Embora o registo de nascimento mencione o dia 8 de Novembro, Pascoaes parece haver elegido o dia de hoje, 2 de Novembro, Dia de Finados, como dia simbólico para o seu nascimento, o nascimento de alguém saudoso do antes de haver nascido e em perene abertura para o outro mundo ou o trans-mundo, a dimensão invisível e ignota dos seres e das coisas. Republicamos aqui este curso ensaio em homenagem ao Director da revista "A Águia" e eminente poeta e pensador visionário, autor de uma obra vasta e abissal, ainda largamente desconhecida em Portugal e no mundo.
A Loucura de Pascoaes
Quando Abel Salazar publicou um sarcástico e jocoso artigo sobre a pretensa demência de Leonardo Coimbra e Pascoaes, estava decerto a uma distância infinita de compreender quão longe e perto passava da verdade no respeitante ao estranho génio do Marão. Num Ocidente e mesmo num planeta onde a loucura, expulsa do divino e do universo pela racionalidade teológico-filosófica dominante, foi progressivamente exorcizada do homem e confinada aos ghettos da patologia e da santidade, do irracional e do meta-racional - tão abusivamente contrapostos como confundidos - , a vida e obra de Pascoaes constitui uma sincera e desinibida assunção do que a aparentemente triunfante mediania excomungou como subversivo dos lugares comuns da cultura domesticada. Dramatizada em O Doido e a Morte, contemplada nos irónicos auto-retratos dos dois O Pobre Tolo, mas sempre emergente em motivos e lances capitais da obra poética e em prosa, Pascoaes não faz da "loucura" alegoria ou metáfora apenas duma absoluta Razão divina, ou seja, imagem nos limites humanos da Sabedoria e/ou Lei supremas que a tudo possibilitam, ordenam e justificam. Instaurando a irracionalidade no Princípio ou na Origem, quer na figura de um Deus imperfeito em si mesmo ou no acto criador, que neste a si e a toda a criação sepulta nos limites da realidade que lhe é possível, quer na de um delírio divino cuja paixão heteronímica igualmente o plurimorfiza num universo-casa de alienados de Si mesmo, mas que tornando-se Homem e pelo Homem expia a sua hybris maligna - o Satã que, mesmo-outro de Si, o fere na ordem do mundo real - , convertendo-se no Deus-Cristo, cósmico redentor da mínima forma de vida, mediante uma Loucura agora libertadora que incendeia as formas do possível realizado na trans-realidade do Impossível sempre Ausente, Pascoaes furta-se ao terreno onde se digladiam como irmãos gémeos do mesmo conformismo o optimismo e pessimismo, que nos asseguram ser este o melhor ou o pior dos mundos possíveis (Leibniz/Schopenhauer), para entrever na Loucura a potência de Liberdade e Criação que, excedente de qualquer Princípio, Fundamento, Razão ou Ordem ontológica, mesmo divinos, ambiguamente tanto possibilita toda e qualquer forma de determinação existencial como a sua infinita transcensão. Patente no excesso da imaginação sobre o ser e o real, da poesia sobre a ciência e a filosofia e nessa complexa síntese de memória e desejo criador, votada à transfiguradora superação de todo o existente, a que chamou Saudade, a Loucura, tal como Pascoaes a experimentou e traduziu em livros gritantes de singular experiência interior como Verbo Escuro, O Bailado, O Pobre Tolo e Duplo Passeio, sugere-se como o que antecede, possibilita e excede, redimindo-os e deles a tudo redimindo, o Deus criador e os Deuses revelados nos quais positiva e negativamente se fundam as religiões e ateísmos planetários. Não é assim desprezível que, na história da sua evolução espiritual e cósmica, a tenha assumido incarnada no delírio ibérico e predominantemente lusíada, simultaneamente quixotesco e saudoso, vindo o declínio e morte do sol apolíneo no elegíaco crepúsculo do finisterra oceânico a marcar o simbólico contraponto do seu advento helénico, constituindo-se a Grécia, como pátria da Razão, da Beleza e da Deusa, e a Lusitânia-Portugal, como pátria da Loucura, da Fealdade transcendente e da Bruxa, como os paradigmas e pólos mais significativos, antinómicos em sua mesma complementaridade, da história do Espírito, ante os quais tudo o mais se reduziria a vulgaridade: Europa, América e Indústria. Não esqueçamos o exagero como forma de sublinhar a verdade mais remota e dificilmente apreensível...
Se em Pascoaes aflora uma experiência da vida - de arcaico sabor popular e oriental - que poderíamos chamar carnavalesca, na qual realidade e ilusão, verdade e falsidade, se confundem num universo em que tudo só o é sendo simultaneamente o seu outro, o seu visionarismo abre sempre para um sentido de redenção universal pela conversão e potenciação extremas da energia do próprio delírio originário. Convertendo a messiânica busca de instauração terrena do Reino de Deus - emblemática da nossa cultura na mitogonia e hermenêutica quinto-imperial que procede de Gil Vicente e Camões para Vieira, Pessoa e Agostinho da Silva - na tarefa de redimir o imperfeito Deus criador e criar um "novo Deus Infante", concebido no homem pelo ventre virginal da Saudade, ou de assumir no Deus anterior e posterior a tudo o "único ateu perfeito" - o que José Marinho considerou a sua mais profunda intuição - , Pascoaes é hoje, na transição da teologia para a teurgia e o "ateoteísmo" a-teológico, o mais genial e profundo dos nossos poetas metafísicos, o mais poderoso demiurgo da história secreta, onírica e mítica de Portugal e um dos mais desassossegantes desestabilizadores de consciências que visita este mundo de aborrecida gente razoável. Até ao momento ofuscado pelos modismos literários das vaidades urbanas e cosmopolitas, que, sentindo as armaduras intelectuais a romperem-se aos golpes do estro selvático, fizeram de Pessoa repasto dos academismos pessoanos, está por desvelar o fundo nexo entre as obras dos dois grandes poetas, apurando para além da diversidade formal a profundidade essencial das convergências e divergências. Decerto então surgirão um Pessoa e um Pascoaes que se acompanham e separam em muito mais e muito menos do que actualmente se crê, mas, justiça se faça, difícil será encontrar um grande tema pessoano - a começar pela denúncia da ficção da unidade e identidade do ego onto-psicológico - que não tenha sido antecipado e até excedido em profundidade, não em diáfana e perfeita expressão, pelo ?pobre tolo? do Marão, com a nítida vantagem de na poesia deste perpassar a vertigem do Infinito cósmico, graça concedida pelas rústicas Musas ao enamorado calcorreador de penedos e fragas e que as Tágides não lograram fazer romper através das densas paredes mentais dos quartos e cafés lisboetas...
in Paulo Borges, Pensamento Atlântico, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2002, pp.155-157.
Fonte: http://novaaguia.blogspot.com/2008/11/2-de-novembro-homenagem-teixeira-de.html
Tuesday, November 04, 2008
Sunday, November 02, 2008
ARTAUD
Para Acabar com o julgamento de Deus
kré Tudo isso deverá puc te
kré ser arranjado puk te
pek muito precisamente li le
kre numa sucessão pec ti le
e fulminante kruk
pte
Fiquei sabendo ontem
(devo estar desatualizado ou então é apenas um boato, uma dessas intrigas divulgadas entre a pia e a privada, quando as refeições ingurgitadas são mais uma vez devidamente expulsas para a latrina)
fiquei sabendo ontem
de uma das mais sensacionais dentre essas práticas das escolas públicas americanas
sem dúvida daquelas responsáveis por esse país considerar-se na vanguarda do progresso.
Parece que, entre os exames e testes requeridos a uma criança que ingressa na escola pública, há o assim chamado teste do líquido seminal ou do esperma,
que consiste em recolher um pouco do esperma da criança recém-chegada para ser colocado numa proveta
e ficar à disposição para experimentos de inseminação artificial que posteriormente venham a ser feitos.
Pois cada vez mais os americanos sentem falta de braços e crianças ou seja, não de operários
mas de soldados
e eles querem a todo custo e por todos os meios possíveis fazer e produzir soldados
com vista a todas as guerras planetárias que poderão travar-se a seguir
e que pretendem demonstrar pela esmagadora virtude da força
a superioridade dos produtos americanos
e dos frutos do suor americano em todos os campos de atividade e
da superioridade do possível dinamismo da força.
Pois é necessário produzir,
é necessário, por todos os meios de atividade humana, substituir a natureza onde esta possa ser substituída,
é necessário abrir mais espaço para a inércia humana,
é necessário ocupar os operários
é necessário criar novos campos de atividade
onde finalmente será instaurado o reino de todos os falsos produtos manufaturados
todos os ignóbeis sucedâneos sintéticos
onde a maravilhosa natureza real não tem mais lugar
cedendo finalmente e vergonhosamente diante dos triunfantes produtos artificiais
onde o esperma de todas as usinas de fecundação artificial
operará milagres na produção de exércitos e navios de guerra.
Não haverá mais frutos, não haverá mais árvores, não haverá
mais plantas, farmacológicas ou não, e conseqüentemente não haverá mais alimentos,
só produtos sintéticos até dizer chega,
entre os vapores,
entre os humores especiais da atmosfera, em eixos especiais de atmosferas extraídas violentamente e sinteticamente da resistência de uma natureza que da guerra só conheceu o medo.
E viva a guerra, não é assim?
Pois é assim - não é? - que os americanos vão se preparando passo a passo para a guerra.
Para defender essa insensata manufatura da concorrência que não pode deixar de aparecer por todos os lados,
é preciso ter soldados, exércitos, aviões, encouraçados,
daí o esperma
no qual os governos americanos tiveram o descaramento de pensar.
Pois temos mais de um inimigo
que nos espreita, meu filho,
a nós, os capitalistas natos
e entre esses inimigos
a Rússia de Stalin
à qual também não faltam homens em armas.
Tudo isso está muito bem
mas eu não sabia que os americanos eram um povo tão belicoso.
Para guerrear é preciso, levar tiros
e embora tenha visto muitos americanos na guerra
eles sempre tiveram enormes exércitos de tanques, aviões, encouraçados, que lhes serviam de escudo.
Vi as máquinas combatendo muito
mas só infinitamente longe
lá atrás
vi os homens que as conduziam.
Diante desse povo que dá de comer aos seus cavalos, gado e burros as últimas toneladas de morfina autêntica que ainda restam, substituindo-a por produtos sintéticos feitos de fumaça,
prefiro o povo que come da própria terra o delírio do qual nasceram,
refiro-me aos Taraumaras
comendo o Peiote rente ao chão
à medida que nasce,
que matam o sol para instaurar o reino da noite negra
e que esmagam a cruz pra que os espaços do espaço nunca mais possam encontrar-se e cruzar-se.
E assim vocês irão ouvir a dança de TUTUGURI.
TUTUGURI
O Rito do Sol Negro
E lá embaixo, no pé da encosta amarga,
cruelmente desesperada do coração,
abre-se o círculo das seis cruzes
bem lá embaixo
como se incrustada na terra amarga,
desincrustada do imundo abraço da mãe
que baba.
A terra do carvão negro
é o único lugar úmido
nessa fenda de rocha.
O Rito é o novo sol passar através de sete pontos antes de explodir no orifício da terra.
Há seis homens,
um para cada sol
e um sétimo homem
que é o sol
cru
vestido de negro e carne viva.
Mas este sétimo homem
é um cavalo,
um cavalo com um homem conduzindo-o.
Mas é o cavalo
que é o sol
e não o homem.
No dilaceramento de um tambor e de uma trombeta longa,
estranha,
os seis homens
que estavam deitados
tombados no rés-do-chão,
brotaram um a um como girassóis,
não sóis
porém solos que giram,
lótus d'água,
e a cada um que brota
corresponde, cada vez mais sombria
e refreada
a batida do tambor
até que de repente chega a galope, a toda velocidade
o último sol,
o primeiro homem,
o cavalo negro com um
homem nu,
absolutamente nu
e virgem
em cima.
Depois de saltar, eles avançam em círculos crescentes
e o cavalo em carne viva empina-se
e corcoveia sem parar
na crista da rocha
até os seis homens
terem cercado
completamente
as seis cruzes.
Ora, o tom maior do Rito é precisamente
A ABOLIÇÃO DA CRUZ
Quando terminam de girar
arrancam
as cruzes do chão
e o homem nu
a cavalo
ergue
uma enorme ferradura
banhada no sangue de uma punhalada.
A BUSCA DA FECALIDADE
Onde cheira a merda
cheira a ser.
O homem podia muito bem não cagar,
não abrir a bolsa anal
mas preferiu cagar
assim como preferiu viver
em vez de aceitar viver morto.
Pois para não fazer cocô
teria que consentir em
não ser,
mas ele não foi capaz de se decidir a perder o ser,
ou seja, a morrer vivo.
Existe no ser
algo particularmente tentador para o homem
algo que vem a ser justamente
O COCÔ
(aqui rugido)
Para existir basta abandonar-se ao ser
mas para viver
é preciso ser alguém
e para ser alguém
é preciso ter um OSSO,
é preciso não ter medo de mostrar o osso
e arriscar-se a perder a carne.
O homem sempre preferiu a carne
à terra dos ossos.
Como só havia terra e madeira de ossos
ele viu-se obrigado a ganhar sua carne,
só havia ferro e fogo
e nenhuma merda
e o homem teve medo de perder a merda
ou antes desejou a merda
e para ela sacrificou o sangue.
Para ter merda,
ou seja, carne
onde só havia sangue
e um terreno baldio de ossos
onde não havia mais nada para ganhar
mas apenas algo para perder, a vida.
o reche modo
to edire
de za
tau dari
do padera coco
Então o homem recuou e fugiu.
E então os animais o devoraram.
Não foi uma violação,
ele prestou-se ao obsceno repasto.
Ele gostou disso
e também aprendeu
a agir como animal
e a comer seu rato
delicadamente.
E de onde vem essa sórdida abjeção?
Do fato de o mundo ainda não estar formado
ou de o homem ter apenas uma vaga idéia do que seja o mundo
querendo conservá-la eternamente?
Deve-se ao fato de o homem
ter um belo dia
detido
idéia do mundo.
Dois caminhos estavam diante dele:
o do infinito de fora,
o do ínfimo de dentro.
E ele escolheu o ínfimo de dentro
onde basta espremer o pâncreas,
a língua,
o ânus
ou a glande.
E deus, o próprio deus espremeu o movimento.
É deus um ser?
Se o for, é merda.
Se não o for,
não é.
Ora, ele não existe
a não ser como vazio que avança com todas as suas formas
cuja mais perfeita imagem
é o avanço de um incalculável número de piolhos.
?O Sr. está louco, Sr. Artaud? E então a missa??
Eu renego o batismo e a missa.
Não existe ato humano
no plano erótico interno
que seja mais pernicioso que a descida
do pretenso jesus-cristo
nos altares.
Ninguém me acredita
e posso ver o público dando de ombros
mas esse tal cristo é aquele que
diante do percevejo deus
aceitou viver sem corpo
quando uma multidão
descendo da cruz
à qual deus pensou tê-los pregado há muito tempo,
se rebelava
e armada com ferros,
sangue,
fogo e ossos
avançava desafiando o Invisível
para acabar com o JULGAMENTO DE DEUS.
CONCLUSÃO
kré Tudo isso deverá puc te
kré ser arranjado puk te
pek muito precisamente li le
kre numa sucessão pec ti le
e fulminante kruk
pte
Fiquei sabendo ontem
(devo estar desatualizado ou então é apenas um boato, uma dessas intrigas divulgadas entre a pia e a privada, quando as refeições ingurgitadas são mais uma vez devidamente expulsas para a latrina)
fiquei sabendo ontem
de uma das mais sensacionais dentre essas práticas das escolas públicas americanas
sem dúvida daquelas responsáveis por esse país considerar-se na vanguarda do progresso.
