Thursday, November 22, 2012
SEGUE A TUA ESTRELA
Os debates dos políticos e dos economistas incomodam-me. Só se fala de economia, não se discute o homem integral. O homem que quer crescer, que quer o paraíso na terra. O mundo está cheio de castradores, de forças que querem destruir a nossa individualidade, a nossa alma. Governos, especuladores, máquinas de propaganda. Todos eles nos querem roubar o amor, todos eles nos querem separar, isolar, impedir que dêmos as mãos. Entram nas mentes, nos corações das pessoas, tornam-nas falsas, dissimuladas, frias. E depois elas tratam-nos mal, enganam-nos, querem mandar em nós. O capitalismo e a sua máquina destroem as pessoas, tornam-nas competitivas, negociantes, merceeiras, manipuladoras. Convencem-nos também de que não há alternativa possível, que até é possível ser feliz debaixo das suas condições. Mas nós queremos realmente crescer no amor, na liberdade, na poesia. Queremos voltar ao xamã, ao grande espírito. Sabemos que é uma luta constante. Eles vêem-nos sós, deprimidos, desanimados e tentam apoderar-se de nós, mandar em nós. De forma a que aceitemos ser governados, submetidos, manipulados. Mas depois há uma estrela em nós, dentro de nós, uma estrela que nos diz que nós não somos como eles, que nós não viemos para servir nem para andarmos cabisbaixos. Não temos de andar atrás da selecção nacional, não temos de andar atrás da publicidade, não temos de seguir governo nenhum, não temos de andar atrás do grupo, nem da massa, nem da maioria. Não temos de ser direitinhos, alinhadinhos. Somos pensamento, somos vida. No papel expressamos o que somos. Somos também a música que nos eleva. "The End" dos Doors ou "Love Will Tear Us Apart" dos Joy Division. Estamos aqui para nos questionarmos. Estamos aqui para dizer que não aceitamos a vossa "felicidade", essa que nos vendeis todos os dias, mesmo que venha acompanhada das imagens das mulheres mais belas, mesmo que, por vezes, quase nos deixemos levar por ela. Não, a felicidade não é isso. A felicidade é poder dialogar com Jesus, Sócrates e Nietzsche, a felicidade é conversar, discutir com os amigos e as amigas, a felicidade é celebrar a noite e o dia, subir ao palco, dizer a palavra, a felicidade é amar livremente, sem castrações nem máquinas de propaganda, a felicidade é aumentar a alma e a vida, é tomar parte do banquete permanente. Vivamos o banquete, derrubemos a máquina. Aí seremos plenos, criadores, super-homens. As nossas potencialidades serão infinitas. Vive o homem livre, o homem nobre, companheiro, companheira. Apaga a televisão. Não te deixes mais levar pela conversa. Não te deixes tornar naquele que eles querem que sejas. Torna-te naquele que és. Naquele que se descobre, naquele que se encontra. Sê verdadeiramente revolucionário. Segue a tua estrela.
Friday, November 09, 2012
DA VIDA
Edição 82, 9 Novembro 2012
DA VIDA
Não se tem de andar constantemente de pistola na mão a apelar à revolta e à revolução. Contudo, penso que, nos tempos que correm (e em todos os tempos...), não faz sentido que o poeta, o escritor e o intelectual não se pronunciem de forma crítica sobre a sociedade em que vivem. Temos de denunciar que a vida assim não é vida. Que há forças que se escondem por detrás das medidas fascizantes dos governantes. Que há essa entidade a que chamam os mercados, a quem todos obedecem. Que há os "credores", os especuladores, a bolsa, os banqueiros, os economistas, os grandes empresários, essa gente altamente recomendável. É preciso dizer que todos eles nos chulam, nos roubam, nos vão dando cabo da vida. E a vida é o que realmente interessa, como dizia Henry Miller. A vida é respirar, é estar vivo, é estar aqui mas é também gozar o instante, construir o presente, amar o próximo e o longínquo, mexer os dedos e a caneta, andar à solta sem imposições, sem castrações, sem culpas. A vida é certamente a liberdade livre de Sade e dos surrealistas, não o trabalho, não o sacrifício, não o que nos obrigam a fazer. A vida é certamente acordar contigo, ouvir as fontes e os pássaros, dançar em redor da fogueira, como cantava Morrison. A vida é certamente tirar todos esses imbecis do poder, caciques locais de Câmara e de Junta incluídos. A vida é ajudar esta gente a sair da cegueira, como fazia Sócrates, como fazia Shakespeare.
Café São Cristóvão, Braga, 2.11.2012
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EU ACUSO!
