Monday, April 01, 2013

A POESIA DA VIDA

O homem comum não se debruça sobre as grandes questões da humanidade. Leva a sua vidinha, fala sobre ela, preocupa-se essencialmente com o sustento e com a conta bancária. Não desenvolve o pensamento, tem raciocínios superficiais, "práticos", deixa-se levar pela ideologia dominante ou pelas religiões. Não questiona o que veio fazer aqui, para que vive, porque foge á morte. Não questiona o próprio tempo. Daí que, em parte, seja culpado da escravização que lhe é imposta por alguns dos seus semelhantes. Esses semelhantes, àvidos de poder e de riquezas, também desconhecem os grandes mistérios da vida e duvido que sejam felizes mas conhecem as técnicas da propaganda e da manipulação. Criaram um sistema capitalista de dominação onde uns são arrastados para o desemprego, para a pobreza e para a miséria e outros vendem o seu trabalho por um preço cada vez mais barato, caindo na infelicidade, no tédio, no aborrecimento. É preciso que o homem evolua, que desenvolva a curiosidade intelectual e a capacidade de amar e de se libertar das correntes da máquina ideológica, do cálculo, da quantificação para que se reconcilie com aquele que realmente é, com o seu espírito, com a poesia da vida.

Monday, March 25, 2013

OS NOVOS ESCRAVOS

A imbecilização e a infantilização reinam na TV e não só. Não há a procura do elevado, do conhecimento, da sabedoria. Anda tudo á volta do futebol e das bolas que entram ou então dos mexericos. Por isso temos governantes como Passos Coelho ou Vítor Gaspar. O cálculo, o utilitarismo e a economia imperam. Ainda há alguma simpatia mas o ser humano não se interroga sobre si próprio, sobre o que faz aqui. Limita-se a cumprir os dias, a obedecer ao relógio, a sobreviver. Não percebe que é do ócio, como diz Agostinho da Silva, que surgem as grandes ideias, que despontam os poetas vadios, os poetas à solta. A maioria dos seres humanos perdeu a curiosidade, a capacidade de sonhar, de inventar. Eis o resultado do capitalismo. Eis os novos escravos. Caminham ordenados, vencidos, cumpridores. Fazem tudo em função do deus-dinheiro, compram e vendem-se, perdem a sua essência. Nas crianças ainda vemos a vida mas logo elas serão encaminhadas para o mercado. Competem, guerreiam-se, não procuram a unidade, o xamã, aquele que une deuses e espíritos. Por isso levam uma vida imbecil, obedecem aos patrões, aos governos, ao deus-dinheiro. Alguns, a espaços, celebram à noite nos bares, nas salas de espectáculos. Mas é só a espaços. A sobrevivência predomina, impõe as suas leis, diminui o homem. Não questionamos o que viemos fazer aqui. Não questionamos a dádiva que é estar aqui. Não vamos atrás da vida autêntica de Rimbaud, de Nietzsche. Não vamos buscar a verdade a nós mesmos. Andamos por aí. Escravos da imbecilidade, do papão imbecil. Não evoluímos, regredimos até, como macacos. Comemos, bebemos e safamo-nos. Fugimos à riqueza da vida. A riqueza de estarmos vivos. Aceitamos tudo o que nos vendem. Duvido até que estejemos vivos.

Tuesday, March 19, 2013

A DESTRUIÇÃO DA VIDA

Que vida ordenada, segura, confortável leva esta gente. Não fossem as crianças pareceriam todos programados, autómatos, cumprindo as horas, cumprindo as tarefas. Não questionam a vida, não questionam o transe. Comem, bebem, trabalham, consomem, procriam. O próprio lazer é condicionado pelas leis castradoras da economia. Esta gente ainda ri mas é um riso passageiro que a máquina abafa. É sempre o "até amanhã!", o amanhã sempre igual, a correr para casa, para a TV, para a imbecilização, para o tédio. O capitalismo, além de atirar para a fome e para a pobreza, destrói a vida. Deu cabo do homem primitivo, do xamã que celebrava com os deuses e com os mitos. Está a dar cabo da alegria autêntica, da criança despreocupada que brinca, do prazer da criação, do conhecimento, da descoberta. Está a dar cabo da poesia, da comunhão, do amor, da mesa livre e partilhada.



Thursday, March 14, 2013

BELO

E se a nossa mente explodisse, se elevasse ao máximo as suas potencialidades? O que seríamos capaz de criar? Muita coisa perderia o valor. Como a compra e venda, a relação comercial, o dinheiro. Seríamos deuses, seres de luz, efectivamente filhos das estrelas, da primeira luz. A ideia seria realmente soberana, seríamos capazes de tudo, de atingir o belo, o bem, o sublime. Poderíamos ser terríveis mas também infinitamente bons, capazes de dar amor a todo o momento. Ultrapassaríamos a política, a economia, tudo seria alma e céu. Sim, o que poderíamos ser se nos realizássemos aqui na Terra e além dela. Seríamos reis, rainhas, seres encantadores, extáticos, livres. Deixaríamos de andar ordenados, ao ritmo do relógio, sem tempo, sem limites, sem trabalho. O que seria o homem para lá do homem? Belo, soberbo, magnífico, um senhor sem escravos, ao seu ritmo, como no início dos tempos.