Parece que, entre os exames e testes requeridos a uma criança que ingressa na escola pública, há o assim chamado teste do líquido seminal ou do esperma,
que consiste em recolher um pouco do esperma da criança recém-chegada para ser colocado numa proveta
e ficar à disposição para experimentos de inseminação artificial que posteriormente venham a ser feitos.
Pois cada vez mais os americanos sentem falta de braços e crianças ou seja, não de operários
mas de soldados
e eles querem a todo custo e por todos os meios possíveis fazer e produzir soldados
com vista a todas as guerras planetárias que poderão travar-se a seguir
e que pretendem demonstrar pela esmagadora virtude da força
a superioridade dos produtos americanos
e dos frutos do suor americano em todos os campos de atividade e
da superioridade do possível dinamismo da força.
Pois é necessário produzir,
é necessário, por todos os meios de atividade humana, substituir a natureza onde esta possa ser substituída,
é necessário abrir mais espaço para a inércia humana,
é necessário ocupar os operários
é necessário criar novos campos de atividade
onde finalmente será instaurado o reino de todos os falsos produtos manufaturados
todos os ignóbeis sucedâneos sintéticos
onde a maravilhosa natureza real não tem mais lugar
cedendo finalmente e vergonhosamente diante dos triunfantes produtos artificiais
onde o esperma de todas as usinas de fecundação artificial
operará milagres na produção de exércitos e navios de guerra.
Não haverá mais frutos, não haverá mais árvores, não haverá
mais plantas, farmacológicas ou não, e conseqüentemente não haverá mais alimentos,
só produtos sintéticos até dizer chega,
entre os vapores,
entre os humores especiais da atmosfera, em eixos especiais de atmosferas extraídas violentamente e sinteticamente da resistência de uma natureza que da guerra só conheceu o medo.
E viva a guerra, não é assim?
Pois é assim - não é? - que os americanos vão se preparando passo a passo para a guerra.
Para defender essa insensata manufatura da concorrência que não pode deixar de aparecer por todos os lados,
é preciso ter soldados, exércitos, aviões, encouraçados,
daí o esperma
no qual os governos americanos tiveram o descaramento de pensar.
Pois temos mais de um inimigo
que nos espreita, meu filho,
a nós, os capitalistas natos
e entre esses inimigos
a Rússia de Stalin
à qual também não faltam homens em armas.
Tudo isso está muito bem
mas eu não sabia que os americanos eram um povo tão belicoso.
Para guerrear é preciso, levar tiros
e embora tenha visto muitos americanos na guerra
eles sempre tiveram enormes exércitos de tanques, aviões, encouraçados, que lhes serviam de escudo.
Vi as máquinas combatendo muito
mas só infinitamente longe
lá atrás
vi os homens que as conduziam.
Diante desse povo que dá de comer aos seus cavalos, gado e burros as últimas toneladas de morfina autêntica que ainda restam, substituindo-a por produtos sintéticos feitos de fumaça,
prefiro o povo que come da própria terra o delírio do qual nasceram,
refiro-me aos Taraumaras
comendo o Peiote rente ao chão
à medida que nasce,
que matam o sol para instaurar o reino da noite negra
e que esmagam a cruz pra que os espaços do espaço nunca mais possam encontrar-se e cruzar-se.
E assim vocês irão ouvir a dança de TUTUGURI.
TUTUGURI
O Rito do Sol Negro
E lá embaixo, no pé da encosta amarga,
cruelmente desesperada do coração,
abre-se o círculo das seis cruzes
bem lá embaixo
como se incrustada na terra amarga,
desincrustada do imundo abraço da mãe
que baba.
A terra do carvão negro
é o único lugar úmido
nessa fenda de rocha.
O Rito é o novo sol passar através de sete pontos antes de explodir no orifício da terra.
Há seis homens,
um para cada sol
e um sétimo homem
que é o sol
cru
vestido de negro e carne viva.
Mas este sétimo homem
é um cavalo,
um cavalo com um homem conduzindo-o.
Mas é o cavalo
que é o sol
e não o homem.
No dilaceramento de um tambor e de uma trombeta longa,
estranha,
os seis homens
que estavam deitados
tombados no rés-do-chão,
brotaram um a um como girassóis,
não sóis
porém solos que giram,
lótus d'água,
e a cada um que brota
corresponde, cada vez mais sombria
e refreada
a batida do tambor
até que de repente chega a galope, a toda velocidade
o último sol,
o primeiro homem,
o cavalo negro com um
homem nu,
absolutamente nu
e virgem
em cima.
Depois de saltar, eles avançam em círculos crescentes
e o cavalo em carne viva empina-se
e corcoveia sem parar
na crista da rocha
até os seis homens
terem cercado
completamente
as seis cruzes.
Ora, o tom maior do Rito é precisamente
A ABOLIÇÃO DA CRUZ
Quando terminam de girar
arrancam
as cruzes do chão
e o homem nu
a cavalo
ergue
uma enorme ferradura
banhada no sangue de uma punhalada.
A BUSCA DA FECALIDADE
Onde cheira a merda
cheira a ser.
O homem podia muito bem não cagar,
não abrir a bolsa anal
mas preferiu cagar
assim como preferiu viver
em vez de aceitar viver morto.
Pois para não fazer cocô
teria que consentir em
não ser,
mas ele não foi capaz de se decidir a perder o ser,
ou seja, a morrer vivo.
Existe no ser
algo particularmente tentador para o homem
algo que vem a ser justamente
O COCÔ
(aqui rugido)
Para existir basta abandonar-se ao ser
mas para viver
é preciso ser alguém
e para ser alguém
é preciso ter um OSSO,
é preciso não ter medo de mostrar o osso
e arriscar-se a perder a carne.
O homem sempre preferiu a carne
à terra dos ossos.
Como só havia terra e madeira de ossos
ele viu-se obrigado a ganhar sua carne,
só havia ferro e fogo
e nenhuma merda
e o homem teve medo de perder a merda
ou antes desejou a merda
e para ela sacrificou o sangue.
Para ter merda,
ou seja, carne
onde só havia sangue
e um terreno baldio de ossos
onde não havia mais nada para ganhar
mas apenas algo para perder, a vida.
o reche modo
to edire
de za
tau dari
do padera coco
Então o homem recuou e fugiu.
E então os animais o devoraram.
Não foi uma violação,
ele prestou-se ao obsceno repasto.
Ele gostou disso
e também aprendeu
a agir como animal
e a comer seu rato
delicadamente.
E de onde vem essa sórdida abjeção?
Do fato de o mundo ainda não estar formado
ou de o homem ter apenas uma vaga idéia do que seja o mundo
querendo conservá-la eternamente?
Deve-se ao fato de o homem
ter um belo dia
detido
idéia do mundo.
Dois caminhos estavam diante dele:
o do infinito de fora,
o do ínfimo de dentro.
E ele escolheu o ínfimo de dentro
onde basta espremer o pâncreas,
a língua,
o ânus
ou a glande.
E deus, o próprio deus espremeu o movimento.
É deus um ser?
Se o for, é merda.
Se não o for,
não é.
Ora, ele não existe
a não ser como vazio que avança com todas as suas formas
cuja mais perfeita imagem
é o avanço de um incalculável número de piolhos.
?O Sr. está louco, Sr. Artaud? E então a missa??
Eu renego o batismo e a missa.
Não existe ato humano
no plano erótico interno
que seja mais pernicioso que a descida
do pretenso jesus-cristo
nos altares.
Ninguém me acredita
e posso ver o público dando de ombros
mas esse tal cristo é aquele que
diante do percevejo deus
aceitou viver sem corpo
quando uma multidão
descendo da cruz
à qual deus pensou tê-los pregado há muito tempo,
se rebelava
e armada com ferros,
sangue,
fogo e ossos
avançava desafiando o Invisível
para acabar com o JULGAMENTO DE DEUS.
CONCLUSÃO
Saturday, November 01, 2008
ALENTO DA MUSA

Ubiquidade e “alento da musa”
A ideia de beleza, tal qual aqui a concebemos, não poderia ser concebida com o estudo da produção e percepção do belo? O não-representável? Como fazer que a beleza aflua à nossa arte (a partir da utopia negativa da cultura electrónica contemporânea)? É esse o problema. É à volta deste tema – a ubiquidade do belo – que parcialmente se contrói a “Aesthetica. Vejamos, porém, um pouco mais pormenorizadamente, como é que se faz uma revisão necessária do que foi e do que é a beleza. Esta atitude de quem se volta para a beleza já de si implica, sem dúvida alguma, o reconhecimento pela nossa parte do êxtase, da “fissura” ontológica, o “rasgão”, o “não-saber” que desnuda? Que vem, porém, a ser a beleza da poesia que se nos dá como arte verbal (“contra-discurso” transgressivo)? Poder-se-á assimilar a poesia ao duende e o aduendado de Garcia Lorca? Que supõe, porém, algo convincente, abrindo margem assim ao “sublimis”? Quem se dispõe à beleza alucinatória que não cessa? Ao “transe”? Platão afirmava que ninguém seria bom poeta sem o sopro da loucura (ekstasis). O termo ekstasis significa “saída de si próprio”. A poesia supõe a inspiração, uma inspiração do poeta por uma força divina – Musa ou Apolo – ou um “fora de si”. A beleza que vamos tratar aqui é aquela que “articula” e “requer” o “Alento da Musa” (para usar um título do poeta galego Alberte Momán). A palavra “musa” soa aos ouvidos com um imemorial acento grego, como um eco de Petrarca; evoca o “eterno-feminino”, que tem a virtude polarizadora de nos revelar a beleza e a plenitude da expressão. As musas trabalham para nos inspirarem. Ora, entre outras ficções, e como talvez a mais importante de todas, as musas são uma faceta inspiradora activa (colocam-nos, porém, diante das imagens inspiradoras que podemos encadear a manejar criativamente).
Tuesday, October 28, 2008
A REVOLUÇÃO DIONISÍACA

Aqueles que tanto pregam a lógica, a racionalidade são os mesmos que nos impõem um sistema sem sentido que gira ao sabor das bolsas e dos mercados, entidades abstractas que obedecem a leis transcendentes sem lógica aparente, a não ser a própria rapina, o lucro, a especulação, a agiotagem. Aqueles que pregam o mercado são os mesmos que pregam a morte, ou seja, a vidinha quotidiana sem qualquer ponta de novidade que se reduz ao tédio, à rotina, à própria morte. A este estado de coisas opomos uma revolução dionisíaca, uma revolução sem dirigentes nem dirigidos, uma revolução que nasce do caos, que em boa parte prescinde da racionalidade, que vai ao espírito, ao Uno Primordial do Homem. Uma revolução que combate os grupos fechados, que age na vida quotidiana, que provoca esteticamente, que procura o Homem enquanto criador, enquanto poeta, que questiona o mundo do trabalho e do dinheiro. À morte opomos a vida, a vida autêntica, a busca do prazer não artificial, não consumista, o prazer criador, sem preconceitos. Os espíritos livres dionisíacos infiltram-se na sociedade de consumo e de mercado e combatem-na.
O MANIFESTO ENCAPuTADO

O MANIFESTO ENCAPuTADO
Não há gajas, só velhas. Depois da glória vem a pasmaceira. Valha-nos o sol lá fora. O que vale é que um gajo ainda se diverte com os amigos. Valha-nos isso. Ouvir e dizer umas piadas, rir, gozar com esta merda. É o que se leva daqui. A merda da revolução nunca mais vem. E um gajo passa a vida a olhar para as gajas. Cá estou de novo só na confeitaria. Toda a gente trabalha menos eu e o bêbado da aldeia. O que não deixa de ter o seu lado positivo. Os outros que trabalhem! Eu limito-me a escrever estas merdas. Os carros passam lá fora e eu escrevo. Escrevo para mim, para o mundo, para o raio que vos parta! Passo a vida a escrever sem disciplina, sem horários, sem objectivos concretos. Se calhar até vou ganhar o Nobel. Divirto-me a escrever, que querem? Em vez de andar para aí a remoer, escrevo. Em vez de andar à porrada, escrevo. Em vez de bater punhetas, escrevo. É fácil. A coisa sai. E só entram gajas feias e gordas. Queria escrever como Homero, como Shakespeare, mas só me saem estas merdas. E a coisa prossegue. Nunca escrevi tanto como agora. Escrevo compulsivamente, automaticamente, selvaticamente. Parece uma doença. Não me adaptei à vida mas adaptei-me à escrita. Acho piada àquela história da angústia perante a página em branco. Não sinto angústia nenhuma. E a página não está em branco. Sinto prazer- é o prazer que procuro desmesuradamente- Sinto-me em cima. Até parece que as depressões passaram à história. Oxalá seja verdade. Esta merda de escrever tem muito que se lhe diga. Mas a coisa vai fluindo. Há que saber matar com as palavras. Há que saber celebrar com as palavras. Há que fazer amor com as palavras. Deveria viver desta merda. Para quê fazer correcções? Há que deixar a coisa fluir espontaneamente, como um rio, como o mar. Na verdade, poucas gajas me entendem. Algumas vão lá, captam os meus escritos, riem dos meus disparates. Não me venham falar do Bloco de Esquerda! O Louçã tem muitas vezes razão mas é um chato, sempre inquisidor, sempre dono da verdade e da ética. Tenho lá alguns amigos. Mas deixei-me de partidos. O meu partido é o PSSL- Partido Surrealista Situacionista Libertário- de que sou o único militante. Há um blog. Estão abertas as inscrições. O que eu quero é criar um movimento artístico de base. Sem dirigentes nem detergentes, com vanguarda mas sem retaguarda, uma coisa que incomode mas que faça as pessoas rir. Que seja destrutiva e criadora. Que faça as gajas boas dar-me beijos na boca. Que rebente com o governo e que faça o povo rir. Eis o meu manifesto encapotado. Das gajas à revolução. Até as velhas podem participar. Posto isto, vou voltar a Homero.
COM A REVOLUÇÃO NA MINHA MÃO
COM A REVOLUÇÃO NA MÃO
Saio do metro com a revolução na mão
os outros permanecem acorrentados ao regime
metro-trabalho-cama
A rapariga solta os cabelos
e torna-se sexy
O Soares e o Alegre falam da refundação da esquerda
tijolos parem montras
grupúsculos de hereges queimam dinheiro nas ruas
O xamã sobe ao palco
benvindos à celebração!
O foco existe na confeitaria “Motina”
Vilar do Pinheiro
Estrada Nacional 13, Km 13
Dizem que o Che Guevara se encontrou
com o Marquês de Sade
Dizem que as milícias revolucionárias
se coligaram com as bacantes
Dizem que as velhas olham desconfiadas
para a mesa do poeta
Eh, pá! O gajo lê tantos livros!
Um deles era vermelho e tinha inscrita a palavra “revolução”
outro tinha mulheres nuas
que indecência!
Deve ser pornográfico
O melhor é avisar o presidente da Junta
e a GNR
não vá a coisa propagar-se
não vá aparecer mais gente a ler livros vermelhos e pretos
e pornográficos
e a gente a pensar que aquilo era só para bater umas punhetas
Até andam para aí a dizer que o capitalismo vai acabar
por causa da crise
que vai ser de nós?