Todo o percurso que fiz até aqui. O rapaz que era. A timidez. A dificuldade de me relaciionar com as raparigas. Os versos que então escrevia. Já então pensava muito. Depois veio a noite, os copos, os concertos. Descobria a liberdade no Tuaregue, no Deslize, em Braga, na Rua Nova de Santa Cruz. Tornei-me então outro, aquele que sobressaía, que provocava, que dançava. Mas as grandes depressões travaram a minha caminhada. Fiquei inerte, insoluvelmente melancólico, incomunicável. Passavam-se os meses dolorosamente e, aos poucos, readquiria a vida. Fui para o palco, cantei, recitei, fiz a festa. Agora estou aqui, aos 44 anos, mais sábio, mais virtuoso, mas ainda desejoso de passar para o outro lado. Ainda morrisoniano, nietzscheano, consciente de que a vida não se resume a uma fórmula única e irreversível. Consciente de que os medíocres que nos governam e querem controlar não passam de uns imbecis sem alma nem coração, sem inteligência. Consciente de que posso chegar ao palco e dizê-lo. Consciente de que nada há a perder, de que fiz o meu percurso e de que não devo nada a ninguém. Posso estar aqui sozinho na confeitaria com os meus livros mas acuso esses medíocres do poder de destruírem a vida, de matarem de fome, tédio e depressão, de darem cabo de tudo quanto é arte, belo, exuberância, de assassinarem a juventude e a infância, de amputarem a liberdade e o amor. Acuso-os de não fazerem parte da humanidade, nem da vida.
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A NOVA ERA
A verdadeira vida é poética. Rimbaud disse que no mundo da prosa, "a verdadeira vida está ausente". O estado prosaico é utilitário e funcional e inclui, nas palavras de Edgar Morin, o sobreviver, o ganhar a vida, "o trabalho opressor, monótono, parcela, na ausência ou no recalcamento da afectividade". É o mundo da economia, do acumular dinheiro, da exploração, dos mercados, do tédio. Em contrapartida, a poesia é celebração, comunhão, embriaguez, dança, canto, música, transe, êxtase, maravilhamento com o belo e, claro, amor. A revolução só pode estar do lado da poesia, do amor, da liberdade, como diziam os surrealistas. É aí que o homem renascido se realiza. Não no sacrifício, não na culpa, não no pecado. Não numa "vida" sem novidade, sem curiosidade, sem descoberta. Não faz sentido vir ao mundo para sofrer, para ser humilhado, para andar deprimido, para pensar constantemente no suicídio. Abracemos a dádiva da vida, construamos um mundo de amor e poesia. Não nos deixemos derrotar pelos cinzentos, pelos pregadores da morte, pelos destruidores da vida. Não trabalhemos mais para eles. Celebremos Dionisos e o homem livre. Quem disse que era impossível? Unamo-nos. Ocupemos as praças. Nós não somos como eles. Nós não viemos explorar ninguém. Não viemos enganar ninguém. O mundo é nosso. Eles não podem roubá-lo mais. Eles não podem destrui-lo mais. Este é o início de uma nova era. Este é o renascimento do homem. Este é o banquete permanente. O homem veio para se ultrapassar, não para andar atrás de migalhas, não para ser escravo de outros homens ou da máquina. O homem veio para se transcender, para abrir novas vias, novos reinos. Todos nós podemos ser deuses. Amamos profundamente a vida. Queremos gozá-la sem entraves. Eles não podem impedir-nos. Eles não podem roubar-nos a poesia. Eles não podem roubar-nos a infância.
