Tuesday, January 15, 2008

MANIFESTO CONTRA O TRABALHO


Manifesto contra o Trabalho*



1. O domínio do trabalho morto

Um cadáver domina a sociedade – o cadáver do trabalho. Todos os poderes ao redor do globo uniram-se para a defesa deste domínio: o Papa e o Banco Mundial, Tony Blair e Jörg Haider, sindicatos e empresários, ecologistas alemães e socialistas franceses. Todos eles só conhecem um lema: trabalho, trabalho, trabalho !

Os que ainda não desaprenderam a pensar reconhecem facilmente que esta postura é infundada. Pois a sociedade dominada pelo trabalho não passa por uma simples crise passageira, mas alcançou seu limite absoluto. A produção de riqueza desvincula-se cada vez mais, na seqüência da revolução microeletrônica, do uso de força de trabalho humano – numa escala que há poucas décadas só poderia ser imaginada como ficção científica. Ninguém poderá afirmar seriamente que este processo pode ser freado ou, até mesmo, invertido. A venda da mercadoria força de trabalho será no século XXI tão promissora quanto a venda de carruagens de correio no século XX. Quem, nesta sociedade, não consegue vender sua força de trabalho é considerado "supérfluo" e é jogado no aterro sanitário social.

Quem não trabalha, não deve comer ! Este fundamento cínico vale ainda hoje – e agora mais do que nunca, exatamente porque tornou-se desesperançosamente obsoleto. É um absurdo: a sociedade nunca foi tanto sociedade do trabalho como nesta época em que o trabalho se faz supérfluo. Exatamente na sua fase terminal, o trabalho revela, claramente, seu poder totalitário, que não tolera outro deus ao seu lado. Até nos poros do cotidiano e nos íntimos da psique, o trabalho determina o pensar e o agir. Não se poupa nenhum esforço para prorrogar artificialmente a vida do deus-trabalho. O grito paranóico por "emprego" justifica até mesmo acelerar a destruição dos fundamentos naturais, já há muito tempo reconhecida. Os últimos impedimentos para a comercialização generalizada de todas as relações sociais podem ser eliminados sem crítica, quando é colocada em perspectiva a criação de alguns poucos e miseráveis "postos de trabalho". E a frase, seria melhor ter "qualquer" trabalho do que nenhum, tornou-se a profissão de fé exigida de modo geral.

Quanto mais fica claro que a sociedade do trabalho chegou a seu fim definitivo, tanto mais violentamente este fim é reprimido na consciência da opinião pública. Os métodos desta repressão psicológica, mesmo sendo muito diferentes, têm um denominador comum: o fato mundial de o trabalho ter demonstrado seu fim em si mesmo irracional, que se tornou obsoleto. Este fato vem redefinindo-se com obstinação em um sistema maníaco de fracasso pessoal ou coletivo, tanto de indivíduos quanto de empresas ou "localizações". A barreira objetiva ao trabalho deve aparecer como um problema subjetivo daqueles que caíram fora do sistema.

Para uns, o desemprego é produto de exigências exageradas, falta de disponibilidade, aplicação e flexibilidade dos desempregados, enquanto outros acusam os "seus" executivos e políticos de incapacidade, corrupção, ganância ou traição do interesse local. Mas enfim, todos concordam com o ex-presidente alemão Roman Herzog: precisa-se de uma "sacudidela", como se o problema fosse semelhante ao de motivação de um time de futebol ou de uma seita política. Todos têm, "de alguma maneira", que mandar brasa, mesmo que brasa não haja mais, e todos têm, "de alguma maneira", que pôr mãos à obra com toda vigor, mesmo que não haja nenhuma obra a ser feita, ou somente obras sem sentido. As entrelinhas dessa mensagem infeliz deixam muito claro: quem, apesar disso, não desfruta da misericórdia do deus-trabalho, é por si mesmo culpado e pode ser excluído, ou até mesmo descartado, com boa consciência.

A mesma lei do sacrifício humano vale em escala mundial. Um país após o outro é triturado sob as rodas do totalitarismo econômico, o que comprova sempre a mesma coisa: não atendeu às assim chamadas leis do mercado. Quem não se "adapta" incondicionalmente ao percurso cego da concorrência total, não levando em consideração qualquer perda, é penalizado pela lógica da rentabilidade. Os portadores de esperança de hoje são o ferro-velho econômico de amanhã. Os psicóticos econômicos dominantes não se deixam perturbar em suas explicações bizarras do mundo. Aproximadamente três quartos da população mundial já foram declarados como lixo social. Uma "localização" após a outra cai no abismo. Depois dos desastrosos países "em desenvolvimento" do Hemisfério Sul e após o departamento do capitalismo de Estado da sociedade mundial de trabalho no Leste, também os discípulos exemplares da economia de mercado no Sudeste Asiático desapareceram no orco do colapso. Também na Europa se espalha há muito tempo o pânico social. Os cavaleiros da triste figura da política e do gerenciamento continuam em sua cruzada ainda mais ferrenha em nome do deus-trabalho.

"Cada um deve poder viver de seu trabalho: é o principio posto. Assim, o poder-viver é determinado pelo trabalho e não há nenhuma lei onde esta condição não foi realizada. " Johann Gottlieb Fichte, Fundamentos do Direito Natural segundo os Princípios da Doutrina-da-Ciência 1797.

2. A Sociedade Neoliberal de Apartheid

Uma sociedade centralizada na abstrata irracionalidade do trabalho desenvolve, obrigatoriamente, a tendência ao apartheid social quando o êxito da venda da mercadoria "força de trabalho" deixa de ser a regra e passa a exceção. Todas as facções do campo de trabalho, trespassando todos os partidos, já aceitaram dissimuladamente essa lógica e ainda a reforçam. Eles não brigam mais sobre se cada vez mais pessoas são empurradas para o abismo e excluídas da participação social, mas apenas sobre como impor a seleção.

A facção neoliberal deixa, confiantemente, o negócio sujo e social-darwinista na "mão invisível" do mercado. Neste sentido, estão sendo desmontadas as redes sócio-estatais para marginalizar, de preferência sem ruído, todos aqueles que não conseguem se manter na concorrência. Só são reconhecidos como seres humanos os que pertencem à irmandade dos ganhadores globais com seus sorrisos cínicos. Todos os recursos do planeta são usurpados sem hesitação para a máquina capitalista do fim em si mesmo. Se esses recursos não são mobilizados de uma maneira rentável eles ficam em "pousio", mesmo quando, ao lado, grandes populações morrem de fome.

O incômodo do "lixo humano" fica sob a competência da polícia, das seitas religiosas de salvação, da máfia e dos sopões para pobres. Nos Estados Unidos e na maioria dos países da Europa Central, já existem mais pessoas na prisão do que na média das ditaduras militares. Na América Latina, são assassinadas diariamente mais crianças de rua e outros pobres pelo esquadrão da morte da economia de mercado do que oposicionistas nos tempos da pior repressão política. Aos excluídos só resta uma função social: a de ser um exemplo aterrorizante. O destino deles deve incentivar a todos os que ainda fazem parte da corrida de "peregrinação a Jerusalém" da sociedade do trabalho na luta pelos últimos lugares. Este exemplo deve ainda incitar às massas de perdedores a manterem-se em movimento apressado, para que não tenham a idéia de se revoltarem contra as vergonhosas imposições.

Mas, mesmo pagando o preço da auto-resignação, o admirável mundo novo da economia de mercado totalitária deixou para a maioria das pessoas apenas um lugar, como homens submersos numa economia submersa. Submissos aos ganhadores bem remunerados da globalização, eles têm de ganhar sua vida como trabalhadores ultra baratos e escravos democratas na "sociedade de prestação de serviços". Os novos "pobres que trabalham" têm o direito de engraxar o sapato dos businessmen da sociedade do trabalho ou de vender-lhes hambúrguer contaminado, ou então, de vigiar o seu shopping center. Quem deixou seu cérebro na chapeleira da entrada até pode sonhar com uma ascensão ao posto de milionário prestador de serviços.

Nos países anglo-saxônicos, este mundo de horror já é realidade para milhões, no Terceiro Mundo e na Europa do Leste, nem se fala; e o continente do euro mostra-se decidido a superar, rapidamente, esse atraso. As gazetas econômicas não fazem mais nenhum segredo sobre como imaginam o futuro ideal do trabalho: as crianças do Terceiro Mundo, que limpam os pára-brisas dos automóveis nos cruzamentos poluídos, são o modelo brilhante da "iniciativa privada", que deveria servir de exemplo para os desempregados do deserto europeu da prestação de serviço. "O modelo para o futuro é o indivíduo como empresário de sua força de trabalho e de sua própria previdência social", escreve a "Comissão para o Futuro dos Estados Livres da Baviera e da Saxônia". E ainda: "a demanda por serviços pessoais simples é tanto maior quanto menos custam, isto é, quanto menos ganham os prestadores de serviço". Num mundo em que ainda existisse auto-estima humana, uma frase deste tipo deveria provocar uma revolta social. Porém, num mundo de animais de trabalho domesticados, ela apenas provoca um resignado balançar de cabeça.

"O gatuno destruiu o trabalho e, apesar disso, tirou o salário de um trabalhador: agora, deve trabalhar sem salário, mas, mesmo no cárcere, deve pressentir a benção do êxito e do ganho(..) Ele deve ser educado para o trabalho moral enquanto um acto pessoal livre através do trabalho forçado." Wilhelm Heinrich Riehl, O trabalho alemão, 1861

3. O Apartheid do Neo-Estado Social

As facções antineoliberais do campo de trabalho social podem não gostar muito desta perspectiva, mas exatamente para elas está definitivamente confirmado que um ser humano sem trabalho não é um ser humano. Fixados nostalgicamente no período pós-guerra fordista de trabalho em massa, eles não pensam em outra coisa a não ser em revitalizar os tempos passados da sociedade do trabalho. O Estado deveria endireitar o que o mercado não consegue mais. A aparente normalidade da sociedade do trabalho deve ser simulada através de "programas de ocupação", trabalhos comunitários obrigatórios para pessoas que recebem auxílio social, subvenções de localizações, endividamento estatal e outras medidas públicas. Este estatismo de trabalho, agora requentado e hesitante, não tem a menor chance, mas continua como o ponto de referência ideológico para amplas camadas populacionais ameaçadas pela queda. Exatamente nesta total ausência de esperança, a práxis que resulta disso é tudo menos emancipatória.

A metamorfose ideológica do "trabalho escasso" em primeiro direito da cidadania exclui necessariamente todos os não-cidadãos. A lógica de seleção social não está sendo posta em questão, mas só redefinida de uma outra maneira: a luta pela sobrevivência individual deve ser amenizada por critérios étnico-nacionalistas. "Roda-Viva do trabalho nacional só para nativos" clama a alma popular que, no seu amor perverso pelo trabalho, encontra mais uma vez a comunidade nacional. O populismo de direita não esconde essa conclusão necessária. Na sociedade de concorrência, sua crítica leva apenas à limpeza étnica das áreas que encolhem em termos de riqueza capitalista.

Em oposição a isso, o nacionalismo moderado de cunho social-democrata ou verde quer aceitar os antigos trabalhadores imigrantes como se fossem do país, e, quando estes se comportam bem, de maneira reverente e inofensiva, fazê-los cidadãos. Mas a acentuada e reforçada rejeição de refugiados do Leste e do Sul pode, assim, ser legitimada de uma forma mais populista e silenciosa – o que fica, obviamente, sempre escondido por trás de um palavrório de humanidade e civilidade. A caça aos "ilegais", que pleiteiam postos de trabalho nacionais, não deve deixar, se possível, nenhuma mancha indigna de sangue e fogo em solo europeu. Para isso existe a polícia, a fiscalização militar de fronteira e os países tampões da "Schengenlândia", que resolvem tudo conforme o direito e a lei e, de preferência, longe das câmeras de televisão.

A simulação estatal de trabalho é, por princípio, violenta e repressiva. Ela significa a manutenção da vontade de domínio incondicional do deus-trabalho, com todos os meios disponíveis, mesmo após sua morte. Este fanatismo burocrático de trabalho não deixa em paz nem os que caíram fora – os sem-trabalho e sem-chances – nem todos aqueles que com boas razões rejeitam o trabalho, nos seus já horrivelmente apertados nichos do demolido Estado Social. Eles são arrastados para os holofotes do interrogatório estatal por assistentes sociais e agenciadoras do trabalho e são obrigados a prestar uma reverência pública perante o trono do cadáver-rei.

Se na justiça normalmente vigora o princípio "em dúvida, a favor do réu", agora isso se inverteu. Se os que caíram fora futuramente não quiserem viver de ar ou de caridade cristã, precisam aceitar qualquer trabalho sujo ou de escravo e qualquer programa de "ocupação", mesmo o mais absurdo, para demonstrar a sua disposição incondicional para com o trabalho. Se aquilo que eles devem fazer tem ou não algum sentido, ou é o maior absurdo, de modo algum interessa. O que importa é que eles fiquem em movimento permanente para que nunca esqueçam a que lei obedece sua existência.

Outrora, os homens trabalhavam para ganhar dinheiro. Hoje, o Estado não poupa gastos e custos para que centenas de milhares de pessoas simulem trabalhos em estranhas "oficinas de treinamento" ou "empresas de ocupação", para que fiquem em forma para "postos de trabalho regulares" que nunca ocuparão. Inventam-se cada vez mais novas e mais estúpidas "medidas" só para manter a aparência da roda-viva do trabalho social que gira em falso funcionando ad infinitum. Quanto menos sentido tem a coerção do trabalho, mais brutalmente inculca-se nos cérebros humanos que não haverá mais nenhum pãozinho de graça.