Vêm para aí os guerrilheiros da Colômbia
e esses gajos todos
parece que são machistas-leninistas e anarco não sei quê
li no “Jornal de Notícias”
Vêm para aqui corromper a nossa juventude
incitar ao deboche
Diz que aprenderam com um grego chamado Sócrates
mas não é o ainda primeiro-ministro
esse é um ingénuo
não sabe de nada
temos de ser nós a agir
Irmãs, a situação é altamente preocupante
Falam também de outro grego chamado Dionisos
parece que é um deus que faz concorrência a Deus Nosso Senhor
dizem que passa o dia a beber
- desconfiai dos bêbados, minhas irmãs-
e que canta aí numas bandas satânicas de garagem
e que vai dançar para a floresta
com as depravadas das bacantes
que aparecem nos sites pornográficos
- afastai-vos dos sites pornográficos, minhas irmãs-
dizem que se dá com um tal de Nietzsche
que diz que ficou maluco
e que decretou a morte de Deus Nosso Senhor
esse tal de Nietzsche joga às cartas com um tal de marquês
não sei de quê
que anda sempre a olhar para as gajas
e que deles é o pior de todos pois tem um pacto
com o Grande Satã
mas diz também que andam para aí outros hereges que dizem
que querem queimar o dinheiro
o nosso rico dinheirinho que tanto nos custou a ganhar
devem estar feitos com os do Rendimento Mínimo
essa corja que não quer trabalhar
são como os poetas
não trabalham
não sabem o que a vida custa
querem viver à custa dos outros e da Segurança Social
é o que é
passa-se a vida a trabalhar
para esses gandulos nos virem queimar o dinheiro
até dizem que Nosso Senhor Jesus Cristo não usava dinheiro
ai! Nosso Senhor!
Onde isto vai parar?
Posto isto, a D. Rosa entra na confeitaria
e dá-me as boas tardes.
A.Pedro Ribeiro
in “Queimai o Dinheiro!”
Saio do metro com a revolução na mão
os outros permanecem acorrentados ao regime
metro-trabalho-cama
A rapariga solta os cabelos
e torna-se sexy
O Soares e o Alegre falam da refundação da esquerda
tijolos parem montras
grupúsculos de hereges queimam dinheiro nas ruas
O xamã sobe ao palco
benvindos à celebração!
O foco existe na confeitaria “Motina”
Vilar do Pinheiro
Estrada Nacional 13, Km 13
Dizem que o Che Guevara se encontrou
com o Marquês de Sade
Dizem que as milícias revolucionárias
se coligaram com as bacantes
Dizem que as velhas olham desconfiadas
para a mesa do poeta
Eh, pá! O gajo lê tantos livros!
Um deles era vermelho e tinha inscrita a palavra “revolução”
outro tinha mulheres nuas
que indecência!
Deve ser pornográfico
O melhor é avisar o presidente da Junta
e a GNR
não vá a coisa propagar-se
não vá aparecer mais gente a ler livros vermelhos e pretos
e pornográficos
e a gente a pensar que aquilo era só para bater umas punhetas
Até andam para aí a dizer que o capitalismo vai acabar
por causa da crise
que vai ser de nós?
Vêm para aí os guerrilheiros da Colômbia
e esses gajos todos
parece que são machistas-leninistas e anarco não sei quê
li no “Jornal de Notícias”
Vêm para aqui corromper a nossa juventude
incitar ao deboche
Diz que aprenderam com um grego chamado Sócrates
mas não é o ainda primeiro-ministro
esse é um ingénuo
não sabe de nada
temos de ser nós a agir
Irmãs, a situação é altamente preocupante
Falam também de outro grego chamado Dionisos
parece que é um deus que faz concorrência a Deus Nosso Senhor
dizem que passa o dia a beber
- desconfiai dos bêbados, minhas irmãs-
e que canta aí numas bandas satânicas de garagem
e que vai dançar para a floresta
com as depravadas das bacantes
que aparecem nos sites pornográficos
- afastai-vos dos sites pornográficos, minhas irmãs-
dizem que se dá com um tal de Nietzsche
que diz que ficou maluco
e que decretou a morte de Deus Nosso Senhor
esse tal de Nietzsche joga às cartas com um tal de marquês
não sei de quê
que anda sempre a olhar para as gajas
e que deles é o pior de todos pois tem um pacto
com o Grande Satã
mas diz também que andam para aí outros hereges que dizem
que querem queimar o dinheiro
o nosso rico dinheirinho que tanto nos custou a ganhar
devem estar feitos com os do Rendimento Mínimo
essa corja que não quer trabalhar
são como os poetas
não trabalham
não sabem o que a vida custa
querem viver à custa dos outros e da Segurança Social
é o que é
passa-se a vida a trabalhar
para esses gandulos nos virem queimar o dinheiro
até dizem que Nosso Senhor Jesus Cristo não usava dinheiro
ai! Nosso Senhor!
Onde isto vai parar?
Posto isto, a D. Rosa entra na confeitaria
e dá-me as boas tardes.
A.Pedro Ribeiro
in “Queimai o Dinheiro!”
Friday, October 17, 2008
NIETZSCHE

Contra as leis
Do meu pescoço, a partir de hoje
Pende o relógio das horas:
A partir daí cessa o curso dos astros,
O Sol, o canto dos galos e o evoluir das sobras,
O que uma vez me anunciava o tempo
Esta agora mudo, cego e surdo: -
Toda natureza para mim silencia
Ao tiquetaque do relógio e da lei.
Nietzsche -A gaia ciência
posted by Marcos William Santos | 8:10 PM
ARTE DO CAOS

As manifestações anti-globalização tomam as ruas, movimentos sociais, partidos políticos, garotos revoltados, a rebeldia não para de gritar por mais ar e liberdade. Mas algo me incomoda muito, e me faz pensar que as manifestações de rua nos moldes tradicionais, parecem sugar mais energia do que produzir.
As manifestaçoes de rua tem q ser reinventadas , nao estamos mais em 1917 ou em 1800 e tralala, hoje os dias sao outros , a informação chega a você no instante em que o fato ocorre, cansei de reuniões de elite sobre o que fazer , como se organizar, a terra nao se reúne com a semente pra combinar quando e como germinar , simplesmente acontece, o que eu vejo é a centralizaçao da revolta , da anarquia, da revolta anti-capitalista. Anarquistas se queixam dos partidários mas não fazem questão de se libertar de seus dogmas, enquanto o capitalismo evolui ,a resistencia só resiste,a resistÊncia permanece isolada em um mar sem novos ventos, alguns até parecem pequenos cubanos fieis a fidel sem saber, a resistência nao é fútil mas resistir apenas nao basta, eu faço aqui um apelo aos que dividem conosco a vontade de costruir algo melhor, como nômades tornemos a restistir de uma maneira inventiva e criativa; NÃO DEPENDA DA ELITE REVOLUCIONÁRIA MAIS PRÓXIMA DA SUA CASA, crie sua resistência , invente o seu novo mundo sonhado, aqui e agora, esqueça o periodo pré-revolucionário , nao espere a revolução chegar, só você conhece a sua realidade e sua vida, só você sabe como é andar pelas ruas , entao só vocÊ e seus amigos sabem como VOCÊS vão intervir nas avenidas e ruas caso isso ocorra ou passe pela cabeça de vocês, experimente ser que nem a nuvem, nao planeje sua chuva, chegue chovendo e molhando e alagando tudo...
As pessoas, o "sistema capitalista", já não assusta-se com alguns marginais na rua. É hora de reconquistarmos o asfalto, de uma maneira produtiva, e não cansativa, não como um rebanho mas como uma tribo.
E não vamos aqui falar o que vocês podem fazer ou não fazer , existem mil maneiras , invente uma ...
Toca e Marcos
"O que queremos de fato, é que nossas idéias voltem a ser perigosas"
Situacionistas
posted by Marcos William Santos | 7:41 PM
http://artedocaos.blogger.com.br.
Tuesday, October 14, 2008
MANIFESTO DO APOCALIPSE

O que eu realmente odeio é o espírito moedeiro, merceeiro. Essa coisa de sacar o lucro a todo o momento. A agiotagem, a sacanagem, a usura, a ganância, a mesquinhez. Pobres imbecis. Coitados. Não passais de uns pobres imbecis. Não sabeis que aquilo que é grande é a dádiva, a partilha, o amor? O homem não nasceu para trabalhar mas para criar, disse Agostinho da Silva. Bem, alguns nasceram para trabalhar. Coitados. Porque raio tudo há-de ter um preço? Quem inventou a merda dos preços? Quem inventou a merda da moeda? Quantos dormem na rua, quantos passam fome por causa da merda da moeda? QUAL É O PREÇO DA VIDA? DIGAM LÁ! FAÇAM AS CONTAS! É FÁCIL! 5 EUROS? 10 EUROS? 100 EUROS? 1000 EUROS? 5 CÊNTIMOS? QUANTO? DIGAM LÁ! QUANTO VALE A PORRA DA VIDA? QUANTO VALE A PORRA DA LIBERDADE? QUANTO VALE A PORRA DO AMOR? DIGAM LÁ OU PERGUNTEM A ESSES ECONOMISTAS DE MERDA, A ESSES FINANCEIROS DE MERDA, QUE FAZEM AS CONTAS TODAS, QUANTO VALE? Falais dinheiro, comeis dinheiro, cagais dinheiro? É isso que sois? É isso que quereis ser? É a isso que vos aceitais reduzir? Sois a Ana Dinheiro, o João Notas, a Marta Multibanco? Sois a vossa conta bancária? Ou sois seres humanos? Porra, por uma vez! NÃO BATEI PALMAS! NÃO QUERO PALMAS! SÓ QUERO A HUMANIDADE!
Sunday, October 12, 2008
NICANOR PARRA
TESTE
O que é um antipoeta:
Um comerciante de urnas e ataúdes?
Um sacerdote que não crê em nada?
Um general que duvida de si mesmo?
Um vagabundo que ri de tudo
Até da velhice e da morte?
Um interlocutor de mau caráter?
Um bailarino a beira do abismo?
Um narciso que ama todo o mundo?
Um brincalhão sangrento
Deliberadamente miserável?
Um poeta que dorme em uma cadeira?
Um alquimista dos tempos modernos?
Um revolucionário de bolso?
Um pequeno burguês?
Um charlatão?
................... um deus?
.............................. um inocente?
Um aldeão de Santiago do Chile?
Sublinhe a frase que considere correta.
O que é a antipoesia:
Um temporal em uma xícara de chá?
Uma mancha de neve em uma rocha?
Um açafate cheio de excrementos humanos
Como crê o padre Salvatierra²?
Um espelho que diz a verdade?
Um bofetão no rosto
Do Presidente da Sociedade de Escritores?
(Deus o tenha em seu santo reino)
Uma advertência aos poetas jovens?
Um ataúde a jato?
Um ataúde a força centrífuga?
Um ataúde a gás de parafina?
Uma capela ardente sem defunto?
Marque com uma cruz
A definição que considere correta.
O que é um antipoeta:
Um comerciante de urnas e ataúdes?
Um sacerdote que não crê em nada?
Um general que duvida de si mesmo?
Um vagabundo que ri de tudo
Até da velhice e da morte?
Um interlocutor de mau caráter?
Um bailarino a beira do abismo?
Um narciso que ama todo o mundo?
Um brincalhão sangrento
Deliberadamente miserável?
Um poeta que dorme em uma cadeira?
Um alquimista dos tempos modernos?
Um revolucionário de bolso?
Um pequeno burguês?
Um charlatão?
................... um deus?
.............................. um inocente?
Um aldeão de Santiago do Chile?
Sublinhe a frase que considere correta.
O que é a antipoesia:
Um temporal em uma xícara de chá?
Uma mancha de neve em uma rocha?
Um açafate cheio de excrementos humanos
Como crê o padre Salvatierra²?
Um espelho que diz a verdade?
Um bofetão no rosto
Do Presidente da Sociedade de Escritores?
(Deus o tenha em seu santo reino)
Uma advertência aos poetas jovens?
Um ataúde a jato?
Um ataúde a força centrífuga?
Um ataúde a gás de parafina?
Uma capela ardente sem defunto?
Marque com uma cruz
A definição que considere correta.
GAJAS

Há gajas que, à falta de melhor, nos fazem escrever. É uma forma de descarregar a líbido. Mas as gajas brasileiras têm aquele jeito especial, aquele à vontade gingão que nos faz sonhar. Até falam da noitada anterior, do inferno, não sei bem a que inferno se referem. Esse jeito de ocupar o café todo com a conversa. Mas pronto. Começam a falar em empregos e trabalhos e fodem tudo! Está tudo fodido. Lá se vai a poesia. Bem, mas pronto um gajo às gajas perdoa tudo. Depois lá aparece o gajo com a conversa do tem que ser. E as gajas com sinais. Mal sabem que ando a escrever sobre elas. Se calhar, já desconfiam. Sabes lá o que vai na cabeça das gajas. Nunca saberás o que vai na cabeça das gajas. É esse o mistério, é esse o encanto. Agora foram lá para fora fumar. Até tens algum historial com as gajas dos cafés e dos bares. Escreves sobre as gajas e depois vais bater punhetas para casa. De vez em quando lá aparece uma que se interessa por ti, que gosta realmente de ti mas que depois fica cheia de dúvidas porque andas teso e dificilmente deixarás de andar teso se continuares assim. Tens 10 anos para arranjar uma gaja. Depois dos 50 será difícil a não ser que fiques realmente famoso, ó poeta de combate. Isto se chegares aos 50. Viste bem o que aconteceu aos teus amigos. Sais à noite para ver gajas e só os gajos é que vêm ter contigo, ó bardo underground. E, de repente, mamas à vista. Mamas à tua frente, ao teu lado, em todo o lado. Mas depois só vêm ter contigo os cromos do costume, os loucos, os psicopatas, os desenraízados. Alguns deles vêm-te falar do fim do capitalismo, da nova era, do caos global. Outros só falam de conas e mamas e comentam as conas e as mamas à beira das conas e das mamas e o Rocha sente-se envergonhado. Outros ainda vêm-me contar a vida toda como se viessem ao psiquiatra. A verdade é que estou a perder todos os preconceitos na escrita. Até as gajas feias vêm de mamas à mostra. Há 20 anos não era assim. Às vezes dizes que nasceste no século errado, no tempo errado mas, se calhar, tu é que andas errado. Se calhar este é o teu tempo, o teu século, ó poeta dionisíaco. Começas a ficar com a língua de fora, ó poeta dionisíaco. Terás as mulheres que quiseres, ó poeta dionisíaco. Fodes as gajas com os olhos e com a caneta, ó Dionisos. Agora sim, és sublime. Se calhar há já algum tempo que não se escrevia assim. Que importa se te publicam ou não se te sentes sublime. Abençoados os olhos que te deram, ó poeta imoral. Já não usas a razão. A caneta corre automática. Há fêmeas em vilar do Pinheiro, finalmente. Hoje é o dia. O dia da viragem. Nunca mais andarás teso. Nunca mais obecederás. Regressas hoje ao Uno Primordial. Fodes as gajas com os olhos e com a caneta. Mas ama-las. Todas as mulheres são tuas irmãs. Todas as mulheres são tuas irmãs. Irmãs, dai-me o vosso amor. Irmãs, dai-me o Amor. Dançai para mim em redor da fogueira. O mundo novo começa aqui. O mundo novo começa agora. À nossa frente abrem-se eternidades. Podemos ficar tão bem juntos, querida. Podemos ficar tão bem juntos. Amo-te com os olhos e com a caneta. Amo-te com os olhos e com a caneta. Criei-te. És minha. Criei-te. Vieste. És minha. Criei-te. Lês revistas. És minha. Nunca mais escreverei assim.
António Pedro Ribeiro.
