com o equilíbrio do ecossistema natural pondo em perigo a viabilidade do próprio planeta terra, podemos então concluir que o nascimento da propriedade privada, e o seu correlativo endeusamento, ou seja o fortalecimento do"isto é meu" , começou a marcar o desaire fundamental que está na origem de todos os males de que padece o ser humano, o animal e a natureza na história marcada pela sociedade humana!







A CONSTRUÇÃO DE UMA ECONOMIA DA COOPERAÇÃO



Saramago explicou isso tudo no seu "ensaio sobre a cegueira"! Trata-se de desfazer a criancice do "isto é meu", ou seja de essa criancice não ser levada a sério, de as outras crianças não permitirem que essa criancice seja consolidada.



No estádio actual do desenvolvimento económico, social, cultural e histórico, a única via aceitável e operante só pode ser mesmo a da democracia directa e participada de todos os cidadãos, a qual terá o trabalho imenso de desconstruir as fundamentações jurídicas favorecedoras da propriedade privada, invertendo o seu favorecimento, e promovendo a cooperação económica e social, a equidade e a justiça social.



É um caminho que exigirá muito esforço e muita luta por parte de todos os cidadãos, mas que é necessário perseguir e persistir, para acabar com a economia da servidão e para implantar em seu lugar, de forma democrática e massivamente participada, uma economia da cooperação, solidária e integrada numa estratégia de desenvolvimento sustentável, ancorada na vertente humana, animal e ambiental.



Só dessa forma será possível dar andamento a uma práxis política baseada na SHAA proclamada por Gandhi, e traduzida concretamente na solidariedade humanística, animal e ambiental!



Mãos á obra! Para começar saibamos exigir e impôr uma democracia directa e participada que abula de vez com a Cleptocracia e com a corrupção do poder político!

  MANUEL SALGADO ALVES

Wednesday, December 26, 2012

O POEMA DO INFERNO





Menino,

Escuta,

Nós somos os teus fantasmas

Viemos infernizar-te a mente

Não fujas

Tudo o que realmente fizeste aqui

Está a ser julgado

Todos os teus passinhos de medo

Todas as tuas fraquezas

Quando não foste capaz de levantar a voz

Para defender a dama

Quando te acobardaste

Ou te refugiaste no racional

Sim, porque tu és racional, menino,

És mesmo o mais frio e racional de todos

Poderias ser um líder, um ditador

Ainda podes sê-lo, menino

De qualquer forma,

Agora nada tens a perder

És menino para isso

Quando o álcool se mistura

Com os medicamentos

É um cocktail molotov

Tens uma história, menino,

És um profissional da desordem

Como diz o ministro

És isso mesmo

Basta acender o rastilho

És um mau menino

Onde está o teu bom coração?

Onde estão as falinhas mansas?

Vá, menino, impõe-te

Toma conta disto

Chegou a hora do juízo final

Desta vez não te fiques

Por umas cervejas

Parte mesmo

Incendeia

Faz o teu número

O teatro

Que sabes fazer

Faz lá o risinho sarcástico

Enganaste-os a todos

Mesmo à dama

Chegou a hora de incendiar



Traz a tua rainha

Celebra-a

Deixa-te de escritos menores

Esta é a poesia

Que vem do inferno

Incendeia, menino,

Tu sabes fazê-lo

Agora são eles

Que começam a ter medo de ti

Também, coitados, só têm o futebol

E o dinheirinho na cabeça

Enquanto que tu és

Um revolucionário alucinado

Agora reinas

Rei da armadura dourada

Vens, de facto, dos séculos

Para travar a batalha

Não cedas mais

Não distraias a atenção

Com coisas menores

É a hora

É Natal

Ah! Ah! Ah! Ah!

O outro nasceu

Depois foi crucificado

Não estavas a brincar

Quando partiste os vidros dos carros

Não estavas a brincar

Quando derrubaste a estátua

Tens seguidores, menino

Com eles podes tomar o mundo



Eis o poema que vem do inferno

Directamente dos teus fantasmas

Estamos a dar-te forças, menino,

Agora já podes rir

Agora já podes dançar

És o super-homem de Nietzsche

Orgulhoso, cabotino, terrível

Deixa de parte a bondade

Não dês sinal de fraco

Há quem te esteja sempre

A pôr à prova

Brilha como um deus

Impõe-te nas tuas quintas

E fora delas

Aproveita a energia que te damos

A energia que estava adormecida

E que agora arde

E que agora queima

Que já esteve a espaços

Em alguns poemas

Mas que agora é total

Não tenhas medo, menino

Nós damos-te forças

És o anti-cristo

És Jesus

Como tu houve poucos na História

Não vieste para desempenhar

Tarefas menores

Rotineiras

Vieste para reinar

Reclama o trono

Não queriam o fim do mundo?