Neste sentido, o "New Labour" e todos os seus imitadores demonstram-se, em todo o mundo, inteiramente compatíveis com o modelo neoliberal de seleção social. Pela simulação de "ocupação" e pelo fingimento de um futuro positivo da sociedade do trabalho, cria-se a legitimação moral para tratar de uma maneira mais dura os desempregados e os que recusam trabalho. Ao mesmo tempo, a coerção estatal de trabalho, as subvenções salariais e os trabalhos assim chamados "cívicos e honoríficos" reduzem cada vez mais os custos de trabalho. Desta maneira, incentiva-se maciçamente o setor canceroso de salários baixos e trabalhos miseráveis.

A assim chamada política ativa do trabalho, segundo o modelo do "New Labour", não poupa nem mesmo doentes crônicos e mães solteiras com crianças pequenas. Quem recebe auxílio estatal só se livra do estrangulamento institucional quando pendura a plaquinha prateada no dedão do pé. O único sentido desta impertinência está em evitar-se o máximo possível que pessoas façam qualquer solicitação ao Estado e, ao mesmo tempo, demonstrar aos que caíram fora que, diante de tais instrumentos terríveis de tortura, qualquer trabalho miserável parece agradável.

Oficialmente, o Estado paternalista só chicoteia por amor, com intenção de educar severamente os seus filhos que foram denunciados como "preguiçosos", em nome de seu próprio progresso. Na realidade, essas medidas "pedagógicas" só têm como objetivo afastar os fregueses de sua porta. Qual seria o sentido de obrigar os desempregados a trabalharem na colheita de aspargos? O sentido é afastar os trabalhadores sazonais poloneses, que só aceitam os salários de fome dadas as relações cambiais, que os transformam em um pagamento aceitável. Mas, aos trabalhadores forçados essa medida é inútil e tampouco abre qualquer "perspectiva" profissional. E mesmo para os produtores de aspargos, os acadêmicos mal-humorados e os trabalhadores qualificados que lhes são enviados só significam um estorvo. Mas, se após a jornada de doze horas nos campos alemães, de repente aparecer sob uma luz mais agradável a idéia maluca de ter, por desespero, um carrinho de cachorro-quente, então a "ajuda para a flexibilização" demonstrou seu efeito neobritânico desejável.

"Qualquer emprego é melhor do que nenhum." (Bill Clinton. 1998)

"Nenhum emprego é tão duro como nenhum." (Lema de uma exposição de cartazes da Divisão de Coordenação Federal da iniciativa dos Desempregados da Alemanha. 1998)

"Trabalho civil deve ser gratificado e não remunerado... mas quem atua no trabalho civil também perde a mácula do desemprego da recepção de auxilio social." (Ulrich Beck - A alma da democracia. 1997)

4. O agravamento e o desmentido da religião do trabalho

O novo fanatismo do trabalho, com o qual esta sociedade reage à morte de seu deus, é a continuação lógica e a etapa final de uma longa história. Desde os dias da Reforma, todas as forças basilares da modernização ocidental pregaram a santidade do trabalho. Principalmente durante os últimos 150 anos, todas as teorias sociais e correntes políticas estavam possuídas, por assim dizer, pela idéia do trabalho. Socialistas e conservadores, democratas e fascistas combateram até a última gota de sangue, mas, apesar de toda a animosidade, sempre levaram, em conjunto, sacrifícios ao altar do deus-trabalho. "Afastai os ociosos", dizia o Hino Internacional do Trabalho – e "o trabalho liberta" ecoava aterrorizantemente sobre os portões de Auschwitz. As democracias pluralistas do pós-guerra se professaram ainda mais a favor da ditadura eterna do trabalho. Mesmo a Constituição do Estado da Baviera, arquicatólico, ensina aos seus cidadãos partindo do sentido da tradição luterana: "o trabalho é a fonte do bem-estar do povo e está sob proteção especial do Estado". No final do século XX, quase todas as diferenças ideológicas desapareceram. Sobrou o dogma impiedoso segundo o qual o trabalho é a determinação natural do homem.

Hoje, a própria realidade da sociedade do trabalho desmente este dogma. Os sacerdotes da religião do trabalho sempre pregaram que o homem, por sua suposta natureza, seria um "animal laborans". Somente se tornaria ser humano na medida em que submetesse, como Prometeu, a matéria natural à sua vontade, realizando-se através de seus produtos. Este mito de explorador do mundo e demiurgo que tem sua vocação foi desde sempre um escárnio em relação ao caráter do processo moderno de trabalho, embora na época dos capitalistas-inventores, do tipo Siemens ou Edison e seus empregados qualificados, tivesse ainda um substrato real. Hoje, este gesto é totalmente absurdo.

Quem hoje ainda se pergunta pelo conteúdo, sentido ou fim de seu trabalho torna-se louco – ou um fator de perturbação do funcionamento do fim em si da máquina social. O "homo faber", antigamente orgulhoso de seu trabalho e com seu jeito limitado levando a sério o que fazia, hoje é tão fora de moda quanto a máquina de escrever mecânica. A Roda tem que girar de qualquer jeito, e ponto final. Para a invenção de sentido são responsáveis os departamentos de publicidade e exércitos inteiros de animadores e psicólogas de empresa, consultores de imagem e traficantes de drogas. Onde se balbucia continuamente um blablablá sobre motivação e criatividade, disso nada sobrou, a não ser auto-engano. Por isso, contam hoje as habilidades de auto-sugestão, auto-representação e simulação de competência como as virtudes mais importantes de executivos e trabalhadoras especializadas, estrelas da mídia e contabilistas, professoras e guardas de estacionamento.

Também a afirmação de que o trabalho seria uma necessidade eterna, imposta ao homem pela natureza, tornou-se, na crise da sociedade do trabalho, ridícula. Há séculos está sendo pregado que o deus-trabalho precisaria ser adorado porque as necessidades não poderiam ser satisfeitas sozinhas, isto é, sem o suor da contribuição humana. E o fim de todo este empreendimento de trabalho seria a satisfação de necessidades. Se isto fosse verdade, a crítica ao trabalho teria tanto sentido quanto a crítica da lei da gravidade. Pois, como uma "lei natural" efetivamente real pode entrar em crise ou desaparecer ? Os oradores do campo de trabalho social – da socialite engolidora de caviar, neoliberal e maníaca por eficiência até o sindicalista barriga-de-chope – ficam em maus lençóis com a sua pseudo-natureza do trabalho. Afinal, como eles querem nos explicar que hoje três quartos da humanidade estejam afundando no estado de calamidade e miséria somente porque o sistema social de trabalho não precisa mais de seu trabalho ?

Não é mais a maldição do Velho Testamento – "comerás teu pão com o suor da tua face" – que pesa sobre os que caíram fora, mas uma nova e implacável condenação: "tu não comerás porque o teu suor é supérfluo e invendável". E será isto uma lei natural ? Não é nada mais que o princípio social irracional que aparece como coerção natural porque destruiu, ao longo dos séculos, todas as outras formas de relação social ou as submeteu e se impôs como absoluto. É a "lei natural" de uma sociedade que se considera muito "racional", mas que, em verdade, apenas segue a racionalidade funcional de seu deus-trabalho, a cujas "coerções objetivas" está disposta a sacrificar o último resto de humanidade.

"Trabalho está, por mais baixo e mamonístico que seja, sempre em relação com a natureza. Só desejo de executar trabalho já conduz cada vez mais à verdade e às leis e prescrições da natureza, que são a verdade." (Thomas Carlyle, Trabalhar e não desesperar, 1843)

5. Trabalho é um princípio coercitivo social

Trabalho não é, de modo algum, idêntico ao fato de que os homens transformam a natureza e se relacionam através de suas atividades. Enquanto houver homens, eles construirão casas, produzirão vestimentas, alimentos, tanto quanto outras coisas, criarão filhos, escreverão livros, discutirão, cultivarão hortas, farão música etc. Isto é banal e se entende por si mesmo. O que não é óbvio é que a atividade humana em si, o puro "dispêndio de força de trabalho", sem levar em consideração qualquer conteúdo e independente das necessidades e da vontade dos envolvidos, torne-se um princípio abstrato, que domina as relações sociais.

Nas antigas sociedades agrárias existiam as mais diversas formas de domínio e de relações de dependência pessoal, mas nenhuma ditadura do abstractum trabalho. As atividades na transformação da natureza e na relação social não eram, de forma alguma, autodeterminadas, mas também não eram subordinadas a um "dispêndio de força de trabalho" abstrato: ao contrário, integradas no conjunto de um complexo mecanismo de normas prescritivas religiosas, tradições sociais e culturais com compromissos mútuos. Cada atividade tinha o seu tempo particular e seu lugar particular; não existia uma forma de atividade abstrata e geral.

Somente o moderno sistema produtor de mercadorias criou, com seu fim em si mesmo da transformação permanente de energia humana em dinheiro, uma esfera particular, "dissociada" de todas as outras relações e abstraída de qualquer conteúdo, a esfera do assim chamado trabalho – uma esfera da atividade dependente incondicional, desconectada e robótica, separada do restante do contexto social e obedecendo a uma abstrata racionalidade funcional de "economia empresarial", para além das necessidades. Nesta esfera separada da vida, o tempo deixa de ser tempo vivido e vivenciado; torna-se simples matéria-prima que precisa ser otimizada: "tempo é dinheiro". Cada segundo é calculado, cada ida ao banheiro torna-se um transtorno, cada conversa é um crime contra o fim autonomizado da produção. Onde se trabalha, apenas pode ser gasto energia abstrata. A vida se realiza em outro lugar, ou não se realiza, porque o ritmo do tempo de trabalho reina sobre tudo. As crianças já são domadas pelo relógio para terem algum dia "capacidade de eficiência". As férias também só servem para a reprodução da "força de trabalho". E mesmo na hora da refeição, na festa e no amor o ponteiro dos segundos toca no fundo da cabeça.

Na esfera do trabalho não conta o que se faz, mas que se faça algo enquanto tal, pois o trabalho é justamente um fim em si mesmo, na medida em que é o suporte da valorização do capital-dinheiro – o aumento infinito de dinheiro por si só. Trabalho é a forma de atividade deste fim em si mesmo absurdo. Só por isso, e não por razões objetivas, todos os produtos são produzidos como mercadorias. Pois somente nesta forma eles representam o abstractum dinheiro, cujo conteúdo é o abstractum trabalho. Nisto consiste o mecanismo da Roda-Viva social autonomizada, ao qual a humanidade moderna está presa.

E é justamente por isso que o conteúdo da produção é tão indiferente quanto a utilização dos produtos e as conseqüências sociais e naturais. Se casas são construídas ou campos minados produzidos, se livros são impressos, se tomates transgênicos são cultivados, se pessoas adoecem, se o ar está poluído ou se "apenas" o bom gosto é prejudicado – tudo isso não interessa. O que interessa, de qualquer modo, é que a mercadoria possa ser transformada em dinheiro e dinheiro em novo trabalho. Que a mercadoria exija um uso concreto, e que seja ele mesmo destrutivo, não interessa à racionalidade da economia empresarial, para ela o produto só é portador de trabalho pretérito, de "trabalho morto".

A acumulação de "trabalho morto" como capital, representado na forma-dinheiro, é o único "sentido" que o sistema produtor de mercadorias conhece. "Trabalho morto"? Uma loucura metafísica ! Sim, mas uma metafísica que se tornou realidade palpável, uma loucura "objetivada" que a sociedade com mão férrea. No eterno comprar e vender, os homens não intercambiam na condição de seres sociais conscientes, mas apenas executam como autômatos sociais o fim em si mesmo preposto a eles.

"O trabalhador só se sente consigo mesmo fora do trabalho, enquanto que no trabalho se sente fora de si Ele está em casa quando não trabalha, quando trabalha não está em casa. Seu trabalho, por isso, não é voluntário, mas constrangido, é trabalho forçado. Por isso, não é a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio de satisfazer necessidades exteriores a ele mesmo. A estranheza do trabalho revela sua forma pura no fato de que, desde que não exista nenhuma coerção física ou outra qualquer; foge-se dele como se fosse uma peste." (Karl Marx, Manuscritos Económico-Filosóficos, 1844)

6. Trabalho e capital são os dois lados da mesma moeda

A esquerda política sempre adorou entusiasticamente o trabalho. Ela não só elevou o trabalho à essência do homem, mas também mistificou-o como pretenso contra-princípio do capital. O escândalo não era o trabalho, mas apenas a sua exploração pelo capital. Por isso, o programa de todos os "partidos de trabalhadores" foi sempre "libertar o trabalho" e não "libertar do trabalho". A oposição social entre capital e trabalho é apenas uma oposição de interesses diferenciados (é verdade que de poderes muito diferenciados) internamente ao fim em si mesmo capitalista. A luta de classes era a forma de execução desses interesses antagônicos no seio do fundamento social comum do sistema produtor de mercadorias. Ela pertencia à dinâmica interna da valorização do capital. Se se tratava de luta por salários, direitos, condições de trabalho ou postos de trabalho: o pressuposto cego continuava sempre sendo a Roda-Viva dominante com seus princípios irracionais.

Tanto do ponto de vista do trabalho quanto do capital, pouco importa o conteúdo qualitativo da produção. O que interessa é apenas a possibilidade de vender de forma otimizada a força de trabalho. Não se trata da determinação em conjunto sobre o sentido e o fim da própria atividade. Se houve algum dia a esperança de poder realizar uma tal autodeterminação da produção dentro das formas do sistema produtor de mercadorias, hoje as "forças de trabalho" já perderam, e há tempos, esta ilusão. Hoje interessa apenas o "posto de trabalho", a "ocupação" – já esses conceitos comprovam o caráter de fim em si mesmo de todo esse empreendimento e a menoridade dos envolvidos.