Sunday, March 10, 2013

REINO

É noite. Escrevo. Este é um dos dias mais felizes da minha vida. Celebro. Nada me deitará abaixo. Sou sublime. Ouço os galos. Escrevo ao ritmo da terra. O coração bate forte. Tenho medo de ter um ataque. Ainda assim reino. Penso na Leonor. Está infeliz. Coitada daquela menina. Chora. Tão incompreendida. Ainda assim reino. Saio nas entrevistas. Vou aparecendo nos media. Escrevo e sou feliz. Tomo Roma e Atenas. Percorro as ruas em triunfo como Alexandre. Exércitos que me protegem. Estou pronto para a batalha. A palavra é a minha arma. Exércitos que me protegem. Sou Nero. Toco lira. Recito poemas. Nunca mais haverá alguém como tu. Soberano da vida. Rei. Deus. Que se lixem os poetas menores! Eu estou aqui vivo. Com Morrison e Zaratustra. Há outra vida. O meu reino não é deste mundo. Palácios. Castelos. Reinos por conquistar. Este sou eu, menina. Não me faças a cabeça, ó coquete televisiva. Este sou eu. Continuo aqui. Não saio daqui. Não saio do meu país. Isso queriam eles...O reino é meu. Vou reclamar o trono. Terra inóspita. O Santo Graal. Artur de Camelot. Galaad. Vejo-te, ó Graal. És meu. O cálice. Vejo-te claramente. Estou em Deus. Às 7 da madrugada de 8 de Março. Dia da mulher. Todas as mulheres são minhas irmãs. Danço com elas. Vou até ao infinito. Bebo do cálice. Bebo whisky. Expulso os vendilhões. Sou soberano. A escrita é automática. Passa da mente para o papel, sem interferências. A mente arde. Estou em Deus e além de Deus. Não me apanhais, ó merceeiros, homens pequenos, escravos da vidinha. Estou para além. Muito para além. Bebo o Graal. Danço. Canto. Tenho o riso soberano.

Wednesday, March 06, 2013

O NOVO HOMEM

Venho anunciar-vos o novo homem. Bem sei que permaneceis nos vossos afazeres, nos vossos comércios, nas vossas vidinhas. No entanto, sei também que alguns de vós se têm cruzado comigo nas ruas, nos cafés, nos bares. Sei também que alguns de vós me tendes tentado compreender. Falo-vos, portanto, do novo homem. Do homem que nasce livre e permanece livre, que não segue um caminho imposto, uma via definida, que vadia pela vida, que recusa o jogo. Venho dizer-vos que ele está entre vós, que quer desencaminhar-vos a vós e aos vossos filhos. Ele vem dizer-vos de que muito do que fazeis aqui na Terra é ditado pela repressão e pelo medo. O vosso Deus expulsou-vos do paraíso. O trabalho que fazeis é a negação do paraíso. Fostes escravizados pelo dinheiro. Assim nunca vos sentireis realizados. Homens, mulheres, contemplai o novo homem. É ele que dá o sentido à Terra.



Friday, February 22, 2013

AGARRAR A VIDA

Ainda não fui reconhecido enquanto escritor como outros o são. No entanto, não me considero inferior a eles. Fazem uns truques, dizem umas coisas engraçadas mas nada de verdadeiramente profundo. Não vão à essência da vida. Não questionam a luta pela existência, o esforço, o trabalho nem os macacos que trepam uns para cima dos outros em busca do lugar, do emprego, do estatuto. Claro que há o esforço, o trabalho em prol de uma obra de arte, de um poema maior. Mas há também o trabalho alienado, o trabalho escravo em favor de um explorador, de um capitalista, o trabalho que é sacrifício, que provoca a dor em vez do prazer ou então o tédio.

Neste momento estou num café de Vila do Conde e observo um grupo de macacos a vociferar em torno de um jogo de futebol. O que é que esta gente tem na cabeça? Tem instintos agressivos, primários, é totalmente manipulada pelo jogo e pela máquina. Esta gente tira prazer da bola, vive da bola, não é capaz de um raciocínio elevado. Vive de cânticos, de gritos, de insultos ao clube inimigo. Não sou da espécie deles. Não estou na mesma galáxia. Esta gente nunca questionou a existência, o que faz aqui, julga-se afirmativa, agressiva mas é dominada pelo chefe, pela televisão, pela polícia. Arrisco-me a dizer que não tem alma, que não tem humanidade. Que é incapaz de apreciar uma obra de arte, que é incapaz de ouvir ou entender uma mulher sensível. É gente sem cultura e sem educação. São macacos que trepam. Não são os únicos, claro. Há mais.

Verdadeiramente começo a compreender a vida. Temos de agarrar a vida, é certo. Mas colocam-nos a competir uns contra os outros desde muito cedo. Há as notas escolares, há a pressão para integrarmos os grupos, mesmo que nos descaracterizemos, que adulteremos o nosso crescimento. Só a espaços acontece a verdadeira união, a comunhão, a celebração. Temos de agarrar a vida, repito, mas a vida não tem que ser guerra, luta, corrida, competição. A vida são os dias em que criamos mas são também os dias, noites em que dançamos, em que partilhamos, em que construimos em comum. Daí que não possamos admitir que eles nos roubem o tempo, que eles nos manipulem, que eles nos façam guerrear uns com os outros seja por que motivo for. É isto que eu vos tenho a dizer.