Aqui o tem,

Profeta do apocalipse

Poeta sem limites

Senhor das quintas e dos quintais

Vieste mesmo

Infernizar-lhes a vida

Julgavam-te um amigo do povo

Um esquerdista inofensivo

Mas tu odeias a gentalha

Odeias realmente a gentalha

E as suas conversas primárias e imbecis

No fundo, és um aristocrata

Um menino que teve necessidade

De criar mundos

Para combater o tédio

Serás sempre o menino

E por isso acreditam em ti

Mesmo quando fazes asneiras

Começas a assustá-los, sabes?

És mesmo um fora da lei

Não suportas os controleiros

E os polícias

Mesmo que aparentemente os respeites

És perigoso

Consegues ser fascista

Mostras o teu lado bom

Mas, no fundo, és terrível

Usas as pessoas

Encanta-las

Quando vens choramingar

Ouve, menino,

São os teus demónios que te falam

A tua escrita obedece-nos

És o grande maldito

Se quiseres

Aqui te juramos o nosso amor

Vitória ou loucura

Escolhe

Vê bem o que vieste fazer

Prepara-te

Vem aí a grande revolução.



Vilar do Pinheiro, 24.12.12

Wednesday, December 19, 2012

A LIBERTAÇÃO

Ouço as conversas. Tão pobres. Só falam de dinheiro e de posses. Definitivamente fogem ao essencial. À nossa libertação. À nossa libertação do jugo do grande mercado, da máquina, da castração. Eles- governos, poder financeiro, grandes media- querem impedir-nos de viver, querem castrar a nossa liberdade, a nossa individualidade. Esta é a verdade. Desde a infância que eles nos tentam fazer a cabeça. Querem reduzir-nos ao pensamento único, à felicidade da maioria, à ignorância. Querem que nos deixemos levar, que não os questionemos, que não os punhamos em causa. E se realmente não nos revoltarmos, não apenas uma mas várias vezes, as vezes que for necessário, seremos sempre enganados, seremos sempre escravos, por muito dinheiro e posses que tenhamos.

Friday, December 14, 2012

A MORTE EM VIDA


Às vezes questiono-me sobre o que é que determinadas pessoas vêm fazer à vida. Na infância ainda brincam mas depois começam a ser encaminhadas para o mercado. Na escola, de uma maneira geral, salvo umas asneiras, acabam por ser alinhadas com o sistema. Refugiam-se nos grupos, na moda, fazem parte da manada. E ainda que questionem tudo isso, esse questionamento é passageiro. Depois começam a entrar no mercado de trabalho, a integrar-se na máquina, hoje cada vez mais castradora, mais privadora de liberdades. A cabeça é feita pelos media, por aparelhos simplificadores, por programas e canções imbecis. O espírito crítico vai sendo destruído. A rebeldia ficou para trás, completamente minada. Casam-se ou não. Têm filhos. Transmitem aos filhos a sua ignorância ou até o desamor. Trabalham, produzem, consomem. Correm para casa para ligar o ecrã. Raramente são autênticos, raramente são vivos, raramente têm um gesto de grandeza, celebram apenas nas datas marcadas. Normalmente são mesquinhos, invejosos, intriguistas, merceeiros. Querem "subir na vida" e acumular dinheiro, passar por cima do parceiro se preciso for. Perdem o espírito crítico, nunca colocam as grandes questões. Estão sempre às ordens do chefe, do governo, do especulador. Fazem do futebol a religião. Coscuvilham sobre a vida alheia. Serão sempre homens e mulheres pequenos, como dizia Nietzsche, sem luz, sem nobreza, sem grandeza, sem liberdade, sem poesia, quase sem amor. Chegam a velhos e o que fizeram? Alguma vez celebraram verdadeiramente a vida? Alguma vez questionaram o sentido da vida? Alguma vez puseram a máquina em causa? O que fazem aqui? Porque vieram? Serão realmente humanos?