O que, para que e com que conseqüências se produz, no fundo não interessa, nem ao vendedor da mercadoria força de trabalho, nem ao comprador. Os trabalhadores das usinas nucleares e das indústrias químicas protestam ainda mais veementemente quando se pretende desativar as suas bombas-relógio. E os "ocupados" da Volkswagen, Ford e Toyota são os defensores mais fanáticos do programa suicida automobilístico. Não só porque eles precisam obrigatoriamente se vender só para "poder" viver, mas porque eles se identificam realmente com a sua existência limitada. Para sociólogos, sindicalistas, sacerdotes e outros teólogos profissionais da "questão social", este fato é a comprovação do valor ético-moral do trabalho. Trabalho forma a personalidade. É verdade. Isto é, a personalidade de zumbis da produção de mercadorias, que não conseguem mais imaginar a vida fora de sua Roda-Viva fervorosamente amada, para a qual eles próprios se preparam diariamente.

Assim como não era a classe trabalhadora enquanto tal a contradição antagônica ao capital e o sujeito da emancipação humana, assim também, por outro lado, os capitalistas e executivos não dirigem a sociedade seguindo a maldade de uma vontade subjetiva de explorador. Nenhuma casta dominante viveu, em toda a história, uma vida tão miserável e não livre como os acossados executivos da Microsoft, Daimler-Chrysler ou Sony. Qualquer senhorio medieval teria desprezado profundamente essas pessoas. Pois, enquanto ele podia se dedicar ao ócio e gastar sua riqueza em orgias, as elites da sociedade do trabalho não podem se permitir nenhum intervalo. Mesmo fora da Roda-Viva, eles não sabem fazer outra coisa consigo mesmos a não ser infantilizarem-se. Ócio, prazer intelectual e sensual lhes são tão estranhos quanto o seu material humano. Eles mesmos são servos do deus-trabalho, meras elites funcionais do fim em si mesmo social irracional.

O deus dominante sabe impor sua vontade sem sujeito através da "coerção silenciosa" da concorrência, à qual precisam se curvar também os poderosos, sobretudo quando administram centenas de fábricas e transferem somas milionárias pelo globo. Se eles não fizerem isso, são colocados de lado do mesmo modo brutal como as "forças de trabalho" supérfluas. Mas é justamente sua menoridade que faz com que os funcionários do capital sejam tão incomensuravelmente perigosos, e não a sua vontade subjetiva de exploração. Eles são quem têm menos direito de perguntar pelo sentido e pelas conseqüências de suas atividades ininterruptas, não podem permitir a si mesmos sentimentos nem considerações. Por isso eles falam de realismo quando devastam o mundo, tornam as cidades cada vez mais feias e deixam os homens empobrecerem no meio da riqueza.

"O trabalho tem cada vez mais a boa consciência ao seu lado: actualmente a inclinação para a alegria chama-se ‘necessidade de recreação’ e começa a ter vergonha de si mesma. ‘Deve-se fazer isto pela saúde’ assim se diz quando se é surpreendido num passeio pelo campo. Pois logo poder-se-á chegar ao ponto em que a gente não mais ceda a uma inclinação para a vida contemplativa (isto é, a um passeio com pensamentos e amigos) sem má consciência e desprezo de si. " (Friedrich Nietzsche, Ócio e Ociosidade, 1882)

7. Trabalho é domínio patriarcal

Mesmo que a lógica do trabalho e de sua metamorfose em matéria-dinheiro insista, nem todas as esferas sociais e atividades necessárias deixam-se embutir sob pressão na esfera do tempo abstrato. Por isso, surgiu junto com a esfera "separada" do trabalho, de certa forma como seu avesso, também a esfera privada doméstica, da família e da intimidade.

Nesta esfera definida como "feminina" restam as numerosas e repetidas atividades da vida cotidiana que não podem ser, salvo excepcionalmente, transformadas em dinheiro: da faxina à cozinha, passando pela educação das crianças e a assistência aos idosos até o "trabalho de amor" da dona de casa típica ideal, que reconstrói seu marido trabalhador esgotado e que lhe permite "abastecer seus sentimentos". A esfera da intimidade, como avesso do trabalho, é declarada pela ideologia burguesa da família como o refúgio da "vida verdadeira" – mesmo se na realidade ela é, antes, um inferno da intimidade. Trata-se justamente não de uma esfera de vida melhor e verdadeira, mas de uma forma de existência tão reduzida quanto limitada, só com os sinais invertidos. Essa esfera é ela própria um produto do trabalho, cindida dele, mas só existente em relação a ele. Sem o espaço social cindido das formas de atividade "femininas", a sociedade do trabalho nunca poderia ter funcionado. Este espaço é seu pressuposto silencioso e ao mesmo tempo seu resultado específico.

Isto vale também para os estereótipos sexuais que foram generalizados no decorrer do desenvolvimento do sistema produtor de mercadorias. Não é por acaso que se fortaleceu o preconceito em massa da imagem da mulher dirigida irracional e emocionalmente, natural e impulsiva, juntamente com a imagem do homem trabalhador, produtor de cultura, racional e autocontrolado. E também não é por acaso que o auto-adestramento do homem branco para as exigências insolentes do trabalho e para sua administração humana estatal foi acompanhado por seculares e enfurecidas "caças às bruxas". Simultaneamente a estas, inicia-se a apropriação do mundo pelas ciências naturais, desde já contaminadas em suas raízes pelo fim em si mesmo da sociedade do trabalho e pelas atribuições de gênero. Dessa maneira, o homem branco, para poder "funcionar" sem atrito, expulsou de si mesmo todos os sentimentos e necessidades emocionais que, no reino do trabalho, só contam como fatores de perturbação.

No século XX, em especial nas democracias fordistas do pós-guerra, as mulheres foram cada vez mais integradas no sistema de trabalho, mas o resultado disso foi apenas a consciência feminina esquizóide. Pois, de um lado, o avanço das mulheres na esfera de trabalho não poderia trazer nenhuma libertação, mas apenas o ajuste ao deus-trabalho, como entre os homens. De outro lado, persistiu incólume a estrutura de "cisão", e assim também as esferas das atividades ditas "femininas", externas ao trabalho oficial. As mulheres foram submetidas, desta maneira, à carga dupla e, ao mesmo tempo, expostas a imperativos sociais totalmente antagônicos. Dentro da esfera do trabalho elas ficaram até hoje, na sua grande maioria, em posições mal pagas e subalternas.

Nenhuma luta, inerente ao sistema, por cotas femininas de carreira e oportunidades pode mudar alguma coisa disso. A visão burguesa miserável de "unificação da profissão e família" deixa totalmente intocada a separação de esferas do sistema produtor de mercadorias, e com isso também a estrutura de "cisão" de gênero. Para a maioria das mulheres esta perspectiva não é vivenciável, para a minoria daquelas que "ganham melhor" ela torna-se uma posição pérfida de ganhador no apartheid social, na medida em que pode-se delegar o trabalho doméstico e a criação dos filhos a empregadas mal pagas (e "obviamente" femininas).

Na sociedade como um todo, a sagrada esfera burguesa da assim chamada vida privada e de família é, na verdade, cada vez mais minada e degradada, porque a usurpação da sociedade do trabalho exige da pessoa inteira o sacrifício completo, a mobilidade e a adaptação temporal. O patriarcado não é abolido, mas passa por um asselvajamento na crise inconfessa da sociedade do trabalho. Na mesma medida em que o sistema produtor de mercadorias entra em colapso, as mulheres tornam-se responsáveis pela sobrevivência em todos os níveis, enquanto o mundo "masculino" prolonga simulativamente as categorias da sociedade do trabalho.

"A humanidade teve que se submeter a terríveis provações até que se formasse o eu, o carácter idêntico, eterminado e viril do homem, e toda infância ainda é de certa forma a repetição disso". (Max Horkheimer & Theodor W. Adorno, Dialéctica do Esclarecimento)

8. Trabalho é a atividade da menoridade

Não só de fato, mas também conceitualmente, demonstra-se a identidade entre trabalho e menoridade. Até há poucos séculos, os homens tinham consciência do nexo entre trabalho e coerção social. Na maioria das línguas européias, o termo "trabalho" relaciona-se originalmente apenas com a atividade de uma pessoa juridicamente menor, do dependente, do servo ou do escravo. Nos países de língua germânica, a palavra "Arbeit" significa trabalho árduo de uma criança órfã e, por isso, serva. No latim, "laborare" significava algo como o "cambalear do corpo sob uma carga pesada", e em geral é usado para designar o sofrimento e o mau trato do escravo. As palavras latinas "travail", "trabajo" etc. derivam-se do latim, "tripalium", uma espécie de jugo utilizado para a tortura e o castigo de escravos e outros não livres. A expressão idiomática alemã – "jugo do trabalho" ("Joch der Arbeit") – ainda faz lembrar este sentido.

"Trabalho", portanto, pela sua origem etimológica também não é sinônimo de uma atividade humana autodeterminada, mas aponta para um destino social infeliz. É a atividade daqueles que perderam sua liberdade. A ampliação do trabalho a todos os membros da sociedade é, por isso, nada mais que a generalização da dependência servil, e sua adoração moderna apenas a elevação quase religiosa deste estado.

Esta relação pôde ser reprimida com êxito e a impertinência social interiorizada, porque a generalização do trabalho foi acompanhada pela sua "objetivação" por meio do moderno sistema produtor de mercadorias: a maioria das pessoas não está mais sob o chicote de um senhor pessoal. A dependência social tornou-se uma relação abstrata do sistema e, justamente por isso, total. Ela pode ser sentida em todos os lugares, mas não é palpável. Quando cada um tornou-se servo, tornou-se ao mesmo tempo senhor, o seu próprio traficante de escravo e feitor. Todos obedecem ao deus invisível do sistema, o "Grande Irmão" da valorização do capital, que os subjugou sob o "tripalium".

9. A história sangrenta da imposição do trabalho

A história da modernidade é a história da imposição do trabalho que deixou seu rastro amplo de devastação e horror em todo o planeta. Nunca a impertinência de gastar a maior parte de sua energia vital para um fim em si mesmo determinado externamente foi tão interiorizada como hoje. Vários séculos de violência aberta em grande escala foram precisos para torturar os homens a fim de fazê-los prestar serviço incondicional ao deus-trabalho.

O início, ao contrário do que se diz comumente, não foi a ampliação das relações de mercado com um conseqüente "crescimento do bem-estar", mas sim a fome insaciável por dinheiro dos aparelhos do Estado absolutista, para financiar as primeiras máquinas militares modernas. Somente pelo interesse desses aparelhos, que pela primeira vez na história sufocaram toda uma sociedade burocraticamente, acelerou-se o desenvolvimento do capital mercantil e financeiro urbano, ultrapassando as formas comerciais tradicionais. Somente desta maneira o dinheiro tornou-se o motivo social central, e o abstractum trabalho uma exigência social central, sem levar em consideração as necessidades.

Não foi voluntariamente que a maioria dos homens passou a uma produção para mercados anônimos e assim a uma economia monetária generalizada, mas antes porque a fome absolutista por dinheiro monetarizou os impostos, aumentando-os simultaneamente de forma exorbitante. Eles não precisavam "ganhar dinheiro" para si mesmos, mas sim para o militarizado Estado de armas de fogo, protomoderno, para sua logística e sua burocracia. Assim, e não de outra forma, nasceu o fim em si mesmo absurdo da valorização do capital e do trabalho.

Não demorou muito para que os impostos monetários e as taxas não fossem mais suficientes. Os burocratas absolutistas e os administradores do capital financeiro começaram a organizar coercitivamente os homens diretamente como material de uma máquina social para a transformação de trabalho em dinheiro. O modo tradicional de vida e de existência da população foi destruído; não porque esta população estava se "desenvolvendo" voluntariamente e de maneira autodeterminada, mas porque ela precisava servir como material humano para uma máquina de valorização já acionada. Os homens foram expulsos de suas roças à força de armas para dar lugar à criação de ovinos para as manufaturas de lã. Direitos antigos como a liberdade de caça, pesca e coleta de lenha nas florestas foram extintos. E quando as massas pauperizadas perambularam mendigando e roubando pelo território, foram, então, internadas em casas de trabalho e manufaturas para serem maltratadas com máquinas de tortura de trabalho e para adquirirem a pauladas uma consciência de escravos, a fim de se tornarem animais de trabalho obedientes.

Mas, também a transformação por etapas de seus vassalos em material do deus-trabalho fazedor de dinheiro não foi suficiente para os Estados absolutistas monstruosos. Eles ampliaram suas pretensões também a outros continentes. A colonização interna da Europa foi acompanhada pela colonização externa, primeiro nas duas Américas e em partes da África. Ali, os feitores do trabalho perderam definitivamente seus pudores. Em campanhas militares de roubo, destruição e extermínio sem precedentes, eles assaltaram os mundos recentemente "descobertos" – lá as vítimas nem eram consideradas seres humanos. Em sua aurora, o Poder europeu antropófago da sociedade do trabalho definiu as culturas estrangeiras subjugadas como "selvagens" e antropófagas.

Com isso, foi criada a lei de legitimação para eliminá-los ou escravizá-los aos milhões. A escravidão em sentido literal, que nas economias coloniais de plantation de matérias-primas ultrapassou em dimensões a escravidão antiga, faz parte dos crimes fundadores do sistema produtor de mercadorias. Ali foi utilizado em grande estilo, pela primeira vez, a "destruição através do trabalho". Isso foi a segunda fundação da sociedade do trabalho. Com os "selvagens", o homem branco, que já era marcado pelo autodisciplinamento, podia liberar o ódio de si próprio reprimido e seu complexo de inferioridade. Os "selvagens" equivaliam para eles às "mulheres", isto é, semi-seres entre o homem e o animal, primitivos e naturais. Immanuel Kant supunha, com precisão lógica, que o babuíno saberia falar se quisesse, só não falava porque temia ser recrutado para o trabalho.

