Wednesday, December 28, 2011
GORETI
Sou capaz de escrever textos muito bons, geniais segundo alguns. Mas também escrevo textos menores. Ou, pelo menos, repetitivos. Hoje ou amanhã, provavelmente amanhã, faz 19 anos que conheci a Goreti. Aquela menina mudou a minha vida. Para sempre. Aquela menina é um amor quando não desatina.
Monday, December 26, 2011
A MENINA

Uma menina ao fundo. Bonita. Come. Bebe meia-de-leite. Eu olho para ela. As obras na "Motina" nunca mais acabam. Fico-me pelos "Sonhos de Verão". Vai pagar a menina. Vai embora. Não sei o que lhe diria se me sentasse à sua mesa. Passa por mim. A imagem de Jesus na casa em frente. O jornal de hoje não me interessa. Só fala do Natal. A menina parte no seu carrinho. Não me sinto mal no dia a seguir ao Natal. Até julgo que me livrei de um fardo. Há quem comece a trabalhar bem cedo como o puto da confeitaria. Eu, definitivamente, não fui feito para isso. Apenas para escrever estas coisas e outras. Continuo a escrever no caderno. Continuo a escrever nos cafés e nas confeitarias. A ouvir as conversas do povo. A alimentar-me delas.
SOBRE A CRÍTICA DO ALEXANDRE TEIXEIRA MENDES A "CAFÉ PARAÍSO"
O Alexandre Teixeira Mendes situou-me entre o urbano, o beat, os situacionistas e a ebriedade. Penso que me situou bem. De facto, estou nos antípodas do lirismo e do bucolismo. Só uma parte dos meus escritos são realmente bons. Mas quem não tem escritos menores? Sim, sou essencialmente o poeta da urbe, dos cafés, da cidade, fundamentalmente do Porto e de Braga. A aldeia onde moro, Vilar do Pinheiro, é suburbana. Raramente canto as àrvores, as flores, os animais. Depois enquadro-me na filosofia beatnick, na rejeição do mundo do dinheiro, da gravata, do instituído, da norma. Estou com os situacionistas na rejeição da sociedade da troca e do tédio, na construção de um mundo livre, da liberdade absoluta em oposição às prisões quotidianas. Sou da ebriedade, de Dionisos, da loucura, da celebração, da festa, em ruptura com a normalidade, com o vazio deste mundo, com a ditadura dos mercados e da finança.
Saturday, December 24, 2011
TRIP NO PIOLHO
TRIP NO PIOLHO (texto de ANTÓNIO PEDRO RIBEIRO)
[texto de antónio pedro ribeiro]
TRIP NO PIOLHO
Sou o maior poeta vivo. Poderia dizê-lo. Ainda estou vivo e não vejo outros melhores. Talvez esteja a exagerar. Mas o que é que me impede? Pelo menos, tal como Pessoa, escrevo a um ritmo frenético. Sou o maior poeta vivo. Bem, morto não estou. A médica fala-me de AVC's e de ataques cardíacos. Mas eu vou prosseguindo a viagem. Mesmo que venham dilúvios eu vou permanecer aqui. A conversa dos outros é a matéria-prima. Gostava das minhas primas mas já não as vejo há muito tempo. Segui o meu caminho. Para alguns, o caminho da perdição. Já me apelidaram de maldito. Os outros bebem e eu não. Não preciso. Estou com o pedal todo. D. Sebastião em Alcacer-Quibir com um exército de fantasmas. Sou o maior poeta vivo. O que ganho com isso? Ninguém paga a minha arte. Continuo a escrever. É isso que sei fazer. Poderia escrever continuamente durante horas e horas. Gasto tinta e papel. Têm um preço. Mas um valor muito superior. Porque raio é que uma maluca qualquer não vem falar comigo? Sou obrigado a ver jogos em cima de jogos? Sou o maior poeta vivo. Ser ou não ser, eis a questão. Só não utilizo palavras herméticas. Dama oculta, vem ter comigo esta noite. Dá-me o teu coração e a tua beleza. Estou no Piolho à tua espera, antes que chegue o chato do costume. Um homem puxa tanto pela cabeça e é esta a recompensa que tem? Estou lúcido como Álvaro de Campos. Pensar é a minha profissão. Passo os pensamentos para o papel. Hoje sou absolutamente capaz de o fazer. Não há limites, ó velhote do boné. No piolho escrevo o poema infinito. Escreverei até morrer. Emendo aqui e ali. Escrita automática et voilá. Eia, Breton, eia, Péret, eia, Artaud. Volto aos surrealistas. Por um lado, ainda bem que as mulheres não vêm. Nem elas nem ninguém. Produzo livremente. Olha, sou um trabalhador da palavra! E esta, ein, ó Fernando Pessa? Um operário da palavra. Um proletário, logo eu. Tantas vezes acusado de preguiça, de desleixo, de vadiagem. Sou vadio mas produzo. Vou montar uma fábrica. Empresário, eu? Deus me livre! E o que é que Deus tem a ver comigo? E o que é que é Deus? Porque se fala tanto em Deus? Deus morreu. Deus nunca existiu. Sou o maior poeta vivo. Bebo copos com ninguém. Estou em tertúlia comigo próprio. Olho as horas. Penso. Todo eu sou pensamento. Mas a miúda da mesa do lado fala. Existe. O velhote do boné também e o Adriano e os outros empregados e o sr. Martins e a Via Láctea e o Universo talvez até Deus