Friday, December 07, 2012

HOMEM LIVRE

Penso que hoje poderia passar dia e noite a escrever. Posso até gerar estrelas de tal forma me sinto grávido. Posso também ouvir os meus semelhantes que se queixam e estão mortos por chegar a casa. Chegar a casa. Chegar a casa, ligar a TV e olhar para as imagens, as imagens que vivem por nós em vez das imagens que podemos gerar, de tudo o que podemos gerar. Ó senhores, que “vida” levais? Sois escravos, todos vós. Ainda não percebestes que nada está acima da vida, da vida autêntica. Seres de luz vêm ter comigo e dizem-mo. Para alcançar a glória basto-me a mim mesmo. Para alcançar a glória basta-me estar aqui nesta confeitaria de Vilar do Pinheiro. Peregrinações virão a Vilar do Pinheiro. Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Estou louco. Não vedes? Absolutamente louco, absolutamente criança, absolutamente sem limites. O que fazer mais hoje? O que fazer mais aqui? Danço com o super-homem. Brindo, celebro. Estou louco, mãe. Porque me trouxeste para aqui? Parecia que vinha para a vida regrada mas não vim. Aos 17/18, aos 19, aos 20, tornei-me outro. Em Braga, nos bares, na Rádio Clube do Minho. Os Doors, os Joy Division, os UHF. A TV sempre a martelar. Mas eu era diferente, tornei-me diferente. Ah! Não me atirem dívidas, contas, economistas! Eu estou para lá. Eu nasci para lá. Reinos esplendorosos, reinos de luz. Sou tão louco, mãe. Eu inventava jogos, personagens. Eu criei mundos. Eu naveguei por mares jamais navegados. Eu brincava com as meninas. Tinha uma namorada, a Gina. Dava-lhe a mão, dava-lhe beijos. Já nem sei quem sou, mãe. Sei que não pertenço a este mundo. Poucos e poucas realmente me compreenderam. Velhos amigos, à noite, no bar. Onde irei dar? Estou realmente próximo de atingir o que quero. Mas que quero eu senão o mundo? O mundo de aquém e o de além.
Homem livre, és verdadeiramente tu. Homem livre, porque adormeces e agora regressas à vida? Homem livre, eles realmente acham-te estranho, diferente deles. Não és da mesma tribo, talvez até nem sejas da mesma espécie. Não lutas na mesma guerra. Não são teus os tambores que ouves. Homem livre, és daqui e não és. Tanto podes ser rei como podes acabar nas ruas. Continuarás o teu percurso pelos bares e pelas tascas. Este é o teu tempo. Olha, a mulher da confeitaria olhou para o “Socialismo Científico” de Marx, Engels e Lenine que acabaste de ler hoje. Há livros que ainda podem ser explosivos. Tu és explosivo, homem livre. Com ou sem óculos. Poderias realmente passar o dia e a noite a escrever. Voltaste a ser o único cliente da confeitaria. A mulher não pára de trabalhar. Tens publicado textos falhados ou semi-falhados. Este não é um deles.

Thursday, November 22, 2012

SEGUE A TUA ESTRELA

Os debates dos políticos e dos economistas incomodam-me. Só se fala de economia, não se discute o homem integral. O homem que quer crescer, que quer o paraíso na terra. O mundo está cheio de castradores, de forças que querem destruir a nossa individualidade, a nossa alma. Governos, especuladores, máquinas de propaganda. Todos eles nos querem roubar o amor, todos eles nos querem separar, isolar, impedir que dêmos as mãos. Entram nas mentes, nos corações das pessoas, tornam-nas falsas, dissimuladas, frias. E depois elas tratam-nos mal, enganam-nos, querem mandar em nós. O capitalismo e a sua máquina destroem as pessoas, tornam-nas competitivas, negociantes, merceeiras, manipuladoras. Convencem-nos também de que não há alternativa possível, que até é possível ser feliz debaixo das suas condições. Mas nós queremos realmente crescer no amor, na liberdade, na poesia. Queremos voltar ao xamã, ao grande espírito. Sabemos que é uma luta constante. Eles vêem-nos sós, deprimidos, desanimados e tentam apoderar-se de nós, mandar em nós. De forma a que aceitemos ser governados, submetidos, manipulados. Mas depois há uma estrela em nós, dentro de nós, uma estrela que nos diz que nós não somos como eles, que nós não viemos para servir nem para andarmos cabisbaixos. Não temos de andar atrás da selecção nacional, não temos de andar atrás da publicidade, não temos de seguir governo nenhum, não temos de andar atrás do grupo, nem da massa, nem da maioria. Não temos de ser direitinhos, alinhadinhos. Somos pensamento, somos vida. No papel expressamos o que somos. Somos também a música que nos eleva. "The End" dos Doors ou "Love Will Tear Us Apart" dos Joy Division. Estamos aqui para nos questionarmos. Estamos aqui para dizer que não aceitamos a vossa "felicidade", essa que nos vendeis todos os dias, mesmo que venha acompanhada das imagens das mulheres mais belas, mesmo que, por vezes, quase nos deixemos levar por ela. Não, a felicidade não é isso. A felicidade é poder dialogar com Jesus, Sócrates e Nietzsche, a felicidade é conversar, discutir com os amigos e as amigas, a felicidade é celebrar a noite e o dia, subir ao palco, dizer a palavra, a felicidade é amar livremente, sem castrações nem máquinas de propaganda, a felicidade é aumentar a alma e a vida, é tomar parte do banquete permanente. Vivamos o banquete, derrubemos a máquina. Aí seremos plenos, criadores, super-homens. As nossas potencialidades serão infinitas. Vive o homem livre, o homem nobre, companheiro, companheira. Apaga a televisão. Não te deixes mais levar pela conversa. Não te deixes tornar naquele que eles querem que sejas. Torna-te naquele que és. Naquele que se descobre, naquele que se encontra. Sê verdadeiramente revolucionário. Segue a tua estrela.