Wednesday, October 01, 2008
OS BEATNICK EM PORTUGAL
Revista Gândara 1
LUSO-BEAT JAZZ
Miguel Martins
Surge este breve artigo na seqüência de gentilíssimo convite endereçado pela professora Izabel Margato, e dá continuidade a um trabalho iniciado há cerca de 12 anos (Martins, 1993), que se foi espraiando por artigos de natureza diversa e teve o seu desenvolvimento de maior envergadura no livro Jazz e literatura (Martins, 1998).
Por óbvias razões de contenção, abster-me-ei de elaborar sobre o conceito as origens e a evolução da beat generation norte-americana, geração esta, aliás, de créditos há muito firmados na História da Literatura (Cunliffe, 1989). Para uma excelente introdução a estes aspectos, bem como às obras dos seus autores mais destacados, sugiro a leitura da antologia organizada por Anne Waldman (1996), da qual constam informadíssimas bibliografia, filmografia e discografia com que dar seguimento a tal labor.
Quanto à repercussão deste movimento na literatura portuguesa, julgo essencial destacar dois períodos distintos:
Em primeiro lugar, o início dos anos 60, com uma série de jovens autores e declamadores reunidos em torno da microeditora Best-Sellers, dirigida por Jorge Daun, pseudónimo de José de Melo, responsável, desde logo, por Geração batida (Daun, 1963), a primeira antologia de textos beat publicada em Portugal. Entre esses enfants-terribles, avultavam o hoje realizador e crítico cinematográfico Lauro António e a hoje actriz Maria do Céu Guerra, cujo livro São mortas as flores (1963), escrito aos 18 anos, urge reeditar, quer pelo seu valor intrínseco, quer por sintetizar o brado de uma geração que, bafejada por ventos libertadores, vindos, sobretudo, do outro lado do Atlântico (o maio de 68 francês estava, ainda, longe de acontecer), não se deixava já espartilhar pela tacanhez do fascismo luso. Desta obra, cito:
Hoje peço arestas e ângulos agudos mas verdades inteiras.
Acabem com o morno e com os outros e com as mãos sem sol.
E guardem para vocês as repartições de finanças e os jornais.
(Guerra, 1963, p. 7)
Quanto ao segundo período referido, ocorre já depois do 25 de abril de 1974, em pleno processo revolucionário, e centra-se nas edições Távola Redonda, dirigidas por Manuel Cadafaz de Matos, e onde viriam a lume obras do próprio, bem como de João Carlos Raposo Nunes, António Cândido Franco, António Cabrita, Abel Neves e Levi Condinho, este último figura central da presente abordagem, conforme adiante se verá.
Contudo - e apesar de se excluir aqui qualquer pretensão inventariadora -, seria imperdoável não mencionar a obra de Andre Shan Lima, um outsider relativamente aos grupos mencionados, mas o mais assumidamente beat dos poetas portugueses e, porventura, o único a ser editado pela mítica City Lights Books, de Lawrence Ferlinghetti (Lima, 1987), poeta que, aliás, traduziu (Ferlinghetti, 1986). Do livro bilingue Valse de la memoire, cito:
sobrevoando a brisa
para ti oh menina realidade
o silêncio abre os olhos
a lâmpada ilumina-os
então sacudimos a cabeça
e afogamo-nos em álcool
in profundis
destilam-se deuses e revoltas
sobrevoando sem cor nem forma
voltamos ao nada
deambulamos em sapatos estranhos
arrancamos folhas das árvores
e fumamos muito (Lima, 1987, p. 71)
Bem assim, importa referir Jorge Fallorca, outro inquestionável beatnik. De A luva in love (1977, p. 40):
eu ia todo porreiro na minha e fui sequestrado por um coito -
que isto fique assente de uma vez para sempre - metido
num corpo com que não tenho nada a ver
E, ainda, Fernando Grade, de Também os beijos têm osso (1997, p. 32):
Era o bolor das árvores e das armas.
Ao fundo do tempo, as feras cantavam.
Faziam-se viagens por dentro das janelas,
onde os fósseis espiavam as raparigas.
Por trás das cadeiras a caverna era uma ideia de
seda, cheiro de fruta muito doce,
ácida verruga.
Os bodes também choram.
É possível que a erva cresça aqui.
E, por fim, Alexandre Saldanha da Gama, poeta 'expatriado', tal como Shan Lima. De Pastorinhas (1999, p. 72):
Saio sozinho para ir ao Sounds beber um copo
Noite de merda para ir beber um copo sozinho
Mas esta noite não suporto o silêncio da casa
A presença da ausência da Sylvie é pesada
Cada vez que ela aparece com as suas fanfarronadas
Faz de mim um ser miserável que precisa de beber para esquecer
Ela tem vergonha da minha companhia é por isso que só vem à
noite e desaparece de manhã
Quando saio à noite para beber um copo sozinho
Debaixo da chuva sou eu que tenho vergonha da minha companhia
Chegados a este ponto, e antes de penetrar na obra de Levi Condinho e, mais precisamente, na presença do jazz nessa mesma obra, é crucial esclarecer qual é a multímoda importância desta música para a escrita beat.
Essencialmente, diria que se verifica um fascínio pelo jazz, por parte dos beatniks, o qual conduz a constantes alusões a músicos e canções e, sobretudo, a um modus operandi similar ao destes, com a improvisação e o débito acelerados a sobreporem-se a uma arquitectura autovigiada e canónica e à valorização de uma certa rítmica possibilitadora de declamações plenas de musicalidade, quando não de facto musicadas.
Sobre Condinho, nascido em 1941, autor de, apenas, quatro títulos individuais, disse o músico e musicólogo Jorge Lima Barreto (1997, p. 169): "Levi Condinho, melómano esclarecido, escreveu poemas/metáforas sobre criações musicais". E eu próprio, alhures (Martins, 1998, p. 101), chamei-lhe "o mais torrencial dos poetas portugueses, em termos de alusões ao jazz". Se não, intentemos o rol dos músicos de jazz presentes na sua obra, utilizando a antologia poética que cobre o período que vai de 1965 a 2000 (Condinho, 2001): Miles Davis, Ella Fitzgerald, Ornette Coleman, Django Reinhardt, Archie Shepp, Glenn Miller, Count Basie, Jorge Lima Barreto, Lester Young, John Coltrane, Keith Jarrett, Louis Armstrong, Thelonious Monk, Duke Ellington, Anthony Braxton, Milt Jackson, Charlie Parker, Billie Holiday, Nat King Cole, Eartha Kitt, Mahalia Jackson, Pearl Bailey, Herbie Hancock, Cecil Taylor, Julian Adderley. Este conjunto é bem revelador do ecletismo do autor, no âmbito do jazz (ao que acrescem referências a compositores 'eruditos', antigos, clássicos e contemporâneos, bem como a músicos da pop e do rock). Assim, verificamos que cobre um espectro que vai praticamente dos alvores do jazz (Armstrong, Reinhardt) ao 'Free' (Coleman, Shepp, Barreto, Braxton, Taylor), passando pelo swing e pelo bebop. De igual modo, surgem, a par de figuras consagradas, nomes mais obscuros, como o de Pearl Bailey, vocalista para quem no "The Penguin Guide to Jazz on CD" (Cook et al., 1998) se encontram apenas duas entradas: uma em "The King Cole Trios Live: 1947-48" e outra em "Cootie Williams, 1941-1944".
Estas referências a músicos ocorrem por três ordens de razões: ou a mera evocação de memórias pessoais (um concerto, uma audição partilhada etc.), ou o louvor a músicos e à música, ou a sua ligação à luta anti-racista. Vejamos três exemplos do mesmo:
devaneios
as Tentações de Santo Antão do Bosch
nas janelas verdes
o ornette coleman em cascais
nós fornicando na Mata do Cabeço de Deus
o Quintelas bêbedo a beijar todos os amigos
Pierrot-le-Fou
beijar bocas de mulher por aí fora
Eugénio de Andrade Herberto Hélder
Cesário Verde José Gomes Ferreira
Paul Éluard etc etc
a Suzete a sorrir-me ao balcão
do banco da marinha grande
canto gregoriano à meia noite
frente a uma garrafa de vinho.
a minha avó a dizer-me que
Django Reinhardt era a música do demónio
- tinha eu 16 anos
o António Serafim a descrever
uma caldeirada no montijo
porra que não vou ser capaz de morrer
Miles Davis
a música Miles
é uma planície de neve
só a neve se vislumbra
e o frio atiça a capacidade de amar
tu ensinas o amor
e a planície
estendida
desvirginada
em patas de sangue vivo
clama amor negado
Basin Street Blues
Porque não vens daí comigo
Lá abaixo ao Mississipi
Canta Ella Fitzgerald
Respondo
Vou contigo
Se me levares aos bares
De Basin Street
E me mostrares tudo
O que fez na tua voz um vinho acre
Sexo nimbado de folhas silvestres
Para eu poder
Proclamar
de pé
do alto do Empire State Building
que a tua raça
se vingou
criando uma flor
em cada golpe de chicote
Levi Condinho: um beatnik português com muito jazz na poesia - um poeta a descobrir, de ambos os lados do Atlântico.
ReferÊncias bibliogrÁficas
BARRETO, Jorge Lima. Musa lusa. Lisboa: Hugin, 1997.
CONDINHO, Levi. Roteiro cego: antologia poética (1965-2000). Alcobaça: Rebate, 2001.
COOK, Richard et al. The penguin guide to jazz on CD. London: Penguin Books, 1998.
CUNLIFFE, Marcus. História da literatura dos Estados Unidos. Mem-Martins: Europa-América, 1989.
DAUN, Jorge. Geração batida. Lisboa: Best-Sellers, 1963.
FALLORCA, Jorge. A luva in love. Lisboa: Assírio & Alvim, 1977.
FERLINGHETTI, Lawrence. A boca da verdade. La Garenne: Edição do Autor, 1986.
GAMA, Alexandre Saldanha da. Pastorinhas. Paris: Albatroz, 1999.
GRADE, Fernando. Também os beijos têm osso. S. João do Estoril: Mic, 1997.
GUERRA, Maria do Céu. São mortas as flores. Lisboa: Best-Sellers, 1963.
LIMA, Andre Shan. Valse de la memoire. s.l.: City Lights Books, 1987.
MARTINS, Miguel. Beatniks portugueses. História, n. 171, dez.-jan. 1993.
______. Jazz e literatura. Porto: Campo das Letras, 1998.
WALDMAN, Anne. The beat book: poems & fiction from the beat generation. Boston: Shambala, 1996.
retirado de http://www.letras.puc-rio.br/Catedra/Revista/gandara_10.html
LUSO-BEAT JAZZ
Miguel Martins
Surge este breve artigo na seqüência de gentilíssimo convite endereçado pela professora Izabel Margato, e dá continuidade a um trabalho iniciado há cerca de 12 anos (Martins, 1993), que se foi espraiando por artigos de natureza diversa e teve o seu desenvolvimento de maior envergadura no livro Jazz e literatura (Martins, 1998).
Por óbvias razões de contenção, abster-me-ei de elaborar sobre o conceito as origens e a evolução da beat generation norte-americana, geração esta, aliás, de créditos há muito firmados na História da Literatura (Cunliffe, 1989). Para uma excelente introdução a estes aspectos, bem como às obras dos seus autores mais destacados, sugiro a leitura da antologia organizada por Anne Waldman (1996), da qual constam informadíssimas bibliografia, filmografia e discografia com que dar seguimento a tal labor.
Quanto à repercussão deste movimento na literatura portuguesa, julgo essencial destacar dois períodos distintos:
Em primeiro lugar, o início dos anos 60, com uma série de jovens autores e declamadores reunidos em torno da microeditora Best-Sellers, dirigida por Jorge Daun, pseudónimo de José de Melo, responsável, desde logo, por Geração batida (Daun, 1963), a primeira antologia de textos beat publicada em Portugal. Entre esses enfants-terribles, avultavam o hoje realizador e crítico cinematográfico Lauro António e a hoje actriz Maria do Céu Guerra, cujo livro São mortas as flores (1963), escrito aos 18 anos, urge reeditar, quer pelo seu valor intrínseco, quer por sintetizar o brado de uma geração que, bafejada por ventos libertadores, vindos, sobretudo, do outro lado do Atlântico (o maio de 68 francês estava, ainda, longe de acontecer), não se deixava já espartilhar pela tacanhez do fascismo luso. Desta obra, cito:
Hoje peço arestas e ângulos agudos mas verdades inteiras.
Acabem com o morno e com os outros e com as mãos sem sol.
E guardem para vocês as repartições de finanças e os jornais.
(Guerra, 1963, p. 7)
Quanto ao segundo período referido, ocorre já depois do 25 de abril de 1974, em pleno processo revolucionário, e centra-se nas edições Távola Redonda, dirigidas por Manuel Cadafaz de Matos, e onde viriam a lume obras do próprio, bem como de João Carlos Raposo Nunes, António Cândido Franco, António Cabrita, Abel Neves e Levi Condinho, este último figura central da presente abordagem, conforme adiante se verá.
Contudo - e apesar de se excluir aqui qualquer pretensão inventariadora -, seria imperdoável não mencionar a obra de Andre Shan Lima, um outsider relativamente aos grupos mencionados, mas o mais assumidamente beat dos poetas portugueses e, porventura, o único a ser editado pela mítica City Lights Books, de Lawrence Ferlinghetti (Lima, 1987), poeta que, aliás, traduziu (Ferlinghetti, 1986). Do livro bilingue Valse de la memoire, cito:
sobrevoando a brisa
para ti oh menina realidade
o silêncio abre os olhos
a lâmpada ilumina-os
então sacudimos a cabeça
e afogamo-nos em álcool
in profundis
destilam-se deuses e revoltas
sobrevoando sem cor nem forma
voltamos ao nada
deambulamos em sapatos estranhos
arrancamos folhas das árvores
e fumamos muito (Lima, 1987, p. 71)
Bem assim, importa referir Jorge Fallorca, outro inquestionável beatnik. De A luva in love (1977, p. 40):
eu ia todo porreiro na minha e fui sequestrado por um coito -
que isto fique assente de uma vez para sempre - metido
num corpo com que não tenho nada a ver
E, ainda, Fernando Grade, de Também os beijos têm osso (1997, p. 32):
Era o bolor das árvores e das armas.
Ao fundo do tempo, as feras cantavam.
Faziam-se viagens por dentro das janelas,
onde os fósseis espiavam as raparigas.
Por trás das cadeiras a caverna era uma ideia de
seda, cheiro de fruta muito doce,
ácida verruga.
Os bodes também choram.
É possível que a erva cresça aqui.
E, por fim, Alexandre Saldanha da Gama, poeta 'expatriado', tal como Shan Lima. De Pastorinhas (1999, p. 72):
Saio sozinho para ir ao Sounds beber um copo
Noite de merda para ir beber um copo sozinho
Mas esta noite não suporto o silêncio da casa
A presença da ausência da Sylvie é pesada
Cada vez que ela aparece com as suas fanfarronadas
Faz de mim um ser miserável que precisa de beber para esquecer
Ela tem vergonha da minha companhia é por isso que só vem à
noite e desaparece de manhã
Quando saio à noite para beber um copo sozinho
Debaixo da chuva sou eu que tenho vergonha da minha companhia
Chegados a este ponto, e antes de penetrar na obra de Levi Condinho e, mais precisamente, na presença do jazz nessa mesma obra, é crucial esclarecer qual é a multímoda importância desta música para a escrita beat.
Essencialmente, diria que se verifica um fascínio pelo jazz, por parte dos beatniks, o qual conduz a constantes alusões a músicos e canções e, sobretudo, a um modus operandi similar ao destes, com a improvisação e o débito acelerados a sobreporem-se a uma arquitectura autovigiada e canónica e à valorização de uma certa rítmica possibilitadora de declamações plenas de musicalidade, quando não de facto musicadas.
