Saturday, December 27, 2008

SITUACIONISMO


Situacionismo


Definição

Movimento europeu de crítica social, cultural e política, que tem lugar entre 1957 e 1972, reunindo poetas, arquitetos, cineastas, artistas plásticos etc. A criação do movimento data de julho de 1957, quando da fundação da Internacional Situacionista, em Cosio d'Aroscia, Itália. O grupo se define como uma "vanguarda artística e política", apoiado em teorias críticas à sociedade de consumo e à cultura mercantilizada. A idéia de "situacionismo", segundo eles, se relaciona à crença em que os indivíduos devem construir as situações de suas vidas no cotidiano, cada um explorando o seu potencial de modo a romper com a alienação reinante e a obter prazer próprio. Do ponto de vista da reflexão, as principais fontes dos situacionistas são utopistas como Charles Fourier (1772-1837) e Saint-Simon (1760-1825), hegelianos como Feuerbach (1804-1872) e o jovem Karl Marx (1818-1883). O clima intelectual e político francês dos anos de 1950 e 1960 alimentam o situacionismo, que, por sua vez, auxilia a redefinir os contornos de sua época. A tradução francesa de História e consciência de classe, de Georg Luckács, a edição dos dois primeiros volumes da Crítica da vida cotidiana, de Henri Lefebvre, as reflexões dos pensadores da Escola de Frankfurt, as revistas Socialismo e Barbárie e Argumentos, entre outros, marcam a reflexão social, cultural e política do momento, apontando para os efeitos perversos do capitalismo avançado, bem como para a necessidade de alterar a ordem social pela reinvenção da vida cotidiana. A utopia maior que norteia o situacionismo é a projeção de uma sociedade comunista próxima aos ideais anarquistas, capaz de ser alcançada pela recusa radical do autoritarismo de Estado e da burocracia.

Às reflexões teóricas, os situacionistas associam uma série de intervenções - distribuições de panfletos, declarações, envio de telegramas etc. - com o objetivo de marcar com clareza as suas posições sociais, culturais e políticas. No âmbito da atuação política, o grupo se engaja em formas de apoio aos movimentos de contestação que têm lugar na época. Apoiam as revoltas das comunidades negras de Los Angeles (1965); as iniciativas operárias, fora dos sindicatos e partidos; as atividades de auto-gestão e os Conselhos Operários criados na Espanha e Argélia; o movimento estudantil e os acontecimentos de Maio de 1968, que o grupo contribui também para suscitar. Do ponto de vista artístico, as principais fontes do movimento são o dadaísmo e o surrealismo - sobretudo em função da conexão por eles defendida entre arte e vida - e o Letrismo de Isidore Isoue (1928) e Gabriel Pomerand (1926-1972). Fruto de uma dissidência no interior do Letrismo, A Internacional Letrista e o boletim Potlach (1954-1957), criados por Michèle Bernstein, Mohamed Dahou, Guy Debord (1932-1994), Gil Wolman, entre outros, desenham um primeiro esboço das teses situacionistas. A intenção estratégica de Potlach, segundo Debord, um dos expoentes do movimento, é promover a "reunificação da criação cultural de vanguarda e da crítica revolucionária da sociedade". E a Internacional Situacionista, afirma ele em 1985, "é criada sobre essa mesma base". Articulação entre arte e vida, arte e política, arte e cidade, eis alguns dos eixos do letrismo internacional retomados pelo situacionismo. Trata-se de ver a poesia, "para lá da estética", nos rostos dos homens e na forma das cidades, anuncia o nº 5 do Potlach, 1954. "A nova beleza", dizem eles, "será de SITUAÇÃO, quer dizer, provisória e vivida". A idéia de realizar intervenções no ambiente, cara aos situacionistas, já está aí posta. Práticas como a "deriva", a "psicogeografia" e o "desvio" defendem as perambulações ao acaso pela cidade e estimulam as reinterpretações do espaço a partir da experiência vivida (vide o Guia prático para o desvio, 1956, de Wolman e Debord). As práticas e intervenções no espaço urbano têm como fonte a crítica da vida cotidiana; por isso mesmo o urbanismo e a arquitetura constituem dimensões fundamentais para letristas e situacionistas.

A abertura do Letrismo Internacional a outros grupos cria as condições para a fundação da Internacional Situacionista. A amizade de Debord com Asger Oluf Jorn (1914-1973) estreita os laços com o Grupo CoBrA - sobretudo com Constant (1920) e Jorn - e com o movimento por uma Bauhaus imaginista, fundado em 1955 por Jorn e pelo pintor italiano Pinot-Gallizio (1902-1964). A defesa da livre expressão e do gesto espontâneo associados às convicções políticas fazem do Grupo CoBrA um aliado primeiro do situacionismo. A aproximação com o grupo se dá em 1949, sobretudo em função das teses sobre "o desejo, o desconhecido, a liberdade e a revolução" defendidas por Constant na quarta edição da revista CoBrA, que se tornariam centrais para o movimento situacionista. São também evidentes os interesses dos letristas internacionais pela reflexão sobre o urbanismo empreendida pelo movimento de Jorg e Pinot-Gallizio, que partem de uma crítica à funcionalidade excessiva praticada pela Bauhaus de Gropius. Não por acaso a plataforma que marca o início das atividades da Internacional Situacionista intitula-se Para um urbanismo unitário. A revista Internacional Situacionista (1958-1969) apresenta as formulações teóricas do grupo e acompanha as atividades de seus membros. Do conjunto, apreendem-se duas críticas fundamentais. Uma que diz respeito à vida cotidiana e à sociedade do espetáculo mercantil. Trata-se de libertar a vida do cotidiano e separar o tempo da organização do trabalho. Uma segunda crítica incide sobre a cultura como "mercadoria ideal do capitalismo avançado". A idéia da servidão posta pela "sociedade do lazer" encontra-se esboçada na obra maior da teoria situacionista, A sociedade do espetáculo (1967), de Debord, a liderança mais importante do movimento. Além dessa obra, que alcança grande repercussão em 1968, Debord é autor de diversos artigos e livros, e responsável por alguns filmes, entre os quais Hurlement en faveur de Sade [Grito a favor de Sade], 1952. Realiza também com M. Bernstein e A. Jorn exposições de fotografias, como a de Paris, 1961.

Após um período marcado pela criação de diferentes seções do situacionismo em diversos países da Europa (Grã-Bretanha, Alemanha, países nórdicos etc.), sobretudo de 1958 a 1969, e uma espécie de auge do movimento alcançado por ocasião dos acontecimentos de maio de 1968, Debord anuncia oficialmente, em abril de 1972, a dissolução do situacionismo. Muitos dos seus membros continuariam a participar dos movimentos de esquerda nos anos 1970. No Brasil, a editora Conrad Livros, criada na década de 1990 em São Paulo, tem sido a grande responsável pela edição das obras de Debord e dos situacionistas entre nós e pelo ressurgimento do interesse por essas idéias entre artistas brasileiros.

FRANCIS PICABIA


O conhecimento é um velho erro que pensa na sua juventude.
Os descontentes e os fracos fazem a vida mais bela.
As leis são contra a exceção,
e só me atrai a exceção.
A arte é o culto do erro.
O mundo divide-se em duas categorias:
os fracasados e os desconhecidos.
Eu me fantasio de homem para não ser nada.
Não esquecer que o maior homem
é só um animal com máscara de deus.

Tuesday, December 23, 2008

MANIFESTO CONTRA OS GOVERNANTES E CONTRA OS POLÍTICOS


Vós, governantes,
que amais o gado eleitor
que o mantendes cativo
que o converteis à mansidão
ao ram-ram da compra e venda
que o seduzis com as leis do dinheiro,
do trabalho e do relógio
vós, governantes,
que odiais a vida e o espírito livre
que tudo reduzis à mesquinhez
da percentagem e da conta
que amais o cidadão cumpridor
que vos masturbais com a bolsa
vós, políticos,
que invejais tudo quanto é grande,
tudo quanto é belo,
que o mantendes afastado do rebanho
que tudo tendes normalizado,
formatado, castrado
que sois incapazes de olhar o além
vós, políticos,
que redigis discursos ocos
que seduzis bacocos
que vendeis sabonetes
que vos escondeis nos gabinetes
vós, políticos,
que fornicais o poder
que vos guerreais pelo poder
que vos aliais pelo poder
sabei que a vossa hora
está a chegar
vós, políticos,
que pregais a morte
que apelais à doença
que instituis a crença
no mercado salvador
sabei que a vossa hora
está a chegar
vós, políticos,
que sois uma merda
que deixais os outros na merda
que fazeis do mundo uma merda
sabei que a vossa hora
está a chegar...

NIETZSCHE


Dou caça aos homens, como um verdadeiro corsário, não para os vender como escravos, mas para os levar comigo para a liberdade.

UTOPIA


Utopia
(José Afonso)

Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?

Tuesday, December 16, 2008

A SOCIEDADE DA CRIAÇÃO


A Sociedade da Criação


Vivemos numa sociedade em que o dinheiro é Deus, uma sociedade de mercadores, de especuladores, onde somos reduzidos à condição de mercadorias que se trocam no mercado global.


A organização social capitalista conduz a que aqueles que são explorados se guerreiem uns com os outros, se invejem, se entreguem à competição desenfreada e a que adoptem uma atitude derrotista face à transformação da sociedade.


À sociedade da morte devemos opor, como propõe Raoul Vaneigen, uma sociedade que exalte a vida. Uma sociedade assente no humanitarismo e no desejo, no amor e não no ódio, que acabe com o dinheiro e com o mercado.


Uma sociedade assente na criação poética que vá de encontro à idade do ouro em que a vida era, nas palavras de Rimbaud, "um banquete em que todos os corações se abriam e em que todos os vinhos corriam".


E acrescenta Henry Miller: "não há alegria comparável à do criador, do poeta, porque a criação não tem outra finalidade para além de si própria".


E esse poeta é um xamã, um feiticeiro dionisíaco que canta e dança, que faz da arte uma festa e que torna ridícula a sociedade capitalista.

Friday, December 12, 2008

DADA


Formado em 1916 em Zurique por jovens franceses e alemães que, se tivessem permanecido em seus respectivos países, teriam sido convocados para o serviço militar, o Dada foi um movimento de negação. Durante a Primeira Guerra Mundial, artistas de várias nacionalidades, exilados na Suíça, eram contrários ao envolvimento dos seus próprios países na guerra.


Fundaram um movimento literário para expressar suas decepções em relação a incapacidade da ciências, religião, filosofia que se revelaram pouco eficazes em evitar a destruição da Europa. A palavra Dada foi descoberta acidentalmente por Hugo Ball e por Tzara Tristan num dicionário alemão-francês. Dada é uma palavra francesa que significa na linguagem infantil "cavalo de pau". Esse nome escolhido não fazia sentido, assim como a arte que perdera todo o sentido diante da irracionalidade da guerra.