Friday, November 09, 2012

DA VIDA

Edição 82, 9 Novembro 2012 DA VIDA Não se tem de andar constantemente de pistola na mão a apelar à revolta e à revolução. Contudo, penso que, nos tempos que correm (e em todos os tempos...), não faz sentido que o poeta, o escritor e o intelectual não se pronunciem de forma crítica sobre a sociedade em que vivem. Temos de denunciar que a vida assim não é vida. Que há forças que se escondem por detrás das medidas fascizantes dos governantes. Que há essa entidade a que chamam os mercados, a quem todos obedecem. Que há os "credores", os especuladores, a bolsa, os banqueiros, os economistas, os grandes empresários, essa gente altamente recomendável. É preciso dizer que todos eles nos chulam, nos roubam, nos vão dando cabo da vida. E a vida é o que realmente interessa, como dizia Henry Miller. A vida é respirar, é estar vivo, é estar aqui mas é também gozar o instante, construir o presente, amar o próximo e o longínquo, mexer os dedos e a caneta, andar à solta sem imposições, sem castrações, sem culpas. A vida é certamente a liberdade livre de Sade e dos surrealistas, não o trabalho, não o sacrifício, não o que nos obrigam a fazer. A vida é certamente acordar contigo, ouvir as fontes e os pássaros, dançar em redor da fogueira, como cantava Morrison. A vida é certamente tirar todos esses imbecis do poder, caciques locais de Câmara e de Junta incluídos. A vida é ajudar esta gente a sair da cegueira, como fazia Sócrates, como fazia Shakespeare. Café São Cristóvão, Braga, 2.11.2012 --- EU ACUSO! Todo o percurso que fiz até aqui. O rapaz que era. A timidez. A dificuldade de me relaciionar com as raparigas. Os versos que então escrevia. Já então pensava muito. Depois veio a noite, os copos, os concertos. Descobria a liberdade no Tuaregue, no Deslize, em Braga, na Rua Nova de Santa Cruz. Tornei-me então outro, aquele que sobressaía, que provocava, que dançava. Mas as grandes depressões travaram a minha caminhada. Fiquei inerte, insoluvelmente melancólico, incomunicável. Passavam-se os meses dolorosamente e, aos poucos, readquiria a vida. Fui para o palco, cantei, recitei, fiz a festa. Agora estou aqui, aos 44 anos, mais sábio, mais virtuoso, mas ainda desejoso de passar para o outro lado. Ainda morrisoniano, nietzscheano, consciente de que a vida não se resume a uma fórmula única e irreversível. Consciente de que os medíocres que nos governam e querem controlar não passam de uns imbecis sem alma nem coração, sem inteligência. Consciente de que posso chegar ao palco e dizê-lo. Consciente de que nada há a perder, de que fiz o meu percurso e de que não devo nada a ninguém. Posso estar aqui sozinho na confeitaria com os meus livros mas acuso esses medíocres do poder de destruírem a vida, de matarem de fome, tédio e depressão, de darem cabo de tudo quanto é arte, belo, exuberância, de assassinarem a juventude e a infância, de amputarem a liberdade e o amor. Acuso-os de não fazerem parte da humanidade, nem da vida. --- A NOVA ERA A verdadeira vida é poética. Rimbaud disse que no mundo da prosa, "a verdadeira vida está ausente". O estado prosaico é utilitário e funcional e inclui, nas palavras de Edgar Morin, o sobreviver, o ganhar a vida, "o trabalho opressor, monótono, parcela, na ausência ou no recalcamento da afectividade". É o mundo da economia, do acumular dinheiro, da exploração, dos mercados, do tédio. Em contrapartida, a poesia é celebração, comunhão, embriaguez, dança, canto, música, transe, êxtase, maravilhamento com o belo e, claro, amor. A revolução só pode estar do lado da poesia, do amor, da liberdade, como diziam os surrealistas. É aí que o homem renascido se realiza. Não no sacrifício, não na culpa, não no pecado. Não numa "vida" sem novidade, sem curiosidade, sem descoberta. Não faz sentido vir ao mundo para sofrer, para ser humilhado, para andar deprimido, para pensar constantemente no suicídio. Abracemos a dádiva da vida, construamos um mundo de amor e poesia. Não nos deixemos derrotar pelos cinzentos, pelos pregadores da morte, pelos destruidores da vida. Não trabalhemos mais para eles. Celebremos Dionisos e o homem livre. Quem disse que era impossível? Unamo-nos. Ocupemos as praças. Nós não somos como eles. Nós não viemos explorar ninguém. Não viemos enganar ninguém. O mundo é nosso. Eles não podem roubá-lo mais. Eles não podem destrui-lo mais. Este é o início de uma nova era. Este é o renascimento do homem. Este é o banquete permanente. O homem veio para se ultrapassar, não para andar atrás de migalhas, não para ser escravo de outros homens ou da máquina. O homem veio para se transcender, para abrir novas vias, novos reinos. Todos nós podemos ser deuses. Amamos profundamente a vida. Queremos gozá-la sem entraves. Eles não podem impedir-nos. Eles não podem roubar-nos a poesia. Eles não podem roubar-nos a infância. www.jornalfraternizar.pt.vu