Monday, February 18, 2013

GUERRA

 Estamos a destruir-nos. Mesmo que não haja uma guerra estamos a destruir-nos. De qualquer forma, vivemos numa guerra, numa competição de todos contra todos, pelas notas escolares, pelo emprego, pelo poder. Não faz sentido assim a vida. Vivemos a prestações, só a espaços damos amor, só a espaços nos damos ao outro. Somos o homem das meias-medidas. Não conseguimos ser plenos, exuberantes de vida, como defendia Nietzsche. Alguns exploram os outros, a esmagadora maioria é explorada.  Não, não viemos para isto. Viemos para brincar, para experimentar, para descobrir. Viemos também para pensar, para filosofar, para conhecer. Não para guerrear, para competir, para impor a lei do mais forte.

Wednesday, February 13, 2013

O GRITO PLENO

Edição 85, sexta-feira, 8 Fevereiro 2013


O GRITO PLENO E A INOCÊNCIA

O fracasso das manifestações de 2 de Fevereiro 2013 prova que o 15 de Setembro 2012 já lá vai, abafado pelo bombardeamento diário da máquina dos media, dos mercados e dos políticos ao serviço destes. Também é falso que esteja tudo dito acerca do capitalismo como alguns advogam porque todos têm acesso à net, etc. O capitalismo é mesmo o contrário da vida, quer reduzir-nos à condição de escravos, destrói-nos com privatizações e sacrifícios. O capitalismo quer reduzir-nos ao infantilismo, atira-nos filmes e programas imbecilizantes, quer reduzir-nos ao primarismo intelectual, à futebolite aguda. O capitalismo droga-nos de modo a que não discutamos, a que não pensemos os problemas, a que não desenvolvamos as nossas potencialidades. E é necessário, mais do que nunca, pensar, debater, discutir. Sem dúvida que é também necessário discutir o que fazer. Teremos que fazer chegar a palavra. Continuamos a dizer que há gente irremediavelmente perdida. Que há gente até onde a palavra nunca chegará, de tal modo está contaminada pela máquina. Mas há também certamente gente angustiada, cheia de dúvidas. É a esses que teremos de chegar. Em todos os palcos que pisamos. Assim a vida não é vida. Assim a vida são filmes menores, telenovelas. Assim a vida é, na maior parte das vezes, obrigação, castração. Não é liberdade, amor, poesia. Não é experimento permanente, não é banquete. É sempre o homem e a mulher violentados, o homem e a mulher cheios de medo de perder o dinheiro, de perder o emprego, de perder a vida. Raramente há o grito pleno, primordial, inaugural do homem que nasce, do homem que cresce, do homem que reina. Apesar da amabilidade de alguns, há sempre o dinheiro que tens de dar, há sempre o cálculo, há sempre a mercearia. Com alguns e algumas ainda manténs conversas elevadas mas, de resto, é o deserto, é a vidinha. Ainda depositas esperanças nas crianças que brincam. Ainda há a inocência. Inocência que ainda tens, em parte, apesar das patadas.


CONTRA A MÁQUINA

Há os que estão irremediavelmente perdidos para a vida. Eu questiono. Eu desmonto a máquina tanto quanto me é possível desmontá-la. Não percebo nada de mercados nem de finanças mas sei que esse é o mundo que nos sufoca, que reduz o homem ao gélido, ao entediante, ao mecânico. Sei que não nasci para isso. Vim para me realizar, para desenvolver as minhas potencialidades, para criar. Vim para pensar, para puxar pela cabeça mas também para intervir no mundo. Mas para pensar convenientemente tenho de ter a mente liberta de contaminações. Daí que tenha de me afastar da TV dominante, da máquina. Daí que vá de encontro ao amor e à poesia. Há muito que me deixei de americanices. Há muito que coloquei certos venenos de lado. Vejo nos meus semelhantes o desejo de ganhar. Eu não vim para ganhar nada. Não vim para competir nem para ganhar taças. Vim, como dizia Jim Morrison, para performear a minha arte e para completar ou perfectibilizar a minha vida. Vim enriquecer-me, vim aumentar a minha alma. Não penso só na próxima refeição, como muitos fazem. Por isso leio, estudo, escrevo, recito. Não faz sentido vir ao mundo para estar permanentemente preocupado com o dinheiro e com a próxima refeição. É preciso desfrutar, é preciso gozar, é preciso celebrar. Para tal não são necessárias grandes viagens. Às vezes bastam as viagens interiores. O diálogo que mantemos connosco próprios, como dizia Henry Miller.