Sobre Condinho, nascido em 1941, autor de, apenas, quatro títulos individuais, disse o músico e musicólogo Jorge Lima Barreto (1997, p. 169): "Levi Condinho, melómano esclarecido, escreveu poemas/metáforas sobre criações musicais". E eu próprio, alhures (Martins, 1998, p. 101), chamei-lhe "o mais torrencial dos poetas portugueses, em termos de alusões ao jazz". Se não, intentemos o rol dos músicos de jazz presentes na sua obra, utilizando a antologia poética que cobre o período que vai de 1965 a 2000 (Condinho, 2001): Miles Davis, Ella Fitzgerald, Ornette Coleman, Django Reinhardt, Archie Shepp, Glenn Miller, Count Basie, Jorge Lima Barreto, Lester Young, John Coltrane, Keith Jarrett, Louis Armstrong, Thelonious Monk, Duke Ellington, Anthony Braxton, Milt Jackson, Charlie Parker, Billie Holiday, Nat King Cole, Eartha Kitt, Mahalia Jackson, Pearl Bailey, Herbie Hancock, Cecil Taylor, Julian Adderley. Este conjunto é bem revelador do ecletismo do autor, no âmbito do jazz (ao que acrescem referências a compositores 'eruditos', antigos, clássicos e contemporâneos, bem como a músicos da pop e do rock). Assim, verificamos que cobre um espectro que vai praticamente dos alvores do jazz (Armstrong, Reinhardt) ao 'Free' (Coleman, Shepp, Barreto, Braxton, Taylor), passando pelo swing e pelo bebop. De igual modo, surgem, a par de figuras consagradas, nomes mais obscuros, como o de Pearl Bailey, vocalista para quem no "The Penguin Guide to Jazz on CD" (Cook et al., 1998) se encontram apenas duas entradas: uma em "The King Cole Trios Live: 1947-48" e outra em "Cootie Williams, 1941-1944".
Estas referências a músicos ocorrem por três ordens de razões: ou a mera evocação de memórias pessoais (um concerto, uma audição partilhada etc.), ou o louvor a músicos e à música, ou a sua ligação à luta anti-racista. Vejamos três exemplos do mesmo:
devaneios
as Tentações de Santo Antão do Bosch
nas janelas verdes
o ornette coleman em cascais
nós fornicando na Mata do Cabeço de Deus
o Quintelas bêbedo a beijar todos os amigos
Pierrot-le-Fou
beijar bocas de mulher por aí fora
Eugénio de Andrade Herberto Hélder
Cesário Verde José Gomes Ferreira
Paul Éluard etc etc
a Suzete a sorrir-me ao balcão
do banco da marinha grande
canto gregoriano à meia noite
frente a uma garrafa de vinho.
a minha avó a dizer-me que
Django Reinhardt era a música do demónio
- tinha eu 16 anos
o António Serafim a descrever
uma caldeirada no montijo
porra que não vou ser capaz de morrer
Miles Davis
a música Miles
é uma planície de neve
só a neve se vislumbra
e o frio atiça a capacidade de amar
tu ensinas o amor
e a planície
estendida
desvirginada
em patas de sangue vivo
clama amor negado
Basin Street Blues
Porque não vens daí comigo
Lá abaixo ao Mississipi
Canta Ella Fitzgerald
Respondo
Vou contigo
Se me levares aos bares
De Basin Street
E me mostrares tudo
O que fez na tua voz um vinho acre
Sexo nimbado de folhas silvestres
Para eu poder
Proclamar
de pé
do alto do Empire State Building
que a tua raça
se vingou
criando uma flor
em cada golpe de chicote
Levi Condinho: um beatnik português com muito jazz na poesia - um poeta a descobrir, de ambos os lados do Atlântico.
ReferÊncias bibliogrÁficas
BARRETO, Jorge Lima. Musa lusa. Lisboa: Hugin, 1997.
CONDINHO, Levi. Roteiro cego: antologia poética (1965-2000). Alcobaça: Rebate, 2001.
COOK, Richard et al. The penguin guide to jazz on CD. London: Penguin Books, 1998.
CUNLIFFE, Marcus. História da literatura dos Estados Unidos. Mem-Martins: Europa-América, 1989.
DAUN, Jorge. Geração batida. Lisboa: Best-Sellers, 1963.
FALLORCA, Jorge. A luva in love. Lisboa: Assírio & Alvim, 1977.
FERLINGHETTI, Lawrence. A boca da verdade. La Garenne: Edição do Autor, 1986.
GAMA, Alexandre Saldanha da. Pastorinhas. Paris: Albatroz, 1999.
GRADE, Fernando. Também os beijos têm osso. S. João do Estoril: Mic, 1997.
GUERRA, Maria do Céu. São mortas as flores. Lisboa: Best-Sellers, 1963.
LIMA, Andre Shan. Valse de la memoire. s.l.: City Lights Books, 1987.
MARTINS, Miguel. Beatniks portugueses. História, n. 171, dez.-jan. 1993.
______. Jazz e literatura. Porto: Campo das Letras, 1998.
WALDMAN, Anne. The beat book: poems & fiction from the beat generation. Boston: Shambala, 1996.
retirado de http://www.letras.puc-rio.br/Catedra/Revista/gandara_10.html
Tuesday, September 30, 2008
ARQUÍLOCO

Soldado e poeta1
E eu, que sou um servidor do Senhor da Batalha
também sou versado no amável dom das Musas.
[Archil.Fr. 1 West]
A lança
Para mim, na lança o pão sovado; na lança, o vinho
ismárico; e eu bebo na lança apoiado.
[Archil.Fr. 2 West]
Poeta satírico
e eu sei uma coisa importante,
a quem age mal comigo, dou em troca terríveis males.
[Archil.Fr. 166 West]
Ou mato ou morro
um dos Saios enfeita-se agora com o belo escudo que junto
a um arbusto atirei contra a vontade,
salvando a vida. Que me importa aquele escudo?
Dane-se! Comprarei um novo que não será pior.
[Archil.Fr. 5 West]
http://greciaantiga.org/lit/pt
Sunday, September 28, 2008
HAKIM BEY

«OS TONG
[…]
No Inverno passado li um livro sobre os Tong chineses (Primitive Revolutionaries of China: A Study of Secret Societies in the Late 19th Century, de Fei-Ling Davis) – talvez o primeiro escrito por alguém que não foi agente dos serviços secretos brritânicos! (na verdade, trata-se de uma socialista chinesa que morreu jovem – foi este o seu único livro) – e percebi pela primeira vez por que sempre me senti atraído pelos Tong: não apenas pelo romantismo, ou pelo elegante cenário da decadência chinesa, que lá estão – mas também pela forma, a estrutura, a própria essência da coisa.
Algum tempo depois, numa excelente entrevista de William Burroughs à revista Homocore, descobri que também ele se fascinara com os Tong e sugeria a sua forma como modo perfeito de organização para as bichas, sobretudo no actual período de histeria e moralismo merdosos. Acho que concordo, e estendo a recomendação a todos os grupos marginais, especialmente aqueles cuja fruição envolva qualquer ilegalidade (fumadores de erva, heréticos do sexo, insurreccionistas) ou alguma excentricidade extrema (nudistas, pagãos, artistas pós-vanguardistas, etc., etc.).
Os Tong podem talvez ser definidos como uma sociedade de benefício mútuo para pessoas com um interesse comum, que seja ilegal ou perigosamente marginal – daí o segredo necessário. Muitos dos Tong chineses tinham a ver com o contrabando e a evasão fiscal, ou com o domínio pessoal clandestino de certos comércios (em oposição ao controlo estatal), ou com objectivos de insurreição política ou religiosa (derrubar os Manchus, por exemplo – diversos Tong colaboraram com os anarquistas na Revolução de 1911). O propósito comum dos Tong era o de recolher os direitos de filiação e as jóias de inscrição e investi-los em fundos de apoio para os indigentes, desempregados, viúvas e órfãos dos membros falecidos, despesas de funeral, etc. Numa era como a nossa, quando os pobres ficam entre a espada cancerosa da indústria dos seguros e a parede do serviço público de saúde e assistência, que rapidamente se evapora, este propósito da sociedade secreta bem poderia recuperar todo o seu atractivo. (As lojas maçónicas foram organizadas nesta base, bem como os primeiros sindicatos ilegais e as "corporações de artífices" para trabalhadores e artesãos.) Um outro propósito universal de tais sociedades era evidentemente a convivialidade, e em especial os banquetes – mas mesmo este passatempo aparentemente inócuo pode revestir implicações insurreccionais. Nas várias revoluções francesas, por exemplo, as confrarias gastronómicas desempenhavam frequentemente o papel das organizações radicais quando todas as restantes formas de encontros públicos haviam sido banidas.
[…]
A estrita regra tradicional do segredo também precisa de ser modificada. Hoje em dia tudo o que escape ao olhar idiota da publicidade já é virtualmente um segredo. A maior parte das gentes modernas parece ser incapaz de crer na realidade de algo que nunca viu na televisão – por conseguinte, escapar ao televisionamento é já ser quase invisível. Além disso, aquilo que é visto através da mediação dos media torna-se de certa forma irreal e perde o seu poder. […] Em contraste, talvez aquilo que não é visto retenha a sua realidade, a sua raiz na vida quotidiana e, portanto, na possibilidade de maravilhamento.
[…] Muitas organizações não-autoritárias foram fundadas sobre o dúbio princípio da filiação aberta, que frequentemente conduz a uma preponderância de asnos, idiotas, salteadores, neurótticos e agentes policiais. Se os Tong se organizarem em torno de um interesse especial (nomeadamente um interesse ilegal, ou arriscado, ou marginal) terão certamente o direito de se acomodarem segundo esse princípio de "grupo de afinidade". Se o segredo significar a) evitar a publicidade, e b) vetar possíveis membros, a "sociedade secreta" dificilmente poderá ser acusada de violar os princípios anarquistas. Efectivamente, tais sociedades possuem uma longa e honrosa história no movimento anti-autoritário, desde o sonho de Proudhon, reanimar os tribunais nocturnos irregulares como forma de "justiça popular", até aos vários esquemas de Bakunine e à coluna de Durrutti. Não deveríamos permitir que os historiadores marxistas nos convençam de que tais expedientes são "primitivos" e foram, portanto, ultrapassados pela "História". O carácter absoluto da "História" é, quando muito, uma proposição dúbia. Não estamos interessados num retorno ao primitivo, mas num retorno do primitivo, atendendo a que o primitivo é o reprimido.
Nos velhos tempos as sociedades secretas surgiam em espaços e tempos proibidos pelo Estado, i. e., onde e quando as pessoas haviam sido afastadas pela lei. No nosso tempo, as pessoas não são habitualmente afastadas pela lei, mas pela mediação e a alienação. O segredo torna-se assim uma fuga à mediação, ao passo que a convivialidade passa de propósito secundário a primário na "sociedade secreta". Um simples encontro face a face é já uma acção contra as forças que nos oprimem por meio do isolamento, da solidão, pelo transe dos media.
Numa sociedade que obriga a uma ruptura esquizóide entre o Trabalho e o Lazer, todos nós experimentámos a trivialização do nosso "tempo livre", tempo que não está organizado como trabalho nem como lazer. ("Férias" significou outrora tempo vago – agora significa tempo organizado e preenchido pelo lazer industrial.) O propósito "secreto" da convivialidade na sociedade secreta transforma-se então na auto-estruturação e autovalorização do tempo livre. Boa parte das festas dedica-se apenas a música em alto volume e bebida em demasia, não porque o apreciemos mas porque o Império do Trabalho imbuiu em nós o sentimento de que tempo vago é tempo perdido. A ideia de convocar uma festa para, digamos, fazer uma colcha ou cantar madrigais em grupo parece irremediavelmente fora de moda. Mas os Tong modernos acharão simultaneamente necessário e agradável retirar o tempo livre ao domínio do mundo das mercadorias e devotá-lo à criação partilhada, à brincadeira.
Conheço já diversas sociedades organizadas nestes termos, mas não irei certamente quebrar o seu segredo ao discuti-las aqui. Existem algumas pessoas que não precisam de quinze segundos no Jornal da Noite para validarem a sua existência. Evidentemente, de qualquer forma a imprensa e a rádio marginais (os únicos media em que este pequeno sermão irá aparecer) são praticamente invisíveis – certamente ainda muito opacas ao olhar do Controlo. No entanto, há o princípio da coisa: os segredos devem ser respeitados. Nem todos precisam saber tudo! Aquilo que mais falta ao século XX – e aquilo de que ele mais precisa – é tacto. Queremos substituir a epistemologia democrática pela epistemologia dadá. Ou se está no mesmo barco ou não se está no barco.
[…] O imediatismo não se preocupa com as relações de poder; nem deseja ser governado, nem governar. Por conseguinte, o Tong contemporâneo não aprecia a degenerescência das instituições em conspirações. Pretende poder para os seus próprios propósitos de mutualidade. É uma livre-associação de indivíduos que se escolheram mutuamente para sujeitos da generosidade do grupo, para a sua "expansividade" (para usarmos um termo Sufi). Se isto resulta em algum tipo de "elitismo", pois que o seja.
Se o Imediatismo começa com grupos de amigos que tentam não apenas vencer o isolamento mas também melhorar a vida de cada um, em breve pretenderá assumir uma forma mais complexa – núcleos de aliados mutuamente escolhidos, trabalhando (brincando) para ocupar cada vez mais tempo e espaço fora de todos os controlos e estruturas mediadas. Depois quererá transformar-se numa rede horizontal de semelhantes grupos autónomos – depois, numa "tendência" – depois, num "movimento" – e depois numa rede cinética de zonas autónomas temporárias [T.A.Z.]. Esforçar-se-á finalmente por se tornar no cerne de uma nova sociedade, fazendo-se nascer a si mesma dentro da casca corrupta da velha. Para todos estes propósitos, a sociedade secreta promete fornecer um enquadramento útil de clandestinidade protectora – um manto de invisibilidade que só terá de ser abandonado no caso de um confronto final com a Babilónia da Mediação…
Preparemo-nos para as Guerras Tong!»
[in Zona Autónoma Temporária: Lisboa, trad. Jorge P. Pires, frenesi, 2000]
Selecção de PCD
in http://frenesi-livros.blogspot.com
VACAS E COELHOS

Um dia numa floresta um coelho matou um homem. Uma vaca observava esperando que o homem se levantasse. Um insecto rastejou na cara do homem. Uma vaca observava esperando que o homem se levantasse. Uma vaca saltou uma sebe para ver mais de perto como um coelho arruma um homem. Um coelho ataca uma vaca pensando que a vaca veio ajudar o homem. O coelho domina a vaca e arrasta a vaca para a sua toca.
Quando a vaca desperta a vaca pensa, eu queria estar ao cimo da terra indo com o homem para o meu estábulo.
Mas a vaca permanece com estes orelhudos para o resto da vida.
Russel Edson, poeta norte-americano, nascido em 1935
(poema com tradução de José Alberto Oliveira)
Publicada por Ricardo Pulido Valente em 5:02 6 comentários
retirado de http://a-unica-real-tradicao-viva.blogspot.com
Wednesday, September 24, 2008
MANIFESTO DA CRIAÇÃO

Fino após fino vou bebendo. Os estudantes fardados celebram. Sinto saudades do meu tempo de estudante. Essa coisa de não estudar ou estudar muito pouco e ir beber copos com os amigos. As merdas culturais e políticas em que me meti. As noitadas. Houve muitos projectos por concluir, merdas quiméricas. O amor que ficou. A santa loucura como diz o AMR que vou ver amanhã. O regresso à Faculdade de Letras. O regresso em triunfo. Essas coisas todas. E o divino Ulisses. Ítaca que nunca mais vem. Os praxistas gritam lá fora. E os empresários da bola esfregam as mãos.