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A VERDADEIRA VIDA
Não me convence o Lobo Antunes. Demasiado descritivo. Entretanto, prossigo os meus dias em Braga entre a Sandra e a Goreti. Não consigo dormir. As ideias vêm-me, vêm-se. Volto a ter excelentes motivos para me levantar da cama. O amor acena. O "Um Poeta a Mijar" seria um excelente livro não fossem três ou quatro poemas que precisavam de ser revistos. Talvez o "Queimai o Dinheiro" seja o mais autênt...ico, à semelhança do "Café Paraíso". Enfim, não sei, já vou para o 11º livro. Ainda não criei "a obra" mas hei-de lá chegar. Sinto-me um filósofo ou, pelo menos, um aprendiz. Não acho estupidez nenhuma recorrer ao àlcool ou às drogas. Sobretudo se eles nos ajudam a alcançar um certo paraíso num mundo que os mercadores e os merceeiros têm destruído. Sou, portanto, a favor da legalização das drogas. Já o sou desde os tempos do PSR. Tenho um percurso político de mais de 20 anos. Já poderia ter sido eleito deputado. Mas, enfim, há-de chegar a hora. Ao menos eu vivo aquilo que escrevo. Não estou com grandes floreados. É a minha vida que está nas prosas, nos poemas. Aos quatro anos deixei a infantil ou a pré-primária porque pensava que sabia tudo o que lá se dava. Agora não sei tudo. Desconheço muitos pensadores e artistas. Contudo, cheguei a um ponto em que sou capaz de fazer uma síntese. Cheguei a um ponto em que estou convicto de que a vida não vale a pena se não for vivida, se não for gozada, se não for celebrada. Um homem que passe a vida a fazer contas ou cheio de medo ou cheio de tédio não vive, sobrevive. E muita gente, a maioria clara da população portuguesa limita-se a sobreviver, a tratar da vidinha ou nem isso. Portanto, é claro para mim que o culto da economia e do safanço, aliados à austeridade e aos cortes na saúde, na educação e na segurança social traduzem a não-vida que reina na mente dos imbecis que nos governam e nos querem controlar. Tudo isto acrescido da "overdose" de telenovelas e de futebóis, de imbecilidades como a "Casa dos Segredos" contribui para que sejamos cada vez mais espectadores passivos de um espectáculo que não controlamos. Felizmente, nos últimos tempos, sobretudo no 15 de Setembro, tem subido o número daqueles que protestam contra o governo mas também contra o roubo da verdadeira vida. Isso pode ainda não estar totalmente claro mas há sinais visíveis nos cartazes, nos confrontos com a polícia, nas palavras de ordem, de uma reivindicação não apenas económica mas também vital. "Queremos o mundo e exigimo-lo agora!", volto a Jim Morrison. Queremos de volta a vida que nos tiraram ou nos estão a tirar, queremos aquilo por que viemos à terra, queremos a idade do ouro, o paraíso perdido. Queremos dançar e celebrar sem estar a fazer contas, sem contabilistas.
Thursday, November 08, 2012
VELHOS AMIGOS, ONDE ESTAIS?
"Velhos amigos, onde estais?", canta António Manuel Ribeiro dos UHF. A vida separa-nos. Seguimos um percurso comum. Celebrámos junto a existência com vinho, amizade, cumplicidade. E depois, sem saber porquê, pelas razões mais diversas, desencontramo-nos. Às vezes estupidamente. Às vezes reencontramo-nos passado 10, 20 anos e é a festa. Prometemos novos encontros, telefonemas, mas eles não vêm, não vêm mais. Alexandre, Paula, Zé Né. Onde estais? Esta vida dura, apressada separa-nos.
Thursday, October 25, 2012
A VIA DA ILUMINAÇÃO
O levantar-me, o sair da cama, o enfrentar o dia. A angústia da existência, a máquina que nos sufoca mas também o prazer da leitura, de adquirir conhecimento, de me enriquecer. Estou só na confeitaria e escrevo. Estou a criar. Há muito que não tenho outro trabalho para além deste de escrever. A remuneração pode ser escassa mas eu continuo. Isto, o amor e a liberdade dão senti...do à minha existência. Não o trabalho imposto, não o capitalismo, não o dinheiro. Mas o ir-me transformando noutro, mais sábio, mais virtuoso, mais bom. Bebo dos mestres, não me contento com futebóis. E mesmo que permaneça aqui sozinho sei que estou a seguir o caminho certo. Posso não ganhar prémios mas sigo o caminho certo, a via da iluminação e do conhecimento.
Sunday, October 21, 2012
A NOVA ERA
A verdadeira vida é poética. Rimbaud disse que no mundo da prosa, "a verdadeira vida está ausente". O estado prosaico é utilitário e funcional e inclui, nas palavras de Edgar Morin, o sobreviver, o ganhar a vida, "o trabalho opressor, monótono, parcela, na ausência ou no recalcamento da afectividade". É o mundo da economia, do acumular dinheiro, da exploração, dos mercados, do tédio. Em contrapart...