Este raciocínio grotesco joga uma luz reveladora sobre o Iluminismo. O ethos repressivo do trabalho da modernidade, que se baseou, em sua versão protestante original, na misericórdia divina e, a partir do Iluminismo, na lei natural, foi mascarado como "missão civilizatória". Cultura, neste sentido, é submissão voluntária ao trabalho; e trabalho é masculino, branco e "ocidental". O contrário, o não-humano, a natureza disforme e sem cultura, é feminino, de cor e "exótico", portanto, a ser colocado sob coerção. Numa palavra: o "universalismo" da sociedade do trabalho já é totalmente racista desde sua raiz. O abstractum trabalho universal só pode se autodefinir pelo distanciamento de tudo o que não está fundido a ele.

Não foram os pacíficos comerciantes das antigas rotas mercantis – de onde nasceu a burguesia moderna que, finalmente, herdou o absolutismo – que formaram o húmus social do "empresariado" moderno, mas sim os condottieri das ordas mercenárias da protomodernidade, os administradores do trabalho e das cadeias, os arrendatários do direito de coleta de impostos, os feitores de escravos e os agiotas. As revoluções burguesas do século XVIII e XIX não têm nenhuma relação com a emancipação; elas apenas reorganizaram as relações de poder internamente ao sistema de coerção criado, separaram as instituições da sociedade do trabalho dos interesses dinásticos ultrapassados e impulsionaram a sua objetivação e despersonalização. Foi a gloriosa Revolução Francesa que declarou com pathos específico o dever ao trabalho e introduziu, numa "lei de eliminação da mendicância", novas prisões de trabalho.

Isto foi exatamente o contrário daquilo que pretendiam os movimentos sociais rebeldes, que cintilaram à margem das revoluções burguesas sem a elas se integrarem. Já muito antes, houve formas autônomas de resistência e rejeição com as quais a historiografia oficial da sociedade

Fonte: http://sol.sapo.pt/blogs/guilhas/archive/2008/01/10/KRISIS.aspx

FEDERICO GARCIA LORCA

A Poesia surrealista de Lorca - 15Jan2008
Estava no terraço lutando com a lua.
Enxames de janelas crivavam um músculo da noite.
Nos meus olhos bebiam as doces vacas dos céus
e as brisas de largos remos
golpeavam os cinzentos cristais da Broadway.

A gota de sangue buscava a luz da gema do astro
para fingir uma semente morta de maçã.
O ar da planura, impelido pelos pastores,
tremia com um medo de molusco sem concha.

de Poeta en Nueva York
(«Danza de la Muerte»)

(Trad. J.T.Parreira)

Fonte: http://poetasalutor.blogspot.com/2008/01/poesia-surrealista-de-lorca.html

DA CARLA BENTO


> hey wizards em progressao fantastica ... catolicismo ... ya os filhos da
> puta espero que se estiverem unidos nao seja pela igreja catolica de qualquer
> forma pode se mudar de opiniao e pedir um "divorcio" dos cabrones dos
> catolicos , os narcotizados acreditam em deus e têm medo de morrer ,.. pois
> é ... podemos erradicar o pp, a semelhanca do que fizeram com o herri
> batasuna ... em variaçao europeia ... o estado e o primeiro agente
> descrimninatorio so ha uma religiao nas escolas mesmo que seja facultativa et
> no medium oriente ils vont parler ils ment dans une cote ils ments dans une
> autre cote cansados de guerras dedicado a les enfants dieus cosmiques comme
> nous, orien de peut on nous on veut le tout dieus de le inconnu autobaptizados
> por mim, fuck tudo kafkiano para mim, pois o acusado que nao sabe porque é que
> é acusado ... vou ver se convenco o apedro ribeiro a assaltar o banco de
> portugal depois queimamos o dinero ... quero fazer uma reportagem com ele para
> o jornal de amarante ... fui convidada por um dos directores sempre fui uma
> jornalista bues inteligente e acutilante consigo sempre agarrar o assunto de
> uma forma interessante acho eu .... uma pergunta minha a um presidente de junta
> desde o 25 de abril ... diferenças na gestao ... so falo com juntas de
> freguesia quero que as camaras e o estado se lixe todinho .... todinho
> mesmo .... passo vos ideias porque sempre o disse que havia gente mais
> inteligente do que eu (intelligentsia fur mich) para fazer a ligacao de tudo o
> que eu digo ... ando sempre a processar pensamento matematico emotivo em
> rodopio tou sempre cheia de ideias !!! quero fazer a minha tese de licenciatura
> sobre os tuaregues ... a ver se consigo uma bolsa com os artistas ... um
> pequeno financiamento vai se chamar a insustentavel beleza do ser !!!
>
> e a teoria sobre o partido surrealista situacionista revolucionario acho eu vai
> ter o tituo o puto que veio de uma galaxia marada !!! costumo dizer isso a um
> amigo meu que tambem é mao mortiano .... queria ter news da vossa mailing list
> se calhar nao posso ir ao jantar ... fui expulsa ??? espero que os meus posts
> nao tenham ares de fascismo .... nao tenho medo de nada nem de ninguem digo nao
> a opressao a repressao a manipulaçao a mentira ao facilitismo, a metadona nao
> limpa o inconsciente nem o subconsciente mas spezial music e ar livre limpam, o
> meu irmao disse me achas que o ppl dcomo os mao morta o vibe te vao responder
> ao teu projecto alternativo para a toxicodependencia ... fuckness!!! une autre
> fois monsieurs fuckness nunca me tinha lembrado disso "ai que giro eu sou
> famoso" nem o permito nem o admito ..!!! tou a ver se consigo contacto com os
> mata ratos e com os rage tenho bues de ideias anarcas e para a igualdade IFFICD
> smoth operator operator correacty ..." Ya !!! revoluzione !!! tudo abaixo !! de
> resto com saudades do antonio rafael ... curtia ter mais umas fotos dos mao
> morta so conhecia o adolfo luxuria canibal identificava (eu so me identifico
> para o undergrounD !) mas curtia bues as botas doc martines vermelhas do
> huitarrista no muller que entendi mas nao compreendi como ja to disse .... fuck
> voltei ä minha hiperactividade e num tenho feed back (fui manager uns 4 5 anos
> dos Cabra cega, com criticas no blitz uma banda punk harcore na altura fui eu
> que arranjei 60 contos para gravar uma demo nos estudios industria rock rifas
> para um sorteio que nunca se realizou acho que um dos premios era uma tenda de
> campismo ... agora o meu irmao que era o diddy ramone baptixado pelo ppl
> aparece num relatorio da puta da bofia como denunciante da propria irmao vem
> mesmo escrito denunciante e nem, se importa ... o estupido ... eu deixo o andar
> e vou dando recadinhos a ver se ele chega la por si proprio ... ja disse aos
> meus amigos, façam as interpretaçoes do que eu digo que bem entenderem...
> lixadérrima !!! nao teu nem la o meu irmao telefona para a minha tia, a minha
> tia para o outro meu tio, o meu tio para a minha avo a minha avo nao se mete
> nisso porque e uma fofinha cosmica, e eu nao tava lÁ !
>
> uma etarra en depressao en alucinaçao ....

Sunday, January 13, 2008

Contra a adaptação do Homem numa máquina de defender pátrias e partidos, propomos a criação do Homem-Asa, do Homem que percorrerá o Universo montando um cometa extremamente longo e fulgurante.
Para a pátria, a igreja e o estado a nossa última palavra será sempre: MERDA.


Mário Henrique Leiria
João Artur Silva
Artur do Cruzeiro Seixas

Lisboa, Abril de 1950
(Extracto de um texto dos autores referidos e impresso pela primeira vez no vol. III de "Os Modernistas Portugueses", de Petrus).

UM POETA A MIJAR


"Um Poeta a Mijar" sucede a "Saloon" (Edições Mortas, Março de 2007), "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro" (Objecto Cardíaco, 2006), "Sexo, Noitadas e Rock n' Roll" (Pirata), "Á Mesa do Homem Só. Estórias" (Silêncio da Gaveta, 2001) e "Gritos. Murmúrios" (com Rui Soares, Grémio Lusíada, Braga, 1988). "Um Poeta a Mijar" situa-se entre o Dada, o surrealismo e o beatnick, entre o místico e o maldito, entre a solidão e o quotidiano, entre o sexo e a noite, entre o palco e a loucura. "Um Poeta a Mijar" é o poeta, algo punk, algo niilista, que mija nas instituições e no estabelecido, na Igreja e no Estado, que já deixou de acreditar nos faróis, nas sociedades ideais e alternativas, nos partidos, na moral. É também o rocker que deambula pela cidade, pelos bares, pelos cafés e que sobe ao palco em busca do Graal, de Jim Morrison, de Dionisos, de Nietzsche, do Espírito Livre. Inclui poemas como "Futebol-Dada", "Borboletas", "Mamas 2", "A Ilíada no Velvet", "A Loucura", "Dá-me Uma Mulher", "Lúcifer", "Ode a Jim Morrison", "Dyonisos The King", "The King is Not Dead", "Satã Comeu a Cortesã", "Papa-Dada", "Entre a Merda e o Ouro", "Maldoror, Meu Amor", "Prior de Sion" e "Sapataria Tony".
Já andei descalça na chuva
Já comi dez cachos de uva
Já caminhei à noite na praia
Já andei de moto de mini-saia
Já chupei manga verde com sal
Já comi bolo até passar mal
Já fiz castelos de areia
Já contei segredos pra Lua Cheia
Já escrevi nas pernas um poema
Já tomei banho de alfazema
Já engasguei comendo pipoca
Já cortei o dedo ralando mandioca
Já li um livro inteiro num só dia
Já me embriaguei de tanta poesia
Já saí na noite sem destino
Já tentei tocar violino
Já contei as estrelas do céu
Já pintei meus cabelos de mel

ler mais



Fonte: http://www.poemas-de-amor.net/blogues/lu_oliveira/primeira_vez

Wednesday, January 09, 2008

RIO AO RIO DOURO!


O PARTIDO SURREALISTA SITUACIONISTA LIBERTÁRIO (PSSL) lançou o poeta António Pedro Ribeiro como seu candidato à Presidência da Câmara do Porto e apresentou os manifestos anti-Rio, anti-Trabalho e anti-Teles no Bar Púcaros no Porto.

A. Pedro Ribeiro ou António Pedro Ribeiro nasceu no Porto em Maio de 68 (não por acaso…). Andou vários anos por Braga, onde frequentou os liceus Sá de Miranda e Alberto Sampaio e outras capelas diurnas e nocturnas, pela Trofa, pelo Porto, pela Póvoa de Varzim e por Vila do Conde e reside actualmente em Vilar do Pinheiro (Vila do Conde).
António Pedro Ribeiro foi mandatário distrital em Braga pelo PSR nas eleições legislativas de 1995 e candidato às Juntas de Freguesia da Póvoa (onde ficou a dois votos de ser eleito para a Assembleia de freguesia) e de Vila do Conde em 2005 e 2001 pelo Bloco de Esquerda, partido de que se afastou. Em 2005 a RTP e o DIÁRIO DIGITAL (Outubro) e o PÚBLICO (Novembro de 2004) noticiaram uma candidatura sua à Presidência da República pela Frente Guevarista Libertária.
É autor dos livros de poesia"Um Poeta a Mijar" (Corpos Editora, Dezembro de 2007), "Saloon" (Edições Mortas, Março 2007), "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro. Manifestos do Partido Surrealista Situacionista Libertário" (Objecto Cardíaco, 2006), "Sexo, Noitadas e Rock n' Roll" (Pirata, 2004), "À Mesa do Homem Só. Estórias" (Silêncio da Gaveta, 2001) e "Gritos. Murmúrios" (Grémio Lusíada, 1988). É licenciado em Sociologia pela Faculdade de Letras do Porto, onde foi membro da Assembleia de Representantes e diversas vezes candidato à Presidência da Associação de Estudantes pela lista R. Ocupou diversos cargos no Jornal Universitário do Porto, tendo sido Presidente da Mesa da Assembleia Geral entre 1998 e 1999. Foi fundador e é colaborador da revista literária Aguasfurtadas e diz regularmente poesia há 20 anos em diversos espaços como o Púcaros e o Pinguim no Porto, o Pátio em Vila do Conde, o Deslize e o ex-Tuaregue em Braga, tendo em 2006 actuado no Festival de Paredes de Coura, ao lado de Adolfo Luxúria Canibal, e em 2007 actuado no Festival de Poesia no Condado em Salvaterra do Minho em Espanha.
Em 1990 foi acusado de tentar ocupar o Hipermercado Feira Nova em Braga por motivos anti-consumistas e em 2003 foi, em conjunto com a Frente Guevarista Libertária, acusado de derrubar a estátua do fascista Major Mota na Póvoa de Varzim. É vocalista das bandas Las Tequillas e Mana Calórica www.myspace.com/manacalorica.