Poderia passar a vida a ler lia, comia, bebia, mijava, cagava e nem sequer fodia porque não me faria falta aliás, acho que se dá demasiada importância ao sexo posso viver como Fernando Pessoa posso julgar-me ao nível dele acho que vou voltar aos crofts e às macieiras há vinte anos em Ofir estava num determinado caminho de excesso a seguir uma via muito própria era único mas depois desviei-me as moedas em cima da mesa chegam para o café as duas miúdas que entraram são engraçadas o ministro das Finanças deprime-me se tivesse a carteira recheada ficava noite fora a beber tive dinheiro em Junho mas fiquei com tonturas por causa dos quadrados e dos rectângulos no chão ouço os meus semelhantes mas eles não me conseguem surpreender porra a merda do café também dá cá um speed imagina se passasse a tomar seis ou sete por dia o que não seria? Passar o dia inteiro a produzir sou o maior poeta vivo sou o pateta da caneta sou aquele que espera e não cai vou parar um pouco vou mijar interromper a obra-prima já disse, não vejo as minhas primas há muito tempo até gostava muito de uma mas enfim, não lhe liguei armei-me em poeta há qualquer droga que me faz escrever assim ou vem tudo da mente? Demente já fui agora sou um cidadão respeitável que vem escrever para o Piolho e que não deixa dívidas há 20 anos andei aqui aos berros por causa do Fidel o Tintin no ecrã o capitão Haddock com mil raios etc e tal chegarei a casa vivo ou desfalecerei exausto de trabalho? Tomai lá, ó obreiristas! Quem me explora? Onde está o meu salário?
[texto de antónio pedro ribeiro]
[texto de antónio pedro ribeiro]
TRIP NO PIOLHO
Sou o maior poeta vivo. Poderia dizê-lo. Ainda estou vivo e não vejo outros melhores. Talvez esteja a exagerar. Mas o que é que me impede? Pelo menos, tal como Pessoa, escrevo a um ritmo frenético. Sou o maior poeta vivo. Bem, morto não estou. A médica fala-me de AVC's e de ataques cardíacos. Mas eu vou prosseguindo a viagem. Mesmo que venham dilúvios eu vou permanecer aqui. A conversa dos outros é a matéria-prima. Gostava das minhas primas mas já não as vejo há muito tempo. Segui o meu caminho. Para alguns, o caminho da perdição. Já me apelidaram de maldito. Os outros bebem e eu não. Não preciso. Estou com o pedal todo. D. Sebastião em Alcacer-Quibir com um exército de fantasmas. Sou o maior poeta vivo. O que ganho com isso? Ninguém paga a minha arte. Continuo a escrever. É isso que sei fazer. Poderia escrever continuamente durante horas e horas. Gasto tinta e papel. Têm um preço. Mas um valor muito superior. Porque raio é que uma maluca qualquer não vem falar comigo? Sou obrigado a ver jogos em cima de jogos? Sou o maior poeta vivo. Ser ou não ser, eis a questão. Só não utilizo palavras herméticas. Dama oculta, vem ter comigo esta noite. Dá-me o teu coração e a tua beleza. Estou no Piolho à tua espera, antes que chegue o chato do costume. Um homem puxa tanto pela cabeça e é esta a recompensa que tem? Estou lúcido como Álvaro de Campos. Pensar é a minha profissão. Passo os pensamentos para o papel. Hoje sou absolutamente capaz de o fazer. Não há limites, ó velhote do boné. No piolho escrevo o poema infinito. Escreverei até morrer. Emendo aqui e ali. Escrita automática et voilá. Eia, Breton, eia, Péret, eia, Artaud. Volto aos surrealistas. Por um lado, ainda bem que as mulheres não vêm. Nem elas nem ninguém. Produzo livremente. Olha, sou um trabalhador da palavra! E esta, ein, ó Fernando Pessa? Um operário da palavra. Um proletário, logo eu. Tantas vezes acusado de preguiça, de desleixo, de vadiagem. Sou vadio mas produzo. Vou montar uma fábrica. Empresário, eu? Deus me livre! E o que é que Deus tem a ver comigo? E o que é que é Deus? Porque se fala tanto em Deus? Deus morreu. Deus nunca existiu. Sou o maior poeta vivo. Bebo copos com ninguém. Estou em tertúlia comigo próprio. Olho as horas. Penso. Todo eu sou pensamento. Mas a miúda da mesa do lado fala. Existe. O velhote do boné também e o Adriano e os outros empregados e o sr. Martins e a Via Láctea e o Universo talvez até Deus
Poderia passar a vida a ler lia, comia, bebia, mijava, cagava e nem sequer fodia porque não me faria falta aliás, acho que se dá demasiada importância ao sexo posso viver como Fernando Pessoa posso julgar-me ao nível dele acho que vou voltar aos crofts e às macieiras há vinte anos em Ofir estava num determinado caminho de excesso a seguir uma via muito própria era único mas depois desviei-me as moedas em cima da mesa chegam para o café as duas miúdas que entraram são engraçadas o ministro das Finanças deprime-me se tivesse a carteira recheada ficava noite fora a beber tive dinheiro em Junho mas fiquei com tonturas por causa dos quadrados e dos rectângulos no chão ouço os meus semelhantes mas eles não me conseguem surpreender porra a merda do café também dá cá um speed imagina se passasse a tomar seis ou sete por dia o que não seria? Passar o dia inteiro a produzir sou o maior poeta vivo sou o pateta da caneta sou aquele que espera e não cai vou parar um pouco vou mijar interromper a obra-prima já disse, não vejo as minhas primas há muito tempo até gostava muito de uma mas enfim, não lhe liguei armei-me em poeta há qualquer droga que me faz escrever assim ou vem tudo da mente? Demente já fui agora sou um cidadão respeitável que vem escrever para o Piolho e que não deixa dívidas há 20 anos andei aqui aos berros por causa do Fidel o Tintin no ecrã o capitão Haddock com mil raios etc e tal chegarei a casa vivo ou desfalecerei exausto de trabalho? Tomai lá, ó obreiristas! Quem me explora? Onde está o meu salário?
[texto de antónio pedro ribeiro]
"CAFÉ PARAÍSO" NA "BRASILEIRA" DE BRAGA