Sua proposta é que a arte ficasse solta das amarras racionalistas e fosse apenas o resultado do automatismo psíquico, selecionado e combinando elementos por acaso. Sendo a negação total da cultura, o Dadaísmo defende o absurdo, a incoerência, a desordem, o caos. Politicamente , firma-se como um protesto contra uma civilização que não conseguiria evitar a guerra.

Ready-Made significa confeccionado, pronto. Expressão criada em 1913 pelo artista francês Marcel Duchamp para designar qualquer objeto manufaturado de consumo popular, tratado como objeto de arte por opção do artista.

O fim do Dada como atividade de grupo ocorreu por volta de 1921.

Principais artistas:

Marcel Duchamp (1887-1968), pintor e escultor francês, sua arte abriu caminho para movimentos como a pop art e a op art das décadas de 1950 e 1960. Reinterpretou o cubismo a sua maneira, interessando-se pelo movimento das formas.
O experimentalismo e a provocação o conduziram a idéias radicais em arte, antes do surgimento do grupo Dada (Zurique, 1916). Criou os ready-mades, objetos escolhidos ao acaso, e que, após leve intervenção e receberem um título, adquiriam a condição de objeto de arte.
Em 1917 foi rejeitado ao enviar a uma mostra um urinol de louça que chamou de "Fonte". Depois fez interferências (pintou bigodes na Mona Lisa, para demonstrar seu desprezo pela arte tradicional), inventou mecanismos ópticos.





François Picabia (1879-1953), pintor e escritor francês. Envolveu-se sucessivamente com os principais movimentos estéticos do início do século XX, como cubismo, surrealismo e dadaísmo. Colaborou com Tristan Tzara na revista Dada.
Suas primeiras pinturas cubistas, eram mais próximas de Léger do que de Picasso, são exuberantes nas cores e sugerem formas metálicas que se encaixam umas nas outras. Formas e cores tornaram-se a seguir mais discretas, até que por volta de 1916 o artista se concentrou nos engenhos mecânicos do dadaísmo, de índole satírica. Depois de 1927, abandonou a abstração pura que praticara por anos e criou pinturas baseadas na figura humana, com a superposição de formas lineares e transparentes.




Max Ernest (1891-1976), pintor alemão, adepto do irracional e do onírico e do inconsciente, esteve envolvido em outros movimentos artísticos, criando técnicas em pintura e escultura. No Dadaímo contribuiu com colagens e fotomontagens, composições que sugerem a múltipla identidade dos objetos por ele escolhidos para tema. Inventou técnicas como a decalcomania e o frottage, que consiste em aplicar uma folha de papel sobre uma superfície rugosa, como a madeira de veios salientes, e esfregar um lápis de cor ou grafita, de modo que o papel adquira o aspecto da superfície posta debaixo dele. Como o artista não tinha controle sobre o quadro que estava criando, o frottage também era considerado um método que dava acesso ao inconsciente.



Man Ray (1890-1976), fotógrafo e pintor norte-americano, em 1915 conhece o pintor francês Marcel Duchamp, com quem funda o grupo dadá nova-iorquino. Em 1921 contata com o movimento surrealista na pintura. Trabalha como fotógrafo para financiar a pintura e, com a nova atividade, desenvolve a sua arte, a raiografia, ou fotograma, criando imagens abstratas (obtidas sem o auxílio da câmara) mas com a exposição à luz de objetos previamente dispersos sobre o papel fotográfico.






Autoras: Simone R. Martins e Margaret H. Imbroisi www.historiadaarte.com.br©
Design: Márcio Lopes

Thursday, December 11, 2008

COMUNICADO DO GRUPO SURREALISTA DE ATENAS


O ESPECTRO DA LIBERDADE SURGE SEMPRE COM UMA FACA NOS DENTES


O nec plus ultra da opressão social está a ser atingido a sangue frio.
Todas as pedras arrancadas do pavimento e atiradas contra os escudos da bófia ou contra as fachadas dos templos comerciais, todas as garrafas flamejantes que traçam suas órbitas no céu nocturno, todas as barricadas erguidas nas ruas das cidades, separando a nossa área da deles, todos os caixotes do lixo do consumo que, graças ao fogo da revolta, tornaram-se Algo saindo do Nada, todos os punhos erguidos sob a Lua, são as armas dando carne, assim como a força verdadeira, não só à resistência como também à liberdade. E é precisamente o sentimento da liberdade que, nesses momentos, é a única coisa em que vale a pena apostar: aquele sentimento das manhãs esquecidas da infância, quando tudo pode acontecer, porque fomos nós, como seres humanos criativos, que despertámos, e não aquelas futuras máquinas humanas produtivas conhecidas como “sujeito obediente”, “estudante”, “trabalhador alienado”, “proprietário”, “mulher ou homem de família”. O sentimento de enfrentar os inimigos da liberdade – de não mais os temer.




É portanto com boas razões que estão preocupados, aqueles que desejam continuar com a sua azáfama como se nada estivesse a acontecer, como se nada tivesse acontecido. O espectro da liberdade surge sempre com a faca nos dentes, com a vontade violenta de quebrar as cadeias, todas aquelas cadeias que tornam a vida uma miserável repetição, servindo para reproduzir as relações sociais reinantes. No entanto desde Sábado, 6 de Dezembro, as cidades do país não estão a funcionar correctamente: nenhuma terapia de compras, nenhuma abertura de estradas para nos levar para o trabalho, nenhumas notícias sobre as próximas iniciativas governamentais de recuperação da economia, nenhuma mudança tranquila de uma telenovela para outra, nenhuma condução nocturna à volta da Praça Syntagma, etc, etc, etc. Estes dias e estas noites não pertencem aos mercadores, comentadores de TV, ministros e bófia: Estes dias e estas noites pertencem ao Alexis!




Como surrealistas estamos nas ruas desde o início, juntamente com milhares de outros, em revolta e solidariedade; pois o surrealismo nasceu com o hálito da rua, e não tenciona abandoná-la jamais. Após a resistência massiva ante os assassinos do estado, o hálito da rua tornou-se ainda mais cálido, mais hospitaleiro e criativo que antes. Não é da nossa competência propor uma linha geral ao movimento. No entanto assumimos a nossa responsabilidade na luta comum, já que é uma luta pela liberdade. Sem ter que concordar com todos os aspectos deste fenómeno de massas, sem sermos partidários do ódio cego e da violência pela violência, aceitamos que este fenómeno existe por um bom motivo.




Não deixemos este hálito flamejante de poesia atenuar-se ou extinguir-se.




Tornemo-lo numa utopia concreta: transformar o mundo e mudar a vida!


Nenhuma paz com a bófia e seus mandantes!





Todos para as ruas!




Aqueles que não sentem a raiva que se calem!



http://velha-toupeira.blogspot.com

Tuesday, December 09, 2008

WE WANT THE WORLD AND WE WANT IT...NOW!


Talvez da Grécia venha algo de novo. Talvez da Grécia venha a revolução. O assassinato do rapaz de 15 anos pela polícia reacendeu tochas que pareciam apagadas. A tocha do anti-autoritarismo, a tocha do anti-capitalismo, traduzida na fúria contra os bancos e as bolsas, os verdadeiros culpados da crise capitalista. Em Atenas queimam-se automóveis, lojas, bancos, e põem-se a nu os podres dos "gestores" que acumulam cargos e rapinas nas empresas e bancos da crise. A revolta grega, despoletada por grupos anarquistas, é o grito daqueles que dizem basta a um mundo que promove a morte: a morte das relações humanas livres e autênticas, a morte dos sentimentos, a morte das pulsões vitais, a morte da fraternidade, a morte da criatividade, a morte do Homem. A revolta grega é o grito pela vida, o grito dos que se fartaram de esperar, o grito dos que pouco ou nada têm a perder. We Want the World and We Want it...Now! Tal como em 68 não são os jovens dos subúrbios nem os operários que se começam por se revoltar mas sim os filhos da burguesia, os estudantes. We Want the World and We Want it...Now! Queremos o mundo mas queremo-lo agora! Agora, tem que ser agora. Não há tempo a perder. É a vida que nos empurra. Não há dúvidas nem hesitações. A frase de Jim Morrison volta a soar, a bater, insistente, perfurante, dilacerante. We Want the World and We Want it...Now! Todas as missas chegaram ao fim, todas as máscaras se desmascaram, todas as infâncias vêm dar aqui, todas as convicções são postas à prova, uma nova era começa aqui. Este é o princípio do fim do capitalismo.

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS

Declaração Universal dos Direitos humanos
Preâmbulo
Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo;

Considerando que o desconhecimento e o desprezo dos direitos humanos conduziram a actos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar e de crer, libertos do terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta inspiração humanos;

Considerando que é essencial a protecção dos direitos humanos através de um regime de direito, para que o homem não seja compelido, em supremo recurso, à revolta contra a tirania e a opressão;

Considerando que é essencial encorajar o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações;

Considerando que, na Carta, os povos das Nações Unidas proclamam, de novo, a sua fé nos direitos fundamentais humanos, na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade de direitos dos homens e das mulheres e se declararam resolvidos a favorecer o progresso social e a instaurar melhores condições de vida dentro de uma liberdade mais ampla;

Considerando que os Estados membros se comprometeram a promover, em cooperação com a Organização das Nações Unidas, o respeito universal e efectivo dos direitos humanos e das liberdades fundamentais;

Considerando que uma concepção comum destes direitos e liberdades é da mais alta importância para dar plena satisfação a tal compromisso:

A Assembléia Geral proclama a presente Declaração Universal
dos Direitos humanos como ideal comum a atingir por todos os povos e todas as nações, a fim de que todos os indivíduos e todos os órgãos da sociedade, tendo-a constantemente no espírito, se esforcem, pelo ensino e pela educação, por desenvolver o respeito desses direitos e liberdades e por promover, por medidas progressivas de ordem nacional e internacional, o seu reconhecimento e a sua aplicação universais e efectivos tanto entre as populações dos próprios Estados membros como entre as dos territórios colocados sob a sua jurisdição.

Artigo 1°
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.

Artigo 2°
Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação.
Além disso, não será feita nenhuma distinção fundada no estatuto político, jurídico ou internacional do país ou do território da naturalidade da pessoa, seja esse país ou território independente, sob tutela, autónomo ou sujeito a alguma limitação de soberania.

Artigo 3°
Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Artigo 4°
Ninguém será mantido em escravatura ou em servidão; a escravatura e o trato dos escravos, sob todas as formas, são proibidos.

Artigo 5°
Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes.

Artigo 6°
Todos os indivíduos têm direito ao reconhecimento, em todos os lugares, da sua personalidade jurídica.

Artigo 7°
Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual protecção da lei. Todos têm direito a protecção igual contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.

Artigo 8°
Toda a pessoa tem direito a recurso efectivo para as jurisdições nacionais competentes contra os actos que violem os direitos fundamentais reconhecidos pela Constituição ou pela lei.

Artigo 9°
Ninguém pode ser arbitrariamente preso, detido ou exilado.