A VERDADEIRA VIDA

Não me convence o Lobo Antunes. Demasiado descritivo. Entretanto, prossigo os meus dias em Braga entre a Sandra e a Goreti. Não consigo dormir. As ideias vêm-me, vêm-se. Volto a ter excelentes motivos para me levantar da cama. O amor acena. O "Um Poeta a Mijar" seria um excelente livro não fossem três ou quatro poemas que precisavam de ser revistos. Talvez o "Queimai o Dinheiro" seja o mais autênt...ico, à semelhança do "Café Paraíso". Enfim, não sei, já vou para o 11º livro. Ainda não criei "a obra" mas hei-de lá chegar. Sinto-me um filósofo ou, pelo menos, um aprendiz. Não acho estupidez nenhuma recorrer ao àlcool ou às drogas. Sobretudo se eles nos ajudam a alcançar um certo paraíso num mundo que os mercadores e os merceeiros têm destruído. Sou, portanto, a favor da legalização das drogas. Já o sou desde os tempos do PSR. Tenho um percurso político de mais de 20 anos. Já poderia ter sido eleito deputado. Mas, enfim, há-de chegar a hora. Ao menos eu vivo aquilo que escrevo. Não estou com grandes floreados. É a minha vida que está nas prosas, nos poemas. Aos quatro anos deixei a infantil ou a pré-primária porque pensava que sabia tudo o que lá se dava. Agora não sei tudo. Desconheço muitos pensadores e artistas. Contudo, cheguei a um ponto em que sou capaz de fazer uma síntese. Cheguei a um ponto em que estou convicto de que a vida não vale a pena se não for vivida, se não for gozada, se não for celebrada. Um homem que passe a vida a fazer contas ou cheio de medo ou cheio de tédio não vive, sobrevive. E muita gente, a maioria clara da população portuguesa limita-se a sobreviver, a tratar da vidinha ou nem isso. Portanto, é claro para mim que o culto da economia e do safanço, aliados à austeridade e aos cortes na saúde, na educação e na segurança social traduzem a não-vida que reina na mente dos imbecis que nos governam e nos querem controlar. Tudo isto acrescido da "overdose" de telenovelas e de futebóis, de imbecilidades como a "Casa dos Segredos" contribui para que sejamos cada vez mais espectadores passivos de um espectáculo que não controlamos. Felizmente, nos últimos tempos, sobretudo no 15 de Setembro, tem subido o número daqueles que protestam contra o governo mas também contra o roubo da verdadeira vida. Isso pode ainda não estar totalmente claro mas há sinais visíveis nos cartazes, nos confrontos com a polícia, nas palavras de ordem, de uma reivindicação não apenas económica mas também vital. "Queremos o mundo e exigimo-lo agora!", volto a Jim Morrison. Queremos de volta a vida que nos tiraram ou nos estão a tirar, queremos aquilo por que viemos à terra, queremos a idade do ouro, o paraíso perdido. Queremos dançar e celebrar sem estar a fazer contas, sem contabilistas.

Thursday, November 08, 2012

VELHOS AMIGOS, ONDE ESTAIS?

"Velhos amigos, onde estais?", canta António Manuel Ribeiro dos UHF. A vida separa-nos. Seguimos um percurso comum. Celebrámos junto a existência com vinho, amizade, cumplicidade. E depois, sem saber porquê, pelas razões mais diversas, desencontramo-nos. Às vezes estupidamente. Às vezes reencontramo-nos passado 10, 20 anos e é a festa. Prometemos novos encontros, telefonemas, mas eles não vêm, não vêm mais. Alexandre, Paula, Zé Né. Onde estais? Esta vida dura, apressada separa-nos.

Thursday, October 25, 2012

A VIA DA ILUMINAÇÃO

O levantar-me, o sair da cama, o enfrentar o dia. A angústia da existência, a máquina que nos sufoca mas também o prazer da leitura, de adquirir conhecimento, de me enriquecer. Estou só na confeitaria e escrevo. Estou a criar. Há muito que não tenho outro trabalho para além deste de escrever. A remuneração pode ser escassa mas eu continuo. Isto, o amor e a liberdade dão senti...do à minha existência. Não o trabalho imposto, não o capitalismo, não o dinheiro. Mas o ir-me transformando noutro, mais sábio, mais virtuoso, mais bom. Bebo dos mestres, não me contento com futebóis. E mesmo que permaneça aqui sozinho sei que estou a seguir o caminho certo. Posso não ganhar prémios mas sigo o caminho certo, a via da iluminação e do conhecimento.