ida, a poesia é celebração, comunhão, embriaguez, dança, canto, música, transe, êxtase, maravilhamento com o belo e, claro, amor. A revolução só pode estar do lado da poesia, do amor, da liberdade, como diziam os surrealistas. É aí que o homem renascido se realiza. Não no sacrifício, não na culpa, não no pecado. Não numa "vida" sem novidade, sem curiosidade, sem descoberta. Não faz sentido vir ao mundo para sofrer, para ser humilhado, para andar deprimido, para pensar constantemente no suicídio. Abracemos a dádiva da vida, construamos um mundo de amor e poesia. Não nos deixemos derrotar pelos cinzentos, pelos pregadores da morte, pelos destruidores da vida. Não trabalhemos mais para eles. Celebremos Dionisos e o homem livre. Quem disse que era impossível? Unamo-nos. Ocupemos as praças. Nós não somos como eles. Nós não viemos explorar ninguém. Não viemos enganar ninguém. O mundo é nosso. Eles não podem roubá-lo mais. Eles não podem destrui-lo mais. Este é o início de uma nova era. Este é o renascimento do homem. Este é o banquete permanente. O homem veio para se ultrapassar, não para andar atrás de migalhas, não para ser escravo de outros homens ou da máquina. O homem veio para se transcender, para abrir novas vias, novos reinos. Todos nós podemos ser deuses. Amamos profundamente a vida. Queremos gozá-la sem entraves. Eles não podem impedir-nos. Eles não podem roubar-nos a poesia. Eles não podem roubar-nos a infância.
Friday, October 12, 2012
ESTADO DE GRAÇA
Há três dias consecutivos que estou em estado de farra e rock n' roll. Foi o cacau que veio do jornal, foi a festa do Manuel do "Guarda-Sol", foi o "meddley" a matar no "púcaros" com o "Poema de Amor Inocente Em Jeito de Manifesto Autárquico para a Cidade do Porto" e a "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro", foram também as palavras provocatórias introdutórias no "Art 7" de São João da Madeira do Angel e do Vitó. Depois houve aquela cena absolutamente "non-sense" nos Aliados, o gajo da câmara de filmar, o gajo do microfone a perguntar se eu era um homem que acreditava na sinceridade e depois a ficar 10 minutos calado e eu sem saber o que dizer. Uma cena absolutamente surrealista. Depois pediu-me para encostar o ouvido dele à minha barriga de cerveja. Eu deixei. As perguntas provocatórias sobre a homossexualidade, o abraço. Enfim, o gajo disse que o trabalho era só para ele. Vamos ver. Regressamos ao ecrã.
A verdade é que me sinto novamente em estado de graça, próximo dos deuses e do espíritos. Capaz de teorizar sobre a situação de palco. As bocas que tu mandas, as provocações, o gozo com a campanha política permanente têm resultado. Não é chegar ali e "vomitar" os poemas. Há que fazer um enquadramento quando nos sentimos à vontade para isso. É esta a nossa profissão, o nosso trabalhinho.
A BARBÁRIE
Edição 81, 12 Outubro 2012
A BARBÁRIE
Em 1845, em “A Essência do Dinheiro”, Moses Hess afirma que o capitalismo traduz a dominação exercida pelo deus-dinheiro sobre os homens, constituindo um sistema que coloca à venda a liberdade humana. O dinheiro é a essência e traz um mundo pior do que o da escravatura antiga porque “não é natural nem humano que alguém se venda a si próprio voluntariamente”. A tarefa do comunismo é, assim, abolir o dinheiro. Para Gustav Landauer essa tarefa não é aperfeiçoar o sistema industrial-capitalista mas ajudar os homens a redescobrirem a cultura, o espírito, a liberdade, a comunidade. Para outros, o capitalismo é traficar a alma, o espírito, o pensamento. Para Marx, exige-se “a revolta contra um mundo que transformou cada coisa numa mercadoria e degradou o homem, reduzindo-o ao estatuto de objecto”. Sim, temos o direito de exigir o homem integral. O poder do dinheiro pode destruir todas as qualidades humanas e naturais, reduzindo-as ao quantitativo. A troca de afectos é substituída pela troca do dinheiro por uma mercadoria. Não existe nada de mais abjecto do que o capitalismo e os seus mercadores e economistas. Reduzem tudo ao cálculo, ao deve e haver, ao orçamento. Cortam na vida das pessoas como se tratassem com objectos. A sensibilidade é substituída pela posse. Como dizem Michael Lowy e Robert Sayre em “Revolta e Melancolia”, “o ser, a livre expressão da riqueza da vida por actividades sociais e culturais, é cada vez mais sacrificado ao ter, à acumulação do dinheiro, das mercadorias e do capital”. O homem está fortemente condicionado na sua capacidade criativa pelas drogas que nos atiram todos os dias via media e por um mercado implacável. Segundo Lukács, “tudo deixou de ser avaliado por si próprio, pelo seu valor intrínseco- artístico ou ético- e apenas tem valor enquanto mercadoria vendível ou comprável no mercado”. É a barbárie, a selvajaria. Nem sabemos como ainda pode haver algum amor, algum diálogo, alguma filosofia. Eles estão a destruir o que de mais genuíno há no homem, esses merceeiros, esses moedeiros. Isto não é apenas a crise económica, isto não é apenas o irem-nos aos bolsos, isto é irem-nos à alma, destruírem os verdadeiros progressos da humanidade. Isto é destruir a vida. Não podemos mais aceitá-lo. Somos homens e mulheres. Não somos objectos, não somos notas e moedas.