Pelo PSSL
Pela Frente Guevarista Libertária,
António Pedro Ribeiro
Silvia Lopes
Jorge Barros
Celorico D' Almeida
Maria Joana Campos
tel. 229270069
http://partido-surrealista.blogspot.com
http://tripnaarcada.blogspot.com
http://xamachama.blogspot.com

Monday, January 07, 2008

QUERO ESCREVER UM POEMA GENIAL


Os fumadores conferenciam lá fora
o não-fumador ri
a chuva cai

Quero escrever um poema genial
um poema que arranque palmas entusiásticas
um poema que fique para a História

O homem quer bola
o homem quer o Manchester United
o homem é um falador
e eu peço outro café

A poesia hoje não está brilhante
não há teóricos a discorrer
sobre o Governo e o custo de vida
há pão na mercearia
eu próprio não vou ao "Púcaros"

A bola regressa às conversas
O Rocha está longe
se estivesse aqui
discorreria sobre o Makukula
e daria a táctica
para o próximo jogo

O Rocha é um técnico e um analista
mas teve um desgosto amoroso
coitado do Rocha!

Finalmente uma gaja para se olhar
uma gaja para lá dos golos
e das saudações entusiásticas
uma gaja triste contemplativa
uma gaja a olhar para o infinito

Quero escrever um poema genial
um poema que vá ao Uno Primordial
um poema para a História
um poema para lá da loucura

Não sou adepto do realismo socialista
não escrevo a enaltecer o trabalho
duas gajas sentam-se à mesa da gaja
a gaja deixou de ser contemplativa
a gaja sorri para as amigas...

Braga, Janeiro 2008.

Sunday, January 06, 2008

BABA-DADA


Os lábios da Babá
e os putos lá fora
as mamas da Babá
e tu sorris para mim
a voz da Babá
e tu pões-te bonita
o poeta dada
e tu és um anjo
dada que não dá
e trazes-me o café
Papa dada
a cavalo no Zé
Baba dada
chucha o bebé
baba dada
pões-me xoné
baba dada
e vem o amor
baba dada
sobe o cantor
baba dada
fico pateta
baba dada
enxota o poeta
bubu dudu
és mesmo tu
baba dada
bebe dede
bibi didi
bobo dodo
bubu dudu
és mesmo tu.

CLÁSSICO REAL


Regresso ao "Clássico Real"
e bebo
o Natal e o Ano Novo
passaram à História
o velhote agarra-se às muletas
e sai
a Júlia Pinheiro imbeciliza
e desata em gargalhadas
o primeiro-ministro controla
a clientela também ri
a felicidade mora aqui

Uma excursão de gente cabisbaixa
invade o "Clássico Real"
a Júlia Pinheiro permanece na TV
e fala no combate à desertificação
Façam-se filhos!
Façam-se filhos!
- grita o Cavaco a cavalo no Sócrates
e depois vem o presidente da Junta
a gritar em todas as portas:
"Eu é que sou o presidente da Junta!"
e a felicidade mora aqui.

4.1.2008

COMBOIO


Hoje, para variar, não consigo escrever. Será porque deixei Braga? Será porque te deixei? Há já uns dias que isto não acontecia e a Katiucha até saiu.
Os bilhetes do comboio aumentaram cinco cêntimos. O Rocha está longe e é um craque, um técnico de eleição.
Quero um poema que não seja banal, já escrevia o Soares no tempo em que escrevia, no tempo em que éramos dois jovens promissores. O comboio é rápido. O Soares foi para Lisboa. Deixou de ligar ao Pessoa para ser economista ou talvez ainda ligue nas horas vagas. Eu, pelo contrário, sou apenas poeta. Um poeta que, de vez em quando, sobe ao palco. Um poeta que não suporta o primeiro-ministro. Um poeta que vem a Braga nas férias da Katiucha. Um poeta "underground", segundo consta. Nada tenho a ver com o Felizberto, apesar de ele simpatizar comigo. Sou um poeta e sou um zero nas lides da casa. Sou um poeta e não sei cozinhar. Sou um poeta e escrevo umas patacoadas. Tenho livros publicados. Sim, tenho livros publicados. Não comecei ontem.
Há 3 semanas que espero por uma gaja. Mas esta quarta nem fui ao "Púcaros". Estive em Braga com a Katiucha. Agora volto para casa. Agora só na Páscoa é que vejo a Katiucha. Até lá escrevo poemas e olho para as gajas.

Braga/Lousado, 3.1.2008

Friday, January 04, 2008

MANIFESTO ANTI-TRABALHO



Estou farto dos velhos
que mandam os malandros trabalhar
estou farto do paleio imbecil
do Governo e da televisão
estou farto das Finanças
e da Segurança Social!

Que se foda o dinheiro!
O Sócrates que vá trabalhar!

eu só quero passar passar o dia
a escrever poemas
e a olhar para as gajas.

Estou farto de défices,
de percentagens e de economistas!
Estou farto de racionalistas,
de ponderações e de analistas!
Estou farto de santas, de seitas
e da moral!
Estou farto dos políticos
e das directivas do comité central!
Estou farto do Rocha, do Makukula
e do país!

Que se foda o dinheiro!
Não quero trabalhar!

eu só quero passar o dia
a escrever poemas
e a olhar para as gajas.

PARTIDO SURREALISTA SITUACIONISTA LIBERTÁRIO

MANIFESTO ANTI-RIO


MANIFESTO DO PARTIDO SURREALISTA SITUACIONISTA LIBERTÁRIO PELA CANDIDATURA DE ANTÓNIO PEDRO RIBEIRO À CÂMARA DO PORTO
UM POETA A MIJAR-3

O poeta mijou na àrvore de Natal do Rio
o poeta plantou uma árvore mais alta da Europa
em todas as esquinas da cidade do Rio
o Rio prostitui-se na esquina

O Rio e o La Féria ocuparam o Rivoli
o poeta vomitou, em fúria,
as peças do La Féria
O Rio engoliu o vomitado
e masturbou-se no túnel
o poeta mijou no Rio
o Pai Natal e as renas
enrabaram o La Féria
As renas voaram com o poeta
o Pai Natal comeu o BCP
o PCP mantém-se marxista-leninista

O espírito do Natal mantém-nos juntos
o espírito do Natal está nos bancos
o Rio é o Pai Natal
a àrvore mais alta da Europa
é patrocinada pelo BCP
o poeta mija na árvore, na Europa e no BCP
o PCP mantém-se marxista-leninista
o poeta mantém-se surrealista
o Rio faz uma pirueta
e cai ao rio Douro
o La Féria enforca-se
na árvore mais alta da Europa
O PSSL ocupa a Câmara.

Porto, 24. Dez.2007

MANIFESTOS DO PSSL NO PÚCAROS


APRESENTAÇÃO DE MANIFESTOS E POESIA

A. Pedro Ribeiro e o Partido Surrealista Situacionista Libertário (PSSL) apresentam o Manifesto Anti-Rio, o Manifesto Anti-Trabalho e o Manifesto Anti-Teles no bar Púcaros no Porto (à Alfândega) na próxima quarta, dia 9, pelas 23,30 horas. O evento insere-se em mais uma noite de poesia do Púcaros que conta com as participações de Anthero Monteiro, Luís Carvalho, Amílcar Mendes, Maria Beatriz e A. Pedro Ribeiro, entre outros. António Pedro Ribeiro, que acaba de editar o livro "Um Poeta a Mijar" (Corpos Editora) é candidato à Câmara Municipal do Porto pelo PSSL. As sessões de poesia do Púcaros têm lugar todas as quartas-feiras.

Com os melhores cumprimentos,

António Pedro Ribeiro.
tel. 229270069
http://tripnaarcada.blogspot.com
http://partido-surrealista.blogspot.com
www.myspace.com/manacalorica

Venho ao "Bar do João"
e o João não está

os clientes lêem o jornal
olham para a televisão

a gerência conversa
o velho bebe café ao balcão
a mulher ri

a chuva lá fora
ninguém fuma
com medo do Governo

os cabelos brancos
invadem o "Bar do João"
o poeta rasga o papel
a voz de bagaço pede futebol

os cabelos brancos
abandonam o "Bar do João"
a voz de bagaço ri
o poeta observa

este é o primeiro poema do ano
não está propriamente genial
mas foi o que saiu.

Braga, Bar do João, 1.1.2008

Thursday, January 03, 2008

O BAR DO JOÃO


No "Bar do João"
os clientes olham para a TV
no "Bar do João"
há um poeta a mijar
no "Bar do João"
o João mija nos clientes
no "Bar do João"
o João, o Quim e o poeta
lavam os dentes
no "Bar do João"
o poeta coça os colhões
no "Bar do João"
esvoaçam cagalhões
no "Bar do João"
há falta de mulheres
no "Bar do João"
fazes o que queres
no "Bar do João"
olhas para as horas
no "Bar do João"
cagas e demoras
no "Bar do João"
és o capitão
no "Bar do João"
os clientes são comidos pelo leão
no "Bar do João"
atiras-te ao chão
no "Bar do João"
és um grande cabrão.

Braga, "Bar do João", 30.12.2007

OS TEÓRICOS DE CAFÉ


Os teóricos de café
têm sempre alguma razão
nunca leram Marx
mas têm a teoria económica
na ponta da língua
e discorrem entusiasticamente
sobre tudo
desde o estacionamento na cidade
até à China
temos de pensar com o bolso-
eis a nova máxima
e cai o guarda-chuva
o dono do café intervém e quer
trazer os comerciantes para a rua
os teóricos de café
têm sempre alguma razão-
e, por milagre, ainda
não se falou de futebol-
e até falam na Igreja de S. Vítor
que caiu mas quando começam
a falar no trabalho, no Salazar
e no dinheirinho está tudo fodido
e o poeta bebe
mais vale beber
está tudo fodido
antes beber que trabalhar
antes beber do que Salazar
antes beber...
ma

Monday, December 31, 2007

DEUS EM BRAGA

Eu vi Deus
em Braga
sentou-se à minha mesa
bebeu um copo comigo
lamentou-se do mundo
falou de política e futebol

Eu vi Deus
em Braga
como das outras vezes
ouvi vozes
fiquei em delírio
Deus é um rocker
vestido de mendigo

Eu vi Deus em Braga
não estou louco
acredita no que te digo
Eu vi Deus
e Ele segredou-me ao ouvido:
Detesto o Natal e os padrecas
e essa história do Cristo
é uma grande treta.

DEUS

Deus caminha em mim na cidade de Braga
ao final da tarde
Deus observa as adolescentes
num café de Braga ao final da tarde
Deus olha para a TV num café de Braga
ao final da tarde

Deus, que é Dionisos, ama Braga,
apesar do Mesquita e dos padrecas
Deus bebe cerveja
e pensa na Katiucha
Deus não entra nas igrejas
Deus quer bacanais, festas
Deus ama-te
Deus sou eu
Deus é Dionisos
Deus olha para as mulheres
e deseja-as
Deus quer filhos
Deus quer descendência
Deus não quer sacrifícios
Deus não quer missas
Deus não grama o Papa
Deus manda foder as religiões
Deus é doido
Deus quer diversão
Deus tem coração
Deus cai quando é rejeitado
Deus tem poder mas não pode tudo
Deus gosta de futebol
Deus curte rock n' roll
Deus está vivo e é o homem superior,
o espírito livre de Nietzsche
Deus é um criador
Deus adoece
Deus enlouquece
Deus canta e dança
Deus é irmão de Satã
Deus é um poeta
Deus está farto de patetas
e de versejadores da corte
Deus quer incendiar o mercado
Deus não pode com capitalistas
Deus caga nos moralistas
Deus sou eu
Deus podes ser tu
Deus não come dinheiro
Deus não é merceeiro
Deus entra nas vossas cabeças
Deus põe as gajas possessas
Deus sobe ao palco
Deus é humano
Deus vai do Céu ao Inferno
Deus vem se tu o chamares
Deus está em todos os lugares
Deus é o vinho
Deus é o caminho
Deus é Amor
Deus esmaga o mercador
Deus é tudo o que quero
Deus é Nero
Deus é cruel
Deus é mel
Deus é o poema divino
Deus não grama cretinos
Deus és tu
Deus sou eu.

Braga, 29.12.2007

Friday, December 28, 2007

DA CARLA BENTO


Uma viagem alucinada ao ventre da mae Terra, um sentir
ilusório ... quente ambíguo um fascínio que me percorre num ideal de beleza
etérea, um abrigo, um sábio, um feiticeiro que distribui a embriaguês pelo
planeta e sente a essência cósmica, a perfeiçao criativa na utopia que divaga
pelo planeta Terra com transmissoes universais porque os planetas se encontram
se amam e querem se . Uma paisagem idìlica, prazeres que ardem e voltam a
sentir se para alèm do tempo .... um horizonte azul, tonalidade. E a magia vai
para além das muralhas e formam se castelos de som, templos dunares, sitios
onde a mente nao se desencontra do corpo porque a uniao é divina... um arco
iris em sete cores e criamos mais algumas para a humanidade ... desenhamos a
eternidade e seguimos num anel de cristal,uno... Unma envolvência de um segredo
que brilha em ruelas de luzes opacas e sentimos uma realidade fílmica quando o
feeling é mais alto do que a música que nos faz expandir, e nos dá um brilho
especial . Porque é sagrada. Porque toma parte de um ritual fantástico.
A presença de Nepturnom, o planeta do fogo. A presença de Venús, o planeta
marado, a presença de Platao o planeta da força. A presença de jupiter o
planeta de ilusao... Compositores autores de uma dimensao perdida, artistas que
combatem a guerra, a hipocrisia o cinismo, uma comunidade multicultural e o céu
torna se azul elèctrico a cor dos vestidos dos magos .