As palavras são de António Pedro Ribeiro, na Brasileira de Braga, numa casa cheia, saboreando o “Café Paraíso” e partilhando poemas de café com amigos: “Faço declarações de amor a Braga e à Brasileira. Sou o poeta da Brasileira e do Piolho. (…) A cidade está viva e eu também.“. O jornalista Alexandre Praça contou histórias de tempos revolucionários e a fotógrafa Ângela Berlinde elogiou a poesia de António Pedro Ribeiro, o único poeta de café e um homem do mundo.
Friday, December 16, 2011
NA PÓVOA

Na Póvoa, de novo. Escrever é fazer parte do mistério. É cantar o mundo, cantar a vida. É estar aqui parado a puxar pela cabeça, é ir ao fundo do problema.
É também estar aqui a beber cerveja. A observar os outros. A agarrar a vida. Hoje tenho cacau nos bolsos para desbundar. Sou um escritor. Escrevo. Vivo das palavras. Venho ao local de encontro com duas horas de antecedência. Vou até Montalegre filmar. Bebo. Sou contra o mundo. Não aceito os mercados nem os governos dos mercados. Não tenho de alinhar com os alinhados. Sou um poeta maldito. Bebo. Estou à mesa. Começo a ficar farto dos poemas de café. Quero ser um poeta maior. Farto-me que digam que sou o último dos poetas de café. Quero ser maior. Como Rimbaud, como Shakespeare. Quero escrever como um bardo. Estou a caminho do reconhecimento em vida. Sim, agora sinto-o. Estou na via. Apesar das doenças, estou na via. Não me tirais isso, ó vendilhões. Não me tirais isso, ó merceeiros. Bebo. Estou ébrio de vida. Celebro a vida. Sou o poeta à mesa que aguarda o Conde Ferreira. Bebo porque tenho o direito de beber. Bebo porque estou à mesa vivo. Os outros abandonaram o café. Eu estou vivo. Mais vivo do que nunca. Escrever é a minha missão. Sou o homem que escreve em frente ao copo. Nada mais. Se tivesse mais dinheiro passava o dia a beber. Claro, conversava com as minhas amigas. Não, não alinho nessa estratégia de esconder-me do mundo, nesse colocar-me totalmente à margem. Sou de mim. Sou dono do copo. Escrevo o que me apetece, o que me dá na real gana. Não sou, de facto, inferior a alguns que andam por aí a pavonear-se. Venho dos grandes. Nada tenho a ver com o BPN nem com o Cavaco. Sou um homem livre, pronto a enfrentar o mundo. Estou aqui na Póvoa. A Póvoa já me deu muito. Estou como o Jaime com dinheiro para a cerveja. Já não sou do Bloco de Esquerda. Mas ainda tenho opiniões políticas. Não quero bancos. Não gosto de bancos. Nem sequer tenho conta bancária. Os mercados fodem-me a cabeça. A Europa a ruir e eu aqui. Sou louco, muito louco. Estou-me nas tintas para a Merkel! Quero a Europa a cair de vez. Esta Europa. Também não atino com governos de banqueiros e tecnocratas. Estou farto. O que é que o Lobo Antunes diz mais do que eu? Eu escrevo sobre mim próprio. Fernando Pessoa também o fazia. Não estou em crise. Não atireis a crise para cima de mim. Sou escritor. Publico livros. Ganho algum dinheiro com os livros. Não tenho que obedecer ao governo, não tenho de dar o benefício da dúvida ao governo. Odeio o governo. Defendo um golpe militar como o Otelo. Não me domesticais. Estou à mesa e escrevo. Faço disso a minha vida. Aqui na Póvoa, hoje, proclamo a minha soberania. Não me atireis Cavacos! Não me obrigueis a ouvi-lo. Estou farto desses chacais. Sou o homem do mundo. Sou o homem que dança. Bebo. Com todo o direito. Já não sou nenhum puto. Bebo, porra! Não me venhais dizer o que tenho de fazer. Bebo, sou bêbado, tenho todo o direito a sê-lo. Não me atireis cavacos. Não me atireis conversa fiada. Estou farto do Passos e do Cavaco. Quero que caiam! Estou farto do paleio da economia. Não, não conteis comigo. Eu estou na estrada certa. Eu estou na estrada larga. Sou de Whitman, de Miller. Não sou dos menores. Estou farto de menores. Escrevo. Faço horas neste café à espera do Conde Ferreira, como em Paredes de Coura. Vivo. Tenho palavras, solto palavras. Sou o anjo maldito. Não sou dos mercados. Quero que os mercados se fodam e o Paulo Bento também! Basta! Estou farto de mediocridades. Estou farto de poetas menores. Sinceramente, depois do décimo livro, já não me situo no clube dos poetas menores. Sinceramente já percorri um caminho. Não sou dos que se andam para aí a pavonear-se. Sou Deus. Eterno e omnipresente. Nada tenho a perder. Tenho tudo a ganhar. Não, não me atireis os escritores da moda. Estou farto deles. Escrevo melhor do que eles. Sou capaz. Eu sei que sou capaz. Não, nada de menoridades. Sinceramente, ao décimo livro, atingi um patamar. Não sou o poeta da moda. Não sou o poeta “in”. Vou até ao fim. Farto-me de futeboleiros.
Sunday, December 11, 2011
A LINGUAGEM DO INÍCIO DO MUNDO

A LINGUAGEM DO INÍCIO DO MUNDO
Pensar todo o pensável. Exercitar o pensamento. Poderia passar a vida a pensar. Mas depois há o amor, a liberdade. Acabo por não me fechar totalmente no meu pensamento. Lanço pontes para o mundo. Tenho necessidade de comunicar. Poderia passar os dias aqui em Braga com a Gotucha e dedicar-me ao livro. Ao livro que já está, em parte, em “Nietzsche, Jim Morrison, Henry Miller…” mas que importa continuar a construir. Ao livro que pretende construir o homem. O homem que, apesar das suas fragilidades, se eleva e se enobrece no café. O homem que aspira a ser santo. Que vê o mundo com novos olhos. Cujo pensamento se liberta. Que ainda é o poeta beat mas que dele se afasta. Sou feliz aqui em Braga. Posso dizê-lo. Não sinto isto em mais nenhum lugar. Espero a Gotucha. Ela dá-me o amor. Já não estou deprimido. Estou curado, ouço a voz do meu pai. Não te inquietes mais com o que tens de comer ou de beber. Segue a via. Continua na via que tens seguido e vai-te aperfeiçoando. Lê os mestres. Segue a via que conduz a si mesmo. Áquele que eras quando nasceste. Afasta-te da publicidade e da propaganda. Sê puro cada dia. Não ouças a voz da populaça. Bem sabemos que ainda ligas às glórias do mundo. Bem sabemos que amas o aplauso. Todavia, há em ti a sede de infinito. Há em ti o desejo de ser único. O desejo de beber o cálice sagrado, de o partilhares com as eleitas. Há em ti a vida abundante, a vida pela vida, fora do mercado, mesmo que aparentemente sejas apenas o homem à mesa. Vibras, explodes no acto da criação. Há espíritos que dançam em ti, ó poeta. Não, no fundo, nunca te deixaste enganar pelo ecrã. Não precisas de mediadores, tens-te a ti e à Gotucha. Tens um mundo dentro de ti. Estás inundado de vida plena. Hoje, 10 de Setembro, às 4:20 da tarde, no “Doce Convívio”. Compreendes a linguagem das crianças. Falas a linguagem do início do mundo. Tantas vezes não a conseguiste expressar, tantas vezes tropeçaste nas palavras e agora estás aqui com o olhar inaugural. Cedeste por vezes mas não caíste. Chegaste aqui. Estás no Uno. És único. Agarras a liberdade absoluta. Nada tens a ver, de facto, com os poetas menores. Conhecês-te-os, ouviste-os, mas não és deles. Nunca deste grande importância às flores mas agora começas a ama-las. És, de facto, o poeta. Aquele que vive a obra. Que não passa a vida a pensar na próxima refeição. Aquele que esquece as horas e está com a que esquece as horas. Aquele que toma café despreocupadamente porque está no início do mundo. Aquele que já não tem constrangimentos. Que pode ser aquele que realmente é, sem máscaras. Que tem o universo à sua mesa.
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Monday, December 05, 2011
O MEDO DE VIVER