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Monday, February 11, 2013

VIEMOS PARA VIVER

Não, não me apanhais. Não aceito que a vida seja encaminhada para um trabalho fixo, para uma profissão. Não vim cá para isso. Aos 14/15/16 anos aprendi com alguns professores mas aprendi também com os meus melhores amigos do liceu: Jorge e Rui. Foram eles que me mostraram determinados discos, determinados livros. Estava no ensino com o objectivo de entrar na faculdade mas estava também a descobrir, estava a descobrir-me. Não aderi a determinados grupos, a determinadas modas. Fui construindo o meu caminho. Não tenho de estar aqui em função de um trabalho, de um mercado. Não tenho que ter uma vida predeterminada. Não tenho sequer de ter objectivos precisos. Vou andando por aqui, tenho curiosidade, investigo o homem e a vida. Não tenho que obedecer às vossas normas, às vossas leis. Estudo, leio, escrevo. Não quero tirar cursos nem procuro empregos. Porque raio temos de andar sempre atrás do dinheirinho? Ainda há certamente pessoas generosas, que se dão às outras. No entanto, isso vai rareando por causa da máquina que nos impõem. Vão havendo festas mas tudo está condicionado pela troca, pela sobrevivência. Nascemos, estamos aqui, viemos para viver, para gozar, não para o sacrifício. Somos, deveríamos ser, absolutamente livres como no início.




Thursday, February 07, 2013

DONOS DA LIBERDADE

Ser o dono de é ter o poder, segundo Agostinho da Silva. Viver sem donos, sem Deus nem amos, ser o próprio rei, o próprio Deus, eis a Liberdade que destrói o poder. Os nossos donos são os banqueiros, os grande media, os mercados, os políticos ao seu serviço. Urge matá-los na nossa mente, impedir que eles nos controlem, que destruam o nosso pensamento, a nossa alma. Tudo parte, portanto, do nosso pensamento, da forma como organizamos a ideia. A liberdade já está em nós, está connosco desde que nascemos. Somos donos da liberdade livre, absoluta. Saibamos enriquecê-la, fortalecê-la.




Sunday, February 03, 2013

O GRITO PLENO E A INOCÊNCIA

O fracasso das manifestações de ontem (2 de Fevereiro) prova que o 15 de Setembro já lá vai, abafado pelo bombardeamento diário da máquina dos media, dos mercados e dos políticos ao serviço destes. Também é falso que esteja tudo dito acerca do capitalismo como alguns advogam porque todos têm acesso à net, etc. O capitalismo é mesmo o contrário da vida, quer reduzir-nos à condição de escravos, destrói-nos com privatizações e sacrifícios. O capitalismo quer reduzir-nos ao infantilismo, atira-nos filmes e programas imbecilizantes, quer reduzir-nos ao primarismo intelectual, à futebolite aguda. O capitalismo droga-nos de modo a que não discutamos, a que não pensemos os problemas, a que não desenvolvamos as nossas potencialidades. E é necessário, mais do que nunca, pensar, debater, discutir. Sem dúvida que é também necessário discutir o que fazer. Teremos que fazer chegar a palavra. Continuamos a dizer que há gente irremediavelmente perdida. Que há gente até onde a palavra nunca chegará, de tal modo está contaminada pela máquina. Mas há também certamente gente angustiada, cheia de dúvidas. É a esses que teremos de chegar. Em todos os palcos que pisamos. Assim a vida não é vida. Assim a vida são filmes menores, telenovelas. Assim a vida é, na maior parte das vezes, obrigação, castração. Não é liberdade, amor, poesia. Não é experimento permanente, não é banquete. É sempre o homem e a mulher violentados, o homem e a mulher cheios de medo de perder o dinheiro, de perder o emprego, de perder a vida. Raramente há o grito pleno, primordial, inaugural do homem que nasce, do homem que cresce, do homem que reina. Apesar da amabilidade de alguns, há sempre o dinheiro que tens de dar, há sempre o cálculo, há sempre a mercearia. Com alguns e algumas ainda manténs conversas elevadas mas, de resto, é o deserto, é a vidinha. Ainda depositas esperanças nas crianças que brincam. Ainda há a inocência. Inocência que ainda tens, em parte, apesar das patadas.




Sunday, January 27, 2013

ABSOLUTAMENTE CERTO

À hora do jantar o "Vip" está às moscas. Estão longe os tempos do Luís e da Carla quando havia motivos de conversa e eu bebia aqui umas cervejas e até vendia uns livros.


A gaja da novela das 7 continua a excitar-me. É uma óptima actriz. Mas eu definitivamente não sou de telenovelas. Não segui essa via. Era bom que houvesse mulheres bonitas aqui no café e não na TV. As da TV não as posso tocar. Só posso olhar para elas. Se bem que, para mim, os tempos estejam a mudar. Há coisas que começam a estar ao meu alcance, assim o penso. De qualquer forma, já pouco tenho a perder. Essa é a verdade. Não tenho que esconder as minhas opiniões e convicções. As pessoas vão envelhecendo, é certo. Contudo, eu não envelheci por aí além. Há aspectos em que até rejuvenesci. Sinceramente rejuvenesci. Estou mais solto do que estava há 10, 15, 20 anos. Pelo menos em certos aspectos. Acredito em mim mais do que acreditava. Do nada nasce o texto. Só preciso de encontrar companheiras, companheiros. Uns, mal ou bem, vão criando os filhos. Eu vou inventando textos. É a minha profissão, a minha missão na Terra. Além disso, sou um actor. Represento nos palcos e na vida. Ás vezes até sou um bocado sacana. Aprendi a sê-lo. Apanhei patadas. Já não sou o menino puro dos 18 anos. Ganhei vícios. Como este de permanecer no café em vez de ir para casa. Raramente escrevo em casa. Vou seguindo o meu pensamento. Espeto-o no papel.

