Sunday, December 30, 2012

A ECONOMIA DA SERVIDÃO

DAS ORIGENS DA ECONOMIA DA SERVIDÃO

A economia da exploração do homem pelo homem, do animal pelo homem e da natureza pelo homem, começou no dia em que uma criança de três anos disse "isto é meu", e as outras crianças a levaram a sério!



A partir daí criaram-se as condições para o mundo se transformar numa autêntica "criancice", e surgiram condições para aparecimento da escravatura do homem (sob as mais diversas formas: esclavagismo, servos da gleba, proletariado industrial), forjou-se a crueldade contra os animais pela mira do aumento e da concentração da propriedade privada (e claro pela mera diversão) , e forjou-se o desrespeito pelo ecossistema natural.



Numa palavra, a partir dessa "criancice" as sociedades humanas cairam na "canalhice"! Passou a predominar a adoração á concentração da propriedade privada , através da adoração do lucro sobre todas as coisas!



Por isso podemos concluir que o actual sistema de economia de mercado capitalista (pelo qual meia dúzia de accionistas exploram até ao tutano humanos, não humanos e natureza) é o expoente máximo de uma "criancice" (que inspirou o ensaio sobre a cegueira de Saramago) a qual nunca deveria ser toma da a sério. Mas foi, e essa criancice, plasmada no "isto é meu", gerou o maior boom do crescimento económico das sociedades humanas, mas um crescimento pelo crescimento, subordinado ao máximo lucro, à sua acumulação e concentração em cada vez menos mãos!



De facto, e olhando para o desrespeito com que alguns seres humanos, detentores da "propriedade privada", ou seja detentora da propriedade dos meios de produção tecnológicos e financeiros, tratam os outros seres humanos (considerados como meros factores de produção submetidos á lógica do máximo lucro que alimenta a riqueza dos proprietários), ao desrespeito e mesmo crueldade a que são submetidos os animais, igualmente submetidos a essa cadeia do lucro (apelidada de cadeia de criação de valor!), e o próprio desrespeito para com o equilíbrio do ecossistema natural pondo em perigo a viabilidade do próprio planeta terra, podemos então concluir que o nascimento da propriedade privada, e o seu correlativo endeusamento, ou seja o fortalecimento do"isto é meu" , começou a marcar o desaire fundamental que está na origem de todos os males de que padece o ser humano, o animal e a natureza na história marcada pela sociedade humana!







A CONSTRUÇÃO DE UMA ECONOMIA DA COOPERAÇÃO



Saramago explicou isso tudo no seu "ensaio sobre a cegueira"! Trata-se de desfazer a criancice do "isto é meu", ou seja de essa criancice não ser levada a sério, de as outras crianças não permitirem que essa criancice seja consolidada.



No estádio actual do desenvolvimento económico, social, cultural e histórico, a única via aceitável e operante só pode ser mesmo a da democracia directa e participada de todos os cidadãos, a qual terá o trabalho imenso de desconstruir as fundamentações jurídicas favorecedoras da propriedade privada, invertendo o seu favorecimento, e promovendo a cooperação económica e social, a equidade e a justiça social.



É um caminho que exigirá muito esforço e muita luta por parte de todos os cidadãos, mas que é necessário perseguir e persistir, para acabar com a economia da servidão e para implantar em seu lugar, de forma democrática e massivamente participada, uma economia da cooperação, solidária e integrada numa estratégia de desenvolvimento sustentável, ancorada na vertente humana, animal e ambiental.



Só dessa forma será possível dar andamento a uma práxis política baseada na SHAA proclamada por Gandhi, e traduzida concretamente na solidariedade humanística, animal e ambiental!



Mãos á obra! Para começar saibamos exigir e impôr uma democracia directa e participada que abula de vez com a Cleptocracia e com a corrupção do poder político!

  MANUEL SALGADO ALVES

Wednesday, December 26, 2012

O POEMA DO INFERNO





Menino,

Escuta,

Nós somos os teus fantasmas

Viemos infernizar-te a mente

Não fujas

Tudo o que realmente fizeste aqui

Está a ser julgado

Todos os teus passinhos de medo

Todas as tuas fraquezas

Quando não foste capaz de levantar a voz

Para defender a dama

Quando te acobardaste

Ou te refugiaste no racional

Sim, porque tu és racional, menino,

És mesmo o mais frio e racional de todos

Poderias ser um líder, um ditador

Ainda podes sê-lo, menino

De qualquer forma,

Agora nada tens a perder

És menino para isso

Quando o álcool se mistura

Com os medicamentos

É um cocktail molotov

Tens uma história, menino,

És um profissional da desordem

Como diz o ministro

És isso mesmo

Basta acender o rastilho

És um mau menino

Onde está o teu bom coração?

Onde estão as falinhas mansas?

Vá, menino, impõe-te

Toma conta disto

Chegou a hora do juízo final

Desta vez não te fiques

Por umas cervejas

Parte mesmo

Incendeia

Faz o teu número

O teatro

Que sabes fazer

Faz lá o risinho sarcástico

Enganaste-os a todos

Mesmo à dama

Chegou a hora de incendiar



Traz a tua rainha

Celebra-a

Deixa-te de escritos menores

Esta é a poesia

Que vem do inferno

Incendeia, menino,

Tu sabes fazê-lo

Agora são eles

Que começam a ter medo de ti

Também, coitados, só têm o futebol

E o dinheirinho na cabeça

Enquanto que tu és

Um revolucionário alucinado

Agora reinas

Rei da armadura dourada

Vens, de facto, dos séculos

Para travar a batalha

Não cedas mais

Não distraias a atenção

Com coisas menores

É a hora

É Natal

Ah! Ah! Ah! Ah!

O outro nasceu

Depois foi crucificado

Não estavas a brincar

Quando partiste os vidros dos carros

Não estavas a brincar

Quando derrubaste a estátua

Tens seguidores, menino

Com eles podes tomar o mundo



Eis o poema que vem do inferno

Directamente dos teus fantasmas

Estamos a dar-te forças, menino,

Agora já podes rir

Agora já podes dançar

És o super-homem de Nietzsche

Orgulhoso, cabotino, terrível

Deixa de parte a bondade

Não dês sinal de fraco

Há quem te esteja sempre

A pôr à prova

Brilha como um deus

Impõe-te nas tuas quintas

E fora delas

Aproveita a energia que te damos

A energia que estava adormecida

E que agora arde

E que agora queima

Que já esteve a espaços

Em alguns poemas

Mas que agora é total

Não tenhas medo, menino

Nós damos-te forças

És o anti-cristo

És Jesus

Como tu houve poucos na História

Não vieste para desempenhar

Tarefas menores

Rotineiras

Vieste para reinar

Reclama o trono

Não queriam o fim do mundo?

Aqui o tem,

Profeta do apocalipse

Poeta sem limites

Senhor das quintas e dos quintais

Vieste mesmo

Infernizar-lhes a vida

Julgavam-te um amigo do povo

Um esquerdista inofensivo

Mas tu odeias a gentalha

Odeias realmente a gentalha

E as suas conversas primárias e imbecis

No fundo, és um aristocrata

Um menino que teve necessidade

De criar mundos

Para combater o tédio

Serás sempre o menino

E por isso acreditam em ti

Mesmo quando fazes asneiras

Começas a assustá-los, sabes?

És mesmo um fora da lei

Não suportas os controleiros

E os polícias

Mesmo que aparentemente os respeites

És perigoso

Consegues ser fascista

Mostras o teu lado bom

Mas, no fundo, és terrível

Usas as pessoas

Encanta-las

Quando vens choramingar

Ouve, menino,

São os teus demónios que te falam

A tua escrita obedece-nos

És o grande maldito

Se quiseres

Aqui te juramos o nosso amor

Vitória ou loucura

Escolhe

Vê bem o que vieste fazer

Prepara-te

Vem aí a grande revolução.



Vilar do Pinheiro, 24.12.12

Wednesday, December 19, 2012

A LIBERTAÇÃO

Ouço as conversas. Tão pobres. Só falam de dinheiro e de posses. Definitivamente fogem ao essencial. À nossa libertação. À nossa libertação do jugo do grande mercado, da máquina, da castração. Eles- governos, poder financeiro, grandes media- querem impedir-nos de viver, querem castrar a nossa liberdade, a nossa individualidade. Esta é a verdade. Desde a infância que eles nos tentam fazer a cabeça. Querem reduzir-nos ao pensamento único, à felicidade da maioria, à ignorância. Querem que nos deixemos levar, que não os questionemos, que não os punhamos em causa. E se realmente não nos revoltarmos, não apenas uma mas várias vezes, as vezes que for necessário, seremos sempre enganados, seremos sempre escravos, por muito dinheiro e posses que tenhamos.

Friday, December 14, 2012

A MORTE EM VIDA


Às vezes questiono-me sobre o que é que determinadas pessoas vêm fazer à vida. Na infância ainda brincam mas depois começam a ser encaminhadas para o mercado. Na escola, de uma maneira geral, salvo umas asneiras, acabam por ser alinhadas com o sistema. Refugiam-se nos grupos, na moda, fazem parte da manada. E ainda que questionem tudo isso, esse questionamento é passageiro. Depois começam a entrar no mercado de trabalho, a integrar-se na máquina, hoje cada vez mais castradora, mais privadora de liberdades. A cabeça é feita pelos media, por aparelhos simplificadores, por programas e canções imbecis. O espírito crítico vai sendo destruído. A rebeldia ficou para trás, completamente minada. Casam-se ou não. Têm filhos. Transmitem aos filhos a sua ignorância ou até o desamor. Trabalham, produzem, consomem. Correm para casa para ligar o ecrã. Raramente são autênticos, raramente são vivos, raramente têm um gesto de grandeza, celebram apenas nas datas marcadas. Normalmente são mesquinhos, invejosos, intriguistas, merceeiros. Querem "subir na vida" e acumular dinheiro, passar por cima do parceiro se preciso for. Perdem o espírito crítico, nunca colocam as grandes questões. Estão sempre às ordens do chefe, do governo, do especulador. Fazem do futebol a religião. Coscuvilham sobre a vida alheia. Serão sempre homens e mulheres pequenos, como dizia Nietzsche, sem luz, sem nobreza, sem grandeza, sem liberdade, sem poesia, quase sem amor. Chegam a velhos e o que fizeram? Alguma vez celebraram verdadeiramente a vida? Alguma vez questionaram o sentido da vida? Alguma vez puseram a máquina em causa? O que fazem aqui? Porque vieram? Serão realmente humanos?