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ESTAR AQUI
Vir ao mundo, receber a graça de vir ao mundo. Depois brincar, ser livre. Ir à escola, aprender mas também ser moldado pela máquina, pelo mercado. Começar a questionar as coisas, guardá-las para si ou debatê-las com os melhores amigos. Fazer o liceu, ir para a Faculdade. Sair à noite, celebrar a noite, experimentar a liberdade. Mas depois voltar à máquina, ao mercado, à competição. Ler uns livros que contrariam isso. Depois vem novamente o ganhar a vida, o safar-se, o lutar pela existência, o passar por cima dos outros. Questionar tudo isso novamente, estar aqui no café com os livros, experimentar a liberdade. Saber que há uma via que está para lá da escravidão, do ser mais um, saber que essa via pode ser dolorosa mas saber que ela existe. Estar aqui, saber que não se está aqui por acaso, que temos um propósito, uma missão. Saber que isto está muito para lá do pão nosso de cada dia. Saber que isto não é o trabalho absurdo. Procurar o amor e o conhecimento. Ser o homem íntegro, integral. Não se deixar levar pela grande depressão. Estudar, ler os grandes, filosofar. Estar aqui, estar vivo, sem culpas nem pecados. Estar aqui soberano, sem patrões.
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A LUTA COMUM
Grécia, Portugal, Espanha. A mesma luta. Contra os governos ultra-liberais, contra a austeridade, contra a troika. Mas também o combate contra a democracia burguesa, contra o sistema político, contra o capitalismo dos mercados. Milhões nas ruas a dizer sim à vida, contra os banqueiros e os especuladores da morte. Milhões a dizer basta. Milhões a dizer que isto não serve, que isto não presta. Que se esgotaram todas as negociações, todas as concertações sociais. Que exigimos o mundo e exigimo-lo agora, como cantava Jim Morrison. Que não é mais possível suportar o roubo, a vigarice, a mentira. Que somos cidadãos, homens livres, e não escravos ou macacos. Que temos de fazê-los cair de uma vez por todas.
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Saturday, October 06, 2012
É A HORA
A pequena burguesia, o proletariado. Diz-se que é a pequena burguesia que essencialmente tem estado nas manifestações. Mas não estará a pequena burguesia a proletarizar-se? Será este proletariado pequeno-burguês o papel messiânico que Marx reservava ao proletariado? Estaremos, de facto, prontos a derrubar a burguesia, a fazer a revolução? Não teremos de derrubar o aparelho repressivo do...Estado- polícia, exército- ou de trazê-lo para o nosso lado? O que é facto é que há uma subida brutal dos impostos, um empobrecimento real da pequena burguesia e não apenas do operariado. O desemprego galopa. Os casos de depressão e suicídio avançam. Quer nos agarremos ou não ao marxismo vivemos numa situação desesperada. Temos de fazer tudo, greves gerais, grandes manifestações para derrubar o governo, para derrubar o capitalismo. É a hora.
Friday, September 28, 2012
SOLIDÃO E DEPRESSÃO
Apesar da internet, da televisão, dos telemóveis, as pessoas estão cada vez mais sós. Portugal é o segundo país da UE no consumo de antidepressivos. A solidão traz consigo a depressão e outras doenças mentais, para além de provocar o suicídio. Tudo isto tem lugar num mundo de pressas, sem amor, sem alma, onde reina o salve-se sem puder, o capitalismo, a rapina. Onde reina a competição, a competivi...dade, o passar por cima dos outros, o roubo de direitos e dos parcos rendimentos, a mercearia. Não podemos aceitar que eles nos ponham doentes, que eles nos roubem a alegria da vida, o milagre da vida. Unamo-nos. Prossigamos a revolta. Assim deixaremos de nos sentir sós. Não deixemos que eles nos matem de fome, de tédio ou de depressão.
Wednesday, September 19, 2012
A REVOLTA
Arquivo: Edição de 18-12-2008
SECÇÃO: Opinião
António Pedro Ribeiro
A REVOLUÇÃO GREGA
Talvez da Grécia venha algo de novo. Talvez da Grécia venha a revolução. O assassinato de um rapaz de 15 anos pela polícia reacendeu tochas que pareciam apagadas. A tocha do anti-autoritarismo, a tocha do anti-capitalismo, traduzida na fúria contra os bancos e as bolsas, os verdadeiros culpados da crise capitalista. Em Atenas queimam-se automóveis, lojas, bancos, e põem-se a nu os podres dos "gestores" que acumulam cargos e rapinas nas empresas e bancos da crise.