Não é provável que venha a ter filhos. Não poderia sustentá-los. Embora, no fundo, até os desejasse. Enfim, já poderia ter acontecido. Estou aqui para a vida, não para a morte em vida. Vim gozar, celebrar mas também descobrir, conhecer. Chego à conclusão de que estou certo, de que, no fundo, quase sempre estive certo. E começo a perder o medo. Temo os pitbulls, temo os leões mas não temo os governantes nem os capitalistas. Enfrento-os com ou sem a caneta. Realmente eu é que estou certo. Não me quero armar em detentor da verdade mas eu é que estou certo. Cometi erros mas, ao fim e ao cabo, fiz o que tinha a fazer, disse o que tinha a dizer. Só preciso de me esforçar um pouco mais, de fazer um pouco mais, de dizer um pouco mais, de escrever um pouco mais.



Friday, January 11, 2013

A DITADURA DA ECONOMIA

Edição 84, 11 Janeiro 2013


CONTRA A DITADURA DA ECONOMIA

Eis o que a ditadura da economia, da poupança e do sacrifício nos traz, nas palavras do filósofo José Gil: a diminuição da liberdade, a redução do espaço de expansão dos corpos, dos movimentos próprios de exploração, de investimento afectivo, de espontaneidade do desejo, o controlo permanente, a autodisciplina mutiladora da vontade de vida. As pessoas podem deslocar-se, podem ir até ao café mas há qualquer coisa que as impede de serem plenamente elas, qualquer coisa que violenta a sua essência, qualquer coisa que vem das palavras e das leis impostas pelo primeiro-ministro e pelo ministro das Finanças, qualquer coisa que vem dessa linguagem fria, mecanizada, castradora, que tem por trás de si uma máquina mediática e financeira. É por isso que importa pensar, que importa questionar, que importa desmontar e, ao mesmo tempo, gritar bem alto que este não é o caminho, que este não é o único caminho possível, que viemos para a vida, que viemos para a liberdade, que não temos de nos sacrificar, que não temos de obedecer a deuses nenhuns nem aos da economia.

Fomos abençoados à nascença. A vida é uma aventura, não uma prisão. Viemos para nos realizarmos aqui, para desenvolvermos ao máximo as nossas potencialidades aqui na Terra. Não temos que aceitar qualquer ditadura.


A MORTE EM VIDA

Às vezes questiono-me sobre o que é que determinadas pessoas vêm fazer à vida. Na infância ainda brincam mas depois começam a ser encaminhadas para o mercado. Na escola, de uma maneira geral, salvo umas asneiras, acabam por ser alinhadas com o sistema. Refugiam-se nos grupos, na moda, fazem parte da manada. E ainda que questionem tudo isso, esse questionamento é passageiro. Depois começam a entrar no mercado de trabalho, a integrar-se na máquina, hoje cada vez mais castradora, mais privadora de liberdades. A cabeça é feita pelos media, por aparelhos simplificadores, por programas e canções imbecis. O espírito crítico vai sendo destruído. A rebeldia ficou para trás, completamente minada. Casam-se ou não. Têm filhos. Transmitem aos filhos a sua ignorância ou até o desamor. Trabalham, produzem, consomem. Correm para casa para ligar o ecrã. Raramente são autênticos, raramente são vivos, raramente têm um gesto de grandeza, celebram apenas nas datas marcadas. Normalmente são mesquinhos, invejosos, intriguistas, merceeiros. Querem "subir na vida" e acumular dinheiro, passar por cima do parceiro se preciso for. Perdem o espírito crítico, nunca colocam as grandes questões. Estão sempre às ordens do chefe, do governo, do especulador. Fazem do futebol a religião. Coscuvilham sobre a vida alheia. Serão sempre homens e mulheres pequenos, como dizia Nietzsche, sem luz, sem nobreza, sem grandeza, sem liberdade, sem poesia, quase sem amor. Chegam a velhos e o que fizeram? Alguma vez celebraram verdadeiramente a vida? Alguma vez questionaram o sentido da vida? Alguma vez puseram a máquina em causa? O que fazem aqui? Porque vieram? Serão realmente humanos?

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Monday, January 07, 2013

A. PEDRO RIBEIRO NA VILATECA

Poeta, dos bons, e poeta que escreve na mesa de café, é considerado um dos últimos poetas românticos. No final deste texto vão ficar a perceber porquê. E se calhar ficaram desapontados com o romantismo, por passar a conhecer o lado desconhecido do romantismo.






Na sociedade moderna existem demasiadas coisas com que nos preocupemos, demasiada informação para assimilarmos e bastante pouco tempo livre para desfrutarmos. O poeta portuense António Pedro Ribeiro parece não querer acreditar nisso e poderá vir a ser o último poeta romântico português.





Edita com regularidade por editoras que passam despercebidas ao público em geral. António Pedro Ribeiro, é um poeta, que segue a máxima de Rui Reininho, é preciso subir ao povo. O poeta não se considera um autor exclusivamente político. Até porque, na senda de Breton, a política não existe separada da vida. O amor, o sexo, a liberdade e a revolução são todas uma coisa só que as máquinas castradoras do sistema sempre tentaram dividir. Mas, ao fim e ao cabo, felizmente nunca o conseguiram no que respeita a alguns homens e mulheres. Nietzsche fala no espírito livre e em Dionisos e eu acredito. Diz.