Artigo 10°
Toda a pessoa tem direito, em plena igualdade, a que a sua causa seja equitativa e publicamente julgada por um tribunal independente e imparcial que decida dos seus direitos e obrigações ou das razões de qualquer acusação em matéria penal que contra ela seja deduzida.

Artigo 11°
Toda a pessoa acusada de um acto delituoso presume-se inocente até que a sua culpabilidade fique legalmente provada no decurso de um processo público em que todas as garantias necessárias de defesa lhe sejam asseguradas.
Ninguém será condenado por acções ou omissões que, no momento da sua prática, não constituíam acto delituoso à face do direito interno ou internacional. Do mesmo modo, não será infligida pena mais grave do que a que era aplicável no momento em que o acto delituoso foi cometido.
Artigo 12°
Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação. Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito a protecção da lei.

Artigo 13°
Toda a pessoa tem o direito de livremente circular e escolher a sua residência no interior de um Estado.
Toda a pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar ao seu país.
Artigo 14°
Toda a pessoa sujeita a perseguição tem o direito de procurar e de beneficiar de asilo em outros países.
Este direito não pode, porém, ser invocado no caso de processo realmente existente por crime de direito comum ou por actividades contrárias aos fins e aos princípios das Nações Unidas.
Artigo 15°
Todo o indivíduo tem direito a ter uma nacionalidade.
Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua nacionalidade nem do direito de mudar de nacionalidade.
Artigo 16°
A partir da idade núbil, o homem e a mulher têm o direito de casar e de constituir família, sem restrição alguma de raça, nacionalidade ou religião. Durante o casamento e na altura da sua dissolução, ambos têm direitos iguais.
O casamento não pode ser celebrado sem o livre e pleno consentimento dos futuros esposos.
A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à protecção desta e do Estado.
Artigo 17°
Toda a pessoa, individual ou colectivamente, tem direito à propriedade.
Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua propriedade.
Artigo 18°
Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos.

Artigo 19°
Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e idéias por qualquer meio de expressão.

Artigo 20°
Toda a pessoa tem direito à liberdade de reunião e de associação pacíficas.
Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.
Artigo 21°
Toda a pessoa tem o direito de tomar parte na direcção dos negócios, públicos do seu país, quer directamente, quer por intermédio de representantes livremente escolhidos.
Toda a pessoa tem direito de acesso, em condições de igualdade, às funções públicas do seu país.
A vontade do povo é o fundamento da autoridade dos poderes públicos: e deve exprimir-se através de eleições honestas a realizar periodicamente por sufrágio universal e igual, com voto secreto ou segundo processo equivalente que salvaguarde a liberdade de voto.
Artigo 22°
Toda a pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social; e pode legitimamente exigir a satisfação dos direitos económicos, sociais e culturais indispensáveis, graças ao esforço nacional e à cooperação internacional, de harmonia com a organização e os recursos de cada país.

Artigo 23°
Toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições equitativas e satisfatórias de trabalho e à protecção contra o desemprego.
Todos têm direito, sem discriminação alguma, a salário igual por trabalho igual.
Quem trabalha tem direito a uma remuneração equitativa e satisfatória, que lhe permita e à sua família uma existência conforme com a dignidade humana, e completada, se possível, por todos os outros meios de protecção social.
Toda a pessoa tem o direito de fundar com outras pessoas sindicatos e de se filiar em sindicatos para defesa dos seus interesses.
Artigo 24°
Toda a pessoa tem direito ao repouso e aos lazeres, especialmente, a uma limitação razoável da duração do trabalho e as férias periódicas pagas.

Artigo 25°
Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na doença, na invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de meios de subsistência por circunstâncias independentes da sua vontade.
A maternidade e a infância têm direito a ajuda e a assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozam da mesma protecção social.
Artigo 26°
Toda a pessoa tem direito à educação. A educação deve ser gratuita, pelo menos a correspondente ao ensino elementar fundamental. O ensino elementar é obrigatório. O ensino técnico e profissional dever ser generalizado; o acesso aos estudos superiores deve estar aberto a todos em plena igualdade, em função do seu mérito.
A educação deve visar à plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos humanos e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos, bem como o desenvolvimento das actividades das Nações Unidas para a manutenção da paz.
Aos pais pertence a prioridade do direito de escholher o género de educação a dar aos filhos.
Artigo 27°
Toda a pessoa tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar no progresso científico e nos benefícios que deste resultam.
Todos têm direito à protecção dos interesses morais e materiais ligados a qualquer produção científica, literária ou artística da sua autoria.
Artigo 28°
Toda a pessoa tem direito a que reine, no plano social e no plano internacional, uma ordem capaz de tornar plenamente efectivos os direitos e as liberdades enunciadas na presente Declaração.

Artigo 29°
O indivíduo tem deveres para com a comunidade, fora da qual não é possível o livre e pleno desenvolvimento da sua personalidade.
No exercício destes direitos e no gozo destas liberdades ninguém está sujeito senão às limitações estabelecidas pela lei com vista exclusivamente a promover o reconhecimento e o respeito dos direitos e liberdades dos outros e a fim de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar numa sociedade democrática.
Em caso algum estes direitos e liberdades poderão ser exercidos contrariamente aos fins e aos princípios das Nações Unidas.
Artigo 30°

Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada de maneira a envolver para qualquer Estado, agrupamento ou indivíduo o direito de se entregar a alguma actividade ou de praticar algum acto destinado a destruir os direitos e liberdades aqui enunciados.

Monday, December 08, 2008

REVOLUÇÕES EUFÓRICAS


"As revoluções eufóricas são muito sonoras,
vêm para a rua, fazem a festa,
deitam foguetes,
apanham as canas e vão-se embora.
O totalitarismo, não.
Deitamo-nos descansados,
embalados na lenda da Bela Adormecida,
e, quando acordamos,
já os gajos estão instalados."

Laura "Bouche" (Séc. XXI)

Sunday, December 07, 2008

CITAÇÕES

"A arte e nada além da arte. Temos
a arte para não sermos mortos pela verdade."
N i e t z s c h e

"Stavróguin: - Você acredita na vida eterna no
outro mundo? Kirílov: - Não, na vida eterna neste aqui."
D o s t o i e v s k i

"Ó minha alma, não aspira à imortalidade:
esgota o campo do possível."
P í n d a r o

Friday, December 05, 2008

NIETZSCHE


Os grandes intelectuais são cépticos.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

A vida mais doce é não pensar em nada.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Temos a arte para não morrer da verdade.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Até Deus tem um inferno: é o seu amor pelos homens.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Querer a verdade é confessar-se incapaz de a criar.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

A vida vai ficando cada vez mais dura perto do topo.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Não há fatos eternos,como não há verdades absolutas.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Saber é compreendermos as coisas que mais nos convém.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Há uma exuberância na bondade que parece ser maldade.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

O castigo foi feito para melhorar aquele que o aplica.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

É pelas próprias virtudes que se é mais bem castigado.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

A recompensa final dos mortos é não morrer nunca mais.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

A música oferece às paixões o meio de obter prazer delas.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

É difícil viver com as pessoas porque calar é muito difícil.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Na vingança e no amor a mulher é mais bárbara do que o homem.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Não posso acreditar num Deus que quer ser louvado o tempo todo.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Você precisa de uma alma caótica para deixar nascer um bailarino
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Quanto mais me elevo, menor fico aos olhos de quem não sabe voar.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

O casamento põe fim a breves loucuras - sendo uma longa estupidez.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Você vive hoje uma vida que gostaria de viver por toda a eternidade?
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Tudo é precioso para aquele que foi, por muito tempo, privado de tudo.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

A moralidade é a melhor de todas as regras para orientar a humanidade.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

É mais fácil lidar com uma má consciência do que com uma má reputação.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

O macaco é um animal demasiado simpático para que o homem descenda dele.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

O inimigo mais perigoso que você poderá encontrar será sempre você mesmo.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Só se pode alcançar um grande êxito quando nos mantemos fiéis a nós mesmos.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeira companhia.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Em última análise, amam-se os nossos desejos, e não o objecto desses desejos.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Culpamos as pessoas das quais não gostamos pelas gentilezas que nos demonstram.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Começamos a desconfiar das pessoas muito inteligentes quando ficam embaraçadas.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Logo que, numa inovação, nos mostram alguma coisa de antigo, ficamos sossegados.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Quem, em prol da sua boa reputação, não se sacrificou já uma vez - a si próprio?
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

A ideia do suicídio é uma grande consolação: ajuda a suportar muitas noites más.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

O homem é definido como um ser que evolui, como o animal é imaturo por excelência.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

É mais difícil ferir a nossa vaidade justamente quando foi ferido o nosso orgulho.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Logo que comunicamos os nossos conhecimentos, deixamos de gostar deles suficientemente.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Para a maioria,quão pequena é a porção de prazer que basta para fazer a vida agradável!
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

O esforço dos filósofos tende a compreender o que os contemporâneos se contentam em viver.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Não é a intensidade dos sentimentos elevados que faz os homens superiores, mas a sua duração.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

O homem precisa daquilo que em si há de pior se pretende alcançar o que nele existe de melhor.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Não se odeia quando pouco se preza, odeia-se só o que está à nossa altura ou é superior a nós.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

O verdadeiro homem quer duas coisas: perigo e jogo. Por isso quer a mulher: o jogo mais perigoso.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

O amor é o estado no qual os homens têm mais probabilidades de ver as coisas tal como elas não são.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Muitos são os obstinados que se empenham no caminho que escolheram, poucos os que se empenham no objetivo.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

O que o pai calou aparece na boca do filho, e muitas vezes descobri que o filho era o segredo revelado do pai.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Todos vós, que amais o trabalho desenfreado (…), o vosso labor é maldição e desejo de esquecerdes quem sois.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Não há fatos eternos,como não há verdades absolutas.
( Frases e Pensamentos de Friedrich Nietzsche)e

A vida vai ficando cada vez mais dura perto do topo.
( Frases e Pensamentos de Friedrich Nietzsche)

A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte
( Friedrich Nietzsche)

Você precisa de uma alma caótica para deixar nascer um bailarino
( Friedrich Nietzsche)

Quando se amarra bem o próprio coração e se faz dele um prisioneiro, pode-se permitir ao próprio espírito muitas liberdades.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

A grandeza do homem consiste em que ele é uma ponte e não um fim; o que nos pode agradar no homem é ele ser transição e queda.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Uma alma que se sabe amada, mas que por sua vez não ama, denuncia o seu fundo: - vem á superfície o que nela há de mais baixo.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

O casamento põe fim a breves loucuras – sendo uma longa estupidez.
( Frases e Pensamentos de Friedrich Nietzsche) Mensagem sobre Casamento

A objecção, o desvio, a desconfiança alegre, a vontade de troçar são sinais de saúde: tudo o que é absoluto pertence à patologia.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Para a maioria,quão pequena é a porção de prazer que basta para fazer a vida agradável!
( Frases e Pensamentos de Friedrich Nietzsche) Mensagem sobre Prazer