Eu deveria ser pago à letra. Olha o que te digo, deveria ser pago à letra. Qual a diferença entre fazer um verso e fazer uma finta? E as coisas grandes, realmente grandes, àparte as gajas boas, vêm do espírito, da alma. E as coisas realmente grandes, àparte as gajas boas, são criações do Poeta, do Artista. Quem foi o artista que criou as gajas boas? O Poeta é um privilegiado porque é um criador. Na sociedade do dinheiro deveria ser pago a peso de ouro. Deveria ser adorado como na Grécia e em Roma. Deveria ostentar a coroa de louros. Mas também deve gritar no meio da multidão, cantar a sua canção. O seu papel é agitar, provocar, mostrar o novo mundo. Não deve temer a loucura. Deve segui-la, amá-la até ao fim. Deve estar em pé de guerra, com intervalos para descansar. Deve ser imoderado em busca da sabedoria. Deve estar para lá dos bens materiais. Nunca deve mendigar. O único deus que respeita é o seu irmão Dionisos. Os outros são ficções. Deve dizer e fazer coisas incongruentes, non sense, para baralhar amigos e inimigos. Deve ter uma atitude de gozo perante a realidade. Deve situar-se além do bem e do mal e para lá de todos os preconceitos, como defendia Nietzsche. Deve cantar o caos. Deve amar loucamente a mulher amada, como preconizava Breton. Pode até divinizá-la , seja ela a empregada de mesa ou a "porno-star". Deve encarnecer, gozar com a sociedade-espectáculo, tanto com os produtores do espectáculo como com os batedores de palmas. Deve explorar todas as potencialidades da net e das Zonas Autónomas, à boa maneira de Hakim Bey. Deve ser um xamã, um profeta, um pirata, um filósofo, um provocador, um criador, um Homem Superior.
Porto, 24.9.2008
António Pedro Ribeiro
Tuesday, September 23, 2008
DADA NO BRASIL
Escolas Literárias > Dadaísmo
O movimento artístico mais contestador surgido na Europa e com claros reflexos no Brasil foi o Dadaísmo, criado em 1916, em Paris, por um grupo de refugiados alemães liderados por Tristan Tzara (1896-1963), poeta judeu-romeno-francês.
“Encontrei o nome casualmente ao meter uma espátula num volume fechado do Petit Larousse e, lendo, logo ao abrir o livro, a primeira palavra que me saltou à vista foi DADÁ.” Assim Tristan Tzara batizou o movimento.
O que quer dizer “dada”? Nada. Pode até significar rabo de vaca, ama de leite, cavalo de pau ou mesmo uma das primeiras palavras emitidas por um bebê: “papá”, “mamá”, “dada”.
Algumas propostas literárias dadaístas:
Liberdade total de criação (“Estamos contra todos os sistemas, mas sua ausência é o melhor sistema”);
Percepção da vida em sua lógica incoerência primitiva;
Criação de uma linguagem totalmente nova;
Ausência de nexo;
Estilo antigramatical;
Anarquia, espontaneidade, desvairismo;
Poema-piada e paródia;
Nihilismo, autofagia.
Para fazer Poema Dadaísta: este poema de Tristan Tzara demonstra e sua técnica literária que, aliás, era a mesma do seu amigo, o pintor alemão Hans Arp, também dadaísta, que fazia cair sobre a tela pedacinhos de papel que eram colocados exatamente onde ficavam parados.
RECEITA PARA FAZER UM POEMA DADAÍSTA
Agarre num jornal e numa tesoura. Recorte um pedaço de um artigo que tenha a extensão prevista para o seu poema. Recorte cada uma das palavras e meta-as numa bolsa. Mexa-as com cuidado. Tire depois cada palavra por sua vez ao acaso. Copie-as conscienciosamente. O poema parecer-se-á com você. E assim se transforma num escritor infinitamente original e de uma sensibilidade encantadora, se bem que incompreendido do vulgo.
No Brasil, o Dadaísmo manifestou-se em várias obras dos modernistas sem, contudo, domina-las integralmente.
Mário de Andrade, no “Prefácio Interessantíssimo” do livro de poemas Paulicéia Desvairada (a primeira obra modernista após a Semana da Arte Moderna), usou bastante da técnica dadaísta. Neste prefácio, o poeta procura criar um alicerce teórico do Modernismo e busca colocar, de forma polêmica, alguns aspectos que cercam a criação poética.
(fragmento)
Leitor:
Está fundado o Desvairismo.
Este prefácio, apesar de interessante, inútil.
Alguns dados. Nem todos. Sem conclusões. Para quem me aceita são inúteis ambos. Os curiosos terão prazer em descobrir minhas conclusões, confrontando obra e dados. Para quem me rejeita trabalho perdido explicar o que, antes de ler, já não aceitou.
Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo o que meu inconsciente me grita. Penso depois: não só para corrigir, como para justificar o que escrevi. Daí a razão deste Prefácio Interessantíssimo.
Alias muito difícil nesta prosa saber onde termina a Blague, onde principia a serenidade.
Nem eu sei.
O grande projeto dos modernistas era escrever brasileiro, criar um língua nacional livre. Manuel Bandeira, grande poeta modernista e amigo de Mário de Andrade, obedecendo a um procedimento dadaísta comum na época (a galhofa) fez, no poema a seguir, uma paródia modernista de outro poema do romântico Joaquim Manuel de Macedo (A Moreninha).
ORIGINAL DE MACEDO
Mulher, irmã, escuta-me: não ames,
Quando a teus pés um homem terno e curvo
Jurar amor, chorar pranto de sangue,
Não creias, não mulher: ele te engana!
As lágrimas são galas da mentira
E o juramento manto da perfídia.
TRADUÇÃO DE BANDEIRA
Teresa, se algum sujeito banco o sentimental em cima de você
E te jurar uma paixão do tamanho de um bonde
Se ele chorar
Se ele ajoelhar
Se ele se rasgar todo
Não acredita não Teresa
É lágrima de cinema
É tapeação
Mentira
CAI FORA!
NERVAL

Sylvie, que integra Les filles du Feu, é tida como obra-prima de Nerval; de modo superlativo, como um dos maiores livros já escritos por Umberto Eco, [19] em acréscimo aos elogios de Proust a essa novela em Contre Sainte-Beuve. Nela, dois tempos se alternam, o presente do narrador e seu passado, e dois espaços que também são planos de realidade, de Paris e da província, por sua vez associados a três personagens femininas: Sylvie, a quem o protagonista quer reencontrar; Adrienne, rememorada; e Aurélia, a musa perdida. Mas essas alternâncias de espaço e tempo, ao se sucederem, também se multiplicam, pois o tempo de um capítulo recorda o tempo de outro, e esse de outro, e assim por diante. Resulta, como o demonstrou Eco, em uma narrativa impossível, mesmo com a forma do relato realista. São impossibilidades temporais, e também, em outros de seus textos, espaciais: roteiros implausíveis de idas e vindas entre diferentes localidades, como em Angélique.
Relações de reflexão ou em eco, no interior da obra ou na relação entre várias obras, fazem que uma, sendo autônoma, também seja um comentário de outra. Em Angélique, primeira das narrativas de Les Filles du Feu, publicado em 1854, entrecruzam-se dois enredos: um deles na primeira pessoa, de um pesquisador que busca reconstituir a história do Abade de Bucquoy e descobre aquela de Angélique de Longeval; outro, a história reconstituída da própria Angélique. Mas a busca de informação sobre o Abade de Bucquoy já havia sido o tema de Les faux Saulniers, de 1850 (saulniers são trabalhadores em salinas); e os resultados da pesquisa acabariam dando em Histoire de l’Abbé de Bucquoy, de 1852, que integra Les Illuminés; de quebra, relatos de viagem em Les faux Saulniers seriam recortados e publicados em La Bohême Galante, também em 1852.
Há muito mais dessas manifestações de desprezo pela unidade da obra em Nerval, tornando-o mestre da interpolação, de encadeamentos narrativos que justificam ele apontar Lawrence Sterne, o autor de Tristan Shandy, como uma de suas leituras.
Tais ecos e abismos, dentro das narrativas e também entre elas, tornam Nerval, ao mesmo tempo que tão tradicionalista em sua busca de dois passados ou tempos perdidos, aquele da sua própria vida e outro arcaico, um autor moderno.
A dualidade metafísica e duplicidade literária podem, é claro, ser interpretadas psicologicamente: quando criou essas obras mais complexas, já estava louco, pois vinha tendo crises desde 1841. Mas, ao mesmo tempo, é consistentemente hermético: são sempre as correspondências, as relações analógicas entre diferentes planos de realidade e esferas simbólicas, que valem.
Esta observação de Steinmetz sobre As Quimeras serve para o conjunto da sua obra: […] somos mergulhados em um universo semântico da repetição, da reduplicação, da obsessão. [20] Uma das conseqüências foi seu abandono pela crítica, observado por Guillaume e Pichois no prefácio da edição de 1989 da Oeuvre Complète, cuja organização é por eles tachada de infernal: Gérard de Nerval não teve a chance de seus contemporâneos que encontraram, ao final do século XIX, exegetas tão dedicados quanto competentes. Sua obra foi como que deixada ao abandono. [21] Em outras palavras: faltou-lhe um Walter Benjamin.
A dualidade não apenas foi escrita, mas foi vivida por Nerval. Daí a sensação de ser dois, um e outro, atestada pela escolha do pseudônimo ao passar a designar-se a partir de 1838 como Nerval e não mais como Labrunie, seu nome de batismo, e documentada na foto em que anotou: eu sou um outro, publicada por Richer em Gérard de Nerval et les doctrines ésotériques (que seria interpretada de modo cabalístico por Breton em Arcano 17). Dela resultaram as dramáticas passagens de Aurélia em que se defronta com o duplo: seu perseguidor. Ou a epígrafe de Pandora, tirada do Fausto de Goethe:
Duas almas, ai de mim! Repartiam meu seio, e cada uma delas quer separar-se da outra: uma, ardente de amor, se apega ao mundo por meio dos órgãos do corpo; um movimento sobrenatural arrasta a outra para longe das trevas, rumo às elevadas moradas de nossos ancestrais. [22]
* * *
Se foi dúplice ao tratar de si, foi ao mesmo tempo uno e múltiplo em sua relação com mulheres, ou com a mulher. Seu culto a um princípio feminino, correspondente à amada perdida e à mãe que não tivera, por sua vez equivalentes a Isis, a todas as demais deusas e arquétipos, inclusive a Virgem e santas cristãs, confundia-as com as mulheres que realmente conheceu. Conforme Richer,
Isis é dita deusa polimorfa, deusa dos mil nomes.
Ora, em diversos lugares de sua obra, Nerval se compraz a enumerar os nomes da Deusa. No capítulo “As Três Vênus” de Viagem ao Oriente, ele a nomeia Minerva, Vênus, Perséfone, Diana, Afrodite, Panágia, etc. No relato do “Templo de Ísis” ele dá uma primeira lista (Ísis, Vênus, Urânia ou Ceres, Cibele), depois cita Apuleio (a citação comporta os nomes de Ísis, Minerva, Vênus Páfia, Juno, Proserpina, Estigiana, Ceres, Diana, Diotina, Belona, Hécate, Nêmesis, Cibele). [23]
São mulheres que, ao mesmo tempo, se confundem e desdobram: todas podem ser Vênus; mas Vênus é três.
A multiplicidade de figuras femininas é uma aplicação coerente do princípio hermético das correspondências universais. Se tudo se corresponde, então se equivalem as divindades desse conjunto e suas contrapartidas terrestres: Jenny Colon, as demais mulheres de sua vida, as personagens de ficção: Aurélia, Pandora, as “filhas do fogo” Sílvia, Angélica, Jemmy, Otávia, Emília etc, e as mulheres lendárias, Melusina, Pandora, Lorely.
* * *
Aurélia é tido como o documento da loucura de Nerval, sua obra delirante. Mas Steinmetz observa que Nerval também estava louco ao escrever As Quimeras: Até onde se sabe, a maior parte dos manuscritos de As Quimeras coincide com momentos de loucura. [24] Sonetos tão perfeitos, representando um pólo da condensação, coincidirem com surtos, inspira reflexões sobre as relações entre loucura e criação poética.
As Quimeras é poesia na primeira pessoa. Nerval não se duplicou; apresentou-se como um só: ele mesmo, em tom confessional. Mas esse “um” que se manifesta através dos poemas é ao mesmo tempo tudo: chama a atenção como nos doze sonetos (ou vinte, conforme a edição), foi capaz de evocar tamanha diversidade de símbolos, entidades mitológicas, personagens históricos, lugares, referências literárias.
Mas não são as mesmas crenças, o mesmo esoterismo e a mesma visão de mundo que se expressam através dos principais poemas desse livro.
Em El desdichado, que abre As Quimeras, é o autor a apresentar-se, declarando-se um exilado no mundo:
Sou o tenebroso – o viúvo – o inconsolado,
O príncipe na torre abolida de Aquitânia;
Morta minh’única estrela – meu alaúde constelado
Porta o Sol negro da Melancolia. [25]
O restante do poema é invocação da amada, tu que me consolaste, terminando com a declaração de que, Orfeu reencarnado, foi procurá-la no reino dos mortos:
Na noite tumular, tu que me consolaste,
Traga-me o Pausílipo e o mar d’Itália,
A flor que agradava tanto ao meu coração triste,
E o parreiral onde o pâmpano à rosa se alia.
Serei Amor ou Febo? … Lusignam ou Byron? [26]
Minha fronte está rubra, ainda, dos beijos da que reina;
Sonhei na gruta em que nada a sirena,
E por duas vezes, vencedor, atravessei o Aqueron:
Modulando alternadamente na lira Orféica,
Os suspiros da santa e os gritos feéricos. [27]
Em Sol Negro - Melancolia e Depressão, Julia Kristeva mostra que os primeiros versos de El desdichado seguem a ordem de cartas do Tarô. O tenebroso seria o arcano 15, o diabo; a torre abolida, desabada, o arcano 16; a estrela, aquela do arcano 17, da esperança.
É como se o poeta jogasse para tirar a sorte, e recebesse como resposta o arcano 16, da torre fulminada por um raio: o anúncio da sua destruição. Interessa a seqüência das cartas no jogo do tarô: o 16, símbolo da destruição, segue aquela do diabo; portanto, o colapso da torre (do consulente) é manifestação demoníaca; mas a torre fulminada precede o arcano 17, por sua vez título de uma obra de Breton: é a estrela da manhã, símbolo de um nascimento, da esperança no futuro e do conhecimento, [28] ou seja, da gnose; para Breton em Arcano 17, o emblema do triunfo de Lúcifer. A seqüência do jogo divinatório contém, portanto, uma teoria dos contrários.
El desdichado tem mais de um sentido: anuncia uma tragédia pessoal, a destruição do próprio poeta; e proclama duas vitórias sobre a morte, associadas à conquista do conhecimento e à eternidade do amor. E dá uma boa amostra do que Nerval exige de seu leitor, pelo cruzamento de símbolos de diferentes esferas. Começa pelo título: desdichado é desafortunado, infeliz, em espanhol; mas o título de Nerval se refere a um personagem de Ivanhoé, o romance de cavalaria de Walter Scott: esse desdichado, segundo Scott, significaria deserdado. Como assinala Steinmetz, Nerval seguiu o erro cometido por W. Scott; [29] e o poema não se refere apenas a alguém infeliz ou vítima da má sorte, mas a um deserdado: ao próprio Nerval.