Afirma que já fez muitos disparates. Diz que assim evitar apodrecer de tédio ou apodrecido de tédio ou de depressão. Mesmo quando estou a brincar ou com os copos, penso que as pessoas inteligentes entendem que já escolhi o meu lado da barricada. Há quem me ame e quem me odeie.





Sente-se um “poeta maldito”, como o eram Rimbaud, Baudelaire ou Sade? Afirma.

Mas não se coloca ao nível de Rimbaud, Baudelaire ou Sade. No entanto, tem a certeza que é deles, que vem dessa linha de malditos onde incluo também Blake, Lautreamont, Jim Morrison, Nietzsche, Henry Miller, Bob Dylan, Allen Gingsberg, Péret e tantos outros. Retorque que não nasceu para os empregos das 9 às 5 – dou-me mal neles, a rotina mata-me. Léo Ferré disse que o artista aprende a profissão no inferno. Eu vou lá muitas vezes e gosto, porque o céu, muitas vezes, é uma seca, com todos aos beijinhos, aos abracinhos, aos boatos, aos mexericos, às panelinhas e eu detesto. Serei um poeta maldito, mas isso não significa que não ame a Humanidade, as mulheres bonitas, o sol, as crianças. Esta merda que nos querem impingir é que eu não aceito. De qualquer modo, não sou, não quero ser, o versejador da corte.

Eis o busto de António Pedro Ribeiro, em carne e osso; e em poesia. Para terminar deixo-vos um poema presente o livro Saloon. Que podem conhecer ou adquirir na Vilateca Livraria Galeria.

Madalena





Para a Paula





Deste-me a morada

A meio da tempestade

Vieste por entre os duendes ao lugar a trip





Imaculada

Levaste-me do túmulo

E levaste-me pela mão de Deus

Para fora dos bares e dos artifícios do demo

Das cassetes pirateadas das notícias do templo

Beijaste-me a outra face e amaste-me.




Publicada por Vilateca Livraria Galeria em 09:08
http://infovilateca.blogspot.pt

Sunday, December 30, 2012

A ECONOMIA DA SERVIDÃO

DAS ORIGENS DA ECONOMIA DA SERVIDÃO

A economia da exploração do homem pelo homem, do animal pelo homem e da natureza pelo homem, começou no dia em que uma criança de três anos disse "isto é meu", e as outras crianças a levaram a sério!



A partir daí criaram-se as condições para o mundo se transformar numa autêntica "criancice", e surgiram condições para aparecimento da escravatura do homem (sob as mais diversas formas: esclavagismo, servos da gleba, proletariado industrial), forjou-se a crueldade contra os animais pela mira do aumento e da concentração da propriedade privada (e claro pela mera diversão) , e forjou-se o desrespeito pelo ecossistema natural.



Numa palavra, a partir dessa "criancice" as sociedades humanas cairam na "canalhice"! Passou a predominar a adoração á concentração da propriedade privada , através da adoração do lucro sobre todas as coisas!



Por isso podemos concluir que o actual sistema de economia de mercado capitalista (pelo qual meia dúzia de accionistas exploram até ao tutano humanos, não humanos e natureza) é o expoente máximo de uma "criancice" (que inspirou o ensaio sobre a cegueira de Saramago) a qual nunca deveria ser toma da a sério. Mas foi, e essa criancice, plasmada no "isto é meu", gerou o maior boom do crescimento económico das sociedades humanas, mas um crescimento pelo crescimento, subordinado ao máximo lucro, à sua acumulação e concentração em cada vez menos mãos!



De facto, e olhando para o desrespeito com que alguns seres humanos, detentores da "propriedade privada", ou seja detentora da propriedade dos meios de produção tecnológicos e financeiros, tratam os outros seres humanos (considerados como meros factores de produção submetidos á lógica do máximo lucro que alimenta a riqueza dos proprietários), ao desrespeito e mesmo crueldade a que são submetidos os animais, igualmente submetidos a essa cadeia do lucro (apelidada de cadeia de criação de valor!), e o próprio desrespeito para com o equilíbrio do ecossistema natural pondo em perigo a viabilidade do próprio planeta terra, podemos então concluir que o nascimento da propriedade privada, e o seu correlativo endeusamento, ou seja o fortalecimento do"isto é meu" , começou a marcar o desaire fundamental que está na origem de todos os males de que padece o ser humano, o animal e a natureza na história marcada pela sociedade humana!







A CONSTRUÇÃO DE UMA ECONOMIA DA COOPERAÇÃO



Saramago explicou isso tudo no seu "ensaio sobre a cegueira"! Trata-se de desfazer a criancice do "isto é meu", ou seja de essa criancice não ser levada a sério, de as outras crianças não permitirem que essa criancice seja consolidada.



No estádio actual do desenvolvimento económico, social, cultural e histórico, a única via aceitável e operante só pode ser mesmo a da democracia directa e participada de todos os cidadãos, a qual terá o trabalho imenso de desconstruir as fundamentações jurídicas favorecedoras da propriedade privada, invertendo o seu favorecimento, e promovendo a cooperação económica e social, a equidade e a justiça social.