Nós fazemos acordados o que fazemos nos sonhos: primeiro inventamos e imaginamos o homem com quem convivemos - para nos esquecermos dele em seguida.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Uma vez tomada a decisão de não dar ouvidos mesmo aos melhores contra-argumentos: sinal do caráter forte. Também uma ocasional vontade de se ser estúpido.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Perdido seja para nós aquele dia em que não se dançou nem uma vez! E falsa seja para nós toda a verdade que não tenha sido acompanhada por uma gargalhada!
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

As mulheres podem tornar-se facilmente amigas de um homem; mas, para manter essa amizade, torna-se indispensável o concurso de uma pequena antipatia física.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

A vontade é impotente perante o que está para trás dela. Não poder destruir o tempo, nem a avidez transbordante do tempo, é a angústia mais solitária da vontade.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

O amor revela as qualidades sublimes e ocultas do que ama, - o que nele há de raro, de excepcional: nesse aspecto facilmente engana quanto ao que nele há de habitual.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Encontra-se sempre, aqui e ali, algum semi-deus que consegue viver em condições terríveis, e viver vencedor! Quereis ouvir os seus cantos solitários? Escutai a música de Beethoven.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Sou demasiado orgulhoso para acreditar que um homem me ame: seria supor que ele sabe quem sou eu. Também não acredito que possa amar alguém: pressuporia que eu achasse um homem da minha condição.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

A filosofia é uma patologia superior.
( Frases e Pensamentos de Friedrich Hebbel )

No convívio com sábios e artistas facilmente nos enganamos no sentido oposto: não é raro encontrarmos por detrás dum sábio notável um homem medíocre, e muitas vezes por detrás de um artista medíocre - um homem muito notável.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Cristo morreu cedo demais. Se tivesse vivido até a minha época, ele teria repudiado a sua doutrina.
(NIETZSCHE)

Thursday, December 04, 2008

THOREAU

Porque, para Thoreau, a verdadeira transformação é pessoal, interior, totalmente individual, correspondendo à descoberta da divindade em cada pessoa como elemento indissociável da Natureza.

Júlio Henriques

Tuesday, December 02, 2008

NIETZSCHE

O Super Homem (Übermensch)
E assim falou Zarathustra ao povo:

"Mostro-vos o super-homem. O homem é algo que deve ser sobrepujado. Que tendes feito para sobrepujá-lo ? "Todos os seres até hoje criaram alguma coisa superior a si mesmos; e vós quereis ser o refluxo deste grande fluxo e até mesmo retroceder às bestas, em vez de superar o homem?"

Friedrich Nietzsche, "Prólogo de Zarathustra" Assim falou Zarathustra (1883)

O Übermensch de Friedrich Nietzsche sofreu uma das mais espantosas transformações culturais -- de homem estóico, não convencional, a Homem de Aço. Os quadrinhos criados por Siegel e Shuster, pouco têm em comum com o original de Nietzsche, além do nome, e até mesmo aí diferem. "Übermensch" literalmente significa "sobre-humano", não "super-homem", embora o último termo seja usado nas traduções mais antigas de Assim falou Zarathustra, e tenha sido utilizado por George Bernard Shaw em Homem e Super-homem.

O personagem que prega o "sobre-humano" é Zarathustra (também conhecido como Zoroastro), um profeta Persa do sexto século a.C., que atua como máscara profética/poética de Nietzsche. Contrariamente ao que você poderia pensar, Zarathustra não está falando de um super intelecto imerso em uma massa de músculos ou de qualquer outro "evoluído" espécime da humanidade. Na verdade, todos nós, homens e mulheres (mensch -- ser humano -- é do gênero neutro) somos super-homens potenciais. Para isso, não precisamos de mais ginástica ou de algum elixir da inteligência, mas de coragem e vontade, já que nossos maiores obstáculos são o medo e o hábito.

No alicerce do conceito de Nietzsche está o que ele chama de "inclinação para o poder", que para ele é a força motivadora básica de todas as coisas viventes. "Poder" não significa força bruta, ou dominação sobre outros, e sim algo próximo a "destemor". Desde que somos primariamente motivados pelo desejo de poder, aquilo que mais admiramos ou imitamos é o que deve melhor representar esse poder. Tais coisas (afirma Nietzsche) são auto-harmonia, autocontrole e auto-realização -- exemplificadas, por exemplo, por Sócrates calmamente tomando a taça de cicuta.

De um modo geral, estamos bem aquém desse Übermensch ideal. Longe de sermos senhores de nós mesmos, somos motivados principalmente pelo medo, pelos hábitos, superstições, ressentimentos e tudo o mais que compõe a "mentalidade de escravo". Desde que nascemos, somos treinados pela família, pela igreja e pela escola, para nos submetermos a regras e leis, agir segundo o padrão, acreditar em superstições, e nos escravizarmos a vários senhores. Cada coisa atribuída à "natureza humana" é na verdade apenas hábito. Crescemos preguiçosos e receosos de desafios e perigos, entorpecidos para as inspirações de nossa consciência interior.

Um mundo sem padrões de costumes ou sem alguém a quem obedecer é assustador, mas a alternativa é a escravidão e a alienação. Podemos nos render à sociedade ou podemos superar nosso medo e nos tornarmos criadores, em vez de meras criaturas. Criar é construir seu próprio entendimento do mundo, que de fato é caótico e está sempre mudando; ser criatura é submeter-se ao entendimento dos outros. Toda linguagem, do ponto de vista de Nietzsche, é uma interpretação mais ou menos inspirada, um tipo de "mentira". Se a linguagem engana, então é melhor -- mais verdadeiro para nós mesmos -- construirmos nossos próprios enganos. Isso é o que significa ser "super-homem".

O que não significa que devamos, por nossa vez, simplesmente nos tornarmos escravizadores. Tirania é o resultado, não de autonomia, mas de frustração: é simplesmente a expressão de mais ressentimento. O homem superior, em vez disso, vive a vida sem ressentimentos, e está realmente pronto, se a situação assim o exigir, para servir, bem como para liderar. (Para a maioria de nós, servir é algo parecido com escravidão). Controlando suas paixões e canalizando sua vontade, este ser que está acima do humano cria arte e filosofia, assegurando vida, alegria e todas as coisas boas.

Wednesday, November 26, 2008

PROFESSORES: CLASSE REVOLUCIONÁRIA


OS PROFESSORES CONSTITUEM UMA CLASSE REVOLUCIONÁRIA


Os professores entram no metro na ressaca da manifestação. Os professores manifestam-se a toda a hora. As professoras boas excitam-me. A Gotucha também é professora, é boa e bonita e está na Madeira. Estou a ponderar juntar-me às manifestações dos professores. O sindicato até publicou um texto meu na revista. Ao menos os professores manifestam-se. Tudo o que for mau para o Sócrates é bom para mim. O Sócrates e a ministra da Educação estão do lado da morte, logo os professores estão do lado da vida, ou seja, do meu lado. A luta dos professores não é uma luta meramente sectorial ou corporativa, a luta dos professores é uma luta pela vida, pelas pulsões vitais, pela dignidade, contra a prepotência, pela verdade. Os professores constituem uma classe revolucionária. Especialmente as professoras boas e bonitas.

PARTIDO SURREALISTA SITUACIONISTA LIBERTÁRIO

Tuesday, November 25, 2008

O BANQUETE PERMANENTE


O BANQUETE PERMANENTE


E é a Nietzsche e a Morrison que volto sempre. É o rugido do leão: "Eu quero!" que me empurra para a vida. "Queremos o mundo e exigimo-lo, agora!". É este mundo que nós queremos, não o mundo do além das religiões. Queremos o céu na Terra, como dizia Henry Miller. Aqui e agora! Não podemos esperar pelo amanhã. É a pulsão vital que nos chama aqui e agora, não vamos esperar mais mil anos, não vamos esperar pelo amanhã que canta. Queremos a revolução, aqui e agora! Que se foda o futuro! Não somos seguidores dos economistas nem do ministro das Finanças que nos prometem dias melhores. Estamos fartos de promessas. Não podemos cair nas suas patranhas de profetas da morte. É o aqui e agora, é a vida aqui e agora que queremos. "Estamos fartos de esperar, cansados de tantos rodeios", cantou o Jim Morrison. Não seguimos ninguém mas também não queremos conduzir nem governar ninguém. Não precisamos de governos nem de Estados. Seguimos o caminho que conduz a nós mesmos, gostamos de vadiar, de andar sem direcção definida, de criar sem disciplina. Detestamos o rebanho, os que seguem um chefe, um Estado, uma lei, um mercado. Procuramos o super-homem, o menino, o bailarino, o deus que dança. Nada temos a ver com o quotidiano mesquinho e castrador do deus-dinheiro. Somos poetas, criadores, "caminheiros dos céus". Celebramos a vida, queremos que a vida seja um banquete permanente. Celebramos a mulher, a sensualidade, a volúpia, desconfiamos dos castradores, dos moralistas. Não somos moderados como os filósofos de Platão, não fomos feitos para governar nem para dirigir. Pregamos o amor mas também a raiva. Subimos ao palco como subimos à montanha. Comunicamos com os deuses e com os espíritos mas é este mundo que nós queremos.

Saturday, November 15, 2008

JIM MORRISON


E aí Jim, o que foi que você disse mesmo?


"Eu Sou o Rei Lagarto, Posso fazer Tudo"

"Sou um xamã que tem visões pela tribo e é capaz de curá-la"

"Queria checar os limites da realidade. Estava curioso em ver no que ia dar. Isso é tudo: apenas curiosidade"

"Cancele minha inscrição para a ressurreição, envie minhas credenciais para a casa de detenção, tenho muitos amigos lá"

"Tudo o que é desordem, revolta e caos me interessa; e particularmente as atividades que parecem não ter nenhum sentido. Talvez seja o caminho para a liberdade. A rebelião externa é o único modo de realizar a liberdade exterior"

"Precisamos de grandes e douradas copulações"

"Os filmes são coleções de fotos inanimadas que foram submetidas à inseminação artificial"

"Alguns nascem para o suave deleite, outros para os confins da noite"

"A única obscenidade que conheço é a violência"

"Amigos, sondem o labirinto"

"Quando os verdadeiros assassinos do rei recebem aval para circular livremente, mil magos surgem na terra"

"Somos conduzidos ao massacre por plácidos almirantes. Lerdos e obesos generais tornam-se obscenos pelo sangue jovem"

"Sou um homem de letras"

"Queremos o mundo e o queremos AGORA"

"Estão todos aí? A cerimônia vai começar..."




Webmaster: PABLO ALUÍSIO/Junho de 2000

AINDA NIETZSCHE

Ecce Homo

Sim, sei de onde venho!
Insatisfeito com a labareda
Ardo para me consumir.
Aquilo em que toco torna-se luz,
Carvão aquilo que abandono:
Sou certamente labareda.

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

NIETZSCHE


Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.

Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura.
Friedrich Nietzsche

Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas.
Friedrich Nietzsche

O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte.
Friedrich Nietzsche

As mulheres podem tornar-se facilmente amigas de um homem; mas, para manter essa amizade, torna-se indispensável o concurso de uma pequena antipatia física.
Friedrich Nietzsche

Na vingança e no amor a mulher é mais bárbara do que o homem.
Friedrich Nietzsche

Torna-te aquilo que és.
Friedrich Nietzsche

As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras
Friedrich Nietzsche

O verdadeiro homem quer duas coisas: perigo e jogo. Por isso quer a mulher: o jogo mais perigoso.
Friedrich Nietzsche

O amor é o estado no qual os homens têm mais probabilidades de ver as coisas tal como elas não são.
Friedrich Nietzsche

Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar.
Friedrich Nietzsche

É mais fácil lidar com uma má consciência do que com uma má reputação.
Friedrich Nietzsche

É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela.
Friedrich Nietzsche

A vida vai ficando cada vez mais dura perto do topo.
Friedrich Nietzsche

Sem a música, a vida seria um erro.
Friedrich Nietzsche

Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.
Friedrich Nietzsche

Não posso acreditar num Deus que quer ser louvado o tempo todo.
Friedrich Nietzsche

ASSIM FALAVA ZARATUSTRA


5. Em Assim Falou Zaratustra, no capítulo que abre o livro, "O prólogo de Zaratustra", Zaratustra, então com mais ou menos 30 anos de idade, isola-se do mundo e passa por um processo de autoconhecimento. Dez anos depois, por uma necessidade imperiosa de anunciar o que pensara nos dias de seu resguardo purificador, o personagem decide iniciar o seu ocaso. Ao descer de sua caverna na montanha para dirigir suas palavras aos citadinos, afirma-lhes em praça pública que o homem é algo que deve ser superado e promete-lhes em seguida ensinar a doutrina do super-homem. Assim proclama: “O super-homem é o sentido da terra. Fazei a vossa vontade dizer: ‘Que o super-homem seja o sentido da terra!’ ” (NIETZSCHE, 2006, p. 36). Zaratustra então pede aos seus ouvintes que permaneçam fiéis à terra e não acreditem em nada que seja exterior a ela. Em seus discursos, investe pesado contra os pregadores do cristianismo, os que prometem ganhos para além da terra, isto é, as bem-aventuranças no céu após a morte. Chama-os de envenenadores e desprezadores da vida, “dos quais a terra está cansada” (NIETZSCHE, 2006, p. 36). Um cansaço que, numa leitura crítica e atual, diz muito sobre o colapso que Gaia se vê em pleno século XXI. A terra está cansada não só das palavras vãs e enganadoras a que Nietzsche se referiu na voz de Zaratustra, mas principalmente do modelo técnico-científico a que está imposta, adoecendo para corresponder aos padrões dominadores que têm no consumo um fim em si mesmo. Essa é a delinqüência maior do homem, a de “atribuir mais valor às entranhas do imperscrutável do que ao sentido da terra” (NIETZSCHE, 2006, p. 36). Ir ao encontro do sentido da terra para Zaratustra significa caminhar na direção do super-homem, tão enigmático quanto a própria afirmação do que significa propriamente retomar o sentido da terra. Precisa-se perguntar: o que é o sentido da terra? A sua destruição progressiva através de processos irreversíveis de relacionamento com o real? Ou o respeito por sua própria dinâmica cósmica de estar conjugada com forças que escapam ao homem? Mas se for mesmo preciso retomar esse sentido, por onde começar? Se, no dizer de Zaratustra, era a alma que outrora olhava o corpo como desgrenhado e faminto, que alma é essa de agora que faz da terra um planeta arrasado? Na narrativa de Nietzsche, o super-homem surge como uma esperança num mundo onde não mais importam os melhores valores humanos, como a felicidade, a razão, a virtude, a justiça e a compaixão.

6. Zaratustra conclama a seus ouvintes que “o que há de grande no homem é ser uma ponte, e não meta: o que pode amar-se no homem, é uma transição e um ocaso” (NIETZSCHE, 2006, p. 38). Diz ainda: “Amo aqueles que, para o seu ocaso e sacrifício, não procuram, primeiro, um motivo atrás das estrelas, mas se sacrificam à terra, para que a terra, algum dia, se torne do super-homem” (NIETZSCHE, 2006, p. 38). O motivo atrás das estrelas corresponde na fala de Nietzsche à doutrina platônica das almas e seus desdobramentos neoplatônicos e cristãos. Curioso é que, atualmente, podemos ver que a busca desesperada de salvar a terra do desconforto da escassez de água faz com que cientistas de nossa época especulem cada vez mais sobre a existência desse líquido vital em outros planetas. Esse fato, que habita os noticiários de nosso tempo, nos informa sobre a busca de uma esperança de vida que esteja além da terra. Corresponde a uma insistência em ver a realidade, mesmo que a interplanetária, como mera disponibilidade de recursos a serem usados pelo homem. Fiel à terra, Zaratustra exalta aquele que a prepara para o super-homem e nela inventa o melhor modo de construir sua casa. Seu discurso é o do amor. Zaratustra ama as almas transbordantes e os corações livres. O homem, comparado a uma negra nuvem com suas pesadas gotas de chuva, é quem pode liberar o raio iluminador. Zaratustra se diz o prenunciador desse raio que se chama super-homem: “Já é tempo de o homem estabelecer a sua meta. Já é tempo de o homem plantar a semente da sua mais alta esperança. Seu solo ainda é bastante rico para isso. Mas algum dia, esse solo estará pobre e esgotado, e nenhuma árvore poderá mais crescer nele” (NIETZSCHE, 2006, p. 40).

7. Plantar uma semente é uma metáfora que une terra e homem. Unidos, serão férteis. Separados, permanecerão estéreis. Que é o homem sem o cultivar? Explorar a terra até o seu cansaço ou prepará-la para receber sua doação? Ambientalistas do mundo inteiro se vêem em meio a uma devastação generalizada. O homem se apequena. Os avisos soam como um ultimato. Será esse o último homem a que Zaratustra se refere? Sem ser levado a sério pelos homens, Zaratustra se recolhe ante à multidão e conclui que sua fala não é para ser dirigida ao povo. O curso de seus pensamentos é interrompido por uma série de eventos. Primeiro um morto cai a seus pés. Zaratustra elogia sua coragem, pois esse que morreu estava vivendo o perigo de seu ofício: o de andar equilibrado numa corda estendida num abismo. Zaratustra se vê diante de um cadáver que fora derrubado por um inimigo mortal, fantasiado de palhaço, e pressente os limites de sua missão. Quer falar aos vivos e não aos mortos. Sente que suas anunciações devem ser dirigidas apenas àqueles poucos que lhe derem os ouvidos e que queiram seguí-lo. Uma águia com uma serpente enrolada no pescoço então aparece para ele. São os animais de Zaratustra que, na sua simbologia, representam valores bastante preciosos para a sua jornada. A águia, sendo o animal mais altivo, e a serpente, o mais prudente. Zaratustra pede que os guie. Quer o impossível: a união da altivez com a prudência. Se a prudência por ora lhe abandonar, roga que essa seja substituída pela loucura. O super-homem é um mistério e o raio é como o claro enigma de Nietzsche. O pensador conjuga razão e loucura na voz altiva de Zaratustra. Assim falou Zaratustra: “Onde está o raio que vos lambe com sua língua? Onde, a loucura com que deveríeis ser vacinados? Vede, eu vos ensino o super-homem: porque ele é esse raio e essa loucura!” (NIETZSCHE, 2006, p. 38).

8. Martin Heidegger, entre os anos de 1936 e 1940, deu várias preleções na Universidade de Freiburg tendo como foco o pensamento de Friedrich Nietzsche. Nesses encontros, propôs uma confrontação com a obra nietzscheana. Confrontação para Heidegger é o mesmo que uma crítica autêntica. Repensar o que fora pensado anteriormente e perseguir o sentido das palavras proferidas em sua força e não em sua fraqueza é o que Heidegger entende como um libertar-se para a possibilidade de uma nova abertura. A preleção inicial é sobre A Vontade de Poder, cujo título não diz respeito apenas ao projeto de uma obra capital de Nietzsche, mas significa algo essencial em toda a trajetória do seu pensamento. Afirma Heidegger: “Como o nome para o caráter fundamental de todo ente, a expressão ‘vontade de poder’ dá uma resposta à pergunta sobre o que afinal é o ente. Desde sempre essa é a pergunta da filosofia” (HEIDEGGER, 2007, p. 6).

9. Heidegger destacou três pontos fundamentais na construção da obra filosófica de Nietzsche: o eterno retorno, a vontade de poder e a transvaloração de todos os valores. O pensador diz que em Nietzsche há o co-pertencimento intrínseco desses três pontos. A doutrina da vontade de poder se confunde com a doutrina do eterno retorno e essa unidade, historicamente, pode ser vista como o fator de transvaloração de todos os valores. A vontade de poder como resposta à pergunta diretriz da filosofia – o que é o ente – conjuga-se com a apreensão de Nietzsche a respeito do ser, tido no seu pensamento como devir. Escreveu Nietzsche: “cunhar para o devir o caráter do ser – essa é a mais elevada vontade de poder” (NIETZSCHE apud HEIDEGGER, 2007, ps. 19 e 20).

10. No ensaio "Quem é o Zaratustra de Nietzsche?", a partir de um trecho retirado do capítulo O convalescente, Heidegger reconhece no personagem um porta-voz da vida, da dor e do círculo. Vida é vontade de poder, com a dor que lhe acompanha. O círculo, de forma anelar, por sua vez, configura o eterno retorno do mesmo. Heidegger define numa proposição a essência de Zaratustra. O personagem é o porta-voz de “que todo real é vontade de poder que, enquanto criadora, padece e suporta a vontade que luta consigo mesma e assim se quer a si mesma no eterno retorno do igual” (HEIDEGGER, 2002, p. 89).

11. A vontade de poder, ao estar ligada à pergunta fundamental sobre o ser do ente, corresponde ao “pensamento mais pesado” da filosofia, que é o que a ergue e a destrói. O eterno retorno remete à eternidade e ao instante que essa pergunta se dá. Escreveu Heidegger:

"Eternidade não como um agora estático, nem tampouco como uma seqüência de agoras que se desenrolam até o infinito, mas como um agora que rebate em si mesmo: o que é isso senão a essência velada do tempo? Pensar o ser, a vontade de poder, como eterno retorno, pensar o pensamento mais pesado da filosofia significa pensar o ser como tempo. Nietzsche pensou esse pensamento" (HEIDEGGER, 2007, p. 20).


12. Como se co-pertencem o super-homem e o eterno retorno do mesmo? Sobre o eterno retorno, o “pensamento mais abissal” de Nietzsche, Heidegger, em uma preleção intitulada "Nota sobre o eterno retorno do igual", ressalta que seu entendimento permanece enigmático. O pensador aponta dois caminhos evasivos de compreensão. O primeiro é que o eterno retorno seria uma espécie de mística; no segundo, o eterno retorno seria uma representação já há muito difundida na história do pensamento ocidental. Heidegger diz que o que está a ser pensado a partir do eterno retorno se vela para a metafísica. O pensador relaciona o enigma de Nietzsche com a essência da técnica moderna, atualizando-o, e formula a pergunta: “O que é a essência da máquina moderna senão uma variação do eterno retorno do igual?” (HEIDEGGER, 2002, p. 109).