O MEDO DE VIVER
por: António Pedro Ribeiro
A nossa sociedade está dominada pelo medo.
Como diz Joaquín EStefanía em "A Economia do Medo":
"hoje não se trata somente dos temores tradicionais da morte, do inferno, da doença, da velhice, do terrorismo, da guerra, da fome, das radiações nucleares, dos desastres naturais, das catástrofes ambientais, mas também do medo de um novo poder denominado de ditadura dos mercados, que tende a reduzir os benefícios sociais e as conquistas da cidadania do último meio século".
A ditadura dos mercados, entidade sem rosto, reduz-nos, via media, ao medo e à impotência.
Todos lhe prestam vassalagem, mesmo que aparentemente a critiquem, desde os governantes europeus e nacionais aos politiqueiros da oposição moderada.
E o medo impõe-se por todo o lado,
"o medo é uma emoção que imobiliza, que neutraliza, que não permite actuar nem tomar decisões com naturalidade",
ainda Estefanía:
"os que exercem o poder submetem os medrosos e injectam-lhes a passividade e a privatização das suas vidas quotidianas, levando-os a refugiarem-se no lar".
Daí que tenhamos uma sociedade ao estilo da do "Big Brother" de George Orwell onde todos desconfiam de todos, onde o companheirismo, a espontaneidade, o comunicar com o desconhecido começam a rarear.
Todos se fecham na sua concha.
É a sociedade-espectáculo de Guy Debord onde nos limitamos a ser espectadores de um filme que não controlamos, onde mulheres de sonho se passeiam pelos ecrãs sem que as possamos tocar.
É a sociedade da compra e venda em que por detrás de uma aparencia de alguma afabilidade se escondem os monstros da ganância, da rapina, da contabilidade, do economês, do medo: do medo de ficar desempregado, do medo dos jovens não arranjarem trabalho por muito que estudem, do medo de empobrecer, do medo de gastar o que temos porque aparentemente nem sequer é nosso.
Segundo Joaquín Estefanía:
"para nossa desgraça isto cada dia se parece mais com a Grande Depressão. Nunca antes tão poucos deveram tanto dinheiro a tantos".
Eis no que deu o capitalismo, eis no que deu a ditadura dos mercados: no medo de viver, no medo de existir.
É absolutamente trágico.
Saturday, December 03, 2011
SOPHIA
«Os ricos nunca perdem a jogada
Nunca fazem um erro. Espiam
E esperam os erros dos outros
Administram os erros dos outros
São hábeis e sábios
Têm uma larga experiência do poder
E quando não podem usar a própria força
Usam a fraqueza dos outros
Apostam na fraqueza dos outros
E ganham
Tecem uma grande rede de estratagemas
Uma grande armadilha invisível
E devagar desviam o inimigo para o seu terreno
Para o sacrificar como um toiro na arena.
Sophia de Mello Breyner Andersen
(Os Gracos. I Acto. II Cena – Obras completas - 1968)
Nunca fazem um erro. Espiam
E esperam os erros dos outros
Administram os erros dos outros
São hábeis e sábios
Têm uma larga experiência do poder
E quando não podem usar a própria força
Usam a fraqueza dos outros
Apostam na fraqueza dos outros
E ganham
Tecem uma grande rede de estratagemas
Uma grande armadilha invisível
E devagar desviam o inimigo para o seu terreno
Para o sacrificar como um toiro na arena.
Sophia de Mello Breyner Andersen
(Os Gracos. I Acto. II Cena – Obras completas - 1968)
Friday, December 02, 2011
A NOSSA HORA