É um caminho que exigirá muito esforço e muita luta por parte de todos os cidadãos, mas que é necessário perseguir e persistir, para acabar com a economia da servidão e para implantar em seu lugar, de forma democrática e massivamente participada, uma economia da cooperação, solidária e integrada numa estratégia de desenvolvimento sustentável, ancorada na vertente humana, animal e ambiental.



Só dessa forma será possível dar andamento a uma práxis política baseada na SHAA proclamada por Gandhi, e traduzida concretamente na solidariedade humanística, animal e ambiental!



Mãos á obra! Para começar saibamos exigir e impôr uma democracia directa e participada que abula de vez com a Cleptocracia e com a corrupção do poder político!

  MANUEL SALGADO ALVES

Wednesday, December 26, 2012

O POEMA DO INFERNO





Menino,

Escuta,

Nós somos os teus fantasmas

Viemos infernizar-te a mente

Não fujas

Tudo o que realmente fizeste aqui

Está a ser julgado

Todos os teus passinhos de medo

Todas as tuas fraquezas

Quando não foste capaz de levantar a voz

Para defender a dama

Quando te acobardaste

Ou te refugiaste no racional

Sim, porque tu és racional, menino,

És mesmo o mais frio e racional de todos

Poderias ser um líder, um ditador

Ainda podes sê-lo, menino

De qualquer forma,

Agora nada tens a perder

És menino para isso

Quando o álcool se mistura

Com os medicamentos

É um cocktail molotov

Tens uma história, menino,

És um profissional da desordem

Como diz o ministro

És isso mesmo

Basta acender o rastilho

És um mau menino

Onde está o teu bom coração?

Onde estão as falinhas mansas?

Vá, menino, impõe-te

Toma conta disto

Chegou a hora do juízo final

Desta vez não te fiques

Por umas cervejas

Parte mesmo

Incendeia

Faz o teu número

O teatro

Que sabes fazer

Faz lá o risinho sarcástico

Enganaste-os a todos

Mesmo à dama

Chegou a hora de incendiar



Traz a tua rainha

Celebra-a

Deixa-te de escritos menores

Esta é a poesia

Que vem do inferno

Incendeia, menino,

Tu sabes fazê-lo

Agora são eles

Que começam a ter medo de ti

Também, coitados, só têm o futebol

E o dinheirinho na cabeça

Enquanto que tu és

Um revolucionário alucinado

Agora reinas

Rei da armadura dourada

Vens, de facto, dos séculos

Para travar a batalha

Não cedas mais

Não distraias a atenção

Com coisas menores

É a hora

É Natal

Ah! Ah! Ah! Ah!

O outro nasceu

Depois foi crucificado

Não estavas a brincar

Quando partiste os vidros dos carros

Não estavas a brincar

Quando derrubaste a estátua

Tens seguidores, menino

Com eles podes tomar o mundo



Eis o poema que vem do inferno

Directamente dos teus fantasmas

Estamos a dar-te forças, menino,

Agora já podes rir

Agora já podes dançar

És o super-homem de Nietzsche

Orgulhoso, cabotino, terrível

Deixa de parte a bondade

Não dês sinal de fraco

Há quem te esteja sempre

A pôr à prova

Brilha como um deus

Impõe-te nas tuas quintas

E fora delas

Aproveita a energia que te damos

A energia que estava adormecida

E que agora arde

E que agora queima

Que já esteve a espaços

Em alguns poemas

Mas que agora é total

Não tenhas medo, menino

Nós damos-te forças

És o anti-cristo

És Jesus

Como tu houve poucos na História

Não vieste para desempenhar

Tarefas menores

Rotineiras

Vieste para reinar

Reclama o trono

Não queriam o fim do mundo?

Aqui o tem,

Profeta do apocalipse

Poeta sem limites

Senhor das quintas e dos quintais

Vieste mesmo

Infernizar-lhes a vida

Julgavam-te um amigo do povo

Um esquerdista inofensivo

Mas tu odeias a gentalha

Odeias realmente a gentalha

E as suas conversas primárias e imbecis

No fundo, és um aristocrata

Um menino que teve necessidade

De criar mundos

Para combater o tédio

Serás sempre o menino

E por isso acreditam em ti

Mesmo quando fazes asneiras

Começas a assustá-los, sabes?

És mesmo um fora da lei

Não suportas os controleiros

E os polícias

Mesmo que aparentemente os respeites

És perigoso

Consegues ser fascista

Mostras o teu lado bom

Mas, no fundo, és terrível

Usas as pessoas

Encanta-las

Quando vens choramingar

Ouve, menino,

São os teus demónios que te falam

A tua escrita obedece-nos

És o grande maldito

Se quiseres

Aqui te juramos o nosso amor

Vitória ou loucura

Escolhe

Vê bem o que vieste fazer

Prepara-te

Vem aí a grande revolução.



Vilar do Pinheiro, 24.12.12

Wednesday, December 19, 2012

A LIBERTAÇÃO

Ouço as conversas. Tão pobres. Só falam de dinheiro e de posses. Definitivamente fogem ao essencial. À nossa libertação. À nossa libertação do jugo do grande mercado, da máquina, da castração. Eles- governos, poder financeiro, grandes media- querem impedir-nos de viver, querem castrar a nossa liberdade, a nossa individualidade. Esta é a verdade. Desde a infância que eles nos tentam fazer a cabeça. Querem reduzir-nos ao pensamento único, à felicidade da maioria, à ignorância. Querem que nos deixemos levar, que não os questionemos, que não os punhamos em causa. E se realmente não nos revoltarmos, não apenas uma mas várias vezes, as vezes que for necessário, seremos sempre enganados, seremos sempre escravos, por muito dinheiro e posses que tenhamos.