BIBLIOGRAFIA


HEIDEGGER, Martin. A Origem da Obra de Arte. Tradução de Idalina Azevedo da Silva e Manuel Antônio de Castro. 2006.
--------------------------- Ensaios e Conferências. Traduções de Emmanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel e Márcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes, 2002.
--------------------------- Nietzsche – Vol. 1. Tradução de Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.
MACHADO, Roberto. Zaratustra – tragédia nietzschiana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.
NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra – Um livro para todos e para ninguém. Tradução de Mário da Silva. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2006.
----------------------------- Ecce Homo – Como alguém se torna o que é. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo, Companhia das Letras, 2004.


Postado por André Vinícius Pessôa às 12:40
http://andreviniciuspessoa.blogspot.com

Friday, November 14, 2008

MICHAEL ONFRAY


Uma escola libertária e elitista para todos


Entrevista com o filósofo Michel Onfray


Demissionário do sistema de educação do Ministério da Educação Nacional francês, o filósofo Michel Onfray decidiu fundar, entretanto, a Universidade popular de Caen, como forma de criar um novo Jardim de Epicuro, mas fora das paredes, lançando as bases para uma autêntica «comunidade filosófica» contra o mercantilismo dos saberes.

Nesta entrevista Michel Onfray defende o poder emancipador da pedagogia libertária.

A miséria social e moral das nossas sociedades impõe a necessidade de ensinar a todos um saber alternativo e crítico, até porque muitos intelectuais deixaram de se preocupar em tornar popular, o saber filosófico.

Le Monde de L’Éducation - Na sua obra «La Communauté philosophique» (Galilée, 2004) você escreve que «o pedagogo libertário trabalha para o seu apagamento pessoal, e cultiva o poder interrogativo de toda a subjectividade». Porque é que este poder se encontra esgotado no aparelho escolar, quando ainda existem certos professores que conseguem despertar e responder ao desejo de saber dos alunos?

Michel Onfray - A instituição escolar é esquizofrénica: ela tem um discurso, mas leva a cabo uma prática nos antípodas daquele discurso. O discurso é este: a escola forma a inteligência, constrói indivíduos cultivados cujo saber lhes permitiria desenvolver juízos esclarecidos, ensina a ler, a escrever, a fazer contas, a pensar, ela formaria o cidadão ao educá-lo para a liberdade. Mas, a verdade, é que na prática ela negligencia a inteligência para privilegiar o exercício da memória e da repetição calibrado em função de um programa feito para isso. A educação nacional ensina sobretudo a submissão, a docilidade, a hipocrisia, o artificial. Só assim se pode explicar que num curso de 7 anos de inglês se consiga fazer tão poucos jovens bilingues. O que é que se aprende durante aquelas intermináveis horas de aprendizagem de línguas senão a arte de bem funcionar dentro da máquina que permita a passagem para o ensino superior, e a produção de diplomas úteis para o mundo da integração social.

Le Monde de L’Éducation - Qual é a genealogia dessa pedagogia libertária que você defende? Estaria no prosseguimento de uma linha que vai de Epicuro a Freinet?

Michel Onfray - Se o termo libertário significar «o que educa a liberdade», ou «o que faz da liberdade o bem supremo», sem dúvida, que poderíamos começar com Sócrates e a sua maiêutica, a sua arte de desenvolver as potencialidades de cada qual e torná-las em realidades tangíveis, podemos depois continuar com Diógenes e os filósofos cínicos que usam um bastão para mandar embora os que procuram um mestre e a submissão. Prosseguimos com Erasmo, o grande e imenso Erasmo, e, certamente, Montaigne, que tanto lhe deve, para falar de várias matérias, como a Educação e tantas outras. Passamos depois para Nietzsche que ensina que um bom mestre é aquele que aprende aquilo que se desprende de si. Seria preciso ainda de falar , com certeza, dos autores libertários, que a história conheceu, como Max Stirner e o seu «Falso Princípio da Nossa Educação», Sébastien Faure, que aplicou o seu método em La Ruche, mas ainda A.S. Neill e os seus « Jovens livres de Summerhill» que me fizeram desejar tornar-me professor antes de me desiludir na Escola Superior de Educação. Seria ainda preciso acrescentar o excelente livro «Advertência aos estudantes e liceais» de Raoul Vaneigem.


Le Monde de L’Éducation - Uma certa concepção da pedagogia libertária - nomeadamente a que defende a espontaneidade do aluno - não fará o jogo do «novo espírito do capitalismo» que pretende apoiar a participação dos «actores»? Não contribuirá ela para o idiota útil do «neoliberalismo»?

Michel Onfray - Tem razão…Eu sou um ardente defensor de Maio de 68 e do espírito de Maio, que se definia por uma revolução metafísica anti-autoritária. Os dominados punham em causa os dominantes. Os pares tradicionais - mulheres/homens, jovens/velhos, empregados/patrões, esposas/maridos - deixaram de ter um estatuto divino. E tudo isso foi uma coisa boa. Mas à negação dos velhos valores não se seguiu uma positividade. Destruir é bom se, e somente se, propusermos a seguir uma reconstrução. Os valores libertários, por exemplo, mereceriam mais que os simples elogios da indolência, da espontaneidade, do natural, do porreirismo generalizado por via da desvalorização do rigor que se mostrou tão pouco democrático quanto demagógico. Porque esta renúncia à memória, ao esforço, ao trabalho, à cronologia, e todas essas categorias consideradas reaccionárias fizeram efectivamente o jogo do poder, que prefere ter um rebanho de inculto embrutecidos que indivíduos apetrechados com o saber e a cultura. A pedagogia libertária não é a pedagogia liberal pós-anos 60 que deixa o jovem livre na turma, e que dá plenos poderes à competição entre classes sociais, e que é, ela própria, geradora de reprodução social…

Le Monde de l’éducation - «Passamos de um ensino autoritário a um ensino clientelar», escreve Raoul Vaneigem num texto recente sob o título «Modeste propositions aux grévistes» ( Verticales,2004). «O endoutrinamento suscitava, ao menos, a revolta, a propaganda estimulava o seu oposto, o desejo de pensar de outra forma.O feiticismo do dinheiro enfraqueceu o pensamento que ruge e incomoda.» Concorda com esta análise?

Michel Onfray - Vaneigem é um amigo que me estimula - ele acaba por me ultrapassar pela esquerda! - mas não partilho o seu optimismo que está, de resto, na génese do seu radicalismo político: no meu entender, a autoridade produz uma submissão massiva, pois o medo, o temor e o desejo de servidão voluntária são grandes. A revolta não é gerada pela ditadura - se assim fosse, seria preciso desejarmos a ditadura enquanto momento dialéctico das revoltas lógicas… - mas por temperamentos rebeldes, revoltados, insubmissos gerados por razões existenciais que só uma psicanálise à maneira sartriana - descobrir o projecto original - permitiria compreender. Conheci períodos da minha vida - nomeadamente os 7 anos de pensionato, 4 dos quais no orfanato dos salesianos - que fizeram de mim aquilo que sou hoje, mas que também fizeram uma multidão de indivíduos castrados da vida e orgulhosos de o ser. Uma mesma causa não produz felizmente os mesmos efeitos em todos nós. É preciso levar em consideração o prazer de estar submetido, tal como existe com tantas pessoas…

Le Monde de L’éducation - É procurando retomar o que há de melhor nos cafés-filosóficos e nas Universidades ( a liberdade dos primeiros e a seriedade da segunda), ao mesmo tempo que rejeita o que há de pior em cada qual (o extavasamento de um lado e a securra do outro), que você decidiu fundar a Universidade Popular de Caen. Mas também com o objectivo de retomar e prosseguir o ideal nascido no tempo da questão Dreyfus. Em que medida é ela um meio de lutar contra a situação de crise por que a França atravessa: miséria social, racismo, bloqueios nacionais-populistas, etc?


Michel Onfray - O saber é um poder. Posto isto, é preciso um saber específico susceptível de permitir a libertação e não a alienação.A filosofia não é de facto um instrumento de libertação: ensinar as ideias platónicas, falar da Cidade de Deus de S. Agostinho, das teses tomistas, da aposta de Pascal, do ocasionalismo de Malebranche, da angústia de Kierkegaard e de tantas outras matérias da história da filosofia ajudam mais a manter o poder instalado e permitir o domínio do cristianismo do que a emancipar o aprendiz em filosofia…Daí o interesse em ensinar quer um saber alternativo, quer um saber clássico, mas de maneira alternativa, isto é, crítica. A subversão cínica, o hedonismo cirenaico, a libertação epicurista, a alegria gnóstica, só para ficar na Antiguidade, são ilustrações de saberes alternativos; ou então, falar dos saberes clássicos mas de maneira alternativa: mostrar que o conceito erróneo de pré-socrático, desvalorizando o predecessores socráticos, pressupõe uma escrita platónica da história da filosofia, explicar as razões da evicção do materialismo de Demócrito( cuja obra completa Platão queria queimar em auto-da-fé…). Estes saberes permitem construir uma inteligência crítica, mas também realizar um trabalho sobre outras matérias, nomeadamente as que estão associadas a essa crise que referiu.


Le Monde de l’éducation - Você costuma recordar que intelectuais como Alain, Péguy, Bergson e tantos outros, frequentaram e animaram cursos de educação popular, lançados pelo tipógrafo anarquista Georges Deherme. Os intelectuais dos anos 2000 esqueceram o seu papel de educadores e a ideia de tornar popular, a filosofia?

Michel Onfray - A nossa época mediática produziu dois tipos de intelectuais: o primeiro especializou-se na miséria limpa, uma miséria longínqua que permita uma postura declamatória à maneira teatral, reproduzida logo de imediato pelos media. Tendente a ser mediatizada, e não precisando de nenhum outro compromisso que não seja o verbo, a carta postal ou a consulta de um livro, ela permite tocar o trompete dos grandes princípios maiúsculos: a Humanidade, a Liberdade, os Direitos do Homem, etc. O segundo ocupa-se antes da miséria suja, a que envolve os explorados, os operários, os miseráveis e os excluídos do sistema, as vítimas e outros dejectos do liberalismo, a ideologia defendida pela maior parte dos primeiros. Os intelectuais dos anos 2000 não cuidam da educação popular nem de tornar popular a filosofia: o seu saber é utilizado para fins financeiros, traduzíveis em moedas reais ou simbólicas, mas nunca com o objectivo de uma crítica social.

Le Monde de L’Éducation - Um curso magistral pode ser libertário?