Sunday, October 21, 2012

A NOVA ERA

A verdadeira vida é poética. Rimbaud disse que no mundo da prosa, "a verdadeira vida está ausente". O estado prosaico é utilitário e funcional e inclui, nas palavras de Edgar Morin, o sobreviver, o ganhar a vida, "o trabalho opressor, monótono, parcela, na ausência ou no recalcamento da afectividade". É o mundo da economia, do acumular dinheiro, da exploração, dos mercados, do tédio. Em contrapart... ida, a poesia é celebração, comunhão, embriaguez, dança, canto, música, transe, êxtase, maravilhamento com o belo e, claro, amor. A revolução só pode estar do lado da poesia, do amor, da liberdade, como diziam os surrealistas. É aí que o homem renascido se realiza. Não no sacrifício, não na culpa, não no pecado. Não numa "vida" sem novidade, sem curiosidade, sem descoberta. Não faz sentido vir ao mundo para sofrer, para ser humilhado, para andar deprimido, para pensar constantemente no suicídio. Abracemos a dádiva da vida, construamos um mundo de amor e poesia. Não nos deixemos derrotar pelos cinzentos, pelos pregadores da morte, pelos destruidores da vida. Não trabalhemos mais para eles. Celebremos Dionisos e o homem livre. Quem disse que era impossível? Unamo-nos. Ocupemos as praças. Nós não somos como eles. Nós não viemos explorar ninguém. Não viemos enganar ninguém. O mundo é nosso. Eles não podem roubá-lo mais. Eles não podem destrui-lo mais. Este é o início de uma nova era. Este é o renascimento do homem. Este é o banquete permanente. O homem veio para se ultrapassar, não para andar atrás de migalhas, não para ser escravo de outros homens ou da máquina. O homem veio para se transcender, para abrir novas vias, novos reinos. Todos nós podemos ser deuses. Amamos profundamente a vida. Queremos gozá-la sem entraves. Eles não podem impedir-nos. Eles não podem roubar-nos a poesia. Eles não podem roubar-nos a infância.

Friday, October 12, 2012

ESTADO DE GRAÇA

Há três dias consecutivos que estou em estado de farra e rock n' roll. Foi o cacau que veio do jornal, foi a festa do Manuel do "Guarda-Sol", foi o "meddley" a matar no "púcaros" com o "Poema de Amor Inocente Em Jeito de Manifesto Autárquico para a Cidade do Porto" e a "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro", foram também as palavras provocatórias introdutórias no "Art 7" de São João da Madeira do Angel e do Vitó. Depois houve aquela cena absolutamente "non-sense" nos Aliados, o gajo da câmara de filmar, o gajo do microfone a perguntar se eu era um homem que acreditava na sinceridade e depois a ficar 10 minutos calado e eu sem saber o que dizer. Uma cena absolutamente surrealista. Depois pediu-me para encostar o ouvido dele à minha barriga de cerveja. Eu deixei. As perguntas provocatórias sobre a homossexualidade, o abraço. Enfim, o gajo disse que o trabalho era só para ele. Vamos ver. Regressamos ao ecrã. A verdade é que me sinto novamente em estado de graça, próximo dos deuses e do espíritos. Capaz de teorizar sobre a situação de palco. As bocas que tu mandas, as provocações, o gozo com a campanha política permanente têm resultado. Não é chegar ali e "vomitar" os poemas. Há que fazer um enquadramento quando nos sentimos à vontade para isso. É esta a nossa profissão, o nosso trabalhinho.