Thursday, December 27, 2007

BOMBAS


PROMETERAM-NOS BOMBAS

prometeram-nos bombas
os mentirosos.
perdeu-se uma boa ideia
eu tenho pena

o deserto atómico
ter-nos-ia ensinado
a morrer desprevenidos.
e passado o inverno rigoroso
eu teria regressado um cão.
sim, um cão pardo
triste e escanzelado
a farejar os restos insondáveis
da casa dos meus pais.
perdido na poeira dos mortos
entregue a tudo
os olhos humedecidos
amarrados a mim mesmo
pelas patas da frente

In O Sopro da Tartaruga

(que pode ser comprado na livraria Centésima Página)

Fonte: http://feeds.feedburner.com/~r/MesaDaCincia/~3/205616667/quartos-escuros.html

http://agostinhodasilva.blogtok.com

Monday, December 24, 2007

MANIFESTO ANTI-RIO 2


Manifesto anti-Rio

por Eduardo Faria in http://oquotidianodamiseria.blogspot.com


O Rio, não é rio!......
O Rio, é um esgoto a céu aberto!
O Rio na cabeça tem um deserto!
O Rio não é um burocrata!......
O Rio é um burro que farta!
O Rio bem podia ter ido desaguar ao raio que o parta!
O Rio é uma vergonha de presidente!
O Rio é um indigente!
O Rio é completamente demente!......
E quem deixa a sua cidade se representar pelo Rio, não é filho de boa gente!
O Rio tem de se tratar!
O Rio não se trata num centro hospitalar!...
... O Rio trata-se numa, (muito boa), ETAR!
O Rio polui tudo por onde passa!
O Rio matou a praça!...
... O Rio é a verdadeira desgraça!
O Rio cheira mal!O Rio é animal!
O Rio é irracional!...
... E uma cidade conduzida por tal, Rio, será certamente, (e muito em breve), a vergonha de Portugal!
O Rio odeia o criativo!
O Rio é radioactivo!
O Rio não passa de um espermatozóide que encontrou um furo no preservativo!
O Rio é um asno que ri!
O Rio faz xixi por um pipi!
O Rio quer nos matar o Rivoli!
O Rio está armado em ditador!
O Rio não é um ponto negro, é um tumor!
O Rio é um estupor!
O Rio é um insecto!
O Rio é abjecto!
O Rio é um dejecto!
Se estais com pena do Rio, eu digo-vos... não estejais!
Porque o Rio é tudo isto e muito mais!
O Rio usa a clausula para tentar calar!
O Rio é horrível de se cheirar!...
... O Rio é igual ao resultado de defecar!
O Rio diz-se Dão!...
... Mas o Rio é Nabão!...
... Porque o Rio é Cabrão!
O Rio no intimo usa purpurina!
O Rio senta-se quando urina!
O Rio é pior de que o Katrina!...
... Uma cidade com um Rio destes a governar transforma-se numa latrina!
O Rio é um primata!
O Rio é um pirata!...
... O Rio faz mal à saúde e mata!
O Rio é um inculto!
O Rio é um insulto!...
... Por isso o Rio não merece o indulto!
O Rio é oleoso!
O Rio é piolhoso!
O Rio é mentiroso!...
... E se o povo voltar a eleger o Rio será para sempre um povo piroso!
O Rio gosta de corridas na Boavista!
O Rio não usava selim se fosse ciclista!
O Rio é um grande fascista!
O Rio é um reaccionário!
O Rio é um salafrário!
O Rio é um caudilho retardatário!
O Rio quer impor uma ditadura!
O Rio é contra a cultura!
O Rio é o fluxo que nos sai do corpo quando estamos de soltura!
O Rio é ruminante e só come aveia!
O Rio não tem massa cinzenta, tem areia!
O Rio não nasceu de um parto, nasceu de uma diarreia!
O Rio não merece PAM nem PIM!...
...O Rio só merece PUM!
E se um dia o Rio que é Rui vos quiser chatear,
Só tendes uma solução!... Usai da diplomacia e mandai-o fazer-se montar!

MANIFESTO ANTI-RIO


MANIFESTO DO PARTIDO SURREALISTA SITUACIONISTA LIBERTÁRIO PELA CANDIDATURA DE ANTÓNIO PEDRO RIBEIRO À CÂMARA DO PORTO
UM POETA A MIJAR-3

O poeta mijou na àrvore de Natal do Rio
o poeta plantou uma árvore mais alta da Europa
em todas as esquinas da cidade do Rio
o Rio prostitui-se na esquina

O Rio e o La Féria ocuparam o Rivoli
o poeta vomitou, em fúria,
as peças do La Féria
O Rio engoliu o vomitado
e masturbou-se no túnel
o poeta mijou no Rio
o Pai Natal e as renas
enrabaram o La Féria
As renas voaram com o poeta
o Pai Natal comeu o BCP
o PCP mantém-se marxista-leninista

O espírito do Natal mantém-nos juntos
o espírito do Natal está nos bancos
o Rio é o Pai Natal
a àrvore mais alta da Europa
é patrocinada pelo BCP
o poeta mija na árvore, na Europa e no BCP
o PCP mantém-se marxista-leninista
o poeta mantém-se surrealista
o Rio faz uma pirueta
e cai ao rio Douro
o La Féria enforca-se
na árvore mais alta da Europa
O PSSL ocupa a Câmara.

Porto, 24. Dez.2007

Thursday, December 20, 2007

UM POETA MIJA


uM POETA MIJA
cAGAM DOIS OU TRÊS DE SEGUIDA
uM POETA MIJA
e QUE NÃO SE QUEIXE A GUIDA
uM POETA MIJA
pARA TODOS BOM NATAL E MUITA IDA.

zarelleci@gmail.com

ALEXANDRE O' NEILL


Alexandre Manuel Vahia de Castro O'Neill de Bulhões, nasceu em Lisboa no dia 19 de Dezembro de 1924.
Em 1948, juntamente com Mário Cesariny, António Pedro, Vespeiro e José Augusto França, O'Neill lançou-se na aventura do surrealismo, um movimento que surgiu como provocação ao regime político vigente, e à poesia neo-realista. Mas em 1950 decidiu-se pelo abandono polémico do Movimento Surrealista, expressando desta forma o seu desagrado pelo rumo em que o surrealismo mergulhara. Contudo, a sua poesia conservou traços surrealistas.
O'Neill, à semelhança de muitos artistas portugueses não pôde viver da sua arte. Afirmava "viver de versos e sobreviver da publicidade" e foi de facto a publicidade o modo que O'Neill encontrou para ganhar o sustento. Numa área que requer destreza e à-vontade com as palavras, O'Neill sentia-se como peixe na água. Porém, não criou nenhum vínculo afectivo com esta profissão. Criou algumas frases publicitárias que ficaram na memória, como por exemplo "Boch é Bom" ou um outro slogan, que é já provérbio, "Há mar e mar, há ir e voltar". A publicidade deu-lhe o conforto económico de que necessitava, mas sempre que se enfastiava mudava de agência publicitária.
No seu vasto currículo constam diversas colaborações para jornais, revistas e televisão.
Em 1953 foi preso pela PIDE durante 40 dias.
A pátria era o seu tema mais constante, e o gosto pelo jogo de palavras e pelo brincar a sério com a língua portuguesa foi uma das marcas constantes da sua poesia. Talvez por isso tenha sido pouco compreendido em vida, pagando o preço por se ter recusado a seguir qualquer poesia da moda.
Publicou dois livros em prosa narrativa, As Andorinhas não Têm Restaurante e Uma Coisa em Forma de Assim, e as Antologias Poéticas de Gomes Leal e de Teixeira de Pascoaes (em colaboração com F. Cunha Leão), de Carl Sandburg e João Cabral de Melo Neto. Gravou o disco «Alexandre O'Neill Diz Poemas de Sua Autoria». Em 1966, em Itália, foram publicados poemas de O’Neill como título Portogallo mio rimorso. Recebeu em 1982 o Prémio da Associação de Críticos Literários.
Faleceu em 1986, de doença cardíaca.
Obra:
Poesia:
A Ampola Miraculosa (Poema Gráfico) – Cadernos Surrealistas, Lisboa, 1948
Tempo de Fantasmas – Cadernos de Poesia, Lisboa, 1951
No Reino da Dinamarca – Poesia e Verdade, Guimarães Editores, Lisboa, 1958
Abandono Vigiado – Poesia e Verdade, Guimarães Editores, Lisboa, 1960
Poemas com Endereço – Círculo de Poesia, Livraria Moraes Editora, Lisboa 1962
Feira Cabisbaixa – Poesia e Ensaio, Ulisseia, Lisboa, 1965; 2ª edição, Sá da Costa Editora, Lisboa, 1979
Portugallo Mio Rimorso – Col. di Poesia, Einaudi, Torino, 1966
No Reino da Dinamarca – Obra Poética (1951-1965) – Poesia e Verdade, Guimarães Editores, Lisboa, 1969
De Ombro na Ombreira –Cadernos de Poesia, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril, 1969; 2ª edição, Cadernos de Poesia, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Setembro, 1969
Entre a Cortina e a Vidraça –Auditorium, Estúdios Cor, Lisboa, 1972
No Reino da Dinamarca – Obra Poética (1951-1969) – "Poesia e Verdade", Guimarães Editores, Lisboa, 1974
Made in Portugal – Quaderni della Fenice, nº 29, Guanda, Milão, 1978
A Saca de Orelhas – Sá da Costa Editora, Lisboa, 1979
Poesias Completas, 1951-1981 –Biblioteca de Autores Portugueses, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, Lisboa, 1982
Poesias Completas, 1951-1983 – 2ª ed. rev. aum. Biblioteca de Autores Portugueses, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, Lisboa, 1984
O Princípio da Utopia, o Princípio da Realidade seguidos de Ana Brites, Balada Tão Ao Gosto Português & Vários Outros Poemas, 1986 – Círculo da Poesia, Moraes Editora, Lisboa, 1986
Poesias Completas, 1951-1986 – 3ª ed. rev. aum. Biblioteca de Autores Portugueses, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, Lisboa, 1990
Poesias Completas, 1951-1986 – Assírio & Alvim, Lisboa, 2000
Prosa:
As Andorinhas não têm Restaurante (crónicas) – Cadernos de Literatura, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1970
Uma Coisa em Forma de Assim (crónicas) – Edic, Lisboa, 1980; Editorial Presença, Lisboa, 1985
Discos:
Alexandre O' Neill diz poemas da sua autoria – A Voz e o Texto, Discos Decca
Os Bichos também são gente (Poemas dedicados aos bichos e ditos pelo autor) – A Voz e o Texto, Discos Decca

Wednesday, December 19, 2007

O BARDO


O Bardo na Brêtema




Rudesindo Soutelo










Entra no esquema




Aqueles que são mais inteligentes do que eu sempre fazem a mesma sugestão, por vezes imperativa mas, como se já fosse um caso perdido, quase sempre paternalista e com um tom de velada ameaça. A mediocridade musical e cultural -politicamente correcta- do país não dá para integrar vozes discordantes; e manter uma opinião própria é ousadia que se paga com a marginalização ou mesmo com a injúria, calúnia e difamação para promover o descrédito social do insubordinado. Entrar no esquema quer dizer que um já não precisa de ter ideias, e se por acaso lhe viesse alguma ao pensamento há-de escondê-la bem para não contrariar aqueles que o sustentam no poder, cargo, emprego, ofício ou função. O esquema remunera a mediocridade e gera um séquito de bonifrates, fantoches, títeres e marionetas; pessoas levianas e sem vontade própria que perpetuam um sistema de subservientes, louvaminhas e bajuladores.




Os Conservatórios públicos galegos têm um nível muito baixo, bastando ver o número de alunos europeus que vêm cá estudar nos nossos centros superiores ou quantos alunos formados aqui fazem carreira nos palcos da Europa sem passar antes por Conservatórios de outros países, nomeadamente França, Inglaterra, Holanda, Áustria, Alemanha, Itália ou mesmo Portugal, para adquirir a competência profissional que aqui não se alcança. Porque as habilidades que entre nós se ensinam apenas dão para aprovar formalmente os exames de oposição aos próprios Conservatórios, num sistema endogámico. Ainda assim, se o candidato não entra no esquema irá ser constantemente reprovado. É conhecido o caso de um acreditado profissional de música que este ano atingiu o limite da idade laboral sendo continuamente reprovado nas oposições de Conservatórios; mesmo que os seus valores e saberes sejam superiores aos dos júris que durante anos o rejeitaram. É um dos casos mais ignominiosos mas não é o único. Estas infâmias músico-pedagógicas estão instigadas por uma política educativa que gera o seu próprio esquema de mediocridades mexendo cordelinhos na sombra para recompensar com postos directivos os mais dóceis e obedientes, privando de iniciativa e mesmo de independência pedagógica os poucos profissionais que, sem entrar no esquema, conseguem aprovar.




Há professores de Conservatório que estão a ser perseguidos por promover ou apoiar uma candidatura para o conselho directivo diferente da oficial, ou seja, que não entra no esquema dos responsáveis políticos da educação musical. Mas como não é "estético" acusá-los de democracia então estão a ser imputados de não utilizar nas memórias pedagógicas o mal chamado "galego normativo". Acontece que no reino da Espanha não existe legislação alguma sobre normativas de escrita portanto não se pode obrigar alguém a escrever com uma determinada ortografia. Tão galego é representar a nossa língua com a grafia do castelhano como com a do português, outra coisa são os fundamentos filológicos e políticos que sustentam tais decisões. Há mesmo sentenças que assim o julgam porque a escrita não é mais do que uma representação da língua e como tal está sujeita a interpretação dos utentes. Assim pois, diante dos inspectores, tiveram de retirar as acusações e pedir desculpas aos professores. Não darei os nomes dos perseguidos para evitar-lhes represálias maiores e porque antes seria mais justo dar os nomes dos que formam o esquema inquisitorial. Mal vai uma Conselharia de Educação que persegue os que escrevem na nossa língua, seja na norma que for, e não se importa pelo nível educativo, neste caso, da música.




Aqueles que são mais inteligentes do que eu sempre estão no carro do poder, seja lá o poder que for e mesmo que a legitimidade o desassista.