Friday, December 07, 2012

HOMEM LIVRE

Penso que hoje poderia passar dia e noite a escrever. Posso até gerar estrelas de tal forma me sinto grávido. Posso também ouvir os meus semelhantes que se queixam e estão mortos por chegar a casa. Chegar a casa. Chegar a casa, ligar a TV e olhar para as imagens, as imagens que vivem por nós em vez das imagens que podemos gerar, de tudo o que podemos gerar. Ó senhores, que “vida” levais? Sois escravos, todos vós. Ainda não percebestes que nada está acima da vida, da vida autêntica. Seres de luz vêm ter comigo e dizem-mo. Para alcançar a glória basto-me a mim mesmo. Para alcançar a glória basta-me estar aqui nesta confeitaria de Vilar do Pinheiro. Peregrinações virão a Vilar do Pinheiro. Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Estou louco. Não vedes? Absolutamente louco, absolutamente criança, absolutamente sem limites. O que fazer mais hoje? O que fazer mais aqui? Danço com o super-homem. Brindo, celebro. Estou louco, mãe. Porque me trouxeste para aqui? Parecia que vinha para a vida regrada mas não vim. Aos 17/18, aos 19, aos 20, tornei-me outro. Em Braga, nos bares, na Rádio Clube do Minho. Os Doors, os Joy Division, os UHF. A TV sempre a martelar. Mas eu era diferente, tornei-me diferente. Ah! Não me atirem dívidas, contas, economistas! Eu estou para lá. Eu nasci para lá. Reinos esplendorosos, reinos de luz. Sou tão louco, mãe. Eu inventava jogos, personagens. Eu criei mundos. Eu naveguei por mares jamais navegados. Eu brincava com as meninas. Tinha uma namorada, a Gina. Dava-lhe a mão, dava-lhe beijos. Já nem sei quem sou, mãe. Sei que não pertenço a este mundo. Poucos e poucas realmente me compreenderam. Velhos amigos, à noite, no bar. Onde irei dar? Estou realmente próximo de atingir o que quero. Mas que quero eu senão o mundo? O mundo de aquém e o de além.
Homem livre, és verdadeiramente tu. Homem livre, porque adormeces e agora regressas à vida? Homem livre, eles realmente acham-te estranho, diferente deles. Não és da mesma tribo, talvez até nem sejas da mesma espécie. Não lutas na mesma guerra. Não são teus os tambores que ouves. Homem livre, és daqui e não és. Tanto podes ser rei como podes acabar nas ruas. Continuarás o teu percurso pelos bares e pelas tascas. Este é o teu tempo. Olha, a mulher da confeitaria olhou para o “Socialismo Científico” de Marx, Engels e Lenine que acabaste de ler hoje. Há livros que ainda podem ser explosivos. Tu és explosivo, homem livre. Com ou sem óculos. Poderias realmente passar o dia e a noite a escrever. Voltaste a ser o único cliente da confeitaria. A mulher não pára de trabalhar. Tens publicado textos falhados ou semi-falhados. Este não é um deles.

Thursday, November 22, 2012

SEGUE A TUA ESTRELA

Os debates dos políticos e dos economistas incomodam-me. Só se fala de economia, não se discute o homem integral. O homem que quer crescer, que quer o paraíso na terra. O mundo está cheio de castradores, de forças que querem destruir a nossa individualidade, a nossa alma. Governos, especuladores, máquinas de propaganda. Todos eles nos querem roubar o amor, todos eles nos querem separar, isolar, impedir que dêmos as mãos. Entram nas mentes, nos corações das pessoas, tornam-nas falsas, dissimuladas, frias. E depois elas tratam-nos mal, enganam-nos, querem mandar em nós. O capitalismo e a sua máquina destroem as pessoas, tornam-nas competitivas, negociantes, merceeiras, manipuladoras. Convencem-nos também de que não há alternativa possível, que até é possível ser feliz debaixo das suas condições. Mas nós queremos realmente crescer no amor, na liberdade, na poesia. Queremos voltar ao xamã, ao grande espírito. Sabemos que é uma luta constante. Eles vêem-nos sós, deprimidos, desanimados e tentam apoderar-se de nós, mandar em nós. De forma a que aceitemos ser governados, submetidos, manipulados. Mas depois há uma estrela em nós, dentro de nós, uma estrela que nos diz que nós não somos como eles, que nós não viemos para servir nem para andarmos cabisbaixos. Não temos de andar atrás da selecção nacional, não temos de andar atrás da publicidade, não temos de seguir governo nenhum, não temos de andar atrás do grupo, nem da massa, nem da maioria. Não temos de ser direitinhos, alinhadinhos. Somos pensamento, somos vida. No papel expressamos o que somos. Somos também a música que nos eleva. "The End" dos Doors ou "Love Will Tear Us Apart" dos Joy Division. Estamos aqui para nos questionarmos. Estamos aqui para dizer que não aceitamos a vossa "felicidade", essa que nos vendeis todos os dias, mesmo que venha acompanhada das imagens das mulheres mais belas, mesmo que, por vezes, quase nos deixemos levar por ela. Não, a felicidade não é isso. A felicidade é poder dialogar com Jesus, Sócrates e Nietzsche, a felicidade é conversar, discutir com os amigos e as amigas, a felicidade é celebrar a noite e o dia, subir ao palco, dizer a palavra, a felicidade é amar livremente, sem castrações nem máquinas de propaganda, a felicidade é aumentar a alma e a vida, é tomar parte do banquete permanente. Vivamos o banquete, derrubemos a máquina. Aí seremos plenos, criadores, super-homens. As nossas potencialidades serão infinitas. Vive o homem livre, o homem nobre, companheiro, companheira. Apaga a televisão. Não te deixes mais levar pela conversa. Não te deixes tornar naquele que eles querem que sejas. Torna-te naquele que és. Naquele que se descobre, naquele que se encontra. Sê verdadeiramente revolucionário. Segue a tua estrela.

Friday, November 09, 2012

DA VIDA

Edição 82, 9 Novembro 2012 DA VIDA Não se tem de andar constantemente de pistola na mão a apelar à revolta e à revolução. Contudo, penso que, nos tempos que correm (e em todos os tempos...), não faz sentido que o poeta, o escritor e o intelectual não se pronunciem de forma crítica sobre a sociedade em que vivem. Temos de denunciar que a vida assim não é vida. Que há forças que se escondem por detrás das medidas fascizantes dos governantes. Que há essa entidade a que chamam os mercados, a quem todos obedecem. Que há os "credores", os especuladores, a bolsa, os banqueiros, os economistas, os grandes empresários, essa gente altamente recomendável. É preciso dizer que todos eles nos chulam, nos roubam, nos vão dando cabo da vida. E a vida é o que realmente interessa, como dizia Henry Miller. A vida é respirar, é estar vivo, é estar aqui mas é também gozar o instante, construir o presente, amar o próximo e o longínquo, mexer os dedos e a caneta, andar à solta sem imposições, sem castrações, sem culpas. A vida é certamente a liberdade livre de Sade e dos surrealistas, não o trabalho, não o sacrifício, não o que nos obrigam a fazer. A vida é certamente acordar contigo, ouvir as fontes e os pássaros, dançar em redor da fogueira, como cantava Morrison. A vida é certamente tirar todos esses imbecis do poder, caciques locais de Câmara e de Junta incluídos. A vida é ajudar esta gente a sair da cegueira, como fazia Sócrates, como fazia Shakespeare. Café São Cristóvão, Braga, 2.11.2012 --- EU ACUSO! Todo o percurso que fiz até aqui. O rapaz que era. A timidez. A dificuldade de me relaciionar com as raparigas. Os versos que então escrevia. Já então pensava muito. Depois veio a noite, os copos, os concertos. Descobria a liberdade no Tuaregue, no Deslize, em Braga, na Rua Nova de Santa Cruz. Tornei-me então outro, aquele que sobressaía, que provocava, que dançava. Mas as grandes depressões travaram a minha caminhada. Fiquei inerte, insoluvelmente melancólico, incomunicável. Passavam-se os meses dolorosamente e, aos poucos, readquiria a vida. Fui para o palco, cantei, recitei, fiz a festa. Agora estou aqui, aos 44 anos, mais sábio, mais virtuoso, mas ainda desejoso de passar para o outro lado. Ainda morrisoniano, nietzscheano, consciente de que a vida não se resume a uma fórmula única e irreversível. Consciente de que os medíocres que nos governam e querem controlar não passam de uns imbecis sem alma nem coração, sem inteligência. Consciente de que posso chegar ao palco e dizê-lo. Consciente de que nada há a perder, de que fiz o meu percurso e de que não devo nada a ninguém. Posso estar aqui sozinho na confeitaria com os meus livros mas acuso esses medíocres do poder de destruírem a vida, de matarem de fome, tédio e depressão, de darem cabo de tudo quanto é arte, belo, exuberância, de assassinarem a juventude e a infância, de amputarem a liberdade e o amor. Acuso-os de não fazerem parte da humanidade, nem da vida. --- A NOVA ERA A verdadeira vida é poética. Rimbaud disse que no mundo da prosa, "a verdadeira vida está ausente". O estado prosaico é utilitário e funcional e inclui, nas palavras de Edgar Morin, o sobreviver, o ganhar a vida, "o trabalho opressor, monótono, parcela, na ausência ou no recalcamento da afectividade". É o mundo da economia, do acumular dinheiro, da exploração, dos mercados, do tédio. Em contrapartida, a poesia é celebração, comunhão, embriaguez, dança, canto, música, transe, êxtase, maravilhamento com o belo e, claro, amor. A revolução só pode estar do lado da poesia, do amor, da liberdade, como diziam os surrealistas. É aí que o homem renascido se realiza. Não no sacrifício, não na culpa, não no pecado. Não numa "vida" sem novidade, sem curiosidade, sem descoberta. Não faz sentido vir ao mundo para sofrer, para ser humilhado, para andar deprimido, para pensar constantemente no suicídio. Abracemos a dádiva da vida, construamos um mundo de amor e poesia. Não nos deixemos derrotar pelos cinzentos, pelos pregadores da morte, pelos destruidores da vida. Não trabalhemos mais para eles. Celebremos Dionisos e o homem livre. Quem disse que era impossível? Unamo-nos. Ocupemos as praças. Nós não somos como eles. Nós não viemos explorar ninguém. Não viemos enganar ninguém. O mundo é nosso. Eles não podem roubá-lo mais. Eles não podem destrui-lo mais. Este é o início de uma nova era. Este é o renascimento do homem. Este é o banquete permanente. O homem veio para se ultrapassar, não para andar atrás de migalhas, não para ser escravo de outros homens ou da máquina. O homem veio para se transcender, para abrir novas vias, novos reinos. Todos nós podemos ser deuses. Amamos profundamente a vida. Queremos gozá-la sem entraves. Eles não podem impedir-nos. Eles não podem roubar-nos a poesia. Eles não podem roubar-nos a infância. www.jornalfraternizar.pt.vu

A VERDADEIRA VIDA

Não me convence o Lobo Antunes. Demasiado descritivo. Entretanto, prossigo os meus dias em Braga entre a Sandra e a Goreti. Não consigo dormir. As ideias vêm-me, vêm-se. Volto a ter excelentes motivos para me levantar da cama. O amor acena. O "Um Poeta a Mijar" seria um excelente livro não fossem três ou quatro poemas que precisavam de ser revistos. Talvez o "Queimai o Dinheiro" seja o mais autênt...ico, à semelhança do "Café Paraíso". Enfim, não sei, já vou para o 11º livro. Ainda não criei "a obra" mas hei-de lá chegar. Sinto-me um filósofo ou, pelo menos, um aprendiz. Não acho estupidez nenhuma recorrer ao àlcool ou às drogas. Sobretudo se eles nos ajudam a alcançar um certo paraíso num mundo que os mercadores e os merceeiros têm destruído. Sou, portanto, a favor da legalização das drogas. Já o sou desde os tempos do PSR. Tenho um percurso político de mais de 20 anos. Já poderia ter sido eleito deputado. Mas, enfim, há-de chegar a hora. Ao menos eu vivo aquilo que escrevo. Não estou com grandes floreados. É a minha vida que está nas prosas, nos poemas. Aos quatro anos deixei a infantil ou a pré-primária porque pensava que sabia tudo o que lá se dava. Agora não sei tudo. Desconheço muitos pensadores e artistas. Contudo, cheguei a um ponto em que sou capaz de fazer uma síntese. Cheguei a um ponto em que estou convicto de que a vida não vale a pena se não for vivida, se não for gozada, se não for celebrada. Um homem que passe a vida a fazer contas ou cheio de medo ou cheio de tédio não vive, sobrevive. E muita gente, a maioria clara da população portuguesa limita-se a sobreviver, a tratar da vidinha ou nem isso. Portanto, é claro para mim que o culto da economia e do safanço, aliados à austeridade e aos cortes na saúde, na educação e na segurança social traduzem a não-vida que reina na mente dos imbecis que nos governam e nos querem controlar. Tudo isto acrescido da "overdose" de telenovelas e de futebóis, de imbecilidades como a "Casa dos Segredos" contribui para que sejamos cada vez mais espectadores passivos de um espectáculo que não controlamos. Felizmente, nos últimos tempos, sobretudo no 15 de Setembro, tem subido o número daqueles que protestam contra o governo mas também contra o roubo da verdadeira vida. Isso pode ainda não estar totalmente claro mas há sinais visíveis nos cartazes, nos confrontos com a polícia, nas palavras de ordem, de uma reivindicação não apenas económica mas também vital. "Queremos o mundo e exigimo-lo agora!", volto a Jim Morrison. Queremos de volta a vida que nos tiraram ou nos estão a tirar, queremos aquilo por que viemos à terra, queremos a idade do ouro, o paraíso perdido. Queremos dançar e celebrar sem estar a fazer contas, sem contabilistas.