A BARBÁRIE

Edição 81, 12 Outubro 2012 A BARBÁRIE Em 1845, em “A Essência do Dinheiro”, Moses Hess afirma que o capitalismo traduz a dominação exercida pelo deus-dinheiro sobre os homens, constituindo um sistema que coloca à venda a liberdade humana. O dinheiro é a essência e traz um mundo pior do que o da escravatura antiga porque “não é natural nem humano que alguém se venda a si próprio voluntariamente”. A tarefa do comunismo é, assim, abolir o dinheiro. Para Gustav Landauer essa tarefa não é aperfeiçoar o sistema industrial-capitalista mas ajudar os homens a redescobrirem a cultura, o espírito, a liberdade, a comunidade. Para outros, o capitalismo é traficar a alma, o espírito, o pensamento. Para Marx, exige-se “a revolta contra um mundo que transformou cada coisa numa mercadoria e degradou o homem, reduzindo-o ao estatuto de objecto”. Sim, temos o direito de exigir o homem integral. O poder do dinheiro pode destruir todas as qualidades humanas e naturais, reduzindo-as ao quantitativo. A troca de afectos é substituída pela troca do dinheiro por uma mercadoria. Não existe nada de mais abjecto do que o capitalismo e os seus mercadores e economistas. Reduzem tudo ao cálculo, ao deve e haver, ao orçamento. Cortam na vida das pessoas como se tratassem com objectos. A sensibilidade é substituída pela posse. Como dizem Michael Lowy e Robert Sayre em “Revolta e Melancolia”, “o ser, a livre expressão da riqueza da vida por actividades sociais e culturais, é cada vez mais sacrificado ao ter, à acumulação do dinheiro, das mercadorias e do capital”. O homem está fortemente condicionado na sua capacidade criativa pelas drogas que nos atiram todos os dias via media e por um mercado implacável. Segundo Lukács, “tudo deixou de ser avaliado por si próprio, pelo seu valor intrínseco- artístico ou ético- e apenas tem valor enquanto mercadoria vendível ou comprável no mercado”. É a barbárie, a selvajaria. Nem sabemos como ainda pode haver algum amor, algum diálogo, alguma filosofia. Eles estão a destruir o que de mais genuíno há no homem, esses merceeiros, esses moedeiros. Isto não é apenas a crise económica, isto não é apenas o irem-nos aos bolsos, isto é irem-nos à alma, destruírem os verdadeiros progressos da humanidade. Isto é destruir a vida. Não podemos mais aceitá-lo. Somos homens e mulheres. Não somos objectos, não somos notas e moedas. --- ESTAR AQUI Vir ao mundo, receber a graça de vir ao mundo. Depois brincar, ser livre. Ir à escola, aprender mas também ser moldado pela máquina, pelo mercado. Começar a questionar as coisas, guardá-las para si ou debatê-las com os melhores amigos. Fazer o liceu, ir para a Faculdade. Sair à noite, celebrar a noite, experimentar a liberdade. Mas depois voltar à máquina, ao mercado, à competição. Ler uns livros que contrariam isso. Depois vem novamente o ganhar a vida, o safar-se, o lutar pela existência, o passar por cima dos outros. Questionar tudo isso novamente, estar aqui no café com os livros, experimentar a liberdade. Saber que há uma via que está para lá da escravidão, do ser mais um, saber que essa via pode ser dolorosa mas saber que ela existe. Estar aqui, saber que não se está aqui por acaso, que temos um propósito, uma missão. Saber que isto está muito para lá do pão nosso de cada dia. Saber que isto não é o trabalho absurdo. Procurar o amor e o conhecimento. Ser o homem íntegro, integral. Não se deixar levar pela grande depressão. Estudar, ler os grandes, filosofar. Estar aqui, estar vivo, sem culpas nem pecados. Estar aqui soberano, sem patrões. --- A LUTA COMUM Grécia, Portugal, Espanha. A mesma luta. Contra os governos ultra-liberais, contra a austeridade, contra a troika. Mas também o combate contra a democracia burguesa, contra o sistema político, contra o capitalismo dos mercados. Milhões nas ruas a dizer sim à vida, contra os banqueiros e os especuladores da morte. Milhões a dizer basta. Milhões a dizer que isto não serve, que isto não presta. Que se esgotaram todas as negociações, todas as concertações sociais. Que exigimos o mundo e exigimo-lo agora, como cantava Jim Morrison. Que não é mais possível suportar o roubo, a vigarice, a mentira. Que somos cidadãos, homens livres, e não escravos ou macacos. Que temos de fazê-los cair de uma vez por todas. www.jornalfraternizar.pt.vu

Saturday, October 06, 2012

É A HORA

A pequena burguesia, o proletariado. Diz-se que é a pequena burguesia que essencialmente tem estado nas manifestações. Mas não estará a pequena burguesia a proletarizar-se? Será este proletariado pequeno-burguês o papel messiânico que Marx reservava ao proletariado? Estaremos, de facto, prontos a derrubar a burguesia, a fazer a revolução? Não teremos de derrubar o aparelho repressivo do...Estado- polícia, exército- ou de trazê-lo para o nosso lado? O que é facto é que há uma subida brutal dos impostos, um empobrecimento real da pequena burguesia e não apenas do operariado. O desemprego galopa. Os casos de depressão e suicídio avançam. Quer nos agarremos ou não ao marxismo vivemos numa situação desesperada. Temos de fazer tudo, greves gerais, grandes manifestações para derrubar o governo, para derrubar o capitalismo. É a hora.

Friday, September 28, 2012

SOLIDÃO E DEPRESSÃO

Apesar da internet, da televisão, dos telemóveis, as pessoas estão cada vez mais sós. Portugal é o segundo país da UE no consumo de antidepressivos. A solidão traz consigo a depressão e outras doenças mentais, para além de provocar o suicídio. Tudo isto tem lugar num mundo de pressas, sem amor, sem alma, onde reina o salve-se sem puder, o capitalismo, a rapina. Onde reina a competição, a competivi...dade, o passar por cima dos outros, o roubo de direitos e dos parcos rendimentos, a mercearia. Não podemos aceitar que eles nos ponham doentes, que eles nos roubem a alegria da vida, o milagre da vida. Unamo-nos. Prossigamos a revolta. Assim deixaremos de nos sentir sós. Não deixemos que eles nos matem de fome, de tédio ou de depressão.