A NOSSA HORA
Senhores sem escravos
eis a nossa sina
somos lúcidos, porra!
Discernimos
o bem da porcaria
vimos de outros lugares
da santa loucura
cremos na honra
cavaleiros do caos
e da nova aurora
não somos da moeda
mesmo que a usemos
somos lúcidos, porra!
Não vimos cantar as florzinhas
nada devemos a ninguém
caminhamos de cabeça erguida
bebemos o cálice da honra
cometemos erros, é certo
mas não temos
de carregar a cruz
bebemos com honra
nada temos que ver
com o vosso calendário
com o vosso quotidiano
com a vossa hora
fomos nobres outrora
reis, profetas
arautos da glória
odiamos o pequeno
a pequena intriga
vimos de Shakespeare, de Sócrates,
de Nietzsche
amamos a sabedoria
queremo-la como à mulher
ao balcão
que se insinua
loucos divinos
eis o que já disseram de nós
afastai de mim
esses versejadores menores
temos a honra, porra
Jaime, Carlos
temos a honra
meu pai
temos a glória
bem podem tentar
encerrar-nos no manicómio
bem podem tentar
converter-nos à máquina
nós fraquejamos
mas voltamos sempre
não somos da bola
somos eternos
magníficos
capazes da maldade
e da ternura
não, não nos confundais
com os menores
amamos o abismo e a loucura
combatemos ao lado
dos leões e das àguias
rompemos correntes
não, não espereis de nós
benevolência
sabemos ser amáveis, é certo
mas trazemos a espada
queremos as nossas damas de volta!
Queremos, como os aqueus,
a nossa Helena
estamos prontos para a guerra
tremei, ó menores,
chegou a hora.
Vilar do Pinheiro, Café Central, 1.12.2011
OS CEGOS E OS IMBECIS
Segundo a "Transparência Internacional", organização global da sociedade civil, a corrupção no sector público é um dos principais factores da crise da dívida em Portugal. Ainda de acordo com a organização, "os países da zona euro que sofrem crises da dívida, em parte devido à falha das autoridades públicas em combater o suborno e a evasão fiscal que são motores fundamentais dessa mesma crise" estão entre os estados da União Europeia com pontuações mais desfavoráveis.
Eis a origem da "nossa" dívida. Passos Coelho anda a sacar os subsídios aos reformados e aos funcionários públicos, anda a empobrecer os portugueses, em nome de dívidas contraídas por corruptos e burlões da política e da economia. Eis a moral dos governantes, dos mercados e dos banqueiros. Não temos de pagar dívida nenhuma. Não contraímos dívida nenhuma. Passos Coelho, Cavaco e os burlões que paguem a dívida. Deixemos, de uma vez por todas, em Portugal, como na Itália, como na Grécia, de acreditar nas patranhas que esses senhores nos vendem todos os dias. Deixemos de acreditar no Pai Natal e na banha da cobra. Acordemos de uma vez por todas. O império está a cair. Já mal disfarça. Deixemos de ser os cegos que se deixam dominar por este bando de imbecis, como dizia Shakespeare. Elevemo-nos, tornemo-nos senhores, cavaleiros, como outrora. Nada paga a nossa honra.
www.jornalfraternizar.pt.vu
Friday, November 11, 2011
A. PEDRO RIBEIRO NA WORLD ART FRIENDS

A. Pedro Ribeiro ou António Pedro Ribeiro nasceu no Porto no Maio de 68. Tem permanecido em Braga, Porto, Trofa e Vilar do Pinheiro (Vila do Conde). Está a lançar o livro de crónicas e pensamentos "Nietzsche, Jim Morrison, Henry Miller, os Mercados e Outras Conversas" (Corpos/World Art Friends" e publicou as obras de poesia "Um Poeta no Piolho" (Corpos, 2009), "Queimai o Dinheiro" (Corpos, 2009), "Um Poeta a Mijar" (Corpos, 2007), "Saloon" (Edições Mortas, 2007), "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro" (Objecto Cardíaco, 2006), "Sexo, Noitadas e Rock n' Roll" (Pirata, 2004), "Á Mesa do Homem Só. Estórias" (Silêncio da Gaveta, 2001) e "Gritos. Murmúrios" (Com Rui Soares, Grémio Lusíada, 1988). É fundador da revista literária "Aguasfurtadas". Colaborou o colabora nas revistas "Piolho", "A Voz de Deus", "Cráse", "Bíblia", entre outras. Actuou como diseur/performer nos Festivais de Paredes de Coura de 2006 (ao lado de Adolfo Luxúria Canibal e Isaque Ferreira) e de 2009 (com a banda Mana Calórica) e nas "Quintas de Leitura" do Teatro Campo Alegre em Outubro de 2009 com o espectáculo "Um Poeta no Sapato", local onde regressa a 26 de Maio com a performance "Se me Pagares uma Cerveja estás a Financiar a Revolução", acompanhado de Susana Guimarães. Coordena, com Luís Carvalho, as sessões de "Poesia de Choque" no Clube Literário do Porto e tem dinamizado as sessões de poesia dos bares Púcaros e Pinguim, no Porto. Foi activista estudantil na Faculdade de Letras do Porto e no Jornal Universitário do Porto. É licenciado em Sociologia e é cronista em jornais. Há quem lhe chame provocador, agitador profissional.
És um dos poetas portugueses com maior ascensão mediática da atualidade. O que significa para ti estar na moda?
R:Eu não sei se estou na moda. Mas sei que nestes tempos de agitação nacional e internacional os meus poemas e textos têm uma maior receptividade, sobretudo junto da juventude. Julgo que fenómenos como os "Homens da Luta" ou os Deolinda não tem acontecido por acaso, se bem que não se possam comparar a Zéca Afonso, José Mário Branco ou, claro, aos Doors. Contudo, creio que não podemos andar sempre agarrados ao passado. Penso que estamos a atravessar uma fase é que há muita gente que se começa a fartar dos políticos cinzentos, escravos dos mercados e de Bruxelas e mesmo da própria linguagem financeira, que só alguns iluminados entendem. Daí que um certo tipo de escrita mais subversiva, que apele à liberdade e à vida plena, entre mais nas pessoas. Acrescento, no entanto, que a moda e a fama, como há vários exemplos na história da arte, podem ser perigosas e criar ilusões desmedidas.
Uma das tuas facetas mais conhecidas é a declamação. Consegues reunir à tua volta mesmo quem por norma não gosta de Poesia. Fala-nos deste fenómeno.
R: Penso que isso também tem que ver com a resposta anterior. Eu não escrevo só textos subversivos ou sarcásticos mas creio que no contexto actual há um conjunto de pessoas que não se revê em certa poesia mais lírica, que eu respeito, e que aderem mais a algo que tenha a ver com a revolução interior, com as questões que colocam a si próprias no dia-a-dia, com a revolta pura e simples perante um mundo que não serve. Digo poesia há mais de 22 anos, já fui vaiado, já tive recepções indiferentes, mas também tive, digamos assim, noites de glória, onde há pessoas que se comovem e que vem falar comigo no fim. Eu não vou dizer que falo a linguagem do cidadão comum, nem sequer ando atrás de maiorias, mas penso que, e este último livro é também um livro de reflexão, que a minha linguagem, talvez por influência do jornalista que já fui, não é hermética nem difícil e fala da vida concreta, não a vida da mecearia, mas, muitas vezes, a vida do homem que vai ao café ou ao bar e observa os outros, sendo também actor. Por outro lado, para dizer bem um texto meu ou de outro, eu tenho de senti-lo. Penso que é também por viver sobretudo os meus textos que as pessoas aderem mais.
Onde entra, na tua carreira artística, o A.Pedro Político?
R:A política, para mim, não faz sentido sem a arte. Como diziam os surrealistas é impossível separar os problemas do amor, da liberdade, da revolução. Fui militante do PSR e do Bloco de Esquerda e candidato a várias coisas mas fartei-me da separação dirigentes/dirigidos e duma linguagem eleitoralista, quase sempre económica, que não questiona o que estamos a fazer aqui, o sentido da vida. Eu intervenho na praça pública. Ainda há dias fui dizer poemas contra os mercados e os banqueiros para a Avenida dos Aliados. Tenho colaborado com organizações anarquistas. Mas sei que o essencial é a construção de um homem novo, na esteira de Nietzsche, Jim Morrison, Henry Miller e mesmo Jesus, um homem livre que dance e cante, que ultrapasse o homem pequeno dos mercados, da competição e da mercearia. É por esse homem que me bato
Qual foi para ti o momento mais alto, até agora, da tua carreira?
R: O momento mais alto da minha carreira foi a actuação no Festival de Paredes de Coura 2006 ao lado do Adolfo Luxúria Canibal e do Isaque Ferreira. Foi no Centro Cultural. Estavam 500/600 pessoas. Eu improvisei. As pessoas riam, divertiam-se, tive uma ovação enorme. Depois veio a bad trip. A fama subiu-me à cabeça...ouvia vozes, tive alucinações.
Fala-nos dos teus projetos futuros.
R: Quero que os meus livros andem por todo o lado, como a Bíblia.
Obras marcantes:
"Assim Falava Zaratustra", Nietzsche.
"Plexus", Henry Miller.
"Os Cantos de Maldoror", Lautréamont.
Fonte de inspiração:
Algumas mulheres.
Tudo o que me rodeia.
Filme Preferido:
"Appocalipse Now", Francis Ford Coppola.
Canção de Eleição:
"The End" dos Doors.
Imagem:
a morte de Che Guevara.
Palavra:
Livre.
Jantar:
com aquela que amo.
Thursday, November 10, 2011
OS CHACAIS E OS ABUTRES