Thursday, November 08, 2012

VELHOS AMIGOS, ONDE ESTAIS?

"Velhos amigos, onde estais?", canta António Manuel Ribeiro dos UHF. A vida separa-nos. Seguimos um percurso comum. Celebrámos junto a existência com vinho, amizade, cumplicidade. E depois, sem saber porquê, pelas razões mais diversas, desencontramo-nos. Às vezes estupidamente. Às vezes reencontramo-nos passado 10, 20 anos e é a festa. Prometemos novos encontros, telefonemas, mas eles não vêm, não vêm mais. Alexandre, Paula, Zé Né. Onde estais? Esta vida dura, apressada separa-nos.

Thursday, October 25, 2012

A VIA DA ILUMINAÇÃO

O levantar-me, o sair da cama, o enfrentar o dia. A angústia da existência, a máquina que nos sufoca mas também o prazer da leitura, de adquirir conhecimento, de me enriquecer. Estou só na confeitaria e escrevo. Estou a criar. Há muito que não tenho outro trabalho para além deste de escrever. A remuneração pode ser escassa mas eu continuo. Isto, o amor e a liberdade dão senti...do à minha existência. Não o trabalho imposto, não o capitalismo, não o dinheiro. Mas o ir-me transformando noutro, mais sábio, mais virtuoso, mais bom. Bebo dos mestres, não me contento com futebóis. E mesmo que permaneça aqui sozinho sei que estou a seguir o caminho certo. Posso não ganhar prémios mas sigo o caminho certo, a via da iluminação e do conhecimento.

Sunday, October 21, 2012

A NOVA ERA

A verdadeira vida é poética. Rimbaud disse que no mundo da prosa, "a verdadeira vida está ausente". O estado prosaico é utilitário e funcional e inclui, nas palavras de Edgar Morin, o sobreviver, o ganhar a vida, "o trabalho opressor, monótono, parcela, na ausência ou no recalcamento da afectividade". É o mundo da economia, do acumular dinheiro, da exploração, dos mercados, do tédio. Em contrapart... ida, a poesia é celebração, comunhão, embriaguez, dança, canto, música, transe, êxtase, maravilhamento com o belo e, claro, amor. A revolução só pode estar do lado da poesia, do amor, da liberdade, como diziam os surrealistas. É aí que o homem renascido se realiza. Não no sacrifício, não na culpa, não no pecado. Não numa "vida" sem novidade, sem curiosidade, sem descoberta. Não faz sentido vir ao mundo para sofrer, para ser humilhado, para andar deprimido, para pensar constantemente no suicídio. Abracemos a dádiva da vida, construamos um mundo de amor e poesia. Não nos deixemos derrotar pelos cinzentos, pelos pregadores da morte, pelos destruidores da vida. Não trabalhemos mais para eles. Celebremos Dionisos e o homem livre. Quem disse que era impossível? Unamo-nos. Ocupemos as praças. Nós não somos como eles. Nós não viemos explorar ninguém. Não viemos enganar ninguém. O mundo é nosso. Eles não podem roubá-lo mais. Eles não podem destrui-lo mais. Este é o início de uma nova era. Este é o renascimento do homem. Este é o banquete permanente. O homem veio para se ultrapassar, não para andar atrás de migalhas, não para ser escravo de outros homens ou da máquina. O homem veio para se transcender, para abrir novas vias, novos reinos. Todos nós podemos ser deuses. Amamos profundamente a vida. Queremos gozá-la sem entraves. Eles não podem impedir-nos. Eles não podem roubar-nos a poesia. Eles não podem roubar-nos a infância.

Friday, October 12, 2012

ESTADO DE GRAÇA

Há três dias consecutivos que estou em estado de farra e rock n' roll. Foi o cacau que veio do jornal, foi a festa do Manuel do "Guarda-Sol", foi o "meddley" a matar no "púcaros" com o "Poema de Amor Inocente Em Jeito de Manifesto Autárquico para a Cidade do Porto" e a "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro", foram também as palavras provocatórias introdutórias no "Art 7" de São João da Madeira do Angel e do Vitó. Depois houve aquela cena absolutamente "non-sense" nos Aliados, o gajo da câmara de filmar, o gajo do microfone a perguntar se eu era um homem que acreditava na sinceridade e depois a ficar 10 minutos calado e eu sem saber o que dizer. Uma cena absolutamente surrealista. Depois pediu-me para encostar o ouvido dele à minha barriga de cerveja. Eu deixei. As perguntas provocatórias sobre a homossexualidade, o abraço. Enfim, o gajo disse que o trabalho era só para ele. Vamos ver. Regressamos ao ecrã. A verdade é que me sinto novamente em estado de graça, próximo dos deuses e do espíritos. Capaz de teorizar sobre a situação de palco. As bocas que tu mandas, as provocações, o gozo com a campanha política permanente têm resultado. Não é chegar ali e "vomitar" os poemas. Há que fazer um enquadramento quando nos sentimos à vontade para isso. É esta a nossa profissão, o nosso trabalhinho.

A BARBÁRIE

Edição 81, 12 Outubro 2012 A BARBÁRIE Em 1845, em “A Essência do Dinheiro”, Moses Hess afirma que o capitalismo traduz a dominação exercida pelo deus-dinheiro sobre os homens, constituindo um sistema que coloca à venda a liberdade humana. O dinheiro é a essência e traz um mundo pior do que o da escravatura antiga porque “não é natural nem humano que alguém se venda a si próprio voluntariamente”. A tarefa do comunismo é, assim, abolir o dinheiro. Para Gustav Landauer essa tarefa não é aperfeiçoar o sistema industrial-capitalista mas ajudar os homens a redescobrirem a cultura, o espírito, a liberdade, a comunidade. Para outros, o capitalismo é traficar a alma, o espírito, o pensamento. Para Marx, exige-se “a revolta contra um mundo que transformou cada coisa numa mercadoria e degradou o homem, reduzindo-o ao estatuto de objecto”. Sim, temos o direito de exigir o homem integral. O poder do dinheiro pode destruir todas as qualidades humanas e naturais, reduzindo-as ao quantitativo. A troca de afectos é substituída pela troca do dinheiro por uma mercadoria. Não existe nada de mais abjecto do que o capitalismo e os seus mercadores e economistas. Reduzem tudo ao cálculo, ao deve e haver, ao orçamento. Cortam na vida das pessoas como se tratassem com objectos. A sensibilidade é substituída pela posse. Como dizem Michael Lowy e Robert Sayre em “Revolta e Melancolia”, “o ser, a livre expressão da riqueza da vida por actividades sociais e culturais, é cada vez mais sacrificado ao ter, à acumulação do dinheiro, das mercadorias e do capital”. O homem está fortemente condicionado na sua capacidade criativa pelas drogas que nos atiram todos os dias via media e por um mercado implacável. Segundo Lukács, “tudo deixou de ser avaliado por si próprio, pelo seu valor intrínseco- artístico ou ético- e apenas tem valor enquanto mercadoria vendível ou comprável no mercado”. É a barbárie, a selvajaria. Nem sabemos como ainda pode haver algum amor, algum diálogo, alguma filosofia. Eles estão a destruir o que de mais genuíno há no homem, esses merceeiros, esses moedeiros. Isto não é apenas a crise económica, isto não é apenas o irem-nos aos bolsos, isto é irem-nos à alma, destruírem os verdadeiros progressos da humanidade. Isto é destruir a vida. Não podemos mais aceitá-lo. Somos homens e mulheres. Não somos objectos, não somos notas e moedas. --- ESTAR AQUI Vir ao mundo, receber a graça de vir ao mundo. Depois brincar, ser livre. Ir à escola, aprender mas também ser moldado pela máquina, pelo mercado. Começar a questionar as coisas, guardá-las para si ou debatê-las com os melhores amigos. Fazer o liceu, ir para a Faculdade. Sair à noite, celebrar a noite, experimentar a liberdade. Mas depois voltar à máquina, ao mercado, à competição. Ler uns livros que contrariam isso. Depois vem novamente o ganhar a vida, o safar-se, o lutar pela existência, o passar por cima dos outros. Questionar tudo isso novamente, estar aqui no café com os livros, experimentar a liberdade. Saber que há uma via que está para lá da escravidão, do ser mais um, saber que essa via pode ser dolorosa mas saber que ela existe. Estar aqui, saber que não se está aqui por acaso, que temos um propósito, uma missão. Saber que isto está muito para lá do pão nosso de cada dia. Saber que isto não é o trabalho absurdo. Procurar o amor e o conhecimento. Ser o homem íntegro, integral. Não se deixar levar pela grande depressão. Estudar, ler os grandes, filosofar. Estar aqui, estar vivo, sem culpas nem pecados. Estar aqui soberano, sem patrões. --- A LUTA COMUM Grécia, Portugal, Espanha. A mesma luta. Contra os governos ultra-liberais, contra a austeridade, contra a troika. Mas também o combate contra a democracia burguesa, contra o sistema político, contra o capitalismo dos mercados. Milhões nas ruas a dizer sim à vida, contra os banqueiros e os especuladores da morte. Milhões a dizer basta. Milhões a dizer que isto não serve, que isto não presta. Que se esgotaram todas as negociações, todas as concertações sociais. Que exigimos o mundo e exigimo-lo agora, como cantava Jim Morrison. Que não é mais possível suportar o roubo, a vigarice, a mentira. Que somos cidadãos, homens livres, e não escravos ou macacos. Que temos de fazê-los cair de uma vez por todas. www.jornalfraternizar.pt.vu

Saturday, October 06, 2012

É A HORA

A pequena burguesia, o proletariado. Diz-se que é a pequena burguesia que essencialmente tem estado nas manifestações. Mas não estará a pequena burguesia a proletarizar-se? Será este proletariado pequeno-burguês o papel messiânico que Marx reservava ao proletariado? Estaremos, de facto, prontos a derrubar a burguesia, a fazer a revolução? Não teremos de derrubar o aparelho repressivo do...Estado- polícia, exército- ou de trazê-lo para o nosso lado? O que é facto é que há uma subida brutal dos impostos, um empobrecimento real da pequena burguesia e não apenas do operariado. O desemprego galopa. Os casos de depressão e suicídio avançam. Quer nos agarremos ou não ao marxismo vivemos numa situação desesperada. Temos de fazer tudo, greves gerais, grandes manifestações para derrubar o governo, para derrubar o capitalismo. É a hora.

Friday, September 28, 2012

SOLIDÃO E DEPRESSÃO

Apesar da internet, da televisão, dos telemóveis, as pessoas estão cada vez mais sós. Portugal é o segundo país da UE no consumo de antidepressivos. A solidão traz consigo a depressão e outras doenças mentais, para além de provocar o suicídio. Tudo isto tem lugar num mundo de pressas, sem amor, sem alma, onde reina o salve-se sem puder, o capitalismo, a rapina. Onde reina a competição, a competivi...dade, o passar por cima dos outros, o roubo de direitos e dos parcos rendimentos, a mercearia. Não podemos aceitar que eles nos ponham doentes, que eles nos roubem a alegria da vida, o milagre da vida. Unamo-nos. Prossigamos a revolta. Assim deixaremos de nos sentir sós. Não deixemos que eles nos matem de fome, de tédio ou de depressão.