A revolta grega, despoletada por grupos anarquistas, é o grito daqueles que dizem basta a um mundo que promove a morte das relações humanas livres e autênticas, a morte dos sentimentos, a morte das pulsões vitais, a morte da fraternidade, a morte da criatividade, a morte do Homem.
A revolta grega é o grito pela vida, o grito dos que se fartaram de esperar, o grito dos que pouco ou nada têm a perder. We Want the World and We Want it...Now! Tal como em 68 não são os jovens dos subúrbios nem os operários que começam por se revoltar mas sim os filhos da burguesia, os estudantes. We Want the World and We Want it...Now! Queremos o mundo mas queremo-lo agora!
Agora, tem que ser agora. Não há tempo a perder. É a vida que nos empurra. Não há dúvidas nem hesitações. A frase de Jim Morrison volta a soar, a bater, insistente, perfurante, dilacerante.
We Want the World and We Want it...Now! Todas as missas chegaram ao fim, todas as máscaras se desmascaram, todas as infâncias vêm dar aqui, todas as convicções são postas à prova, uma nova era começa aqui. Este é o princípio do fim do capitalismo.
Monday, September 10, 2012
SABEDORIA, JUSTIÇA E AMOR UNIVERSAL
Para Bertrand Russell, Buda, Jesus, Galileu e Pitágoras foram os homens mais poderosos de sempre. Nenhum deles procurou o tipo de poder que escraviza outros mas o tipo de poder que liberta. “Não é, em última análise, através da violência que os homens são dominados, mas através da sabedoria daqueles que apelam aos desejos comuns da humanidade, à felicidade, à paz interior e exterior e ao entendimento do mundo em que, sem ser por escolha própria, temos de viver”, afirma Russell. A sabedoria, a justiça e o amor universal são valores que se sobrepõem ao sucesso pessoal. Esses valores seguidos por sábios e profetas, a que acrescentamos Sócrates, Platão e Nietzsche, enriquecem o homem, tornam-no melhor, mais puro. Afastam-no da ideologia da competição, do salve-se quem puder, do passar por cima dos outros, do capitalismo. Fazem-no regressar a si mesmo, àquele que era quando nasceu, desperto para a descoberta, para a eterna novidade do mundo. Ainda segundo Russell, devemos ensinar as nossas crianças a evitar serem “destruídas por fanáticos cruéis” e pelos especuladores e capitalistas, acrescentamos nós, “devemos procurar produzir uma independência de espírito algo céptica (…) e preservar tanto quanto possível a alegria instintiva de viver”. Devemos incentivar a criatividade individual, o amor, a liberdade. Devemos ajudar a construir um homem novo.
Friday, September 07, 2012
A REVOLUÇÃO
As jornalistas da televisão já falam na revolução. A revolução deixou de ser tema tabu para se tornar uma possibilidade real. E, de facto, mesmo em Portugal a passividade pode explodir em desespero e revolta. O desemprego, a precariedade, a pobreza, o risco real das classes médias caírem na pobreza mas também o não sentido da vida actual dominada pelos banqueiros e pelos mercados podem conduzir a ...uma situação explosiva. Há quem comece a questionar o “nascer, trabalhar, morrer”, a via do sacrifício permanente, sem gozo, sem alegria, sem liberdade. Há apenas uns fogachos, uns momentos em que nos permitem ser autênticos e livres, umas migalhas que nos concedem. Que venha a revolução e que venha depressa.
Wednesday, September 05, 2012
O SAFANÇO
As pessoas passam a vida a safar-se nesta barbárie civilizada, nesta barbárie pseudo-democrática. Safar-se na escola, nas notas, safar-se na pertença a um grupo. Depois tentam parecer-se ou tornar-se iguais aos outros, safar-se no emprego, na carreira, agradar ao chefe, tornar-se chefe. Raramente são autênticas, raramente vemos pessoas autênticas, andam sempre stressadas com alguma coisa. O medo, os fantasmas, o relógio. Que raio de vida é essa?
Saturday, September 01, 2012
A CAMINHO DA PERFEIÇÃO
“No coração, apenas tenho o desejo de me tornar cada vez mais perfeito e, para isso, julgo não poder encontrar ajuda mais eficaz do que a tua”, diz Alcibíades a Sócrates em “O Banquete” de Platão. Quais riquezas, quais poderes, apenas o desejo de se tornar cada vez mais perfeito sob os ensinamentos de Sócrates. Apenas a procura da sabedoria, da virtude, da iluminação com despojamento. Assim se constroem os grandes homens, assim se engrandece o mundo. Dialogando, filosofando, escutando os mestres. Nada de mesquinhez, de pequenez, de falsidade. Homens e mulheres íntegros, livres, a discutir o novo mundo. Nada mais belo, nada mais puro. Homens e mulheres criando, buscando a perfeição.