Friday, December 14, 2012

A MORTE EM VIDA


Às vezes questiono-me sobre o que é que determinadas pessoas vêm fazer à vida. Na infância ainda brincam mas depois começam a ser encaminhadas para o mercado. Na escola, de uma maneira geral, salvo umas asneiras, acabam por ser alinhadas com o sistema. Refugiam-se nos grupos, na moda, fazem parte da manada. E ainda que questionem tudo isso, esse questionamento é passageiro. Depois começam a entrar no mercado de trabalho, a integrar-se na máquina, hoje cada vez mais castradora, mais privadora de liberdades. A cabeça é feita pelos media, por aparelhos simplificadores, por programas e canções imbecis. O espírito crítico vai sendo destruído. A rebeldia ficou para trás, completamente minada. Casam-se ou não. Têm filhos. Transmitem aos filhos a sua ignorância ou até o desamor. Trabalham, produzem, consomem. Correm para casa para ligar o ecrã. Raramente são autênticos, raramente são vivos, raramente têm um gesto de grandeza, celebram apenas nas datas marcadas. Normalmente são mesquinhos, invejosos, intriguistas, merceeiros. Querem "subir na vida" e acumular dinheiro, passar por cima do parceiro se preciso for. Perdem o espírito crítico, nunca colocam as grandes questões. Estão sempre às ordens do chefe, do governo, do especulador. Fazem do futebol a religião. Coscuvilham sobre a vida alheia. Serão sempre homens e mulheres pequenos, como dizia Nietzsche, sem luz, sem nobreza, sem grandeza, sem liberdade, sem poesia, quase sem amor. Chegam a velhos e o que fizeram? Alguma vez celebraram verdadeiramente a vida? Alguma vez questionaram o sentido da vida? Alguma vez puseram a máquina em causa? O que fazem aqui? Porque vieram? Serão realmente humanos?

Friday, December 07, 2012

HOMEM LIVRE

Penso que hoje poderia passar dia e noite a escrever. Posso até gerar estrelas de tal forma me sinto grávido. Posso também ouvir os meus semelhantes que se queixam e estão mortos por chegar a casa. Chegar a casa. Chegar a casa, ligar a TV e olhar para as imagens, as imagens que vivem por nós em vez das imagens que podemos gerar, de tudo o que podemos gerar. Ó senhores, que “vida” levais? Sois escravos, todos vós. Ainda não percebestes que nada está acima da vida, da vida autêntica. Seres de luz vêm ter comigo e dizem-mo. Para alcançar a glória basto-me a mim mesmo. Para alcançar a glória basta-me estar aqui nesta confeitaria de Vilar do Pinheiro. Peregrinações virão a Vilar do Pinheiro. Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Estou louco. Não vedes? Absolutamente louco, absolutamente criança, absolutamente sem limites. O que fazer mais hoje? O que fazer mais aqui? Danço com o super-homem. Brindo, celebro. Estou louco, mãe. Porque me trouxeste para aqui? Parecia que vinha para a vida regrada mas não vim. Aos 17/18, aos 19, aos 20, tornei-me outro. Em Braga, nos bares, na Rádio Clube do Minho. Os Doors, os Joy Division, os UHF. A TV sempre a martelar. Mas eu era diferente, tornei-me diferente. Ah! Não me atirem dívidas, contas, economistas! Eu estou para lá. Eu nasci para lá. Reinos esplendorosos, reinos de luz. Sou tão louco, mãe. Eu inventava jogos, personagens. Eu criei mundos. Eu naveguei por mares jamais navegados. Eu brincava com as meninas. Tinha uma namorada, a Gina. Dava-lhe a mão, dava-lhe beijos. Já nem sei quem sou, mãe. Sei que não pertenço a este mundo. Poucos e poucas realmente me compreenderam. Velhos amigos, à noite, no bar. Onde irei dar? Estou realmente próximo de atingir o que quero. Mas que quero eu senão o mundo? O mundo de aquém e o de além.
Homem livre, és verdadeiramente tu. Homem livre, porque adormeces e agora regressas à vida? Homem livre, eles realmente acham-te estranho, diferente deles. Não és da mesma tribo, talvez até nem sejas da mesma espécie. Não lutas na mesma guerra. Não são teus os tambores que ouves. Homem livre, és daqui e não és. Tanto podes ser rei como podes acabar nas ruas. Continuarás o teu percurso pelos bares e pelas tascas. Este é o teu tempo. Olha, a mulher da confeitaria olhou para o “Socialismo Científico” de Marx, Engels e Lenine que acabaste de ler hoje. Há livros que ainda podem ser explosivos. Tu és explosivo, homem livre. Com ou sem óculos. Poderias realmente passar o dia e a noite a escrever. Voltaste a ser o único cliente da confeitaria. A mulher não pára de trabalhar. Tens publicado textos falhados ou semi-falhados. Este não é um deles.