Wednesday, September 19, 2012

A REVOLTA

Arquivo: Edição de 18-12-2008 SECÇÃO: Opinião António Pedro Ribeiro A REVOLUÇÃO GREGA Talvez da Grécia venha algo de novo. Talvez da Grécia venha a revolução. O assassinato de um rapaz de 15 anos pela polícia reacendeu tochas que pareciam apagadas. A tocha do anti-autoritarismo, a tocha do anti-capitalismo, traduzida na fúria contra os bancos e as bolsas, os verdadeiros culpados da crise capitalista. Em Atenas queimam-se automóveis, lojas, bancos, e põem-se a nu os podres dos "gestores" que acumulam cargos e rapinas nas empresas e bancos da crise. A revolta grega, despoletada por grupos anarquistas, é o grito daqueles que dizem basta a um mundo que promove a morte das relações humanas livres e autênticas, a morte dos sentimentos, a morte das pulsões vitais, a morte da fraternidade, a morte da criatividade, a morte do Homem. A revolta grega é o grito pela vida, o grito dos que se fartaram de esperar, o grito dos que pouco ou nada têm a perder. We Want the World and We Want it...Now! Tal como em 68 não são os jovens dos subúrbios nem os operários que começam por se revoltar mas sim os filhos da burguesia, os estudantes. We Want the World and We Want it...Now! Queremos o mundo mas queremo-lo agora! Agora, tem que ser agora. Não há tempo a perder. É a vida que nos empurra. Não há dúvidas nem hesitações. A frase de Jim Morrison volta a soar, a bater, insistente, perfurante, dilacerante. We Want the World and We Want it...Now! Todas as missas chegaram ao fim, todas as máscaras se desmascaram, todas as infâncias vêm dar aqui, todas as convicções são postas à prova, uma nova era começa aqui. Este é o princípio do fim do capitalismo.

Monday, September 10, 2012

SABEDORIA, JUSTIÇA E AMOR UNIVERSAL

Para Bertrand Russell, Buda, Jesus, Galileu e Pitágoras foram os homens mais poderosos de sempre. Nenhum deles procurou o tipo de poder que escraviza outros mas o tipo de poder que liberta. “Não é, em última análise, através da violência que os homens são dominados, mas através da sabedoria daqueles que apelam aos desejos comuns da humanidade, à felicidade, à paz interior e exterior e ao entendimento do mundo em que, sem ser por escolha própria, temos de viver”, afirma Russell. A sabedoria, a justiça e o amor universal são valores que se sobrepõem ao sucesso pessoal. Esses valores seguidos por sábios e profetas, a que acrescentamos Sócrates, Platão e Nietzsche, enriquecem o homem, tornam-no melhor, mais puro. Afastam-no da ideologia da competição, do salve-se quem puder, do passar por cima dos outros, do capitalismo. Fazem-no regressar a si mesmo, àquele que era quando nasceu, desperto para a descoberta, para a eterna novidade do mundo. Ainda segundo Russell, devemos ensinar as nossas crianças a evitar serem “destruídas por fanáticos cruéis” e pelos especuladores e capitalistas, acrescentamos nós, “devemos procurar produzir uma independência de espírito algo céptica (…) e preservar tanto quanto possível a alegria instintiva de viver”. Devemos incentivar a criatividade individual, o amor, a liberdade. Devemos ajudar a construir um homem novo.

Friday, September 07, 2012

A REVOLUÇÃO

As jornalistas da televisão já falam na revolução. A revolução deixou de ser tema tabu para se tornar uma possibilidade real. E, de facto, mesmo em Portugal a passividade pode explodir em desespero e revolta. O desemprego, a precariedade, a pobreza, o risco real das classes médias caírem na pobreza mas também o não sentido da vida actual dominada pelos banqueiros e pelos mercados podem conduzir a ...uma situação explosiva. Há quem comece a questionar o “nascer, trabalhar, morrer”, a via do sacrifício permanente, sem gozo, sem alegria, sem liberdade. Há apenas uns fogachos, uns momentos em que nos permitem ser autênticos e livres, umas migalhas que nos concedem. Que venha a revolução e que venha depressa.

Wednesday, September 05, 2012

O SAFANÇO

As pessoas passam a vida a safar-se nesta barbárie civilizada, nesta barbárie pseudo-democrática. Safar-se na escola, nas notas, safar-se na pertença a um grupo. Depois tentam parecer-se ou tornar-se iguais aos outros, safar-se no emprego, na carreira, agradar ao chefe, tornar-se chefe. Raramente são autênticas, raramente vemos pessoas autênticas, andam sempre stressadas com alguma coisa. O medo, os fantasmas, o relógio. Que raio de vida é essa?

Saturday, September 01, 2012

A CAMINHO DA PERFEIÇÃO

“No coração, apenas tenho o desejo de me tornar cada vez mais perfeito e, para isso, julgo não poder encontrar ajuda mais eficaz do que a tua”, diz Alcibíades a Sócrates em “O Banquete” de Platão. Quais riquezas, quais poderes, apenas o desejo de se tornar cada vez mais perfeito sob os ensinamentos de Sócrates. Apenas a procura da sabedoria, da virtude, da iluminação com despojamento. Assim se constroem os grandes homens, assim se engrandece o mundo. Dialogando, filosofando, escutando os mestres. Nada de mesquinhez, de pequenez, de falsidade. Homens e mulheres íntegros, livres, a discutir o novo mundo. Nada mais belo, nada mais puro. Homens e mulheres criando, buscando a perfeição.

Friday, August 24, 2012

O CAMPO DA VIDA

As horas passam e eu aqui no Piolho, cheio de poesia. A minha escrita sofreu uma viragem. Escrevo, agora, de uma forma profética que vem não sei de onde. Estou, de novo, na estrada do excesso. Por isso penso que a vida só faz sentido assim vivida. Por isso estou certo que temos de agarrar a vida e afastarmo-nos daqueles que pregam a morte e a finança. É, de facto, um combate entre a vida e a morte aquele que travamos. Não digo que não haja pessoas enganadas nas fileiras da finança, não digo que não haja gente bem-intencionada. Todavia, parece-me hoje evidente que há aqueles que vivem a vida pela vida e há outros que, graças às suas imposições económicas, políticas, religiosas nos querem impedir de gozar a vida. Aliás, acabam por ser tão pequenos, tão mesquinhos, apesar de poderosos. Querem controlar o nosso cérebro, a nossa intimidade, as nossas pulsões vitais. A questão é que o vizinho do lado muitas vezes se deixa levar pelo paleio dos mercadores, acabando por se tornar, também ele, um inimigo da vida. Daí a inveja, a intriga, a coscuvilhice de todos os dias. Certamente que discutir futebol 24 horas por dia, sete dias por semana, também contribui para a imbecilização e para a morte do homem, tal como as correrias e os atropelos nas promoções do “Pingo Doce”. O nosso homem é o mesmo de Sócrates e Platão. O nosso homem é o cidadão livre, esclarecido, que discute política, literatura, filosofia na praça pública. O nosso homem é aquele que decide por si mesmo sem medos, nem patrões, nem papões. O nosso homem é aquele que, como Jim Morrison, põe à prova os limites da realidade. Este homem existe. Não é nenhum extraterrestre, não é sequer uma utopia. Esse homem existiu em Barcelona nos anos 30 do século passado, esse homem existiu em muitas revoluções. Claro que é um homem insatisfeito, exigente, dono de si mesmo. Cabe-nos a nós defender esse homem contra a máquina tecno-económica e propagandística. Cabe-nos a nós salvar o homem e o mundo. Bem sei que este não é o discurso economicista dos partidos de esquerda, bem sei que me podem chamar sonhador como chamaram a John Lennon quando ele cantava “Imagine”. Mas eu estou convicto do que digo. Ou nós ou eles. Ou escolhes o campo da vida ou escolhes o campo da morte.

Thursday, August 23, 2012

REI DOS REIS

REI DOS REIS Rei dos reis, Onde estás? Fugiste para a montanha Ficaste na cruz Perdeste a batalha? Rei dos reis, Chamo por ti ...No meio da arena Será isto apenas o poema Ou tudo o resto Grito de um ébrio Excalibur, Minha amada? Rei dos reis, Quando voltas? Aqui te espero Bebo da taça O homem está confuso Não sabe o que quer Roma arde Rei dos reis, Porque não voltas?

Sunday, August 19, 2012

FRANCISCO LOUÇÃ

Francisco Louçã vai abandonar a liderança do Bloco de Esquerda. Apesar das divergências actuais e passadas, queria dizer ,na qualidade de ex-camarada, que Louçã é um homem muito inteligente, culto, dado e uma excelente pessoa. O principal defeito que lhe aponto é a de ser algo sectário, de não saber lidar muito bem com correntes alternativas a nível interno. Os anos de ouro de Louçã no PSR e no Bloco já eram. Nas últimas legislativas, o Bloco perdeu metade do eleitorado. A figura de Louçã não colhe a simpatia que já colheu entre a população. Contudo, duvido que João Semedo e Catarina Martins, apesar de serem bons deputados, consigam atingir a popularidade (mesmo em queda...) e a visibilidade de Francisco Louçã. O Bloco de Esquerda só se aguentará se convergir com outras forças de esquerda como o PCP, o PCTP/MRPP ou o MAS.

Wednesday, August 15, 2012

DA REVOLUÇÃO E DA VIDA

Hei-de trabalhar sempre na escrita. Aperfeiçoar-me, ser capaz de dar à luz. Vim para isto, para puxar pela cabeça. Não para as actividades domésticas. É isto, o papel, a mão, a caneta. Enfim, há-de vir a glória nem que seja depois da morte. Uns permanecem na vida, mesmo não vivendo, outros vão partindo. A vida vai-se desenrolando, dia após dia. Houve dias, noites de descoberta, outros vazios, deprimentes, mas o que é facto é que estamos aqui, que não nos limitamos a olhar os carros que passam lá fora, as pessoas que vão e vêm da praia, os que falam muito e os que falam nada, a alma que existe, pelo menos em alguns. Para ser um grande escritor preciso de escrever estórias mas eu limito-me a estes apontamentos. Deixei a engrenagem dos horários e do sacrifício. O primeiro-ministro que trabalhe! Trabalho, sim, já o disse, na construção do texto, na construção do poema. Preciso desesperadamente de uma mulher que financie a revolução. Entretanto vou questionando a vida. A vida diz-me que vale a pena continuar, apesar de tudo. Apesar de ter de aturar burgueses e mercadores. Eu tenho um percurso. Vim observar os outros mas também vim destruir e construir. Onde estás, mulher que me beijaste e me deste a morada? Talvez sejas a tal, a minha namorada. O que é facto é que a maior parte do tempo permaneço só. Talvez a minha profissão assim o exija. Vou deixando livros e performances pelo mundo. Quem quiser que os agarre. Porque te mataste, Rui Costa? Acreditavas em algo de poderoso e deixaste de acreditar. No fundo, eras outro solitário, com uma vida errante. Não podemos desligar o problema da revolução do problema da vida. Não nos podemos limitar a debitar uns “slogans” marxistas ou anarquistas. Temos de questionar a vida. A vida pertence-nos ou deveria pertencer-nos. A verdadeira questão é o quanto nos roubam da vida se seguirmos a via normal, se formos à escola, se nos obrigarem a competir pelas notas ou, se mais tarde, nos obrigarem a competir pelo pão, pelo lugar, pelo estatuto, pelo poder, pelo dinheiro. A revolução é precisamente a ultrapassagem da vida, o viver sem obrigações ou com o mínimo de obrigações possível mas também a superação do eu, a aventura do eu, a superação do homem no sentido de chegar a um estado de criação, a uma gravidez onde ele próprio é obra sua. Daí que me aproxime mais do super-homem de Nietzsche, mesmo sendo anarquista individualista. Estamos, portanto, aqui para aumentar a vida, como dizia Henry Miller. E, de facto o discurso económico é muito redutor. Nunca entenderá e combate a superação do homem, a alma, a própria vida. Claro que o desemprego aumenta, que o PIB baixa, que a maioria das pessoas têm cada vez menos dinheiro mas isso não é mais do que vida roubada. E depois quem é que mede a felicidade, o amor, a liberdade? Quem tem o direito de dispor das nossas vidas? Quem nos causa as depressões, os suicídios, as esquizofrenias? Quem tem o direito de nos fazer infelizes? Porque raio os elegemos? Porque raio lhes obedecemos? Só aqueles que se ultrapassam, só aqueles que questionam a vida, só aqueles que amam incondicionalmente, só os espíritos livres são verdadeiramente revolucionários. Não os que se limitam a exigir aumentos ou direitos, não os que seguem a via da economia. O homem é muito mais do que cálculo, o homem é hybris, festa, amor, amizade, poesia. Não se pode contentar com a vida menor que leva. Não se pode contentar com o trabalho, com a televisão, com a família. O homem não é negócio, não está à venda. O homem é Quixote, Hamlet, Zaratustra. O homem é aquele que cria, que brinca, que corre livre como as crianças. O homem é a criança sábia. Não deixemos mais que os inimigos do homem e da vida o destruam. Porque eles- governantes, comentadores, banqueiros, especuladores- são os inimigos do homem e da vida. Porque nos atiram com eles aos cornos todos os dias. Sigamos, pois, o caminho da revolução e da liberdade. Construamos, pois, o super-homem.