Michel Onfray - Sim, se o magistério do curso magistral for aquele que indiquei ainda há pouco: um mestre libertário que cuida antes de tudo em cartografar e de identificar o conjunto das situações que estão em jogo, fornecendo depois um bússola e o seu modo de emprego, isto é, convidar cada qual a fazer a sua própria viagem.

Le Monde de l’éducation - A Universidade popular histórica acabou por desaparecer antes da Primeira Guerra Mundial em razão de causas e desinteligências internas. A Universidade popular tem tido um grande sucesso. Como evitar os perigos?

Michel Onfray - A Universidade popular é um organismo vivo e, como tal, mortal. Os três anos da sua existência já permitem identificar alguns vírus, erros e ataques. Tudo normal…A Universidade popular tem tido efectivamente um grande sucesso público e popular, gerou uma verdadeira energia alternativa, propõe um intelectual colectivo - para usar a fórmula de Bourdieu - eficaz, que logo perturba e incomoda. É normal que a nossa aventura atraia invejas e revele os medíocres, os invejosos, e outras figuras de ressentimento que não existem e não vivem senão por, e para a destruição. Mas nós somos uma comunidade de amigos, no sentido epicurista, que vamos experimentando o verdadeiro poder da amizade epicurista. E, depois, sejamos nietzscheanos, o que não mata fortalece-nos. Para o resto, só o Deus das Universidades populares poderá dizer se a experiência desaparecerá - sim, porque ela sempre desaparecerá -, seja como vítima do síndroma do recém-nascido ou do catarro dos velhos, seja por suicídio próprio na flor da idade ou por um esgotamento centenário…

Le Monde de L’Éducation - Uma educação «elitista para todos». Esta fórmula do dramaturgo Antoine Vitez adaptada à educação mantém-se actual?

Michel Onfray - Mais actual do que nunca. Gosto mesmo do oximoro, uma figura de estilo que, associando dois termos aparentemente contraditórios, gera um sentido novo: universidade popular é realmente um oximoro espantoso! O elitismo para todos, também. Percebe-se que, para além da pura e simples justaposição verbal, para além do simples jogo de palavras, uma nova significação emerge à luz do dia. A expressão elitismo para todos supõe uma outra definição de cada uma dos termos; trata-se de dar o melhor ao maior número, porque o melhor existe, sem dúvida, mas normalmente só é dado aos melhores, pelos menos, aqueles que assim são qualificados pela máquina social. Quando é destinado a todos, ao maior número - é essa a minha definição de popular, e também a de Michelet - o elitismo brilha com outra clareza, que muitos se têm esquecido, e que é a da luz do iluminismo.

(Tradução para português de Portugal da entrevista com Michel Onfray publicada no nº 338, Juillet-Août 2005 do Le Monde de L’Education)

Thursday, November 13, 2008

MANA CALÓRICA-PAREDES DE COURA


A canção "Paredes de Coura" da banda Mana Calórica já está disponível no Youtube em http://www.youtube.com/watch?v=EsQsHh6KMaQ. Os Mana Calórica são António Pedro Ribeiro (voz), Rui Costa (guitarra) e André Guerra (guitarra).
www.myspace.com/manacalorica

Tuesday, November 11, 2008

JIM MORRISON

Os concertos dos Doors eram na verdade, rituais. Morrison conhecia profundamente a filosofia de Nietzche e particularmente suas obras: A origem da tragédia e a cultura dos gregos, nas quais o autor postula o espírito dionisíaco em cujo delírio sagrado a natureza abre ao artista suas verdadeiras portas e lhe mostra a face real:

"A música mágica e a conjuração parecem ter sido a forma primitiva e origem de toda a poesia. O homem acostumou-se durante milênios com a conecção do idioma com o ritmo da música. O poder mágico da dicção rítmica tem sido paulatinamente esquecido. Distanciamo-nos cada vez mais da nossa origem. A canção mágica é uma conjuração aos demônios que parecem estar em atividade. A iniciação - cujos mestres foram segundo a mitologia, Orfeu, Musaeu, etc... era fundamentada pelos efeitos catárticos. As canções rituais relacionadas com os antigos mistérios eram vigorosas e entusiásticas."

(Nietzche - A cultura dos gregos)

"Da mesma forma que os coribantes possuídos pela febre da dança não realizam suas que evoluções no espaço, segundo uma clara consciência, os poetas líricos também engendram as mais belas poesias apenas quando a potência da harmonia e do ritmo 'baixa' sobre eles."

(Platão, em Ion)

Morrison havia particpado na UCLA de um grupo de teatro que seguia as diretrizes do teatro da crueldade do surrealista Antonin Artaud. A representação cênica foi revolucionada por este mestre que a concebia como um ritual orgástico, mágico e irrepetitível. Artaud, que nos anos 30 já experimentava peiote (cacto alucinógeno) entre os xamãs mexicanos, descreveu esse ritual no seu livro A Taraumara.

"O país dos índios Taraumara é repleto de misteriosos signos de formas esculpidas pela rocha viva sob o sol escaldante do deserto. Sob o efeito profundo do peyote, presenciei a tradição da Cabala, esta notável música dos números. A sagrada matemática oculta, na qual o caos material se rende totalmente a seus princípios. Uma matemática grandiosa que explica como a natureza engendra a gênese das formas. Nos maciços rochosos do deserto, distinguia, cristalinamente as estátuas esculpidas segundo a progressão numérica 3,4,7 e 8. As formas bizarras e barrocas dispunham-se sob um pedestal de granito formado por 3 sólidas rochas que se arrojavam em 12 pontas até as alturas. Os Taraumara repetiam estas séries em seus rituais e danças."

(Antonin Artaud)

Os alucinógenos sempre tiveram uma importância muito grande na formulação inicial do som dos Doors. Eram utilizados como catalisadores. Morrison seguiu ao pé da letra a máxima de Rimbaud: "Embriaguês sagrada: te afirmamos método!" ritualizando seus concertos, deixava-se levar pelas poderosas correntezas de Dionísio.

(Erycson Poltronieri e Andrei Simoes)

Saturday, November 08, 2008

DIONISO CONTRA O MERCADO


BPI:4,6% BES:1,9% BCP:0,4% EDP Renováveis: 9,07% EDP-2,2% Galp Energia: 2,02% PT: -1,54% Sonae Indústria:-2,58%
O que é que isso me interessa? Em que é que isso contribui para a minha felicidade? Estou dependente de percentagens, de números que nada me dizem? Serei eu próprio um número, uma percentagem? Sou apenas um item nas contas do OGE ou nem isso? Ao que nós chegamos! Até quando esta ditadura das estatísticas, dos economistas? Por que raio me hei-de submeter a coisas assexuadas? Não, recuso-me a ser reduzido à condição de investimento! Não estou à venda no mercado! Tenho asco à palavra "mercado"! Tudo o que vem da lógica do mercado é podre, mete nojo! Não me venham falar em mercado! Enquanto o mercado prevalecer o homem não será homem! Não sou um sabonete! Não me vou deixar vencer pelo império dos sabonetes! Merda! Olho para o Arlindo e tenho pena. Sempre agarrado à caixa registadora! Sempre agarrado à merda dos trocos! Sempre escravo do mercado! Foi para isto que nascemos? Foi para isto que tivemos a benção da vida? Que porra de vida é esta? Percentagens e mais percentagens! Sócrates era uma percentagem? Nietzsche era uma percentagem? Henry Miller era uma percentagem? Por que raio se há-de um gajo entregar à mera sobrevivência e dar umas risadas, de vez em quando, para disfarçar? Por que raio não se há-de gozar esta merda na sua plenitude, sem estar sempre a fazer contas? Passamos a vida a fazer contas, dos benefícios e custos disto e daquilo sempre com a calculadora na mão e na cabeça. Que porra de vida é esta? É isto a vida? Porque raio não vem Dioniso? A única coisa que nos excita são as mulheres mas elas, na maior parte das vezes, são inacessíveis. Que prazer, que bem nos traz esta merda? Foi para isto que nascemos? Vá lá que ainda há pessoas que nos admiram, que gostam de nós mas, de resto,...mais valia andar sempre bêbado, sempre anestesiado para a realidade mas nem tenho a merda do dinheiro para isso! Ou, por outro lado, antes enlouquecer de vez. Sei lá, fariam pouco de mim. Foi para isto que vim ao mundo? Leio e escrevo, vou-me aguentando. Mas vim ao mundo para aguentar, para sobreviver? Esta merda não vem nos panfletos, nos programas dos partidos políticos. Os partidos que se preocupavam com estas merdas deixaram de se preocupar. Os partidos têm uma linguagem rasteira, superficial, eleitoralista, não vão ao fundo das questões, não vão ao essencial. O essencial é o combate entre a Vida e a sobrevivência, entre Dioniso e o mercado. Talvez o amor, o amor autêntico possa salvar esta merda.

TERRORISMO CULTURAL

Sexta-feira, Março 23, 2007
O Decálogo do Terrorista Cultural (Timóteo Pinto Remix 2007)


1. O Terrorismo Cultural (doravante denominado também TC) tem por base a revolta contra a hipocrisia conservadora e contra o bem-pensantismo progressista. Mas o principal inimigo do TC é a indiferença. Chama-se "Terrorismo" porque, nos dias atuais, a atitude mais sã é adotar/adaptar os termos mais desprezados. Se George W. Bush elegeu "O terrorismo" como seu inimigo principal, e todos se sentem obrigados a condenar o terrorismo, então o TC proclama-se terrorista. Não se trata de terrorismo contra a vida das pessoas - um empreendimento estúpido e inútil, já que a maior parte das mortes não naturais são provocadas pelas instâncias que se proclamam antiterroristas: governos, empresas, igreja, nações... Trata-se de terrorismo cultural, no sentido antropológico e mais lato do termo: terrorismo contra as crenças, os valores, os hábitos e os projetos que as instituições que temos - e muitos dos parvos que as representam - defendem.

2. O Terrorismo Cultural aceita a contradição permanente. Ao contrário da dialética, que percorre o espectro direita-esquerda, o TC defende que as contradições não se resolvem. Nesse sentido, o TC está mais próximo de algumas filosofias orientais e de outras ditas "primitivas" que vêem a contradição como o elemento dinâmico constante da sociedade, sem outra resolução que não a sua repetição cíclica e infinita. Só não é uma filosofia oriental porque não tem paciência para orientalices babacas, nem para a forma como elas têm sido cooptadas por yuppies budistas de Los-Angeles e gente do new age. Só não é um elogio do primitivismo porque não tem paciência para intelectuais burgueses que se fascinam com as danças tribais no Discovery Channel e gastam uma fortuna em viagens naturalistas à Amazônia para serem picados por mosquitos.