Friday, August 24, 2012
O CAMPO DA VIDA
As horas passam e eu aqui no Piolho, cheio de poesia. A minha escrita sofreu uma viragem. Escrevo, agora, de uma forma profética que vem não sei de onde. Estou, de novo, na estrada do excesso. Por isso penso que a vida só faz sentido assim vivida. Por isso estou certo que temos de agarrar a vida e afastarmo-nos daqueles que pregam a morte e a finança. É, de facto, um combate entre a vida e a morte aquele que travamos. Não digo que não haja pessoas enganadas nas fileiras da finança, não digo que não haja gente bem-intencionada. Todavia, parece-me hoje evidente que há aqueles que vivem a vida pela vida e há outros que, graças às suas imposições económicas, políticas, religiosas nos querem impedir de gozar a vida. Aliás, acabam por ser tão pequenos, tão mesquinhos, apesar de poderosos. Querem controlar o nosso cérebro, a nossa intimidade, as nossas pulsões vitais. A questão é que o vizinho do lado muitas vezes se deixa levar pelo paleio dos mercadores, acabando por se tornar, também ele, um inimigo da vida. Daí a inveja, a intriga, a coscuvilhice de todos os dias. Certamente que discutir futebol 24 horas por dia, sete dias por semana, também contribui para a imbecilização e para a morte do homem, tal como as correrias e os atropelos nas promoções do “Pingo Doce”.
O nosso homem é o mesmo de Sócrates e Platão. O nosso homem é o cidadão livre, esclarecido, que discute política, literatura, filosofia na praça pública. O nosso homem é aquele que decide por si mesmo sem medos, nem patrões, nem papões. O nosso homem é aquele que, como Jim Morrison, põe à prova os limites da realidade. Este homem existe. Não é nenhum extraterrestre, não é sequer uma utopia. Esse homem existiu em Barcelona nos anos 30 do século passado, esse homem existiu em muitas revoluções. Claro que é um homem insatisfeito, exigente, dono de si mesmo. Cabe-nos a nós defender esse homem contra a máquina tecno-económica e propagandística. Cabe-nos a nós salvar o homem e o mundo. Bem sei que este não é o discurso economicista dos partidos de esquerda, bem sei que me podem chamar sonhador como chamaram a John Lennon quando ele cantava “Imagine”. Mas eu estou convicto do que digo. Ou nós ou eles. Ou escolhes o campo da vida ou escolhes o campo da morte.
Thursday, August 23, 2012
REI DOS REIS
REI DOS REIS
Rei dos reis,
Onde estás?
Fugiste para a montanha
Ficaste na cruz
Perdeste a batalha?
Rei dos reis,
Chamo por ti
...No meio da arena
Será isto apenas o poema
Ou tudo o resto
Grito de um ébrio
Excalibur,
Minha amada?
Rei dos reis,
Quando voltas?
Aqui te espero
Bebo da taça
O homem está confuso
Não sabe o que quer
Roma arde
Rei dos reis,
Porque não voltas?
Sunday, August 19, 2012
FRANCISCO LOUÇÃ
Francisco Louçã vai abandonar a liderança do Bloco de Esquerda. Apesar das divergências actuais e passadas, queria dizer ,na qualidade de ex-camarada, que Louçã é um homem muito inteligente, culto, dado e uma excelente pessoa. O principal defeito que lhe aponto é a de ser algo sectário, de não saber lidar muito bem com correntes alternativas a nível interno.
Os anos de ouro de Louçã no PSR e no Bloco já eram. Nas últimas legislativas, o Bloco perdeu metade do eleitorado. A figura de Louçã não colhe a simpatia que já colheu entre a população. Contudo, duvido que João Semedo e Catarina Martins, apesar de serem bons deputados, consigam atingir a popularidade (mesmo em queda...) e a visibilidade de Francisco Louçã. O Bloco de Esquerda só se aguentará se convergir com outras forças de esquerda como o PCP, o PCTP/MRPP ou o MAS.