Para a boa interpretação de apenas um dos versos – Serei Amor ou Febo? … Lusignam ou Biron? – o leitor precisaria saber, não só que Febo é Apolo, deus solar da inspiração poética, mas que Lusignan, um cruzado que se tornou rei de Jerusalém e Chipre no século XII, era tido como descendente da fada-serpente Melusina (também evocada por Breton em Arcano 17); e que Biron foi Charles de Gontaut, duque de Biron, decapitado em 1602, e não o lorde e poeta romântico inglês. [30] Assim ficaria claro o jogo de Nerval entre mitologia e história, ao apresentar-se como descendente de uma nobreza deserdada, os Labrunie, cujo castelo desabou, e por ser da estirpe maldita dos filhos de Caim. Ainda permaneceriam dúvidas: o Pausilípo da segunda estrofe é a baía do Posilipo em Nápoles – mas está lá por ter sido onde o poeta teve um encontro amoroso em uma de suas viagens (como assinala Steinmetz), pelo significado mítico do lugar, como berço de Netuno (como interpreta Richer), ou por ter sido onde tentou o suicídio (como observa Kristeva)? Provavelmente pelas três razões, entre outras.
O Cristo no Horto das Oliveiras, série de cinco sonetos, trata, não mais de um drama pessoal, mas de uma tragédia universal. É de um pessimismo ainda mais acentuado que El desdichado, pois não há retorno dos infernos ou ressurreição. O Cristo crucificado exclama: Não há Deus! E vislumbra o universo: Abismo! abismo! abismo!/ Falta o deus a este altar onde, vítima, eu cismo…/ Não há Deus! Deus não é!’ E eles sempre dormindo! [31]
Júpiter, a quem Pilatos se dirige para indagar sobre Cristo – equiparado a Ícaro e Átis – é uma divindade silenciosa: Mas sempre se calou o oráculo invocado;/ Um só daria este arcano ao mundo desvendado:/ – Aquele que deu alma ao ser de lama fria. [32]
Tratando de O Cristo no Horto das Oliveiras em Os Filhos do Barro, Octavio Paz argumenta que o tema da morte de Deus, ilustrado por esse poema, não tem lugar nem no racionalismo ateu, nem no cristianismo:
O tema da morte de Deus é um tema romântico. Não é um tema filosófico, mas religioso. Para a razão, Deus existe ou não existe. No primeiro caso, não pode morrer, e no segundo, como pode morrer alguém que nunca existiu? […] Se alguém diz “Deus morreu”, anuncia um fato irrepetível: Deus morreu para sempre. Dentro da concepção do tempo como sucessão linear irreversível, a morte de Deus torna-se um acontecimento impensável. [33]
Cristo no Horto das Oliveiras representa o gnosticismo em sua versão mais dualista, nestes versos sobre o terrível mundo sub-celestial: Um arco-íris estranho olha o poço sombrio,/ Umbral do velho caos de onde o nada é o feitio,/ Espiral, que devora os Mundos e os Dias!. E supõe a equivalência de Júpiter – o deus invocado em Cristo no Horto das Oliveiras – a um demiurgo gnóstico. É o estranho sincretismo comentado por Steinmetz:
Com Nerval acha-se proferido, pela primeira vez antes de Nietzsche, um “Deus está morto”, aliás questionado no final do poema. A angústia ontológica, com efeito, se resolve no soneto final em um estranho sincretismo assimilando Jesus às grandes vítimas mitológicas punidas por terem querido ultrapassar os limites humanos. [34]
A interpretação do deus de Cristo no Horto das Oliveiras com demiurgo gnóstico é fortalecida pela comparação com outro dos sonetos de As Quimeras, Anteros. Nele, o poeta se declara um descendente de Caim – Tenho por vezes de Caim o implacável rubor –, além de surgido da raça de Anteu e inspirado pelo Vingador. Proclama-se, dirigindo-se a Jeová! O último, vencido por teu gênio,/ Que, do fundo dos infernos, gritava: “Ó tirania!”/ É meu avô Belus ou meu pai Dagon… [35]
É quase inevitável a comparação com um poema de Baudelaire, da série Revolta de As Flores do Mal, intitulado Abel e Caim. De modo até mais explícito, declarado, Baudelaire também tomou o partido de Caim contra Jeová.
Novamente, em Anteros, é como se todas as religiões fossem a mesma, ou como se houvesse uma simbologia universal, da qual religiões e mitos apresentariam versões: em Cristo no Horto das Oliveiras há personagens dos Evangelhos que se dirigem a Júpiter, e não a Jeová; em Anteros são personagens de um mito grego, dos titãs (a história de Anteu, o filho de Geia, morto por Hércules), que, ao se dirigirem a Jeová, invocam os deuses fenícios Belus e Dagon, cujos cultos foram combatidos pelos judeus, em vez de se dirigirem ao Júpiter que, no mito, havia fulminado os titãs.
Portanto, no intercâmbio de mitos em Anteros e Cristo no Horto das Oliveiras é possível observar o deslocamento, com Jeová ocupando o lugar que deveria ser de Júpiter, e vice-versa. Isso, em poemas cuja característica é a condensação: dois mecanismos do sonho. Tais permutações, sendo oníricas ou delirantes, também são naturais para o adepto do esoterismo: este supõe a permutabilidade dos símbolos, manifestações aparentes ou faces visíveis dos arquétipos. É o que observa Steinmetz ao comparar Les Filles du Feu e As Quimeras: Nerval procede por deslocamentos, tomando exemplos no simbolismo universal, do qual sua história seria apenas uma parcela, um fragmento. [36]
Mas o importante em Anteros é que, conforme apontado por Richer, [37] esse poema se enquadra na moldura gnóstica sob dois aspectos decisivos. Um deles, ao identificar Jeová-Júpiter a um deus opressor; outro, ao declarar-se (presumindo que Anteros seja o alter-ego do poeta) o membro de uma raça perseguida, aquela dos descendentes de Caim, eleitos gnósticos para os cainitas.
Cristo no Horto das Oliveiras e Anteros possibilitam avançar na discussão, não só do gnosticismo em Nerval, mas também da sua relação com o cristianismo. Steinmetz parece vê-lo como rebelde anti-monoteísta; portanto, anti-cristão:
[…] Cristo no Horto das Oliveiras constata o deserto dos céus, Deus morto ou indiferente, e alinha Jesus ao número das ilustres vítimas sacrificadas por causa de sua loucura sublime. Nenhum desses sonetos [de As Quimeras] traz a marca da adesão ao monoteísmo. Bem ao contrário, os deuses é que são lamentados, mesmo se, para explicar o sistema do mundo, Nerval pareça admitir a realidade de um criador, aquele que nos tirou do limo. […] O movimento de rebelião contra um poder paterno é constante – quer se trate de Kneph, “velho perverso”, ou de Jeová, verdadeiro tirano. […] As rosas dos santos são um insulto aos deuses antigos e a imprecação é feita pára que elas caiam do céu – neve vã. [38]
Por isso, Nerval proclama a permanência de uma luta entre uma ordem antiga que eles [os deuses da Antiguidade] simbolizam e uma era futura referida ao monoteísmo. Nessa e em outras de suas notas para as Oeuvres Complètes, Steinmetz politiza Nerval, e por conseqüência o gnosticismo, ao salientar seu anti-autoritarismo, sua rebelião contra o Pai, bem como sua luta entre uma ordem antiga e uma era futura.
Em um dos sonetos da série complementar de As Quimeras, A J-y Colona, Nerval lamenta o fim do mundo pagão: os deuses de argila de um Templo, de imenso peristilo, foram destruídos por um Duque Normando; porém, sob as palmas do túmulo de Virgílio/ A pálida hortênsia se une ao loureiro verde. [39] Nesse poema, condensa As Quimeras: os sonetos são lamentações pela perda, não só da amada, mas do tempo em que os mitos eram verdadeiros; subsiste, porém, a esperança em uma união ou síntese, que permitirá o reflorescimento do paganismo.
Aceita a caracterização do rebelde por Paz (examinada no final do Capítulo 4º) como aquele que procura restaurar os mitos, então Nerval, com sua loucura teomaníaca, como a classifica Steinmetz, [40] foi o rebelde romântico por excelência.
Ártemis, outro dos poemas com simbologia numérica e do tarô em As Quimeras, [41] também é sombrio, na mesma tonalidade de El Desdichado. Desde a frase incial: A Décima-Terceira volta… E ainda é a primeira, é sobre um fim que é um recomeço, pois o treze, no tarô, é o arcano da morte, a carta do ceifador, assim como a Ártemis do título, Diana, uma deusa tutelar da morte. Por isso, proclama-a Rainha e A única que amei e que ainda me ama constante:/ É a Morte – ou a Morta. Jenny Colon, no sincretismo nervaliano, é Ártemis e a mártir napolitana Santa Gudula: uma deusa da morte e uma santa que foi morta. O amor, reunião ao arquétipo feminino, só se realiza pela morte: por isso, Ártemis é mais um dos textos de Nerval que anunciam o suicídio, porém confiando em um retorno, na síntese de Eros e Tânatos.
Se O Cristo no Horto das Oliveiras pode ser considerado sombrio, noturno, Versos Dourados é solar. Expressa a crença na religião da natureza, na sacralidade cósmica: é a visão panteísta de um mundo vivo. Desde a epígrafe atribuída a Pitágoras – Céus! tudo é sensível –sustenta que o ser humano é parte de um todo:
Homem! livre pensador! serás o único que pensa
Neste mundo onde a vida cintila em cada ente?
De tuas forças tua liberdade dispõe naturalmente,
Mas teus conselhos todos o universo dispensa.
Honra na fera o espírito que fermenta…
Cada flor é uma alma em Natura nascente;
Um mistério de amor no metal reside dormente;
“Tudo é sensível!” E poderoso em teu ser se apresenta.
Receia, no muro cego, um olhar curioso:
À própria matéria encontra-se um verbo unido…
Não te sirvas dela para qualquer fim impiedoso!
Quase sempre no ser obscuro mora um Deus escondido.
E, como um olho novo coberto por suas pálpebras,
Um espírito puro medra sob a crosta das pedras! [42]
Contador Borges o qualifica como soneto pitagórico que anuncia o tema das “correspondências” em Baudelaire. Propõe, ainda, uma interpretação alquímica de Aurélia: Ambos [Versos Dourados e Aurélia] aludem à busca do conhecimento através da “pedra filosofal” da Alquimia, ambos derivam nos títulos de aurum. [43] Mas toda obra situável no quadro do gnosticismo e do hermetismo também o é naquele da alquimia. Inclusive o que El Desdichado tem de soturno pode ser entendido como correspondendo ao nigredo, à primeira etapa da operação cuja culminância seria representada por Versos Dourados, por isso posto no final do livro.
Leitores de Nerval já comentaram Versos Dourados. Dentre eles, Breton em Do Surrealismo em suas Obras Vivas, para afirmar a mesma crença hermética nas correspondências entre macrocosmo e microcosmo. Octavio Paz também se refere a Versos Dourados em Leitura e Contemplação, ensaio sobre glossolalias e o “falar em línguas”. [44] Entende o tudo é sensível da epígrafe do poema como equivalente a tudo é significativo: o universo todo, o conjunto das coisas, é linguagem, inteligível pelo iluminado capaz de ler as assinaturas divinas, as marcas do macrocosmo em cada particular. É a língua adâmica; aquela da Idade do Ouro, do tempo anterior à queda. O poeta é, portanto, quem traduz a simbologia universal. O entendimento do poeta como tradutor do universo ainda viria a ser claramente apresentada por Baudelaire; isso, lembrando que ambos, Nerval e Baudelaire, foram tradutores.
Versos Dourados, ao fechar As Quimeras, possibilitou que a série fosse de doze poemas. A cifra doze significa a completude, o fim de um ciclo: no tarô, é a carta do enforcado ou pendurado, representando um sacrifício e também um pronunciamento divino: a Lei revelada. Nerval quis encerrar com o poema sobre o mundo paradisíaco anterior à queda, ao qual chegaria após a descida aos infernos, completando o percurso iniciático: o mesmo enredo de Aurélia.
Em As Quimeras não apenas combinam-se acontecimentos históricos, da queda de Roma à derrota de Napoleão, às mitologias egípcia, grega, indiana, escandinava, além de referências à Bíblia, aos apócrifos judaicos e ao Alcorão. A geografia também é sincretizada: A Madame Aguado e Eritréia, poemas em que descreve paradisíacas paisagens orientais, situam Benares, cidade da Índia, na africana Eritréia; em ambos repete a imagem da neve de Cathay (a China) que cai no Atlântico austero, [45] e não, como deveria ser, no Índico ou no Pacífico. Por isso, vale para As Quimeras um comentário de Richer a propósito de Voyage em Orient: Seu desprezo, ou melhor, sua ignorância soberba da história e da cronologia não passam de um aspecto desse desprezo pelo tempo que transparece em todas as suas obras. [46]
Há desprezo pelo tempo e pelo espaço porque os poemas são expressões do pensamento analógico. Nerval não separa ordens de realidade ou campos do saber: tudo se encadeia e corresponde. Por essa lógica, no poema Napoleão o imperador é um messias sacrificado e um avatar, comparado a Cristo e ao Set gnóstico.
É um inadmissível chavão classificar poetas como “difíceis”. Afinal, qualidade poética supõe algo como espessura, profundidade ou densidade. Quem quiser emitir mensagens imediatamente inteligíveis, que se valha do modo prosaico. Contudo, mesmo com essa ressalva, As Quimeras é poesia especialmente difícil – algo que Nerval sabia, observando, na carta a Alexandre Dumas que abre Les Filles du Feu, que seus sonetos, compostos em estado de sonho supernaturalista, […] não são mais obscuros que a metafísica de Hegel e os Memoráveis de Swedenborg, e perderiam seu encanto ao serem explicados, se isso fosse possível. [47]
E mais: sobrepõem-se dificuldades. Uma delas, pelo simbolismo. Seria preciso saber os sentidos de todos os símbolos empregados por Nerval: aqueles esotéricos e mágicos, astrológicos, alquímicos e de outras ramificações do hermetismo; e as alusões históricas, genealógicas e literárias. Outra dificuldade é pelo embaralhamento a que procede, ampliando e multiplicando tais sentidos para além de suas matrizes ou lugares originais. É a confusão de todos os arquétipos, em uma corrida alucinada de todas as analogias, como observa Bueno no prefácio de As Quimeras. [48]
Aceita a distinção entre um simbolismo esotérico, escrita cifrada, e um simbolismo literário, que proclama a autonomia do símbolo, então Nerval foi ao mesmo tempo expoente do simbolismo esotérico e iniciador do simbolismo literário. Isso é reconhecido por Guillaume na introdução às Oeuvres Complètes: seus primeiros poemas, as Odelettes, anunciam Verlaine, além dos sonetos que, bem antes de Mallarmé, buscam e conseguem incorporar a si a música. [49] E por Béguin, pelo caráter “simbólico” e alusivo que logo definirá toda a poesia pós-baudelairiana. [50] E ainda praticou simbolismo literário com simbologia esotérica: um duplo simbolismo.
Vale para As Quimeras e boa parte da obra nervaliana o comentário de Kristeva sobre o eclipse do sentido e a multivalência de conotações em El desdichado:
[..] essas referências [aquelas simbólicas, esotéricas], que constituem a ideologia de Nerval, estão inseridas numa trama poética: desenraizadas, transpostas, elas obtêm uma multivalência de conotações, em geral, indefinidas. A polivalência do simbolismo no interior dessa nova ordem simbólica que é o poema, ligada à rigidez dos símbolos no seio das doutrinas esotéricas, confere à linguagem de Nerval um duplo privilégio: por um lado, assegurar um sentido estável tanto quanto uma comunidade secreta, onde o inconsolado é ouvido, aceito, e, em suma, consolado; por outro, abandonar esse sentido monovalente e essa própria comunidade, para chegar o mais próximo possível do objeto do pesar especificamente nervaliano, através da incerteza da nomeação. [51]
Em outras palavras: Nerval usou o vocabulário esotérico, mas se expressou como poeta. A simbologia é constitutiva do sentido do poema; mas é refeita, produzindo novos sentidos, e mais: o que está além da relação de significação.