Wednesday, September 19, 2012

A REVOLTA

Arquivo: Edição de 18-12-2008 SECÇÃO: Opinião António Pedro Ribeiro A REVOLUÇÃO GREGA Talvez da Grécia venha algo de novo. Talvez da Grécia venha a revolução. O assassinato de um rapaz de 15 anos pela polícia reacendeu tochas que pareciam apagadas. A tocha do anti-autoritarismo, a tocha do anti-capitalismo, traduzida na fúria contra os bancos e as bolsas, os verdadeiros culpados da crise capitalista. Em Atenas queimam-se automóveis, lojas, bancos, e põem-se a nu os podres dos "gestores" que acumulam cargos e rapinas nas empresas e bancos da crise. A revolta grega, despoletada por grupos anarquistas, é o grito daqueles que dizem basta a um mundo que promove a morte das relações humanas livres e autênticas, a morte dos sentimentos, a morte das pulsões vitais, a morte da fraternidade, a morte da criatividade, a morte do Homem. A revolta grega é o grito pela vida, o grito dos que se fartaram de esperar, o grito dos que pouco ou nada têm a perder. We Want the World and We Want it...Now! Tal como em 68 não são os jovens dos subúrbios nem os operários que começam por se revoltar mas sim os filhos da burguesia, os estudantes. We Want the World and We Want it...Now! Queremos o mundo mas queremo-lo agora! Agora, tem que ser agora. Não há tempo a perder. É a vida que nos empurra. Não há dúvidas nem hesitações. A frase de Jim Morrison volta a soar, a bater, insistente, perfurante, dilacerante. We Want the World and We Want it...Now! Todas as missas chegaram ao fim, todas as máscaras se desmascaram, todas as infâncias vêm dar aqui, todas as convicções são postas à prova, uma nova era começa aqui. Este é o princípio do fim do capitalismo.

Monday, September 10, 2012

SABEDORIA, JUSTIÇA E AMOR UNIVERSAL

Para Bertrand Russell, Buda, Jesus, Galileu e Pitágoras foram os homens mais poderosos de sempre. Nenhum deles procurou o tipo de poder que escraviza outros mas o tipo de poder que liberta. “Não é, em última análise, através da violência que os homens são dominados, mas através da sabedoria daqueles que apelam aos desejos comuns da humanidade, à felicidade, à paz interior e exterior e ao entendimento do mundo em que, sem ser por escolha própria, temos de viver”, afirma Russell. A sabedoria, a justiça e o amor universal são valores que se sobrepõem ao sucesso pessoal. Esses valores seguidos por sábios e profetas, a que acrescentamos Sócrates, Platão e Nietzsche, enriquecem o homem, tornam-no melhor, mais puro. Afastam-no da ideologia da competição, do salve-se quem puder, do passar por cima dos outros, do capitalismo. Fazem-no regressar a si mesmo, àquele que era quando nasceu, desperto para a descoberta, para a eterna novidade do mundo. Ainda segundo Russell, devemos ensinar as nossas crianças a evitar serem “destruídas por fanáticos cruéis” e pelos especuladores e capitalistas, acrescentamos nós, “devemos procurar produzir uma independência de espírito algo céptica (…) e preservar tanto quanto possível a alegria instintiva de viver”. Devemos incentivar a criatividade individual, o amor, a liberdade. Devemos ajudar a construir um homem novo.

Friday, September 07, 2012

A REVOLUÇÃO

As jornalistas da televisão já falam na revolução. A revolução deixou de ser tema tabu para se tornar uma possibilidade real. E, de facto, mesmo em Portugal a passividade pode explodir em desespero e revolta. O desemprego, a precariedade, a pobreza, o risco real das classes médias caírem na pobreza mas também o não sentido da vida actual dominada pelos banqueiros e pelos mercados podem conduzir a ...uma situação explosiva. Há quem comece a questionar o “nascer, trabalhar, morrer”, a via do sacrifício permanente, sem gozo, sem alegria, sem liberdade. Há apenas uns fogachos, uns momentos em que nos permitem ser autênticos e livres, umas migalhas que nos concedem. Que venha a revolução e que venha depressa.

Wednesday, September 05, 2012

O SAFANÇO

As pessoas passam a vida a safar-se nesta barbárie civilizada, nesta barbárie pseudo-democrática. Safar-se na escola, nas notas, safar-se na pertença a um grupo. Depois tentam parecer-se ou tornar-se iguais aos outros, safar-se no emprego, na carreira, agradar ao chefe, tornar-se chefe. Raramente são autênticas, raramente vemos pessoas autênticas, andam sempre stressadas com alguma coisa. O medo, os fantasmas, o relógio. Que raio de vida é essa?

Saturday, September 01, 2012

A CAMINHO DA PERFEIÇÃO

“No coração, apenas tenho o desejo de me tornar cada vez mais perfeito e, para isso, julgo não poder encontrar ajuda mais eficaz do que a tua”, diz Alcibíades a Sócrates em “O Banquete” de Platão. Quais riquezas, quais poderes, apenas o desejo de se tornar cada vez mais perfeito sob os ensinamentos de Sócrates. Apenas a procura da sabedoria, da virtude, da iluminação com despojamento. Assim se constroem os grandes homens, assim se engrandece o mundo. Dialogando, filosofando, escutando os mestres. Nada de mesquinhez, de pequenez, de falsidade. Homens e mulheres íntegros, livres, a discutir o novo mundo. Nada mais belo, nada mais puro. Homens e mulheres criando, buscando a perfeição.