Wednesday, August 15, 2012
DA REVOLUÇÃO E DA VIDA
Hei-de trabalhar sempre na escrita. Aperfeiçoar-me, ser capaz de dar à luz. Vim para isto, para puxar pela cabeça. Não para as actividades domésticas. É isto, o papel, a mão, a caneta. Enfim, há-de vir a glória nem que seja depois da morte. Uns permanecem na vida, mesmo não vivendo, outros vão partindo. A vida vai-se desenrolando, dia após dia. Houve dias, noites de descoberta, outros vazios, deprimentes, mas o que é facto é que estamos aqui, que não nos limitamos a olhar os carros que passam lá fora, as pessoas que vão e vêm da praia, os que falam muito e os que falam nada, a alma que existe, pelo menos em alguns. Para ser um grande escritor preciso de escrever estórias mas eu limito-me a estes apontamentos. Deixei a engrenagem dos horários e do sacrifício. O primeiro-ministro que trabalhe! Trabalho, sim, já o disse, na construção do texto, na construção do poema. Preciso desesperadamente de uma mulher que financie a revolução. Entretanto vou questionando a vida. A vida diz-me que vale a pena continuar, apesar de tudo. Apesar de ter de aturar burgueses e mercadores. Eu tenho um percurso. Vim observar os outros mas também vim destruir e construir. Onde estás, mulher que me beijaste e me deste a morada? Talvez sejas a tal, a minha namorada. O que é facto é que a maior parte do tempo permaneço só. Talvez a minha profissão assim o exija. Vou deixando livros e performances pelo mundo. Quem quiser que os agarre. Porque te mataste, Rui Costa? Acreditavas em algo de poderoso e deixaste de acreditar. No fundo, eras outro solitário, com uma vida errante. Não podemos desligar o problema da revolução do problema da vida. Não nos podemos limitar a debitar uns “slogans” marxistas ou anarquistas. Temos de questionar a vida. A vida pertence-nos ou deveria pertencer-nos. A verdadeira questão é o quanto nos roubam da vida se seguirmos a via normal, se formos à escola, se nos obrigarem a competir pelas notas ou, se mais tarde, nos obrigarem a competir pelo pão, pelo lugar, pelo estatuto, pelo poder, pelo dinheiro. A revolução é precisamente a ultrapassagem da vida, o viver sem obrigações ou com o mínimo de obrigações possível mas também a superação do eu, a aventura do eu, a superação do homem no sentido de chegar a um estado de criação, a uma gravidez onde ele próprio é obra sua. Daí que me aproxime mais do super-homem de Nietzsche, mesmo sendo anarquista individualista. Estamos, portanto, aqui para aumentar a vida, como dizia Henry Miller. E, de facto o discurso económico é muito redutor. Nunca entenderá e combate a superação do homem, a alma, a própria vida. Claro que o desemprego aumenta, que o PIB baixa, que a maioria das pessoas têm cada vez menos dinheiro mas isso não é mais do que vida roubada. E depois quem é que mede a felicidade, o amor, a liberdade? Quem tem o direito de dispor das nossas vidas? Quem nos causa as depressões, os suicídios, as esquizofrenias? Quem tem o direito de nos fazer infelizes? Porque raio os elegemos? Porque raio lhes obedecemos?
Só aqueles que se ultrapassam, só aqueles que questionam a vida, só aqueles que amam incondicionalmente, só os espíritos livres são verdadeiramente revolucionários. Não os que se limitam a exigir aumentos ou direitos, não os que seguem a via da economia. O homem é muito mais do que cálculo, o homem é hybris, festa, amor, amizade, poesia. Não se pode contentar com a vida menor que leva. Não se pode contentar com o trabalho, com a televisão, com a família. O homem não é negócio, não está à venda. O homem é Quixote, Hamlet, Zaratustra. O homem é aquele que cria, que brinca, que corre livre como as crianças. O homem é a criança sábia. Não deixemos mais que os inimigos do homem e da vida o destruam. Porque eles- governantes, comentadores, banqueiros, especuladores- são os inimigos do homem e da vida. Porque nos atiram com eles aos cornos todos os dias. Sigamos, pois, o caminho da revolução e da liberdade. Construamos, pois, o super-homem.
Monday, August 06, 2012
LUIZ PACHECO
"Evocar Luiz Pacheco é dizer não à vidinha deprimente de todos os dias que faz vencidos, vendidos e convertidos ao império do tédio, do dinheiro, do consumo e do mercado. Evocar Luiz Pacheco é denunciar as capelinhas e as honrarias literárias. É celebrar a liberdade, o espírito livre, que se coloca à margem, que caga nos políticos postiços, nos moralistas de esquerda e de direita. É dizer que é possível dizer não à norma e às convenções, à merda instituída através da via libertina e libertária de Sade ou de Henry Miller. É acreditar que a provocação e a subverção constantes revelam o homem autêntico, generoso, puro. É celebrar o grande escritor, a literatura que se confunde com a vida. É dizer que a vida não é a vidinha, que há espaço dentro do homem onde a liberdade é livre."
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