"A crise continua a ser aproveitada pelos maiores investidores, entre os quais Warren Buffett. A Berkshire Hathaway investiu 23,9 mil milhões de dólares (17,4 mil milhões de euros) no terceiro timestre do ano, o montante mais elevado dos últimos quinze anos. Na informação revelada em comunicado à SEC, regulador do mercado de capitais norte-americano, a Buffett revela que a maior parte do investimento se concentrou em empresas cotadas dos sectores comercial, industrial e outros."
(Jornal de Notícias, 8/11/2011)
Eis os respeitáveis investidores. Eis o rosto dos mercados, as aves de rapina, os chacais, os abutres, que jogam no casino global e nos sugam o sangue. Warren Buffett, Berkshire Hathaway, afinal há nomes. É a estes senhores que os governos de Obama, Merkel, Sarkozy, Passos Coelho obedecem. É em nome destes senhores que nos pedem a pele e sacrifícios sobre sacrifícios. Que se sacrifiquem o Buffett, o Obama, a Merkel, o Passos, o Sarkozy. Deixemos de lhes confiar o voto e a carteira. Desobedeçamos de uma vez por todas. Declaremos-lhes guerra. Não podemos suportar mais facadas. Não permitamos que nos transformem em macacos iguais a eles. Esqueçamos os futebóis e a propaganda que nos vendem nos media. "O carvalhal é nosso!" Eles estão a roubar o que é nosso. "Contra a pilhagem da volúpia, a volúpia da pilhagem", como dizem os Mão Morta.
CAFÉ PARAÍSO

1- "Café Paraíso" surge no seguimento de outros livros que publiquei como "Á Mesa do Homem Só", "Saloon", "Um Poeta no Piolho", que têm como pano de fundo a vivência dos cafés e também dos bares. É uma homenagem às figuras do café: o gerente, os empregados de mesa, a mulher que passa, que se passeia ou que está ao balcão, a que às vezes ofereces poemas e que raramente é tua, o bêbado, os teóricos... de café, os revolucionários de café, as tertúlias com poetas, escritores e outros. É também o retrato da cuscovilhice das mulheres, dos homens que passam a semana a falar de futebol sem outro assunto, do louco que berra, dos programas da tarde imbecis que passam na TV. É também o homem à mesa, o poeta, que escreve, lê e observa, que se revolta com o mundo dos mercados e da finança.
LANÇAMENTO ANTÓNIO PEDRO RIBEIRO, PIOLHO, SÁBADO, 12, 18,30H APRESENTAÇÃO CARLOS MAGNO
Friday, November 04, 2011
POETA MALDITO

Ei, tu aí, Wall Street,
julgas-te toda-poderosa
mas não passas de uma treta
ei, vós, bolsas, mercados,
não sois mais
que tigres de papel
ei, multinacionais,
telejornais,
políticos
eu estou aqui
não me deixo levar
pela conversa
o caminho é meu
sofro
mas depois subo
não me condenais
prefiro ir
até ao inferno
ao menos lá
sou autêntico
ao menos lá
sou sincero
parto vidros
ameaço
ponho o país a arder
prefiro ser só
único
irrepetível
vou até ao fim
não me levais
a Europa está perdida
atirais palavras
ao caos
morreis aos poucos
não tendes futuro
"no future"
com os Clash
e os Sex Pistols
agora sou punk
pilho supermercados
não espereis de mim
moderação
estou farto
daquelas histéricas
na televisão
o caos aí à porta
e elas a dar prémios
absurdo
é absurdo
tendes pés de barro
sou o poeta
que vos desafia
hoje, 4 de Novembro
de 2011
cuspo-vos na cara
atiro-vos pedras
como em Atenas
sou o único
basto-me a mim próprio
sou soberano de mim
e das minhas ideias
sou vontade
posso
possuo
crio
destruo
sou eu próprio Deus
não quero notícias
não quero marcas
não quero mentiras
deixai-me a sós
com o meu espírito
deixai-me a sós
com Hamlet
não vos reconheço
não vos cumprimento
na rua
sou de mim
regresso a mim
não trabalho
não quero trabalhar
ide vós trabalhar
16 horas por dia
para o governo
eu não vos pertenço
eu permaneço
aqui neste café às moscas
é noite lá fora
e eu estou iluminado
abençoado pelos deuses
a escrita flui
cavalga
hoje nem sequer espero a mulher
a potência voltou
não sou o Rodrigues dos Santos
nem o Sousa Tavares
eu sou a POTÊNCIA
embriago-me sem álcool
dialogo com Sócrates e Jesus
Ei, Wall Street
ei, Bruxelas
ei, Frankfurt
olhai, sou um pássaro
sou uma luz
bem sei que nem sempre
dou importância à forma
mas este é o poeta maldito
não o queríeis?
Pois, é ele
aqui está
a assustar as velhinhas
e as vizinhas
ele aqui está
mais saudável do que nunca
mais lúcido do que nunca
o café é o seu castelo
daqui combate os inimigos
daqui abraça os amigos
a sua arma é a caneta.
UM ESCRITOR QUE SE PREZE
Um escritor que se preze deve aproveitar a inspiração. Um escritor que se preze deve fazer a revolução. Um escritor que se preze deve permanecer à mesa, deve escrever para o mundo em redor. Um escritor que se preze deve cantar o amor.
Wednesday, November 02, 2011