* * *
Hermetismo e gnosticismo, não-linearidade, incertezas da nomeação, desprezo por princípios da lógica e parâmetros da realidade: tudo isso reaparece de modo paroxístico em Aurélia. Nerval quis, expressamente, relatar a efusão do sonho na vida real, [52] o modo como o onírico transborda, ultrapassa limites. Começa com esta frase: O sonho é uma segunda vida. A declaração poderia ser epígrafe de um surrealista como Robert Desnos. A defesa do sonho por Breton, no primeiro Manifesto do Surrealismo, é uma paráfrase do que Nerval diz em Aurélia. Mas ele sabia que não estava apenas a sonhar. Seu estado era outro, de sobreposição do sonho e da vigília. Através da rêverie, de um estado análogo àquele em que Swedenborg viajava pelo cosmos, sonhava e estava desperto. Por ser narrativa onírica, predomina um princípio da mutação: Tudo transformava-se ao meu redor. […] A partir desse momento, tudo adquiria por vezes um aspecto duplo. Pretendia, nessa nova vida – em uma das suas alusões a Dante, indicando que Aurélia é uma Divina Comédia caótica – chegar à síntese, ao conhecimento superior que possibilitaria a compreensão do mundo, de sua origem e fim, e do seu próprio destino no mundo. A gnose alcançada nesse estado também lhe permitiria ordenar a babel bibliográfica através da qual se havia formado:
Meus livros, uma estranha pilha da ciência de todos os tempos: história, viagens, religiões, cabala, astrologia, que alegraria as sombras de Pico de la Mirandola, do sábio Meursius e de Nicolau de Cusa – a torre de Babel em duzentos volumes – deixaram-me tudo isso! Havia bastante para tornar louco um sábio; façamos com que também haja o suficiente para tornar sábio um louco.
Tal síntese exigia a formulação de um mito, a exemplo dos profetas da Antiguidade. Nele, articulam-se a visão hermética e gnóstica do mundo. Do hermetismo, é repetidamente afirmado o princípio das correspondências: O macrocosmo, ou grande mundo, foi construído pela arte cabalística; o microcosmo, ou pequeno mundo, é sua imagem refletida em todos os corações. Menciona a Tábua Esmeralda, documento-chave do hermetismo: Eu tentara reunir as pedras da Tábua sagrada, e representar em volta os sete primeiros Elohim que haviam repartido o mundo entre si. Note-se, nessa frase, a fusão de duas mitologias, ou duas doutrinas: a repartição do mundo por anjos ou arcontes, exposta no Livro de Enoch e adotada por Simão o Mago e demais gnósticos, é estranha à Tábua Esmeralda, proclamação da sincronia entre mundo e divindade.
Da doutrina das correspondências advém que somos deuses, ou quiçá sejamos Deus, conforme o relato de um sonho por um amigo e companheiro de hospício, que poderia ser um comentário ou paráfrase de Versos Dourados:
[…] um sonho sublime nos mais vagos espaços do infinito, uma conversa com um ser ao mesmo tempo diferente e participante dele mesmo, e a quem, dando-se por morto, ele indagava do paradeiro de Deus. “Mas Deus está em toda parte”, respondeu seu espírito; “ele está em ti mesmo e em todos. Ele te julga, ouve, aconselha: somos tu e Eu que pensamos e sonhamos juntos – nós jamais nos abandonamos… e somos eternos!”
Há, portanto, um trânsito do macrocosmo para o microcosmo, do infinito para o finito, e vice-versa: segundo penso, os eventos terrestres estão ligados aos do mundo invisível. Trata-se de uma dessas relações estranhas das quais eu mesmo não me dou conta, e que são mais fáceis de indicar que de definir…
Uma das conseqüências dessas relações estranhas é a consubstancialidade em sua versão mais ampla, como participação de tudo em tudo, afirmada nesta passagem: Diz-se com propriedade: nada é indiferente no mundo, nada é impotente no universo; um átomo pode dissolver tudo, um átomo pode salvar tudo! Não apenas os planetas regem o mundo, como na astrologia clássica; reciprocamente, o movimento humano dirige os planetas:
Imaginei a princípio que todas as pessoas reunidas no jardim tinham, alguma influência sobre os astros, e que aquele que girava incessantemente no mesmo círculo regrava dali a marcha do Sol. Um velho que traziam em certas horas do dia e que fazia nós consultando seu relógio era, para mim, o encarregado de constatar a marcha das horas. Atribuí a mim mesmo uma influência sobre o curso da Lua; acreditei que esse astro fora atingido por um raio do Todo-Poderoso que imprimira em sua face a forma da máscara observada por mim.
A interdependência de macrocosmo e microcosmo adquire um tom dramático na cena em que encontra e logo perde de vista a mulher misteriosa em um jardim. É a mulher-mundo, e sua desaparição equivale ao fim do mundo:
Aos poucos o jardim adquiria-lhe a forma [da mulher misteriosa] […] Eu a perdia assim de vista à medida que se transfigurava, pois ela parecia esvanecer-se na própria grandeza. “Oh! Não fujas! supliquei… senão a natureza morre contigo1” […] passando os olhos à minha volta, vi que o jardim tomara o aspecto de um cemitério. Vozes diziam: “O universo está dentro da noite!”
Se o macrocosmo e o microcosmo, o ser humano e o universo, se correspondem de modo recíproco, então, nesta versão trágica do idealismo mágico de Novalis, a desaparição de uma pessoa acarreta o fim do mundo. A filosofia da natureza dos românticos, sintetizando ciência e religião, torna-se narrativa de horror:
Os raios magnéticos emanados de mim mesmo ou dos outros atravessam sem obstáculos a cadeia das coisas criadas; uma rede translúcida cobre o mundo, e seus fios soltos comunicam-se gradualmente com os planetas e as estrelas. […] Se a eletricidade, o magnetismo dos corpos físicos, pensei, pode submeter-se a uma direção imposta por leis, tanto mais os espíritos hostis e tirânicos podem subjugar as inteligências e se servirem de suas forças divididas com objetivo de dominação.
Aurélia pode ser lido como o equivalente, por um poeta romântico, do culto à serpente dos ofitas e naassenos: A serpente que envolve o Mundo é ela própria abençoada, porque afrouxa seus anéis, e sua bocarra aspira a flor de anxoka, a flor sulfúrea – a flor brilhante do Sol! Seu mito da origem é uma espécie de história do mundo misturada com lembranças de estudos e fragmentos de sonhos. O drama cósmico do qual resultou o mundo ocorre em outro lugar: em um planeta obscuro onde se debatiam os primeiros germes da criação. A queda desse planeta obscuro é um movimento perpetuamente descendente: E, com efeito, eu via, resvalando por um vão da porta numa linha de sombra, a geração descendente das raças futuras.
Em conseqüência, o futuro sempre será pior: é a visão gnóstica do tempo, oposta à crença na evolução e em uma lógica da história.
Assim como em apócrifos da Antigüidade, a origem é um erro. Ou então, na origem da vida está o erro, e não o Verbo, o logos. Ou ainda, o logos, porém enunciado de modo errado: Houve, a meu ver, um erro na combinação geral dos números; e vinham de lá todos os males da humanidade. É a fórmula cabalística: se a enunciação correta do nome de Deus cria o mundo, então a enunciação errada acarreta sua destruição. Nerval deu um complemento romântico a esse princípio, ao afirmar que o poeta, mago e novo messias, enunciará as palavras corretas: Eu parecia ter a função de restabelecer a harmonia universal pela arte cabalística e de buscar uma solução evocando as forças ocultas das diversas religiões.
Não poderiam faltar a esse drama os arcontes; os Elohim, na versão de Nerval. É registrada a impotência de Deus, o deus de Lucrécio impotente e perdido em sua imensidão. Reitera O Cristo no Horto das Oliveiras, porém, desta vez, inserindo a proclamação da morte de Deus em uma cosmogonia complexa.
Outro mito que reaparece é o da divindade feminina, a deusa radiante. Geratriz do mundo caída, é Isis, Vênus, a Virgem Maria: todas as deusas. E também Aurélia: à maneira de Simão o Mago, confere estatuto divino a Jenny Colon. A reintegração é união com o princípio feminino, a esposa-mãe ausente. Mas essa união falha por intervenção do outro, do duplo maligno. Acontece uma troca na câmara nupcial, e quem acaba se unindo a Aurélia-Isis-Vênus-Maria-Jenny é a alma adventícia, e não o “eu” verdadeiro:
Falava-se de um casamento e do noivo que, conforme diziam, devia chegar para anunciar o momento da festa. Um arrebatamento insano logo apoderou-se de mim. Imaginando tratar-se daquele que era meu Duplo, e que deveria desposar Aurélia, fiz um escândalo que pareceu consternar a assembléia.
Aurélia é a história da cisão do andrógino. Para resgatar a contrapartida feminina, a exemplo de Orfeu, patrono dos poetas, terá que descer ao reino dos mortos. Por isso, a segunda parte do livro se intitula Eurídice! Eurídice! Paz, conforme citado acima, observou que Nerval, em O Cristo no Horto das Oliveiras, transformou um sonho em mito. Foi mais longe, porém: transformou tudo em mito; não apenas o conjunto dos episódios de sua vida, como sua morte; suicidando-se, foi Orfeu.
* * *
A relação entre a conduta de Nerval e aquilo que escrevia foi romantismo levado a sério: o compromisso total com valores românticos. A semelhança do que é exposto em Aurélia com relação ao idealismo mágico de Novalis é evidente; mas é como se a mesma busca da síntese terminasse em catástrofe; como se Heinrich von Ofterdingen não chegasse a lugar algum, ou a investigação dos discípulos de Saïs desembocasse em um solipsismo, ou o elogio da morte nos Hinos à Noite fosse seguido ao pé da letra.
Em Aurélia, Nerval transformou um drama pessoal em tragédia. Nisso reproduziu uma lógica romântica, evidente em autores tão diversos como Novalis e Victor Hugo: se o macrocosmo e o microcosmo são articulados, então dramas pessoais – a perda de Sophie e Erasmus em Novalis, as mortes dos filhos em Victor Hugo, a orfandade e a perda de Aurélia em Nerval – correspondem a acontecimentos cósmicos; e ao mesmo tempo refletem-se, pela lógica da consubstancialidade, na esfera cósmica.
Baudelaire, em um dos seus prefácios a Poe, havia designado o suicídio de Nerval como gesto de lucidez. Para Kristeva,
A melancolia motiva a “crise de valores” que sacode o século XIX e que se exprime na proliferação esotérica. A herança do catolicismo encontra-se questionada, mas seus elementos relativos aos estados de crise psíquica são retomados e inseridos num sincretismo espiritualista polimorfo e polivalente. [53]
No entanto, isso já caracterizava a cultura da segunda metade do século XVII; termos como proliferação esotérica e sincretismo espiritualista aplicam-se tão bem a Blake e Novalis quanto a Nerval. Mas o que não se enxerga em Blake, e não se vê em uma versão tão extrema em Novalis, é a melancolia: Blake e Novalis parecem monistas que tomam o dualismo como caso particular; em Nerval, o quadro de referências é todo dualista, e a visão de mundo monista é uma possibilidade futura.
O intervalo temporal que separa Nerval de Novalis e Blake corresponde à perda das ilusões; ao desvanecer-se de uma visão de mundo otimista. Para a primeira geração romântica, acontecimentos como a Independência norte-americana e a Revolução francesa davam sentido à história. Justificavam esperanças em uma Europa que se reconstruía após a Guerra dos Sete Anos e poderia chegar a ser a Jerusalém ou Golgonooza de Blake, a cristandade restaurada de Novalis. A geração de Nerval presenciou o colapso de um império, uma restauração monárquica e duas revoltas derrotadas, as de 1830 e 1848.
O futuro fechava-se para Nerval e seus pares. Não lhe oferecia muito mais que a consolidação da sociedade burguesa naquele ambiente de reação conservadora. Guillaume e Pichois comentam, nas Oeuvres Complètes, os meses de incerteza e medo em 1850, ilustrados por este comentário de Máxime Du Camp: Literariamente falando: nada, calma platitude; em todo lugar o tédio dominante, indiferença por todas as coisas que não tocam diretamente ao interesse material; está bugremente morto o tempo dos entusiasmos. [54]
O mesmo ambiente de calma platitude e tédio dominante exasperava Baudelaire, levando-o a afirmar, no poema-abertura de As Flores do Mal, que nada podia ser pior nem mais infernal que o tédio; e, em 1857, dois anos após a morte de Nerval, em seu texto sobre Madame Bovary de Flaubert, a diagnosticar uma sociedade absolutamente embotada – pior que embotada –, embrutecida e gulosa, que não sentia horror senão pela ficção nem amor senão pela posse. [55]
Nerval e Baudelaire se tocam. Se desprezássemos a cronologia, Nerval poderia passar por baudelairiano. Surpreende como tiveram pouco contato. Nerval não tomou conhecimento de Baudelaire, apesar de freqüentarem os mesmos lugares e terem os mesmos amigos. Baudelaire só se referiu a Nerval em duas ocasiões: a primeira, depreciativamente, e a segunda para elogiar seu suicídio.
Há outros pontos de contato: ambos foram atingidos pela censura que se acirrou no pós-1848, com o Segundo Império. Entre suas conseqüências, a interdição de As Flores do Mal e de vários textos de Nerval, levando-o a desistir de projetos teatrais. Isso, conforme registrado pelos organizadores das Oeuvres Complètes, em meio a destituições de funcionários públicos e toda sorte de proibições; até mesmo de usarem barba (mostrando que a repressão visou os rebeldes românticos e não só os revolucionários socialistas, assim como, mais tarde, seriam perseguidos hippies e não só militantes).
Com todo o bucolismo de Nerval, sua rememoração de uma idílica vida campestre, algo frontalmente negado por Baudelaire, ainda há paralelos possíveis na relação de ambos com Paris. Nerval também foi flâneur, conforme registrou nas crônicas de Les Nuits d’Octobre, algumas delas perfeitamente compatíveis com O Spleen de Paris – Pequenos Poemas em Prosa. E suas viagens tiveram algo de flânerie intercontinental, e não mais apenas parisiense.
As reformas de Paris a partir de 1848, com a destruição que precedeu a abertura dos grandes bulevares, embora sejam um dado mais importante para a interpretação de Baudelaire, também afetaram Nerval. Tiveram um efeito mais direto: por causa delas, foi desalojado, expulso de onde morava em 1850, para nunca mais ter domicílio fixo.
O estreitamento das perspectivas de Nerval e seus contemporâneos não foi apenas político. Em meados do século XIX, saíam do horizonte as possibilidades da realização do conhecimento total, da grande integração e síntese, reconciliando religião e ciência, misticismo e racionalismo. A filosofia romântica dos Schelling e Schlegel caía em desgraça. Na razão direta da perda de prestígio dos Werner e Ritter, das doutrinas vitalistas e organicistas na ciência, o determinismo tomava conta da cena, agora com um novo porta-voz, Augusto Comte, sistematizador e arauto do positivismo. Enfim, tudo parecia dar razão à premissa gnóstica adotada por ambos, Nerval e Baudelaire, de que o Tempo é uma via descendente, ao longo da qual tudo inexoravelmente tende a piorar.
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