3. O TC é um bricolage de influências. Nele pode encontrar-se um pedaço de tudo: um bom pedaço de Anarquismo Libertário, tanto na vertente socialista européia como na vertente liberal americana; um bom pedaço de Zen-Budismo, assim como um bom pedaço de Liberalismo; pedaços de Surrealismo, de Groucho-Marxismo, de Filosofia Pragmática, de Hedonismo, de Hihicronedismo, de Zenarquismo; sobretudo, o TC simpatiza instintivamente com o Cinismo Surrealista. (O bricolage do TC não tem nada a ver com o bricolage dos pós-modernos, pois o TC não tem paciência para os pós-modernos que cooptaram um certo potencial TC para o (des)conforto de universidades americanas freqüentadas por filhos de narcotraficantes ou para o small print de revistas crípticas publicadas na França). Aquilo que o TC não suporta é o elogio absoluto da racionalidade ou o elogio absoluto da emotividade; o primado da biologia ou o primado da cultura e da construção social; as pessoas que se armam em marginais ou as pessoas que se armam em sistêmicas. O bricolage e a contradição permanente são aliados natos na luta cínica pelo desmascaramento dos sistemas de ação e pensamento. São do mais realista que pode haver - sobretudo porque o TC não se preocupa com a utilidade.

4. A primeira virtude de um TC (que não se chama virtude, pois o TC não tem paciência para as virtudes, assim como não tem paciência para o imoralismo militante dos pensadores "marginais") é saber gozar consigo próprio e ter prazer nisso. Não é possível aterrorizar a cultura sem se usar a si próprio como exemplo de como as coisas realmente são: bricoladas, contraditórias, irresolúveis. O projeto de identidade pessoal dum TC é a ausência de projeto, pois este necessita sempre de um sistema de crenças coeso ou, no mínimo, da submissão a uma autoridade ou a um status quo proclamado pelo senso comum.

5. Esta coisa de "irresolúveis" merece uma explicação: será o TC um desesperançado? Acha ele ou ela que nada tem solução? Não é bem assim.
O TC abomina utopias, milenarismos, histerias de massa, populismos, demagogias, livros de auto-ajuda e outras formas de substitutos da religião - incluindo a religião em si. Está mais que visto que conduzem ao desastre: do "socialismo real", às guerras religiosas, passando pelas seitas em que todos acabam mortos. O TC tão-pouco acredita na ilusão de felicidade através do consumo promovida pelo capitalismo. O cinismo realista do TC desconfia das lavagens cerebrais, quer venham da direita quer da esquerda, do campo religioso ou do campo científico, do campo socialista ou do campo capitalista. Não quer isto dizer que o TC seja um hedonista ou um "desconectado". Os primeiros são uns tontos, porque não percebem que obtêm o seu prazer à custa de não questionarem o que lhes permite obterem-no; os segundos tontos são, porque escolhem hipocritamente aquilo em que participam e aquilo em que não participam (por exemplo, não votam porque "não participam nessa farsa", mas nunca falham a picar o ponto no emprego...).

6. O TC desconfia daqueles que dizem que fazem TC: artistas, comentadores e opinion makers, jovens em manifestações anti-globalização, e outras espécies. O TC desconfia também dos que dizem que eles são apenas diletantes ou pessoas que estão a passar por uma fase. O TC desconfia dos primeiros porque de fato acha que são diletantes ou estão a passar por uma fase. Mas desconfia dos segundos porque acha que eles não têm autoridade para emitirem aquele juízo: a sua opinião é o simples balbuciar das banalidades auto-satisfeitas do senso comum.

7. Tudo o que um TC disser está sujeito à revisão por outro TC e assim sucessivamente até ao infinito, numa discussão eterna, bricolada, contraditória, realista, cínica e humorada, desde que com isso ninguém deixe de almoçar, dormir, ir à praia, dizer a sua opinião e fazer qualquer coisa de criativo.

8. Um bom TC destruiria imediatamente este texto. Um bom TC não pode admitir a possibilidade de ajudar a criar um dogma, associação, movimento, escola, partido, tendência, seita, culto, lobby, grupo de ajuda e muito menos uma empresa.

9. Não existem bons TCs.

10. Não existe ponto 10: um TC não consegue resistir a escrever um Decálogo só com nove pontos.

O Decálogo do Terrorista Cultural - wodouvhaox remix

O Decálogo do Terrorista Cultural - Versão Original

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Postado por Timóteo Pinto às 3:00 PM 0 comentários

Tags: groucho-marxismo, Hedonismo, Liberalismo, Zen-Budismo, Zenarquismo

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Tuesday, November 04, 2008

TEIXEIRA DE PASCOAES

Embora o registo de nascimento mencione o dia 8 de Novembro, Pascoaes parece haver elegido o dia de hoje, 2 de Novembro, Dia de Finados, como dia simbólico para o seu nascimento, o nascimento de alguém saudoso do antes de haver nascido e em perene abertura para o outro mundo ou o trans-mundo, a dimensão invisível e ignota dos seres e das coisas. Republicamos aqui este curso ensaio em homenagem ao Director da revista "A Águia" e eminente poeta e pensador visionário, autor de uma obra vasta e abissal, ainda largamente desconhecida em Portugal e no mundo.

A Loucura de Pascoaes

Quando Abel Salazar publicou um sarcástico e jocoso artigo sobre a pretensa demência de Leonardo Coimbra e Pascoaes, estava decerto a uma distância infinita de compreender quão longe e perto passava da verdade no respeitante ao estranho génio do Marão. Num Ocidente e mesmo num planeta onde a loucura, expulsa do divino e do universo pela racionalidade teológico-filosófica dominante, foi progressivamente exorcizada do homem e confinada aos ghettos da patologia e da santidade, do irracional e do meta-racional - tão abusivamente contrapostos como confundidos - , a vida e obra de Pascoaes constitui uma sincera e desinibida assunção do que a aparentemente triunfante mediania excomungou como subversivo dos lugares comuns da cultura domesticada. Dramatizada em O Doido e a Morte, contemplada nos irónicos auto-retratos dos dois O Pobre Tolo, mas sempre emergente em motivos e lances capitais da obra poética e em prosa, Pascoaes não faz da "loucura" alegoria ou metáfora apenas duma absoluta Razão divina, ou seja, imagem nos limites humanos da Sabedoria e/ou Lei supremas que a tudo possibilitam, ordenam e justificam. Instaurando a irracionalidade no Princípio ou na Origem, quer na figura de um Deus imperfeito em si mesmo ou no acto criador, que neste a si e a toda a criação sepulta nos limites da realidade que lhe é possível, quer na de um delírio divino cuja paixão heteronímica igualmente o plurimorfiza num universo-casa de alienados de Si mesmo, mas que tornando-se Homem e pelo Homem expia a sua hybris maligna - o Satã que, mesmo-outro de Si, o fere na ordem do mundo real - , convertendo-se no Deus-Cristo, cósmico redentor da mínima forma de vida, mediante uma Loucura agora libertadora que incendeia as formas do possível realizado na trans-realidade do Impossível sempre Ausente, Pascoaes furta-se ao terreno onde se digladiam como irmãos gémeos do mesmo conformismo o optimismo e pessimismo, que nos asseguram ser este o melhor ou o pior dos mundos possíveis (Leibniz/Schopenhauer), para entrever na Loucura a potência de Liberdade e Criação que, excedente de qualquer Princípio, Fundamento, Razão ou Ordem ontológica, mesmo divinos, ambiguamente tanto possibilita toda e qualquer forma de determinação existencial como a sua infinita transcensão. Patente no excesso da imaginação sobre o ser e o real, da poesia sobre a ciência e a filosofia e nessa complexa síntese de memória e desejo criador, votada à transfiguradora superação de todo o existente, a que chamou Saudade, a Loucura, tal como Pascoaes a experimentou e traduziu em livros gritantes de singular experiência interior como Verbo Escuro, O Bailado, O Pobre Tolo e Duplo Passeio, sugere-se como o que antecede, possibilita e excede, redimindo-os e deles a tudo redimindo, o Deus criador e os Deuses revelados nos quais positiva e negativamente se fundam as religiões e ateísmos planetários. Não é assim desprezível que, na história da sua evolução espiritual e cósmica, a tenha assumido incarnada no delírio ibérico e predominantemente lusíada, simultaneamente quixotesco e saudoso, vindo o declínio e morte do sol apolíneo no elegíaco crepúsculo do finisterra oceânico a marcar o simbólico contraponto do seu advento helénico, constituindo-se a Grécia, como pátria da Razão, da Beleza e da Deusa, e a Lusitânia-Portugal, como pátria da Loucura, da Fealdade transcendente e da Bruxa, como os paradigmas e pólos mais significativos, antinómicos em sua mesma complementaridade, da história do Espírito, ante os quais tudo o mais se reduziria a vulgaridade: Europa, América e Indústria. Não esqueçamos o exagero como forma de sublinhar a verdade mais remota e dificilmente apreensível...

Se em Pascoaes aflora uma experiência da vida - de arcaico sabor popular e oriental - que poderíamos chamar carnavalesca, na qual realidade e ilusão, verdade e falsidade, se confundem num universo em que tudo só o é sendo simultaneamente o seu outro, o seu visionarismo abre sempre para um sentido de redenção universal pela conversão e potenciação extremas da energia do próprio delírio originário. Convertendo a messiânica busca de instauração terrena do Reino de Deus - emblemática da nossa cultura na mitogonia e hermenêutica quinto-imperial que procede de Gil Vicente e Camões para Vieira, Pessoa e Agostinho da Silva - na tarefa de redimir o imperfeito Deus criador e criar um "novo Deus Infante", concebido no homem pelo ventre virginal da Saudade, ou de assumir no Deus anterior e posterior a tudo o "único ateu perfeito" - o que José Marinho considerou a sua mais profunda intuição - , Pascoaes é hoje, na transição da teologia para a teurgia e o "ateoteísmo" a-teológico, o mais genial e profundo dos nossos poetas metafísicos, o mais poderoso demiurgo da história secreta, onírica e mítica de Portugal e um dos mais desassossegantes desestabilizadores de consciências que visita este mundo de aborrecida gente razoável. Até ao momento ofuscado pelos modismos literários das vaidades urbanas e cosmopolitas, que, sentindo as armaduras intelectuais a romperem-se aos golpes do estro selvático, fizeram de Pessoa repasto dos academismos pessoanos, está por desvelar o fundo nexo entre as obras dos dois grandes poetas, apurando para além da diversidade formal a profundidade essencial das convergências e divergências. Decerto então surgirão um Pessoa e um Pascoaes que se acompanham e separam em muito mais e muito menos do que actualmente se crê, mas, justiça se faça, difícil será encontrar um grande tema pessoano - a começar pela denúncia da ficção da unidade e identidade do ego onto-psicológico - que não tenha sido antecipado e até excedido em profundidade, não em diáfana e perfeita expressão, pelo ?pobre tolo? do Marão, com a nítida vantagem de na poesia deste perpassar a vertigem do Infinito cósmico, graça concedida pelas rústicas Musas ao enamorado calcorreador de penedos e fragas e que as Tágides não lograram fazer romper através das densas paredes mentais dos quartos e cafés lisboetas...

in Paulo Borges, Pensamento Atlântico, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2002, pp.155-157.

Fonte: http://novaaguia.blogspot.com/2008/11/2-de-novembro-homenagem-teixeira-de.html