Monday, August 06, 2012

LUIZ PACHECO

"Evocar Luiz Pacheco é dizer não à vidinha deprimente de todos os dias que faz vencidos, vendidos e convertidos ao império do tédio, do dinheiro, do consumo e do mercado. Evocar Luiz Pacheco é denunciar as capelinhas e as honrarias literárias. É celebrar a liberdade, o espírito livre, que se coloca à margem, que caga nos políticos postiços, nos moralistas de esquerda e de direita. É dizer que é possível dizer não à norma e às convenções, à merda instituída através da via libertina e libertária de Sade ou de Henry Miller. É acreditar que a provocação e a subverção constantes revelam o homem autêntico, generoso, puro. É celebrar o grande escritor, a literatura que se confunde com a vida. É dizer que a vida não é a vidinha, que há espaço dentro do homem onde a liberdade é livre."

BÁRBAROS

Se por um lado apelo ao amor e à poesia, por outro, constato a ignorância, a mesquinhez, a pequenez de muitos dos meus semelhantes. Contentam-se com programas televisivos imbecis, com telenovelas, com futebóis, com revistas cor-de-rosa. Não há qualquer elevação. É a vida trabalho-casa. Não podemos contar com eles para a revolução. Acabam por votar sempre no PSD ou no PS. Nascem, vão à escola, começam a trabalhar, casam-se, fecham-se na família, morrem. O que trazem de novo ao mundo? Nada, absolutamente nada. Alguma vez questionaram o poder? Alguma vez participaram numa manifestação? Alguma vez filosofaram sobre a polis e sobre a vida? Que homens e mulheres são estes? Vieram “ganhar a vida”. Nada mais. Safam-se. Sabem lidar com o dinheiro. Nada mais. Nenhuma alma. Nenhum sonho. Nenhuma poesia. Só o útil, o utilitário. Só a rotina. Que vida é esta? Que gozo, que alegria? Não, não contamos com eles. Nem sequer querem ser livres. Não lêem um livro, não vão ao teatro, não pensam por si próprios. Não têm imaginação. Não vivem.

Sunday, August 05, 2012

NADA ACIMA DE NÓS

Como diz Edgar Morin, “estamos enraizados no nosso universo e na nossa vida, mas desenvolvemo-nos para além”. Somos construtores de deuses, do deus único, de mitos, de ideias. Queremos a embriaguez e a desmesura. Por isso, não nos podemos reduzir a meros consumidores de objectos ou de imagens, a meros trabalhadores cumpridores de horários, a meros trocadores de notas e moedas. Bertrand Russell afirma que “a perda do gosto de viver na nossa sociedade civilizada é, em grande parte, devida a restrições da liberdade que são essenciais à nossa concepção de vida”. Eles, especuladores, banqueiros, governantes, grandes empresários roubam-nos a liberdade e a vida. Por isso, se torna necessária a revolução, quer a de mentalidades, quer a política. Para fazermos a revolução de mentalidades precisamos de viver como o poeta trágico de Nietzsche “a existência apaixonada, mutável, perigosa, sombria e muitas vezes cheia de sol. A aventura de viver”. É esta aventura de viver, a aventura do eu, que nos torna deuses, crianças, quando “o mundo é cheio de surpresas”, segundo Bertrand Russell. Ainda de acordo com Russell, o segredo da felicidade é o seguinte: “deixai que os vossos interesses sejam tão amplos quanto possível e deixai que as vossas reacções em relação às coisas e às pessoas que vos interessam sejam tão amistosas e tão pouco hostis quanto possam ser”. A revolução não pode estar desligada da busca da felicidade, nem da do amor, nem da da liberdade. Não pode ser conseguida através de uma sociedade capitalista ou de uma ditadura supostamente comunista. A revolução pode ser atingida pela tomada de consciência por parte de uma grande minoria, que chega à conclusão de que a vida assim não é vida, de que basta de “lutar pela vida” ou pelo sucesso, de que não somos primatas nem meros gritadores de golos. De que não estamos numa competição ou numa corrida. De que temos o direito de admirar o sol, a lua, as estrelas. De que viemos com dois propósitos- o de nos amarmos e o de desenvolvermos ao máximo as nossas potencialidades aqui na Terra. De que somos seres únicos, de luz. De que já fomos capazes do pior mas também do melhor. De que nos podemos voltar a reunir na àgora, na assembleia a discutir e a decidir os problemas da polis, nós mesmos, sem representantes nem deputados. Nada está acima de nós.

Saturday, August 04, 2012

ANARQUIA

Porque correm eles pela vitória? Porque fogem eles da derrota? Que força os move? Porque é que os que assistem os incentivam, lhes batem palmas, se revêem neles? Porque correm? Porque se esforçam tanto, porque jogam a vida? Porque há-de haver adversários, inimigos? Porque desconfiamos uns dos outros? Porque temos medo? Porque não nos sentamos à mesa, ao banquete, a discutir tudo isto? Porque não nos juntamos e não concluimos que o verdadeiro inimigo está no "big brother" e que não é assim tão poderoso? Porque não discutimos e decidimos a nossa vida colectiva na àgora, na assembleia, sem deputados, sem representantes, sem governos, sem câmaras? Temos o amor em nós, a liberdade, a poesia, temos uma alma, não somos iguais a eles, não queremos ser iguais a eles.

Thursday, July 26, 2012

TRIP NO PIOLHO

Sou o maior poeta vivo. Poderia dizê-lo. Ainda estou vivo e não vejo outros melhores. Talvez esteja a exagerar. Mas o que é que me impede? Pelo menos, tal como Pessoa, escrevo a um ritmo frenético. Sou o maior poeta vivo. Bem, morto não estou. A médica fala-me de AVC's e de ataques cardíacos. Mas eu vou prosseguindo a viagem. Mesmo que venham dilúvios eu vou permanecer aqui. A conversa dos outros é a matéria-prima. Gostava das minhas primas mas já não as vejo há muito tempo. Segui o meu caminho. Para alguns, o caminho da perdição. Já me apelidaram de maldito. Os outros bebem e eu não. Não preciso. Estou com o pedal todo. D. Sebastião em Alcacer-Quibir com um exército de fantasmas. Sou o maior poeta vivo. O que ganho com isso? Ninguém paga a minha arte. Continuo a escrever. É isso que sei fazer. Poderia escrever continuamente durante horas e horas. Gasto tinta e papel. Têm um preço. Mas um valor muito superior. Porque raio é que uma maluca qualquer não vem falar comigo? Sou obrigado a ver jogos em cima de jogos? Sou o maior poeta vivo. Ser ou não ser, eis a questão. Só não utilizo palavras herméticas. Dama oculta, vem ter comigo esta noite. Dá-me o teu coração e a tua beleza. Estou no Piolho à tua espera, antes que chegue o chato do costume. Um homem puxa tanto pela cabeça e é esta a recompensa que tem? Estou lúcido como Álvaro de Campos. Pensar é a minha profissão. Passo os pensamentos para o papel. Hoje sou absolutamente capaz de o fazer. Não há limites, ó velhote do boné. No piolho escrevo o poema infinito. Escreverei até morrer. Emendo aqui e ali. Escrita automática et voilá. Eia, Breton, eia, Péret, eia, Artaud. Volto aos surrealistas. Por um lado, ainda bem que as mulheres não vêm. Nem elas nem ninguém. Produzo livremente. Olha, sou um trabalhador da palavra! E esta, ein, ó Fernando Pessa? Um operário da palavra. Um proletário, logo eu. Tantas vezes acusado de preguiça, de desleixo, de vadiagem. Sou vadio mas produzo. Vou montar uma fábrica. Empresário, eu? Deus me livre! E o que é que Deus tem a ver comigo? E o que é que é Deus? Porque se fala tanto em Deus? Deus morreu. Deus nunca existiu. Sou o maior poeta vivo. Bebo copos com ninguém. Estou em tertúlia comigo próprio. Olho as horas. Penso. Todo eu sou pensamento. Mas a miúda da mesa do lado fala. Existe. O velhote do boné também e o Adriano e os outros empregados e o sr. Martins e a Via Láctea e o Universo talvez até Deus Poderia passar a vida a ler lia, comia, bebia, mijava, cagava e nem sequer fazia amor porque não me faria falta aliás, acho que se dá demasiada importância ao sexo posso viver como Fernando Pessoa posso julgar-me ao nível dele acho que vou voltar aos crofts e às macieiras há vinte anos em Ofir estava num determinado caminho de excesso a seguir uma via muito própria era único mas depois desviei-me as moedas em cima da mesa chegam para o café as duas miúdas que entraram são engraçadas o ministro das Finanças deprime-me se tivesse a carteira recheada ficava noite fora a beber tive dinheiro em Junho mas fiquei com tonturas por causa dos quadrados e dos rectângulos no chão ouço os meus semelhantes mas eles não me conseguem surpreender porra a merda do café também dá cá um speed imagina se passasse a tomar seis ou sete por dia o que não seria? Passar o dia inteiro a produzir sou o maior poeta vivo sou o pateta da caneta sou aquele que espera e não cai vou parar um pouco vou mijar interromper a obra-prima já disse, não vejo as minhas primas há muito tempo até gostava muito de uma mas enfim, não lhe liguei armei-me em poeta há qualquer droga que me faz escrever assim ou vem tudo da mente? Demente já fui agora sou um cidadão respeitável que vem escrever para o Piolho e que não deixa dívidas há 20 anos andei aqui aos berros por causa do Fidel o Tintin no ecrã o capitão Haddock com mil raios etc e tal chegarei a casa vivo ou desfalecerei exausto de trabalho? Tomai lá, ó obreiristas! Quem me explora? Onde está o meu salário?

Sunday, July 22, 2012

THE KING IS NOT DEAD

Aqueles que só falam de negócios nada têm de belo, de elevado, de sublime. Jamais serão poetas ou filósofos. Os burgueses nada me dizem. Têm dinheiro mas são escravos dele. Nem sequer sabem amar uma mulher, uma deusa. São incapazes de ver nelas a luz e a virtude. Grosseiros, macacos, merceeiros. Não será com estes que faremos a revolução. Aliás, eles desprezam-nos, sabem que os queremos der...rubar. Vimos de Camelot e da Grécia. As conversas deles aborrecem-nos de morte. Não somos sequer da espécie deles. Não nos abaixamos, não nos submetemos para entrar na treta deles. A partir de certa altura, deixámos de o fazer. Preferimos a solidão. Temos percorrido o caminho da grande solidão. Não andamos atrás de Ferraris nem de riquezas. Isto vai virar. Sabemos que vai virar. Voltaremos a ser reis.