Poderia talvez escrever um texto épico mas não sei se sou capaz. Poderia invocar os deuses, iluminar-me a meio da tarde chuvosa.
Não consegui passar da segunda página do Lobo Antunes. Não sei se tenho algum problema com o homem. Serei "o homem livre na terra livre"? Não sei, há coisas que me reprimem. As iluminações não vêm. Tenho de escrever o que vem. A mente está bloqueada. Deseja a mulher ao balcão. Poderia escrever um texto épico. Tomei quatro cafés mas não fazem efeito. Estamos a meio da tarde e eu aqui. Acordei demasiado cedo. A Gotucha diz que faço bem em dedicar-me à filosofia e à literatura. O "Café Paraíso" está quase pronto. Não há motivos para andar deprimido. Está um pouco mais de luz lá fora. Não suporto o pimba televisivo da tarde. Possivelmente serei candidato à presidência de uma Câmara. Escrevo desta forma, aparentemente desconexa, como alguém disse. É a minha forma de escrever, pronto. Que querem? Não sou o Lobo Antunes. Tenho lido mais filosofia do que literatura. Procuro um livro que me encante. Sou único. Não sou o homem. Escrevo ao sabor dos ventos. Escrevo porque nada mais há a fazer. Escrevo porque não quero morrer. Estou aqui. Existo. Tenho todo o direito a estar aqui. Sou o único, porra. Outros trabalham, eu dedico-me à literatura. Escrevo. Não sou menos do que ninguém! Antes pelo contrário. Olho as horas. Gasto a caneta. As horas vão passando. Mais logo dá o Benfica. Não gosto de fado. Sou louco. Nada a fazer. Sou louco, porra! Não me barres a entrada, ó Sampaio! Estava alucinado, porra. é proibido ter alucinações? O país cai e eu subo. O país arde e eu também. Vou para a rua dançar.
REGRESSO À ALDEIA

O poeta regressa à aldeia. Escreve. Ninguém o ameaça. O "crash" das bolsas fá-lo feliz. A chávena de café à sua frente. Está ainda sonolento. Pensa na Gotucha. Pensa passar a tarde a ler e a escrever. É capaz de actos de loucura como recentemente em Braga. Não esperem dele respeitabilidade permanente. Já teve várias namoradas. Funga o nariz. Está constipado. É único, segundo Stirner. A televisão foi à vida. O poeta rejubila. Prefere o silêncio.
Sunday, October 30, 2011
FILHO DO SOL

A agitação mantém-se. Não consigo dormir. Escrevo para mim e para os deuses. Sou o intérprete da palavra divina. Não sou quem era mais. Sou o novo homem. O anunciado por Zaratustra. Olho a janela em busca da manhã. Ela ainda não vem. Uma parte de mim boceja mas não é suficiente para conseguir dormir. Sou do dia que principia. Sou filho do sol. Do Grande Meio-Dia. Ouço os galos. Nego Jesus. Terei algo a ver com ele. Também eu sou um pregador. Não da morte, mas da vida. Da vida que brota e se anuncia com a manhã. Da vida que é vontade e movimento. Celebro o triunfo da arte sobre a sobrevivência. Sou eu mesmo o artista/criador. Não quero sobreviver, sub-viver, quero viver. Quero a celebração permanente.
Saturday, October 29, 2011
TRIP NO PIOLHO