Está-se a celebrar um centenário com mais pompa que substância onde tudo brilha com a luz trémula dum amortecido glamour. Pascual Veiga passou meia vida procurando que a Galiza tivesse um hino próprio, e pouco antes de morrer no exílio madrileno enviou para Cuba a composição musical que logo se converteu no símbolo pátrio por excelência. É uma obra notável e singular mas a versão original, para coro masculino segundo o gosto da época, é hoje muito inapropriada. Rogélio Groba, por encomenda da Xunta, fez os arranjos do hino e dignificou mesmo certos aspectos da partitura, mas como não entra no esquema dos celebrantes pois ignorado é. Parece que estão a dar voltas ao redor do nosso hino para o banalizar e ver como amputar a conflituosa segunda parte -"Nação de Breogam"- que também não lhes entra no esquema.




Ligaram-me do IGAEM (Instituto Galego das Artes Cénicas e da Música) para responder a um inquérito sobre a indústria musical galega e já na primeira pergunta percebi que o seu esquema tem pouco que ver com uma indústria musical que explore aqui a nossa muito rica matéria prima e criativa. Promove-se a cultura musical do subdesenvolvimento,

pois ignoram que a base da indústria musical são os contratos de edição, e não as fonográficas nem os organizadores de concertos. Sem compositores não há música nem indústria e sem editoras que defendam, explorem e controlem os direitos dos nossos criadores não passamos de um país terceiro-mundista, controlado por multinacionais do entretenimento ou da brincadeira. Confesso a minha ingenuidade quando pretendi assentar na Galiza a editora de música Arte Tripharia com a sua colecção "Corpus Musicum Gallaeciae". Aqui não interessa a música dos nossos criadores originais, e ainda menos se falarmos de música culta ou erudita. Depois das últimas campanhas difamadoras que os que estão no esquema me infligiram desde foros da internet, a editora vai-se embora. E eu, que sempre quis ser de onde nascera, agora sei que cada um é de onde o querem.




Aqueles que são mais inteligentes do que eu repetem sempre a mesma cantilena: -"Entra no esquema!". Mas haverá um esquema que nos livre de tanta mediocridade? E continuaria eu a ser livre se aceitar as prebendas do esquema? A dignidade ninguém a concede, conquista-se.




© 2007 by Rudesindo Soutelo

www.soutelo.eu

Tuesday, December 18, 2007

eu divirto
me divirtual,
e dá igual
se é renal,
porque subverto
quando verto.
urtigal ou bexigal
é paranormal
o aperto.
pelo rasto
enquanto me afasto
fica perto portugal.
se mijar está certo
fica mal,
mas no bar aberto
etc. & tal.

Renato Cardoso

VENHO AO CAFÉ-3


Venho ao café
e as pessoas já não conversam
venho ao café
e ainda há pessoas que se preocupam
com as outras
venho ao café
e está frio e chuva
venho ao café
e os carros deslizam lá fora
venho ao café,
escrevo,
e não digo palavra
venho ao café
e os clientes não param de escrever
nem eu de escrever
venho ao café
e entra uma gaja boa
venho ao café
e estou longe da Távola Redonda
venho ao café
e estou longe da minha amada.

Thursday, December 13, 2007

MANIFESTO DO ABSURDO



PARTIDO SURREALISTA SITUACIONISTA LIBERTÁRIO

Perante uma realidade absurda, sejamos absurdos.
As teses marxistas, embora correctas, não chegam para combater uma realidade quotidiana feita de tédio, onde a ideologia capitalista dominante impõe pensamentos e comportamentos monetaristas, competitivos, assassinos, absurdos. É a sobrevida, a vidinha, a sobrevivência, em vez da vida, como dizem os situacionistas. É a submissão às leis implacáveis do lucro, do mercado, do negócio, do homem-mercadoria ou, em alternativa, a depressão, o suicídio. O espaço destinado à liberdade, à criação é muito reduzido, só ao alcance de alguns e, mesmo assim, em grande parte submetido ao mercado. Só o espírito livre de Nietzsche escapa ao mercado. E esse espírito livre deve ser provocador. Os dada e os surrealistas compreenderam isso. É com atitudes provocatórias que ridicularizem o instituído, inclusivé a arte instituída, com a absurdização do absurdo quotidiano que o espírito livre cria e se manifesta.
Perante o absurdo, sejamos absurdos!

CONFEITARIA


O poeta senta-se na confeitaria
e escreve
permanece discreto
não está em fase de dar nas vistas

O poeta tira os óculos e escreve
não quer exibir a veia explosiva
nem assustar a clientela.

Wednesday, December 12, 2007

UM POETA A MIJAR


LANÇAMENTO DO LIVRO "UM POETA A MIJAR" DE A. PEDRO RIBEIRO

O livro "Um Poeta a Mijar" (Corpos Editora) de A. Pedro Ribeiro vai ser lançado no próximo dia 21, sexta, pelas 22,30 h, no bar Real Feytoria, no Porto (à Ribeira). "Um Poeta a Mijar" sucede a "Saloon" (Edições Mortas, 2007), "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro. Manifestos do Partido Surrealista Situacionista Libertário" (Objecto Cardíaco, 2006), "Sexo, Noitadas e Rock n' Roll" (2004), "Á Mesa do Homem Só. Estórias" (Silêncio da Gaveta, 2001) e a "Gritos. Murmúrios" (com Rui Soares, Grémio Lusíada, 1988). "Um Poeta a Mijar" combina o surrealismo e o Dada com o beatnick, a mulher e a noite com o palco e a loucura.
A. Pedro Ribeiro nasceu no Porto em Maio de 1968, viveu em Braga, no Porto e na Trofa e actualmente reside em Vilar do Pinheiro (Vila do Conde). Diz regularmente poesia no norte do país, tendo actuado no Festival de Paredes de Coura de 2006 ao lado de Adolfo Luxúria Canibal e de Isaque Ferreira. Em 2005 alguns órgãos de comunicação social noticiaram uma candidatura sua à Presidência da República. Integra as bandas Mana Calórica- www.myspace.com/manacalorica- e Las Tequillas. Foi fundador e é colaborador da revista Aguasfurtadas.

tel. 229270069.

in http://serdoente.blogtok.com

Monday, December 10, 2007

ANTES ESCREVER POEMAS

Venho ao café beber cervejas
e as pessoas falam do trabalho
e insurgem-se contra os malandros
que, como eu, não se adaptam à vida prática
nem querem trabalhar
apesar disso tocam-me nos ombros
e saúdam-me
afinal de contas, escrevo poemas
sim, sou malandro
mas escrevo poemas

Antes escrever poemas
do que converter-me à lógica mercantil
antes escrever poemas
do que andar a sacar bonecos da máquina
antes escrever poemas
do que converter-me à lógica imbecil
antes escrever poemas
do que ser empreendedor
antes escrever poemas
do que ver telenovelas
antes escrever poemas, beber cerveja
e ser malandro
do que olhar para a televisão
antes escrever poemas
do que converter-me à vidinha
antes escrever poemas
do que defender o Governo e a situação
antes escrever poemas
do que trabalhar
antes escrever poemas
do que ser carneiro
antes escrever poemas
do que ser moedeiro
antes escrever poemas
do que dar-me de bandeja
antes beber mais uma cerveja
antes escrever poemas
do que agradar a todos.

Sunday, December 09, 2007

TÃO LONGE


Estás tão longe

longe do tédio dos cafés de domingo
longe do Verão em que estiveste comigo

O doutor não aparece
só as mamas da Marta me excitam

e as mulheres só me ligam
quando digo poesia

estás tão longe
e eu tão triste.

Wednesday, December 05, 2007

SURREALISMOS

"O Templo de Cesariny de Vasconcelos
terá esbofeteadores,
e será construído com copos de estanho
encontrados num bar antigo de alguma rua estreita
e tortuosa de Lisboa,
e quer seja colorido pelo derradeiro sonho de Viriato
ou pelo sangue de Sergius Galba,
a entrada para este local de encontro nunca nos livrará
do seu enrolar-desenrolar nos nossos olhos injectados de sangue,
sóis gémeos gravados na Adaga de Dezembro,
e à medida que passamos frente à sua pena,
aquela que ostenta a palavra
DESPREZO
..."

Breve extracto do longo e belíssimo poema "Entrar Sair" escrito por Allan Graubard e Jean-Jacques Jack Dauben - USA, e dedicado a Mário Cesariny (tradução de António Simões). No original o poema foi ilustrado por Thom Burns. A versão original (em formato digital), pode ver-se num dos nossos postings anteriores.

in www.alternativa200.org

Tuesday, December 04, 2007

AI, PRIMEIRO, PRIMEIRO, QUANTO GOZAS

Sócrates diz que crescimento do desemprego está contido
O primeiro-ministro, José Sócrates, disse hoje estar esperançado que a taxa de desemprego possa descer no próximo ano e acusou a oposição de ter tido uma "reacção precipitada" ao comentar os valores divulgados segunda-feira pelo Eurostat, depois corrigidos. Apesar da correcção do órgão estatístico da União Europeia os números mostram que a taxa de desemprego em Portugal aumentou em Outubro, quer face a Setembro, quer face ao mesmo mês do ano passado.

Saturday, December 01, 2007

O FUTEBOL E O PAÍS


O FUTEBOL E O PAÍS



O futebol pára o país

O país e o futebol jantaram juntos

O país, o futebol e o jantar

Reuniram-se na Junta de Freguesia



A água é o sangue da Terra



O que importa é que seja um bom jogo

E que ganhe o melhor



O país janta frango

O frango e o país foram ao futebol

O país deu um frango



O que importa é que seja um bom jogo

E que ganhe o melhor



O futebol encanta multidões

As multidões e o futebol comem frango

O futebol, o frango e as multidões

Comem o país



O que importa é que seja um bom jogo

E que ganhe o melhor



O Rocha é um analista reputado

O futebol, o frango e o Rocha

Banharam-se na Praia da Rocha

O futebol e o país foram às putas



O que importa é que seja um bom jogo

E que ganhe o melhor.



1.12.2007

THE KING IS NOT DEAD


THE KING IS NOT DEAD

Sou do rock
Danço na pista
Assim vai o artista
Que se gasta na asneira

É a vida que provoca
Ao encontro de Baco
Festa queda bebedeira

Sou o que sou
Sou o que quero
Cabelos ao sol
Abertos libertos
Sem falsas virtudes
Nem damas castas

Quem viu a morte
Nada tem
Nada teme
Só a palavra
A dança a guitarra

Há um ser em mim
Que vai até ao fim

O poeta só o é
Perante o sangue
O sangue na guelra
Homem em guerra
Narciso em busca da dama
Que nos trama
Mesmo quando ama

O poeta só o é
Se anda pela Sé
E enfrenta a rua
A fera a noitada
E o resto
É conversa fiada

O poeta só o é
No “Barco Bêbado”
Ao leme
À porta do Hades
Ou dentro da mulher que ama

O poeta é aquele que quer
O resto são pombinhas da Catrina
Boatos de gente desfigurada

O poeta só o é
Quando canta
E diz a palavra
O poeta só o é
Quando ergue a espada
Artur
“Excalibur”
Minha amada.


Vilar do Pinheiro, “Motina”, 29.3.07

LÚCIFER


LúCIFER

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Sinais de fogo> >


vulcões> >


gentes que fogem> >


em fúria> >


outras que caem> >


ao Hades> >


is this the end, beautiful friend,> >


or just the beginning of the new age?> >> >




Devo desposar-te,> >


minha mulher,> >


ó eternidade?> >


ou devo combater,> >


meu comandante?> >> >




quando um homem>


> procura a solidão>


> e regressa á infância> >


que pode esse homem encontrar> >


senão a luz, senão a vingança?> >> >


Quem é esse homem> >


que vem do incêndio> >


da cidade eterna?> >


Quem é esse homem> >


no meio das mulheres>


> e das outras merdas?> >> >


Quem é este> >


que tu queres> >


e volta de madrugada> >


a cair de bêbado> >


atraiçoado> >


a arder no canto> >


a subir no verbo> >


na tua palavra> >>


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rei guerreiro> >


rei querido> >


Hamlet em delírio> >


bruxas> > feitiços> >


o que é que conta isso> >


diante de ti> > homem livre> >


espírito que dança> >


em busca do Graal.> >> >

Declaração de amor ao primeiro ministro

Como o editor valter hugo mãe disse: “A tolerância é uma coisa para tolos.”

Como a professora Carolina Leite disse: “Quem não tem um blogue não tem identidade.”

Como a professora Zara Coelho citou: “Toda a escrita que não tenha o caracter de luta não vale a pena” _ Michel Foucault.

Saturday, November 24, 2007

NÃO SOMOS DO PC MAS SUBSCREVEMOS

Abertura da conferência nacional comunista
PCP: política do Governo é "desigual, insustentável e injusta"
24.11.2007 - 17h45 Lusa
O deputado comunista Agostinho Lopes disse hoje que a política do Governo é "desigual, insustentável e injusta", na abertura da conferência nacional do PCP, que decorre este fim-de-semana na Torre da Marinha, no Seixal.

De acordo com o deputado comunista, a desigualdade reflecte-se essencialmente na "distância entre ricos e pobres, num país que pelos critérios comunitários tem dois milhões de pobres", e na desigualdade territorial "com regiões com dinâmicas de sobrepovoamento como contraponto ao esvaimento económico e social de outras".

A insustentabilidade económica, ambiental e social decorre, para o deputado do PCP, da maximização da taxa e volume dos lucros e da "consequente anarquia imposta à localização e afectação de recursos humanos e dos investimentos".