Tuesday, July 17, 2012

O ESTAR AQUI

Sou poeta, escritor. E daí? Questiono-me, não me contento com o dominar da técnica. Apesar de também ter de comer e de beber, penso que a questão da sobrevivência não é, de forma nehuma, a única questão. Interrogo-me acerca de Deus, de quem criou isto, do estar vivo, do porquê de estar aqui. E é fundamentalmente a estas questões e à da arte que me quero dedicar até ao fim dos meus ...dias. Claro que também me quero divertir, reinar, dançar. Mas o meu trabalho é procurar o conhecimento, sobretudo o conhecimento das questões que enumerei. Se estou vivo, não é obra do acaso, os meus pais puseram-me aqui. Desenvolvi os hábitos de ler e escrever, preocupo-me com a humanidade, envolvi-me em causas, não vim simplesmente passar o tempo. Há dias, como hoje, em que escrever me dá um especial gozo, mesmo que passe o dia sozinho. Posso também debruçar-me sobre o acto de escrever. Há outros dias em que escrever é o último refúgio, em que é combate com a solidão, com a depressão. Contudo, escrever é também para mim uma profissão mais até uma missão. É a forma de comunicar as minhas ideias, de descrever e explicar o estar vivo, o estar aqui. Certamente que pretendo criar, que pretendo acrescentar alguma coisa ao mundo, que, embora me repita, acabo por fazer filosofia. Seria, sem dúvida, fascinante se pudesse discutir estas questões com alguém mas ando a fazer uma espécie de retiro espiritual. Todavia, creio que estou no bom caminho. Que coloco as questões de sempre, as verdadeiras questões. Mas ainda não me considero um filósofo. No fundo, a partir de certa altura deixei de pactuar com o simplismo, com o de toda a gente. Segui o meu caminho. Não me arrependo. Estou certamente aqui a fazer alguma coisa de relevante.

Monday, July 16, 2012

SONHADOR

Ainda existe bondade entre as pessoas, sobretudo quando as crianças estão presentes. Nem tudo está controlado pelo capitalismo dos mercados. Segundo Sócrates, toda a aprendizagem deveria resultar de um conjunto de questões: qual é o meu dever? Como devo amar? Que tipo de mundo quero e deveria querer? O que provoca a pobreza? O que é que a pobreza provoca? O meu dever é, sem dúvida, cultivar-me, procurar o conhecimento e transmitir esse conhecimento pelas mais diversas vias. Já aos 15/16 anos escrevia umas letras em inglês para uma banda imaginária: "Everybody Needs Love", "Sometimes I'm Me". Já então falava no amor e na liberdade, escrevia para mim, não sei bem, poucas pessoas leram essas letras. Agora chego a mais gente e desenvolvo a "philía", a amizade, a fraternidade. Certamente que quero um mundo diferente deste, um mundo sem mercados, sem atropelos, sem competição, um mundo onde os homens discutem a pólis e decidem na praça pública, sem necessidade de governos nem de polícias, um mundo de iguais, de gente esclarecida, sem ricos nem pobres. Como diz John Lennon em "Imagine", "tu podes dizer que sou um sonhador", talvez o seja, mas não suporto mais a castração mediática, não suporto mais que outros vivam por nós a nossa vida.

Sunday, July 15, 2012

O QUE FAZEMOS AQUI?

"Nada pode dispensar a vida de ser absolutamente apaixonante", diziam os membros da Internacional Letrista. Mas "eles" não querem deixar que a vida seja absolutamente apaixonante. O domínio da economia e do capitalismo destroem a vida. Vida que é, muitas vezes, entediante, castradora, vazia. Mas só uma pequena parte de nós se interroga sobre a questão. Só uma pequena part...e de nós se apercebe que somos reduzidos à condição de espectadores, que as celebridades e os actores da televisão vivem por nós a vida. Além de nos condenarem a trabalhar para ganhar a vida, roubando-nos o tempo e sujeitando-nos o tempo e sujeitando-nos a regras que nos vão destruindo a vontade de viver, atiram-nos para a miséria ou para o desemprego, roubando-nos quase todo o poder que temos sobre a nossa vida, ou então fazendo-nos mergulhar na depressão ou no desejo de suicídio, roubando-nos o que nos resta. Não, não podemos aceitar que o capitalismo dos mercados e a máquina de propaganda controlem completamente as nossas vidas. Somos seres autónomos, pensamos, somos capazes de criar arte e ideias, vimos da filosofia, da Grécia antiga, vimos dos grandes poetas, dos grandes artistas. Temos o direito de viver uma vida absolutamente apaixonante. Não esta sub-vida, esta sobrevivência onde são sempre os mesmos comentadores a falar nos media, onde as opiniões realmente divergentes são silenciadas. Não, o homem não pode continuar a viver de migalhas, o homem não pode continuar a viver dominado pela economia, o homem é muito mais do que isto, o homem inventou os deuses e o deus único, o homem é capaz do amor e da bondade, o homem é alma, espírito. Não podemos viver mais acorrentados, nós nascemos livres. Nós somos capazes de grandes feitos. Como aceitar estarmos reduzidos a isto, a autómatos, a escravos do dinheiro? Não viemos para isto, porra! O que é que estamos a fazer na Terra? Quem somos? Porque nos deixamos levar? Porque não questionamos o transe?

Thursday, May 03, 2012

A IDEIA

Vivemos numa sociedade amputada que esquece que vimos dos nossos antepassados, dos xamãs, de outros seres, das estrelas. Que esquece que somos essencialmente poesia, criação, música, que dançamos em êxtase em redor da fogueira, que somos espírito, bênção, liberdade, vida e não estes escravos do trabalho, das horas, dos patrões, dos governantes, da máquina. Viemos ao mundo mas também o construímos e construindo-o vivêmo-lo porque somos soberanos, filhos dos deuses, bailarinos. Nada está realmente acima de nós. Somos a alma, o movimento, o universo. E também a criança que nasce, a criança sábia. E somos realmente capazes de rir, de chorar, de amar. Por isso não precisamos de leis nem de governos nem de polícias. Porque tudo quanto existe e alguma vez existiu está em nós. Por isso somos reis, deuses, xamãs. Ou, pelo menos, alguns de nós podemos sê-lo. Aqueles de nós que não estão irremediavelmente perdidos para a vida, aqueles de nós que não se deixaram derrotar pela máquina, os espíritos livres. É essa a ideia, somos nós a ideia, ninguém nos vai roubar a ideia, nunca mais.
Dizem que a mulher que eu quero não existe dizem que os meus poemas são potentes, que fogem à normalidade as minhas amigas pagam-me copos para financiar a revolução e eu vou existindo venho ao 25 de Abril, ao 1º de Maio espero pela Gotucha no Ceuta escrevo umas prosas poéticas e uns poemas prosaicos tomo café as empregadas de mesa tratam-me bem vou observando o mundo a mulher que lê ao fundo o 1º de Maio na Praça sinto-me, de facto, como Pessoa os anos vão passando e eu vou fazendo as minhas coisas sem grandes sobressaltos poderia ter mais dinheiro nos bolsos A Gotucha chegou. Porto, Ceuta, 1.5.2012

Wednesday, May 02, 2012

O homem volta a pegar na caneta e escreve. Agora não tem computador. Está em Braga, na "Pastelaria São João", mesmo ao lado da casa da Gotucha. Tem Antero de Quental à sua frente. Escreve. Pensa. Espera pelo segundo café. Estreou um novo caderno, mais pequeno. A poesia é uma forma de resistência. Uma forma de liberdade livre, de vida plena. O homem escreve poesia na forma de prosa. Logo à noite talvez vá ao Pinguim. As pessoas vão entrando na confeitaria. O homem faz um esforço para escrever. O mesmo que fazem outros escritores, mais famosos. Ainda assim escreve. Vai buscar a matéria da escrita às profundezas de si mesmo. Deveria talvez inventar outros personagens, como fazia na infância. O Francisco José, o Celorico D' Almeida. Mas continua a contar a história de si mesmo. Olha a Avenida da Liberdade. Os carros que passam. Os prédios. Os apartamentos. Se os ficheiros desaparecem do computador sempre tem os cadernos. Embora corra também o risco de os perder. O Isaque Ferreira já se ofereceu para os guardar. O homem á mesa. A chávena de café. A confeitaria. Tudo parte daqui. É este o mundo. O homem, de vez em quando, dá umas entrevistas. Fica registado. Diz ao mundo o que pensa. No entanto, ainda não conseguiu dizer tudo o que pretende dizer. Ainda não denunciou a máquina na sua plenitude. No fundo, é este que está aqui à mesa de escrever. Não tem um trabalho fixo nem o poderia ter agora. Ao escrever sobre si mesmo, escreve sobre o mundo. De qualquer modo, o mundo, o país, está uma desgraça. Enquanto que o homem continua a escrever, a criar. O governo, a Merkel e a troika destroem o país e o homem continua a escrever. Tem papel, caneta, mãos e café. É o suficiente para prosseguir, aparte os amores e as amizades. Oxalá o caderno não se perca.

Saturday, April 28, 2012

Não há Deus nem deuses o único deus é o homem alguns homens capazes de criar de pensar de construir um novo mundo não há Deus nem deuses só nós, aqui sós, "ilimitados e libertos" á espera do sorriso do abraço da ternura companheiras, companheiros, na demanda de nós mesmos senhores sem escravos frágeis soberbos prontos para a caminhada. Vilar do Pinheiro, "Sonhos de Verão", 28.4.2012

Friday, April 13, 2012

DO TIAGO MONTENEGRO

Para o António Pedro RibeiroPosted: Abril 12, 2012 in Uncategorized
Etiquetas:António Pedro Ribeiro 0tenho medo ó Poeta

tenho medo que o Poeta morra.
tenho medo que matem o Poeta.
tenho medo que o progresso
impeça o bailarino de dançar.
tenho medo de um novo super-homem
agrilhoado pelas parangonas quotidianas.
tenho medo pelo sábio preso em paredes pintadas,
tenho medo pelo maestro das letras
tropeçando em paralelos quebrados
nessa avenida aos ziguezagues da História.
tenho medo pelo soberano da vida,
tenho medo por ti ó Poeta,
tenho medo por todos nós que viemos de ti
mas que não vivemos por ti
porque só tu por ti viverás.


http://tiagomontenegro.wordpress.com

ESCREVER


Escrever para me manter vivo
escrever porque é o único caminho
contra a máquina
contra a solidão
contra a depressão
escrever porque não sou escravo
de ninguém
porque não delego em ninguém
os meus poderes
porque quero continuar
juíz de mim mesmo
porque quero continuar
na estrada do excesso e da loucura
escrever porque não aceito
escrever porque desejo
escrever porque quero o beijo
escrever porque sou
um homem livre.

Wednesday, April 11, 2012

A VERDADEIRA VIDA É POÉTICA


Como diz Eggar Morin, "a verdadeira vida é poética". Com a poesia vive-se para viver e não para sobreviver. Segundo Novalis, "a poesia é a religião originária da humanidade". E a poesia traz consigo o amor e a liberdade. Estabelece uma oposição à vida prosaica, ao utilitarismo, à mundialização tecno-económica, através do encantamento, da paixão, da festa. Para o capitalismo, para a tecnocracia nada escapa ao cálculo, ao quantificável, à busca do lucro. Os seus propagandistas, os comentadores, os economistas estão convencidos ou tentam convencer os outros de que não há alternativas ao mercado e ao capitalismo dos mercados. São profetas da morte, inimigos da vida, atiram para a valeta todos os que são rejeitados pela máquina mas têm contra si todos os que vivem a condição humana, todos os que procuram o sentido da vida. Estes últimos estão do lado da poesia e da vida, revoltam-se em Atenas e Barcelona, não aceitam a ditadura dos mercados, a sua máquina de propaganda nem a mera sobrevivência.