TRIP NO PIOLHO (texto de ANTÓNIO PEDRO RIBEIRO)
[texto de antónio pedro ribeiro]
TRIP NO PIOLHO
Sou o maior poeta vivo. Poderia dizê-lo. Ainda estou vivo e não vejo outros melhores. Talvez esteja a exagerar. Mas o que é que me impede? Pelo menos, tal como Pessoa, escrevo a um ritmo frenético. Sou o maior poeta vivo. Bem, morto não estou. A médica fala-me de AVC's e de ataques cardíacos. Mas eu vou prosseguindo a viagem. Mesmo que venham dilúvios eu vou permanecer aqui. A conversa dos outros é a matéria-prima. Gostava das minhas primas mas já não as vejo há muito tempo. Segui o meu caminho. Para alguns, o caminho da perdição. Já me apelidaram de maldito. Os outros bebem e eu não. Não preciso. Estou com o pedal todo. D. Sebastião em Alcacer-Quibir com um exército de fantasmas. Sou o maior poeta vivo. O que ganho com isso? Ninguém paga a minha arte. Continuo a escrever. É isso que sei fazer. Poderia escrever continuamente durante horas e horas. Gasto tinta e papel. Têm um preço. Mas um valor muito superior. Porque raio é que uma maluca qualquer não vem falar comigo? Sou obrigado a ver jogos em cima de jogos? Sou o maior poeta vivo. Ser ou não ser, eis a questão. Só não utilizo palavras herméticas. Dama oculta, vem ter comigo esta noite. Dá-me o teu coração e a tua beleza. Estou no Piolho à tua espera, antes que chegue o chato do costume. Um homem puxa tanto pela cabeça e é esta a recompensa que tem? Estou lúcido como Álvaro de Campos. Pensar é a minha profissão. Passo os pensamentos para o papel. Hoje sou absolutamente capaz de o fazer. Não há limites, ó velhote do boné. No piolho escrevo o poema infinito. Escreverei até morrer. Emendo aqui e ali. Escrita automática et voilá. Eia, Breton, eia, Péret, eia, Artaud. Volto aos surrealistas. Por um lado, ainda bem que as mulheres não vêm. Nem elas nem ninguém. Produzo livremente. Olha, sou um trabalhador da palavra! E esta, ein, ó Fernando Pessa? Um operário da palavra. Um proletário, logo eu. Tantas vezes acusado de preguiça, de desleixo, de vadiagem. Sou vadio mas produzo. Vou montar uma fábrica. Empresário, eu? Deus me livre! E o que é que Deus tem a ver comigo? E o que é que é Deus? Porque se fala tanto em Deus? Deus morreu. Deus nunca existiu. Sou o maior poeta vivo. Bebo copos com ninguém. Estou em tertúlia comigo próprio. Olho as horas. Penso. Todo eu sou pensamento. Mas a miúda da mesa do lado fala. Existe. O velhote do boné também e o Adriano e os outros empregados e o sr. Martins e a Via Láctea e o Universo talvez até Deus
Poderia passar a vida a ler lia, comia, bebia, mijava, cagava e nem sequer fodia porque não me faria falta aliás, acho que se dá demasiada importância ao sexo posso viver como Fernando Pessoa posso julgar-me ao nível dele acho que vou voltar aos crofts e às macieiras há vinte anos em Ofir estava num determinado caminho de excesso a seguir uma via muito própria era único mas depois desviei-me as moedas em cima da mesa chegam para o café as duas miúdas que entraram são engraçadas o ministro das Finanças deprime-me se tivesse a carteira recheada ficava noite fora a beber tive dinheiro em Junho mas fiquei com tonturas por causa dos quadrados e dos rectângulos no chão ouço os meus semelhantes mas eles não me conseguem surpreender porra a merda do café também dá cá um speed imagina se passasse a tomar seis ou sete por dia o que não seria? Passar o dia inteiro a produzir sou o maior poeta vivo sou o pateta da caneta sou aquele que espera e não cai vou parar um pouco vou mijar interromper a obra-prima já disse, não vejo as minhas primas há muito tempo até gostava muito de uma mas enfim, não lhe liguei armei-me em poeta há qualquer droga que me faz escrever assim ou vem tudo da mente? Demente já fui agora sou um cidadão respeitável que vem escrever para o Piolho e que não deixa dívidas há 20 anos andei aqui aos berros por causa do Fidel o Tintin no ecrã o capitão Haddock com mil raios etc e tal chegarei a casa vivo ou desfalecerei exausto de trabalho? Tomai lá, ó obreiristas! Quem me explora? Onde está o meu salário?
[texto de antónio pedro ribeiro]
Friday, October 28, 2011
O HOMEM DO ESPÍRITO E DO CORAÇÃO

O HOMEM DO ESPÍRITO E DO CORAÇÃO
O poder foi tomado por um bando de mentirosos" (Vasco Lourenço)
O poder foi tomado por um bando de mentirosos que nos roubam os subsídios, as conquistas de dezenas de anos, e o próprio ser. O governo de Passos Coelho está ao serviço do poder financeiro, dos "mercados" e dos banqueiros que sacam à vez, da ditadura de Obama, Merkel e Sarkozy e da máquina infernal de propaganda, vulgo media. O hom...em e a mulher, reduzidos a escravos e macacos, afundam-se cada vez mais na depressão, em doenças mentais, no suicídio. O homem está a ser assassinado na sua essência, privado dos seus direitos fundamentais, está a tornar-se num sub-homem com uma sub-vida. Contudo, ao mesmo tempo, vemos as revoltas na Grécia, em Itália, em Inglaterra e mesmo em Portugal. Começa a ser a hora do tudo ou nada, do agora ou nunca, acabou o tempo das "risadas e das doces mentiras". Um novo homem está a nascer dos escombros do capitalismo, um homem que questiona, que cria, que sai para a rua, que parte os bancos e as montras das lojas de luxo. Esse homem não aceita mais as patranhas da TV e dos comentaristas do regime. Esse homem sabe que chegámos a um ponto onde estamos entre a revolução e a barbárie. Esse homem é capaz de interpretar o mundo de hoje e de transformá-lo. Não suporta mais ver o seu irmão cada vez mais a dormir nas ruas, a pedir nas ruas. Não aceita mais ser governado por macacos e imbecis, que nada têm na mente, a não ser números e finanças. Não se identifica com o sub-homem, que se reduz à bola e à intriga. Esse homem diz "merda para Deus" e para todos os deuses, a começar pelo dinheiro. Esse homem vale por si mesmo e é a medida de todas as coisas. Não aguenta mais ser enganado, escravizado. Esse é o homem do espírito e do coração.
ELES ROUBAM-NOS A VIDA
Não, não me venham com histórias. Há dias em que estamos embriagados, dias em que estamos sob o "efeito coca", mágicos, triunfantes, mas isso é sempre passageiro e este mundo de tédio e castração que nos vendem todos os dias vai-nos assassinando, não presta. É o dia dos horários de trabalho, do lazer consumista, do tempo que nos roubam, da vida que nos roubam. São as notícias e a programação imbecil que nos espetam nos cornos e que nos fazem a cabeça. São as relações de tédio, sem amor, que imperam entre as pessoas dentro e fora do trabalho. É a escola que reproduz relações mecanizadas e de subserviência. São as relações de mercado, de compra e venda generalizadas. É a competição e a luta pela sobrevivência. Não, de facto, isto a que chamam "vida" em pleno sec. XXI, em pleno capitalismo dos mercados fede, não presta. Importa dizer que o ser humano está a ser assassinado na sua essência. O sentido da festa, da celebração perde-se em comemorações artificiais ou futebolísticas. A felicidade é uma miragem. A liberdade é sempre condicionada. Importa que o ser humano se consciencialize, que seja capaz de se bater por um mundo de espírito e de coração e não de luta desenfreada. Importa que todos os entediados e todos os deprimidos tomem consciência de que estão a ser oprimidos e que se levantem contra essa opressão. Porque a infelicidade não pode ser mais aceite como uma fatalidade. Porque alguns, os que lideram a máquina, são responsáveis pela nossa infelicidade e pela nossa morte em vida. Não tenhamos dúvidas. Eles roubam-nos a vida. Os macacos da propaganda e dos mercados e todos os que os servem violentam-nos todos os dias.
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