Agostinho Lopes afirmou também que a estrutura política do Governo fomenta a injustiça social, por polarizar a riqueza produzida pela sociedade numa minoria, "enquanto falha a estratos numerosos da população com o rendimento necessário para assegurar uma vida digna".

A ruptura com as linhas orientadoras do Governo central e a sugestão de uma política económica e social alternativa foram os principais destaques da sessão de abertura da conferência nacional do PCP, que decorreu hoje.

O deputado Agostinho Lopes, da comissão política do PCP, abriu a conferência nacional, subordinada às questões económicas e sociais, sugerindo a ruptura com os "dez eixos centrais, em torno dos quais se articula de forma persistente e consistente a política de direita levada a cabo nas últimas três dezenas de anos".

Romper com o interesse pelo grande capital, com a desvalorização do trabalho e dos trabalhadores, com a super valorização das exportações, com políticas que atingem a soberania nacional ou com a subversão da Constituição da República foram algumas das directrizes apontadas.

"Outro rumo, nova política"

A proposta alternativa, denominada "Outro rumo, nova política" e que está a ser elaborada desde Outubro do ano passado, será aprovada pelos delegados à conferência, defendendo, em traços gerais, "uma política mista, moderna e dinâmica e uma política social que garanta a melhoria das condições de vida do povo".

O documento "Outro rumo, nova política", que será aprovado amanhã, assenta em seis linhas integradoras, que encerram as ideias-chave de uma política alternativa. O aproveitamento dos recursos naturais, dos recursos humanos, a ciência e a tecnologia, a modernização da economia e o aumento da produtividade, a criação de um núcleo de indústrias de bens e equipamento, o planeamento descentralizado e a cooperação económica internacional são os seis principais vectores elencados na proposta.

A nível económico, o principal objectivo passará pelo crescimento económico, sustentado e acima da média da União Europeia, através do combate à estagnação da economia nacional, fazendo crescer o investimento público.

Esta política denominada "Democracia avançada" pretende também devolver um vasto número de "direitos sociais fundamentais", entre os quais o direito ao trabalho, à segurança social, à saúde e habitação, à igualdade, e a defesa dos direitos das minorias, idosos, deficientes e imigrantes.

"A efectivação e aplicação universais destes direitos sociais fundamentais são um imperativo para garantir condições dignas de existência a todos os cidadãos e se alcançar uma sociedade mais justa", pode ler-se ainda no documento.

O encerramento da conferência nacional ficará a cargo do secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, e decorrerá amanhã de manhã.

NOITE


JÁ NÃO HÁ NOITE

Já não há noite
De meninas ao colo
Já não há noite
E a pedra bate
A cadeira bate
No batuque do rock

Já não há noite
Nem meninas bonitas
Só óculos a fumar
E bandos a entrar
De barba precoce

Já não há noite
Só putos lá fora
A charrar

Estava a contar
Que alguém viesse
E me desse uns trocos
Para desbundar.

Pátio, vc

Saturday, November 17, 2007

HOMBRE


Hugo Chávez adverte EUA sobre ataques ao Irão e Venezuela

O Presidente venezuelano, Hugo Chávez, advertiu hoje os Estados Unidos sobre os riscos de ataques ao Irão e à própria Venezuela, nomeadamente a subida do preço do barril de petróleo até aos 200 dólares.

Wednesday, November 14, 2007

SAUDAÇÃO

As pessoas saúdam-me
e eu recomeço
as pessoas saúdam-me
e eu leio livros
as pessoas saúdam-me
e o rocker manda-me mensagens
as pessoas saúdam-me
e os olhos da menina brilham.

Tuesday, November 13, 2007

NIETZSCHE


"Quem é odiado pelo povo como o lobo pelos cães é o espírito livre, o inimigo das cadeias, aquele que não presta adoração e vive no meio das florestas."

"É noite: despertam os cantos dos amorosos. E a minha alma é também um canto de amor. A minha alma é uma fonte que canta."

"Que no vosso amor (mulheres) brilhe o clarão de uma estrela! Que a vossa esperança diga: que eu possa fazer nascer o super-homem."

"A tua obrigação é criar um criador."

(F. Nietzsche, "Assim Falava ZAratustra".

Monday, November 12, 2007

PSSL


DECLARAÇÃO DE AMOR À MINISTRA DA EDUCAÇÃO
(pelo José)


Estou apaixonado pelo primeiro-ministro
Por todos os primeiros-ministros
E pelos segundos
E pelos terceiros

(...) quero vê-lo(s) num filme porno.

A. Pedro Ribeiro, in Manifestos do Partido Surrealista Situacionista Libertário


Afinal, o José não é o único. O A. Pedro Ribeiro também morre de amores pelo nosso primeiro, e pela nossa ministra. Como é mais puritano,
José não gostaria de os ver num filme hardcore, 1º escalão, a fazerem amor com o défice, nem como Otelo, aos tempos em que nos fora cavaleiro tauromáquico lhes projectando (a baba, a raiva, o ranho) ao Campo Pequeno. Não,
José apenas os quer na RTP Memória, ao filme em que se pensam cowboys, a preto e branco, num duelo ao amanhecer. E sob a capa de não haver mais cêntimos, José pensa que o primeiro, o segundo, mesmo os terceiros são os bons que vão promover o mérito, quando, afinal, promoverão mas toda a gerontocracia de macacos velhos, por cinzentos. E entre estes, só os piores: amigos do sistema, que ocuparam cargos de gestão - mesmo sem haverem dado aulas, e haverá sempre alguns numa Escola perto de Si -, que ocuparão claramente os lugares de supervisão, não fossem eles Super-Homens, de tanto sonharem com a (sua, não esta) reforma. Até porque são os únicos que faltando, numa turma que às vezes vão tendo,
os outros funcionários lhes não marcam falta! E este passa a ser um critério de relevar a sua omnipresença - justamente diferenciador dos Deuses e dos simples mortais.

Sunday, November 11, 2007

A VOZ DE DEUS

Regresso ao café
À turbulência das conversas
Às chávenas que tilintam
Às misses que se passeiam

Oxalá a que está a meu lado
Me dê atenção
Pelo menos foi solidária e benevolente
Com o vendedor da “Cais”

Eu não.
Já tinha gasto os trocos
No “Diário de Notícias”
E numa revista vanguardista
Chamada “Voz de Deus”

Oxalá ela me prestasse atenção
Em vez de andar entretida com o “Sudoku”

Oxalá eu deixasse de ser tímido.

Porto, Piolho, 10.10.05

Saturday, November 03, 2007


Mantenho a minha candidatura à liderança do PS (Partido Surrealista).

Eu represento a ala dos supersticiosos, crentes em makumbas e voodoo, cartas de tarot e outras coisas misticas. Levarei esta minha candidatura até ao fim, contra gregos, poetas e filhinhos do papá.

Se eu for eleito, prometo levar o PS ao poder.
A linhas principais do meu programa de governo são:

EDUCAÇÃO:
- criar uma disciplina obrigatória de ciências misticas e de energias ocultas no ensino secundário.
- criar uma universidade dedicada ao estudo das ciências misticas e energias ocultas.

SEGURANÇA:
- distribuir pela população uma cartilha de magia negra aplicada à auto-defesa.

ECONOMIA:
- reflorestar as areas ardidas com arvores onde crescem dinheiro.

AMBIENTE:
- distribuir tapetes voadores (não poluentes) à população.
- usar uma varinha mágica para fazer desaparecer lixos tóxicos (aqueles destinados à co-incenerização).

EMPREGO E SEGURANÇA SOCIAL:
- acabar com as reformas vitalicias dos ex-governantes e ex-deputados.

NEGÓCIOS ESTRANGEIROS:
- estabelecer relações diplomáticas com o Peter Pan e com outros mundos paralelos.

CULTURA:
- criar o instituto português de ciências misticas e energias ocultas.
- promover espetaculos de magia, de circo, e os filmes do Shrek, do Raboby e do Harry Potter.

OBRAS PÚBLICAS E TRANSPORTES:
- desenvolver um inovador sistema de tele-transporte.

Prof. Çakana Manguito

SALOON NA INSÓNIA


Segundo apontamento biobibliográfico reproduzido na sua mais recente recolha poética, A. Pedro Ribeiro nasceu no Porto em Maio de 68. Pode tratar-se de falsificação biográfica, mas não deixaria de ser congruente com a atitude do autor ter este nascido na data que marca as agitações revolucionárias francesas no período do governo de Charles de Gaulle. De facto, a poesia de A. Pedro Ribeiro ecoa, desses tempos, certos gestos e atitudes que, sem grande esforço, conseguimos entrosar na encruzilhada das esferas social e política. Saloon, o seu quinto título publicado, depois de Gritos. Murmúrios (1988), À Mesa do Homem Só. Estórias (2001), Sexo, Noitadas e Rock n’ Roll (2004) e Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro (2006), compõe-se de elementos onde nessa encruzilhada cabe ainda uma outra esfera, muito mais subjectiva, onde reconhecemos um erotismo de pendor lascivo e a ameaça permanente de uma loucura com contornos tão íntimos quão sociais. De resto, sendo o autor licenciado em sociologia, não admira que seja o corpo social, nomeadamente urbano, aquele que mais se reflecte nestes poemas. Saloon, como nos westerns antigos, é apenas o ponto de encontro, muitas vezes o cruzamento onde os acidentes acontecem, dessas esferas, aqui disparadas umas contra as outras, em versos que lembram a arte de grafitar. Frases curtas, incisivas, raramente dão lugar, nesta poesia, a outra coisa que não seja o grito, o berro, a vontade de partir pedra, de atirar certeiro contra uma paisagem devastadora e repugnantemente adúltera. Essa paisagem é a paisagem de um tempo, de uma sociedade, de um país, percorrido nos seus casebres de Vilar de Mouros a Braga, do Porto a Castro Daire, de Vila do conde ao Gerês, da Póvoa a Lagos. Por estes lugares, o poeta vai deixando um rastro de pó, facilmente reconhecível, aqui e acolá, nas evocações dos saloons do nosso tempo, ou seja, dos cafés e das esplanadas, mas também na invocação de personagens, que tanto podem ser o revisor da CP no poema que dá título ao livro, as mulheres que se cruzam com o salteador como a gente anónima de todos os dias: «A noite morre / Mas ainda há gente que ri / gente que se cruza e encontra e desencontra / E freaks a entoar cânticos futebolísticos» (p. 27). O Luso e o Piolho, históricos pontos de encontro na vida nocturna portuense, são apenas dois exemplos dos balcões onde foram bebidos e vomitados alguns dos versos desta colectânea de A. Pedro Ribeiro. É pois esta uma poesia nocturna, da rua, da deambulação, que não enjeita a gíria comum - «em cascos de rolha» (p. 9), «fechas-te em copas» (p. 35) – e o chavão popular - «meio mundo fode outro meio» (p. 12) – na sua réproba demanda. A ideia de poema como anátema talvez não seja descabida de todo para uma possível caracterização desta poesia, conquanto o anátema seja aqui entendido no plano de tal subjectividade que há pouco evocava. As palavras de ordem, o ímpeto político, sofrem no nosso tempo o isolamento das testemunhas. O poeta, em posição voyeurista, acaba transformando-se num mero observador, acusador, denunciante, de um mundo do qual se sente deslocado, no qual se sente desintegrado. A loucura, seja ela consequência do que for, é já solução para essa desintegração, como solução parecem ser os paraísos artificiais de que falavam Thomas de Quincey e Baudelaire. “Cicatrizar as angústias que induzem o espírito à rebelião”, parece ser também um fim último destes poemas arrumados sob o título Saloon, um título que anuncia a entrada num universo delirante, alucinatório, esquizofrénico, como era o universo dos saloons do Old West. É o nosso universo, não é outro, é o universo que todos poderão constatar caso queiram assumir os olhos do poeta, caso queriam arriscar a loucura, o delírio, que é o de estar do outro lado da barricada, do lado oposto àquele onde a esquizofrenia acontece como uma valor que se promove e dissemina sem que alguém se dê conta:

OCEANO

No café “Oceano”
os pensionistas protestam contra
os fracos aumentos das pensões
decretados pelo Governo
mas misturam o tema
com a toxicodependência
e com a pedofilia na Casa Pia

Definitivamente os pensionistas
Não constituem uma classe revolucionária.

Lagos, “Oceano”, dez. 2003.

A. Pedro Ribeiro, Saloon, Edições Mortas, 2007 (?).

in http://antologiadoesquecimento.blogspot.com

Friday, November 02, 2007

SURREALISMO


O surrealismo como arma de combate


Alfredo Mendes

"Quanto mais surreal, mais verdadeiro", eis o mote para um debate que juntou, no Café Literário da Feira, escritores da estirpe de Pedro Ribeiro, Daniel Maia-Pinto, João Gesta e João Habitualmente. Adolfo Luxúria Canibal vocalista e letrista dos Mão Morta moderou, competindo ao actor Isaque Ferreira a leitura de textos. Obscenos? Vade-retro! Antes, a jocosidade na peanha para exorcizar preconceitos.

O pretexto, disseram os intervenientes, é dar combate ao sistema. Com ironia, sarcasmo, arestas de subtileza. Numa breve incursão histórica, falou-se, inclusivamente, das cantigas de escárnio e de maldizer, com penadas de surrealismo.

Concordaram que o "terrorismo poético" denuncia a sociedade contemporânea. Vai daí, a Declaração de Amor ao primeiro-ministro, obra cujo autor pretende ver Sócrates protagonista de um filme porno. Até porque, disse outro participante , o capitalismo está em todo o lado, Lisboa, Caxinas, Vilar de Mouros, ilustrou. E também na feira do livro. A forma de derrotar o flagelo "é a via do surrealismo". O que existe, considerou-se, "não presta! É tédio, morte!".

in DN, 7.6.2006