Wednesday, April 04, 2012


Crio
belo
brilho
todo eu sou
criação e
loucura

não espereis de mim
bom senso
comércio
economia
ardem em mim
deuses interiores
demónios
fantasmas
todos eles se guerreiam
e fazem a alma
que voa livre
superior
desmesurada.

AOS TROCOS NO PIOLHO


15% de desemprego. O país está a saque. Nem Passos, nem sacrifícios, nem coisa nenhuma. E eu aqui no Piolho a beber finos. Ainda posso beber finos. Contudo, metem-me nojo aqueles que roubam, facturam e enchem os bolsos enquanto eu estou aqui a contar os trocos. De que reino vêm eles? De que reino vêm eles que não é o meu? Nem alma possuem esses indivíduos. E eu aqui a contar os trocos para ir ao Pinguim dizer umas baboseiras. Os políticos guerreiam-se a troco de ninharias e eu aqui aos trocos. Deveria reclamar as quintas de Braga e Cabeceiras. Que são eles mais do que eu? Não nasci sob o mesmo sol, não fui iluminado pelas mesmas estrelas. Tiroteio em Ockland, Califórnia, USA. Terrorismo na América. Quem sou aqui à espera da dama? Sempre á espera da dama de porcelana. Porque não aparece um mecenas que financie a revolução? Há-de haver por aí um mecenas. Quem sou eu? Que guerrilha é a minha? Quantos guerrilheiros tenho do meu lado? Para quê viver aqui dizer poesia quando muitos já estão mortos?

Viveis mortos
amais mortos
obedeceis mortos
assim permanecereis
por mil anos
até ao romper
do feitiço.

O que vai valendo é a cerveja. Bebo e produzo. Se bebesse todos os dias, todas as noites, mais produziria. Porque é que as mulheres não se aproximam mais de mim? Terão medo? Quem sou eu? Um xamã, um enviado dos céus? Quem me engrandece a alma? Quem me dá luz no Piolho? Quem sou eu? Que venho aqui fazer? Porque não ganho dinheiro como os outros? É uma espécie de maldição ou é uma bênção? Continuarei a viver de rendas? Quem sou eu? Diz-me tu. Entre Álvaro de Campos e Che Guevara. Entre a Goreti e a Márcia Vara. Entre amigos e inimigos. Quem sou eu? Que venho aqui fazer? Onde estás tu, hoje? Quem vem dançar comigo? Quem vem comigo até ao fim do mundo? Quem sou eu, louco, maldito, filho do fogo? Que me dais hoje? Onde vou parar? Tanto faz, tanto faz. Que é feito desse rapaz que percorria as ruas de Braga? Que é feito desse rapaz? Não suporto mais as conversas. Não suporto mais as conversas. Estou para lá. Sou de lá. Sou da Sé, como o Che. Tantas noites. Tantas farras. Quem és tu, hoje, esta noite, em Braga, no Porto, em Almada?

Monday, April 02, 2012

COMO O JAIME E COMO O PACHECO


Estou no Piolho. Não espero ninguém. Apareceu o Toni Simões de Braga. Pagou-me dois finos. De facto, estou como o Luíz Pacheco, como o Jaime Lousa. Vou cravando uns trocos. Sou o poeta do Piolho. Aqui permaneço. Aqui reino. Começa a ser tempo de publicar um livro novo. O fernando Alvim encomendou-me um manual de instruções sobre a Revolução. Já comecei a escrevê-lo. Tenho de reler Marx, Proudhon, Bakunine. Vou também ver o jogo do Braga a ver se o Braga passa para primeiro. Estou mesmo como o Jaime e como o Pacheco. Um poeta que vive como poeta. Um poeta do amor louco. Um poeta que escreve à mesa do Piolho enquanto as mulheres não vêm. Gostava mesmo que o Braga ganhasse. Sou de lá, mesmo que vá lá menos vezes agora. Nunca mais vi o Rocha. Fazem-me falta as suas análises sociológicas. De resto, o debate intelectual anda muito pobre. Mais vale um homem dedicar-se à escrita. Enquanto houver papel, caneta, mesa e cadeiras está-se bem. Olha, o Sebastião Alba escrevia nos bancos de jardim à luz dos candeeiros. Espero não chegar a esse ponto. Se estivesse na Grécia antiga era tratado como um rei. Agora tenho de gramar cretinos como o Mourinho na televisão. Talvez me passem a pagar para escrever ou para dizer poesia. Estou mesmo como o Jaime e como o Pacheco. Oxalá o Braga ganhe.

Queria entrar na televisão
e beijar todas as mulheres belas
na boca.

Saturday, March 31, 2012

EM GUERRA


São diferentes de mim estes seres engravatados. Servem a ordem e o trabalho. Não falam a minha linguagem. São robóticos, eficazes, servem o cão que lhes paga. Não creio sequer que possuam uma alma. Não vêm dos deuses nem das estrelas, não são dignos de Agamémnon e de Aquiles. Há uma guerra a travar contra eles e contra os seus patrões.

ÀS PORTAS DA ILÍADA


Às portas da Ilíada
amei a Liliana
ofereci-lhe o poema
levei-a para a cama

desprezastes
o homem à mesa
o mendigo,
o poeta ateu

agora, meus meninos,
tendes a espada
a guerrilha
o cálice
o reino que é meu.

Thursday, March 29, 2012

O RISO SOBERANO


Ao espelho do "Ceuta", como antes do "Estrela", o homem permanece à mesa. A chávena de café com um bocado de poema de Herberto. O homem espera a dama. Uns rejeitam-no, outros põem-no nas alturas. Há-de ser assim até ao fim da vida. A menos que ela venha mesmo. A revolução, pois então. Voltou a falar-se nela. O homem, no fundo, sempre acreditou. Desde os 18 anos que anda nisto, ou talvez mesmo já aos 17, no 12º, no Alberto Sampaio, quando só tinha três disciplinas e ouvia os Doors. Mas o ex-escritor incomoda-o. Tratou-o mal. Mas o homem agora é outro. Tem o rei na barriga. Os outros não sabem o quanto ele está próximo de iluminar a alma. É uma espécie de Buda. Barriga a condizer. À espera da dama. As outras damas passam, exibem-se na rua. O homem reflecte, pensa. Já quando era miúdo era assim. Mas quando era miúdo era frágil, tinha medos, inibições. Agora há dias em que é um incendiário. Pega fogo ao mundo e a si próprio. E a hora está a chegar de novo. A hora de ser rei, deus, xamã. Como Marlon Brando no "Apocalipse Now". Como Jim Morrison no "Lizard King". Como Nietzsche no "Zaratustra" e no "Ecce Homo". Não, desta vez não me apanhais, ó seres intermédios que continuais entretidos com os vossos negócios. De qualquer modo, ides todos à falência. O apocalipse está aí. A barbárie anda à solta. Começa a cheirar a carne. Começo a farejar os restos. As minhas casas, as minhas quintas. Em Braga, em Cabeceiras. Chegou a hora da vingança. Hamlet volta a ouvir o rei-pai. Aqui como na Dinamarca. Vou até ao fundo da rua. A rua é sempre a mesma. Acima, abaixo. Abaixo, acima. Entras nas caras, nas casas, nas camas. Fornicas a puta. A coisa arde, queima. Na Primavera. Na prima Vera. 27 de Março. Vai ser de novo tua. Começas a sacar as mulheres para o teu reino, ó poeta maldito. "Todas as crianças atacadas pela loucura". Reinas no Ceuta. Volta a reunir-se a Távola Redonda. Artur. Lancelote. Merlin. Agora sim, vais até ao fim. A rua é tua. A cidade é tua. Porto de abrigo. Porto rendido. Na Ordem do Terço, nas ruas da Sé, és o Che, és o Che. Balanças as ancas. Começas a pensar em ocupações. Sem lei. Fora-da-Lei. Este que vêdes está a caminho. Louco. Tão louco. Rei-profeta. Rei-poeta. Super-homem na rua de Ceuta. Odeias os engravatados, os funcionários do poder. Vens do inferno. Os autocarros passam no vidro. Rei e mendigo. OLha o perigo. Olha o poema. O poema que querias escrever. O poema de Artur, Perceval e Merlin. Aqui se cumpre. Na floresta. És um belo sacana. Esperas a dama. O jazz a roer. O Jaime ao poder. No espelho do ceuta. No espelho celta. Aqui o teu riso é soberano.

Monday, March 26, 2012

PUTA


Gingas as ancas
tomas a cidade
dona das ruas
incendeias-me
sem preconceitos
sem disfarces
dona das ruas
dona das noites
incendeias-me
quero beber-te.

A PALAVRA


Tens de dizer a palavra. Tens de ser capaz de dizer a palavra no momento certo. Tens de subir ao palco e dizer a verdade. Tens de ser capaz de fazê-lo mais do que nunca. Tens de ser tu próprio mais do que nunca. Tens de roubar o fogo aos deuses. Tens de ser Prometeu.

Friday, March 23, 2012


Que conversas tens?
Quanto te elevaste?

O que aprendeste?
O que te distingue
dos outros?
Que acrescentaste
àquilo que eras?

Cresceste em sabedoria?
Influencias as mulhedres?
Até onde vai a tua alma?

Que mundo criaste,
que obra é essa
que nos seduz
e nos inquieta?

Tuesday, March 20, 2012

AS MUSAS E DIONISOS


As musas e Dionisos existem mesmo. Fazem-nos dançar, celebrar, beber o vinho, brindar. É isso que acontece em algumas noites de poesia. O entusiasmo, a paixão vêm ao de cima. Só é verdadeiramente poeta aquele ou aquela que é inspirado pelos deuses, aquele ou aquela que, segundo Platão, possui o delírio das musas. Todo esse ritual sagrado, de arrebatamento espiritual, purifica. Dionisos está entre nós, quer o queiram quer não os mercadores e os economistas.

Saturday, March 17, 2012

Á PORTA


Não consigo dormir. Creio que estou a voltar a uma fase eufórica. Foi-se o Rui Costa, foi-se o Ulisses e eu continuo aqui, a percorrer o meu caminho, apesar de sentir dificuldades em respirar, apesar de andar com a barriga inchada. Já é dia. Os pássaros cantam. Bem diz o bom doutor que eu tenho de viver mais o dia. Andei anos e anos pela noite, de bar em bar, até ser dia. Agora acho que preciso da luz do dia. Talvez precise de ser menos o poeta de café, de escrever mais em casa. Tenho saudades de estar em Braga com a Gotucha aquele temo todo que estive o ano passado. Preciso de uma mulher que valorize a minha arte. Que me faça sentir o filósofo. Que crie comigo o super-homem. Sim, acho que poderia fundar uma nova religião. Acho que poderia ter seguidores. Aquela estória da revolução, de conquistar Lisboa com os gajos do rock. Ocupar a aldeia. Dispor da vida das pessoas. Aconteceu em 2007, depois da morte do meu pai. Esse ano foi terrível. Aconteciam mortes, assassinatos na família. Eu matava e ressuscitava as pessoas. O mal que queriam fazer à Gotucha. Aquela vez que apareci caído de bêbado na estrada depois de uma ida a uma tertúlia em Moncorvo. A outra vez que apareci nos campos, nos arredores da Póvoa sem saber como. Andei sete quilómetros a pé. 2007 foi um ano terrível. Pensava que era Deus, sentia transformações, sentia-me Deus. Agora estou aqui. A mente aberta. O dia lá fora. É mais um dia triunfal. As pessoas começam a precisar de mim e a respeitar-me mais. Volto a sentir aquela magia que sentia quando era miúdo. Até me apetece desatar a desenhar por desenhar, sem ter preocupações de me tornar um artista plástico. Definitivamente, enveredei pela carreira das letras. E estou a tentar livrar-me de gorduras desnecessárias. Terei mais cuidado com os próximos livros. Penso que posso chegar a muita gente. Sou um dos poetas malditos mas não serei apenas isso. Serei um filósofo. O que reflecte, o que tira conclusões, aquele que contempla. É importante este esforço de escrever, de manter a disciplina. Nunca me deu para construir personagens, a não ser a minha própria. Ainda assim penso que puderia escrever um daqueles "best-sellers" com as minhas descidas aos infernos ou, pura e simplesmente, com as minhas reflexões. Sim, creio que estou à porta.

Thursday, March 15, 2012

CULPADOS


Aumentam os sem-abrigo na cidade do Porto, aumentam os casos de depressão e suicídio, muita gente está a ficar endividada e sem dinheiro. Eis a Europa de Merkel, eis os seus empregados portugueses, eis a terra prometida de Obama e dos mercados. Os seres humanos são tratados abaixo de cão, são abandonados a um canto, nas ruas da cidade ou então sofrem sozinhos perante um mundo cão que não lhes dá amor, apoio, liberdade, dignidade. Passos Coelho, Merkel e a troika são mesmo culpados da morte, da solidão e da infelicidade de milhões de portrugueses. Entretidos a fazer o jogo dos especuladores e dos banqueiros são incapazes de um gesto de humanidade. Só há poder e negócios dentro daquelas mentes. Não merecem sequer que lhes chamemos seres humanos, são sub-homens, sub-mulheres. Eles e todos os seus criados e todos os que os seguem. Não são sequer dignos que lhes dirijamos a palavra. Merecem cair.

Wednesday, March 14, 2012

SÓCRATES E ROCK N' ROLL


Precisava de alguém com quem conversar
mas quem?
Aqui poucos estão à minha altura
vou-me dedicando aos livros
aos filósofos e aos poetas
ouço rock n' roll

as telenovelas nada me dizem
os noticiários tentam manipular-me
o jornal de hoje não traz revoluções
valha-me olhar para a Diana
ouvir conversas
que não me elevam
antes pelo contrário
na verdade, sou um filho
de Sócrates e do rock n' roll
um poeta do quotidiano
da cerveja que bebo
ontem subi no Pinguim
as palavras começaram a sair
sem limites
mesmo que não tivesse
saído em glória
sou um filho do rock n' roll
só me falta dançar
voltar à banda
mas queria mesmo falar com uma miúda
que não fosse superficial nem imbecil
olha, esta até traz um caderno
escreve umas coisas
sou mesmo um filho do rock n' roll.

A MÁQUINA E A VIRTUDE


Ninguém me telefona. Nem sequer os jornalistas. Estou aqui na aldeia sem amigos e sem amigas. Não falo com ninguém. Venho estudar Aristóteles e Lou Reed. Escrevo uns poemas e outros textos. Penso que estou a escrever melhor. Levantei-me às quatro da tarde. Estive no Pinguim e depois no "Pontual" com o Nuno e com o Carlos Andrade. Trabalho durante a tarde. Depois vem o telejornal e provavelmente, como bebi uma cerveja, depois do jantar não vou conseguir concentrar-me na "Poética" de Aristóteles. Mas eu precisava de beber uma cerveja para estar em sintonia com o rock n' roll.
É isso que eles nos vendem; telenovelas, telejornais, novamente telenovelas, concursos, programas imbecis, futebol. É a máquina de embrutecer alegremente, como dizia o meu pai. Roubam-nos a vida, a grandeza, a elevação. Alguns de nós são capazes de romper o feitiço. A maior parte não. Arrasta-se pela vida. Deixa-se levar pelas sombras da caverna, às vezes nem sequer as sombras discute.
Esta miúda da confeitaria, a Diana, tem uma energia fora do comum. Apesar de se enquadrar na máquina tem qualquer coisa de puro, de autêntico. Mas estava eu a falar do tempo que nos roubam. Os arautos da sociedade dos mercados, através dos media, não querem que desenvolvamos a nossa inteligência e a nossa personalidade, querem-nos dóceis, passivos, espectadores de um espectáculo, ainda por cima imbecil, que não controlamos. Querem-nos reduzir a primatas, a meros receptores ou então viram-nos uns contra os outros na luta pela existência enquanto o grande capital factura e avança. São os privilégios dos funcionários públicos, a malandrice dos beneficiários do rendimento mínimo e até dos desempregados, enfim, o desgraçado contra o desgraçado e uma luta, uma guerra que é perfeitamente animal feita de invejas, intrigas e mercearias. Não é este ceramente o sentido da virtude e da nobreza que vem de Sócrates, Platão e Aristóteles.

Saturday, March 10, 2012

A NOVA POESIA


Segundo Allan Bloom, a terra já não está povoada de deuses nem de espíritos. Os homens só se destacam por motivos de fama, lucro ou riqueza. Este é o tempo do capitalismo dos mercados e da máquina de propaganda. Mas Rousseau propunha já "uma nova imaginação poética, motivada pelo amor". A mulher, além da beleza, pode conter a virtude. Talvez o amor, o culto da mulher, possa opor-se ao homem calculista, motivado pelo medo. Talvez a mulher siga os seus instintos báquicos e se afaste do materialismo enfadonho e da luta pela existência. Talvez o amor louco de Breton possa revolucionar o mundo: "Desejo que sejais loucamente amada". Eis a nova poesia.

O LIVRO DA VIDA

Aqui chegados. Que fazer? Agora que estamos a descobrir as verdadeiras motivações do homem, agora que estamos a descobrir as teses filosóficas por detrás disso, podemos chegar-nos à frente e dizer: nós sabemos, nós nada vos devemos a vós, ó guardiães da ordem estabelecida. Roma e Atenas estão connosco. Vós é que sois os bárbaros. Pensamos também que é redutor reduzir limitar as coisas ao marxismo ou mesmo ao anarquismo.
Beijamos as amigas na boca e por isso mantemos o desejo sexual e somos capazes das grandes obras. Só nos falta um mecenas que nos apoie. Somos capazes da magia e da profecia. Aprendemos com Rimbaud, Whitman, Morrison, Nietzsche, Herberto Hélder, Sá-Carneiro, Pessoa. Passamos metade da semana na aldeia a ler, a escrever, a estudar. Estamos no caminho. O homem vulgar já não nos engana. Conhecemos as suas tendências para o futebol, para as telenovelas, para o cálculo, para o ganho, para a autoconservação. É á juventude que queremos chegar. Já somos capazes de expressar as nossas opiniões sobre a virtude, sobre o belo, sobre a grandeza. Estamos convencidos de que, mais tarde ou mais cedo, os media terão de se voltar para nós. Porque nós dizemos o que poucos dizem. Porque nós somos capazes da ousadia. Acreditamos no homem novo. Seguimo-lo. Vamos escrever o Livro da Vida.

Friday, March 09, 2012

Amanhece na terra do meu pai
a Vita já cá não está
morreu há dias
está sepultada no fundo do quintal

olho agora o jardim
as árvores
os pássaros
o meu pequeno paraíso
o sino que toca
em tempos
esta foi uma boa terra
hoje está descaracterizada
com vários prédios
gente que já não se cumprimenta
é a sociedade comercial em todo o lado
o "Continente"
o "Pingo Doce"
o Soares dos Santos e o Belmiro
a facturar
e nós aqui tesos
mesmo que cultos,
honrados
e, por vezes, entusiastas

amanhece na terra do meu pai
e a Vita já não está cá.


Vilar do Pinheiro, Rua da Senra, 8.3.2012

A ESSÊNCIA DA VIDA


Os ideólogos da sociedade comercial e do capitalismo convenceram o homem pequeno de uma premissa irracional- a morte pode ser evitada. A partir daí, segundo Allan Bloom, convenceram o homem comum de que ele faz um "excelente uso da razão", ao produzir o cálculo da preservação e do ganho, que o homem nobre e o artista consideram baixo e menor. Esses ideólogos uniram-se ao homem pequeno e encetaram uma cruzada contra a imaginação. Maquiavel atacava os antigos por estes construírem repúblicas imaginárias. Atacou-se também o velho entusiasmo e produziu-se uma sociedade de homens frios, mesquinhos, calculistas. Só na noite e nas festas, a espaços, são admitidas a poesia e as artes, que não são um mero adorno como vulgarmente se pensa mas a própria essência da vida.

Thursday, March 08, 2012

JUÍZO FINAL


Levanto-me em glória na Avenida da Liberdade. Levanto-me na minha cidade. Os autocarros sobem e descem. As pessoas falam, ouço vidros a estalar. A minha mente completa-se. Tudo quanto sou será julgado hoje.

MACACOS, BÁRBAROS, IMBECIS


Uns macacos, uns bárbaros. Os que governam, os que se governam, os que se deixam governar. Nenhum brilho, nenhuma nobreza, nenhuma beleza, nenhum heroísmo, nenhuma elevação. Uns e outros escravos do comércio, da usura, da finança. Uns e outros viciados na máquina, do masoquismo, da castração. Nunca olhar de frente o sol, nunca caminhar livre, nunca ser grande, nunca a explosão. Trabalhar, obedecer, morrer ou então mandar nos outros mas ser também escravo do lucro, dos mercados, do poder. Macacos, bárbaros, imbecis.

Wednesday, March 07, 2012

POETA MALDITO


Volto a ser o poeta maldito
recupero o cinismo
a gargalhada sarcástica
enfrento os homens
provoco-os
desafio-os
como Diógenes

e se tivesse mais dinheiro
nos bolsos
o que não seria...
festa toda a noite
e todo o dia
falar com este e aquela
a glória
no meio do caos
o artista cabotino
o animal de palco

não, não sou inferior
àqueles que os media
promovem

a garganta arde
a miúda é amavél
responsável
casadoira.

Tuesday, March 06, 2012

A DÍVIDA, A CULPA E OS LADRÕES DO TEMPO

Como diz Nietzsche ("A Genealogia da Moral"), há uma relação entre a dívida (shulden) e a culpa (shuld), o conceito fundamental da moral burguesa. Os ditos credores ou usurários, além de nos transformaram em culpados de uma dívida que não contraímos, roubam-nos a independência e até o tempo. As mensagens que Merkel, a comunicação social e os economistas transmitem aos gregos vão nesse sentido: "vocês erraram", "vocês são culpados", "vocês não sabem gerir o dinheiro". Mas como afirmam Maurizio Lazzarato ("Le Monde Diplomatique", Fevereiro 2012) e Jacques Le Goff ("A Bolsa e a Vida"), os usurários até o tempo nos roubam: "o que vende (o usurário) senão o tempo que decorre entre o momento em que empresta e o momento em que é reembolsado com juros. Ladrão do tempo, o usurário é um ladrão do património de Deus". Logo, pagar a pretensa dívida a ladrões, além de nos sufocar, não faz sentido algum.

Monday, March 05, 2012

NÃO SOU TEU, Ó GOVERNO


Não sou teu, ó governo
és a abolição do eu
como diz Henry Miller
não tenho de acatar
nenhuma das tuas medidas
a tua cara
mete-me nojo
as tuas aparições televisivas
fazem-me vomitar
não sou teu, ó governo
nem dos teus ministérios
nem dos teus negócios
nem das tuas ministras cor-de-rosa
quando vim ao mundo
ninguém me disse
que teria de obedecer a governos
não!
Basta-me a minha vida
a minha escrita
as minhas leituras
o caminhar pela aldeia
ao sol
não há aqui leis
nem decretos
sou rei de mim mesmo
não preciso de governo
sinto-me mais sábio
mais próximo das crianças
sou o homem do xamã
do espírito livre
dos livres pensdadores
só preciso de companheiros
e de companheiras.


Vilar do Pinheiro, "Sonhos de Verão", 4.3.2012